João Jorge e Jacobina Maurer

João Jorge e Jacobina Maurer

I m A g E m

I m A g E m
O Velho do Espelho

"Por acaso, surpreendo-me no espelho:
quem é esse que me olha e é
tão mais velho do que eu?
Porém, seu rosto...é cada vez menos estranho...
Meu Deus,Meu Deus...Parece meu velho pai -
que já morreu"! (Mario Quintana)

P E S Q U I S A

terça-feira, 4 de março de 2008

11.

Era uma vez

Era uma vez
um lugar selvagem,
habitado por seres primitivos
que nada sabiam,
além de caçar e pescar,
amar e serem deliciosamente
felizes...





Aí seres superiores
em naves balançantes
de grandes panos brancos,
chegaram e trouxeram
a doença, o trabalho e a morte.
Trouxeram as armas, 
as roupas e os espelhos,
e sua religião.

Jogaram latas e garrafas
por todos os cantos,
criaram o plástico que
nunca se entrega à terra.
Trouxeram fumaça, herbicidas,
inseticidas, detergentes,
desinfetantes, comida artificial,
papel, confete, serpentina,
preservativos, absorventes,
supositórios, carne de soja, 

leite em pó...
e sua deusa adorada,
a poluição, senhora sagrada da
miséria e da destruição.

E vieram idéias, costumes diferentes,
castigos, dores e tristeza.
E cresceram casas, cercas,

 muros, terreiros e janelas,
crianças crescendo presas,
flores morrendo em vasos,
pássaros engaiolados,
matemática moderna, física,
química, geografia,
pai-nossos e aves-maria,
proclamações, constituições,
reis, imperadores, presidentes,
deputados, senadores, generais,
constituições e uma corja
de ladrões...

E brotaram edifícios, carros,
barulho e cidades, motéis e lancherias.
E o consumismo, filho do capitalismo,
casou com a poluição,
filha do desenvolvimento
e da tal exploração,
e a filharada foi nascendo
em linha de produção...

Nasceu a constituição outorgada,
o colégio eleitoral,
a infidelidade partidária,
o parque nacional de
indústrias importadas,
a legislação sindical,
o conflito mundial,
o golpe militar,
e a ideologia de segurança nacional.


A poluição envenenada
com o seu próprio veneno
e o consumismo cansado 
e quase acabado
vão dando os “tiros” finais
e os frutos mais recentes
desta união infernal
ninguém suporta mais.

São generais
com formação americana,
eleições marcadas
sem valer uma banana
imprensa censurada,
informações deformadas,
governadores nomeados,
prefeitos indicados,
medidas de emergência,
salvaguardas nacionais,
governos de decreto,
nasceu até Delfim Neto
dessa bandalheira total...


Gilnei Andrade -
janeiro de 1984

domingo, 24 de fevereiro de 2008

Maiakovski


O AMOR

Talvez quem sabe
um dia
por uma alameda do zoológico
ela também chegará.
Ela, que também amava os animais
entrará sorridente
assim como está
na foto sobre a mesa


Ela é tão bonita...
Ela é tão bonita
que, na certa, eles a ressuscitarão.
O século trinta
vencerá o coração destroçado já
pelas mesquinharias.
Agora vamos alcançar
tudo o que não podemos amar na vida
com o estrelar das noites inumeráveis.

Ressuscita-me,
ainda que mais não seja,
porque sou poeta
e ansiava o futuro.
Ressuscita-me,
lutando contra as misérias do quotidiano.

Ressuscita-me, por isso.

Ressuscita-me,
quero acabar de viver o que me cabe,
minha vida,
para que não mais existam amores servis.
Ressuscita-me,
para que ninguém mais tenha
que sacrificar-se por uma casa, um buraco.
Ressuscita-me, para que a partir de hoje
a família se transforme
e o pai seja pelo menos o Universo
e a mãe seja no mínimo a Terra.

(Poema de Maiakovski, traduzido por Ney Costa Santos.)

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

Pré-História do Rio Grande do Sul


O MUNDO DA CAÇA, DA PESCA E DA COLETA


Os primeiros dez milênios

Pedro Ignácio Schmitz

O Rio Grande do Sul foi povoado muito antes do que a maior parte das pessoas imagina. O ambiente seco e frio da última glaciação, com ventos gelados varrendo paisagens de pouca vegetação, foi o cenário dos primeiros humanos que, uns 10.000 anos a.C. acamparam à beira do rio Uruguai e nos abrigos rochosos do vale do Caí.

Este povoamento não é um fato isolado. A América do Sul inteira recebe, neste tempo, o seu povoamento definitivo. São populações que, saindo da Ásia, atravessaram o estreito de Behring, peregrinaram pela América do Norte e Central e, depois de muitas gerações, chegaram aqui. Se antes desse momento temos humanos em alguns pontos do subcontinente, como no Nordeste do Brasil, ou no Centro-Sul do Chile, as pesquisas deverão confirmar.

Mais de 600 gerações humanas sucederam-se de então para cá, no Estado. Isto é bastante frente às 13 gerações contadas desde a ocupação portuguesa do território, mas é pouco em comparação das 90.000 gerações humanas do Velho Mundo.

PRÉ-HISTÓRIA do Rio Grande do Sul - ARQUEOLOGIA DO RIO GRANDE DO SUL, BRASIL - Instituto Anchietano de Pesquisas – UNISINOS São Leopoldo, RS, Brasil
Editor responsável: Pedro Ignácio Schmitz /Diagramação e Arte Final: Fúlvio Vinícius Arnt

Disponível em: http://www.anchietano.unisinos.br/publicacoes/documentos/documentos05.pdf

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

10. Fazenda do Sobrado - São Lourenço do Sul

        

 Situada às margens da Lagoa dos Patos, e distante 1 km do centro da cidade a Fazenda do Sobrado tem importância histórica na fundação e no desenvolvimento de São Lourenço do Sul. Importância tal que a cidade tomou emprestado o antigo nome da fazenda.
A história da Estância do Sobrado inicia com o capitão Joaquim Gonçalves da Silva, o primeiro dono das terras onde hoje se situa a fazenda, que teria deixado de herança aos seus filhos Bento Gonçalves da Silva e Anna Joaquina Gonçalves da Silva (Donanna), porções de terra situadas à margem esquerda do Rio Camaquã (Estância do Cristal) e à sua margem direita, até o arroio hoje conhecido como São Lourenço (Estância do Sobrado) .

 


Natural do Rio Janeiro e morador de Rio Grande, José da Costa Santos casou-se com Anna Joaquina Gonçalves da Silva Santos (irmã de Bento Gonçalves) e tornou-se proprietário das terras entre Boqueirão e São Lourenço do Sul, as quais deu o nome de Estância de São Lourenço, santo do qual era devoto. Para servir de sede da estância, José da Costa Santos mandou construir um sobrado no fim do século XVIII. A Estância São Lourenço também ficou conhecida como Estância do Sobrado, pois este tipo de construção não era comum na época. 


 Conforme pesquisa do jornalista Pedro Caldas, a referência mais antiga à fazenda provém de um documento de 1805, localizado na vila de Rio Grande, que menciona o batizado de Ezequiel Soares da Silva, realizado na Fazenda do Sobrado. José da Costa Santos e Anna Joaquina (Donanna) tiveram três filhas: Anna da Silva Santos que casou com João Francisco Vieira Braga; Tereza da Silva Santos que casou com Inácio José de Oliveira Guimarães e Perpétua da Silva Santos que casou com Antônio Francisco do Santos Abreu.

O sobrado passa a ser conhecido como Solar dos Abreu, em função do casamento, em 1831, da filha mais nova de José da Costa Santos e Donanna, Perpétua da Silva Santos com Antônio Francisco dos Santos Abreu que deu continuidade à administração da Estância São Lourenço, já partilhada, mas ainda não dividida, por ocasião da morte de José da Costa Santos, em 1826. A filha de Perpétua e Antonio Francisco casou-se, mais tarde, com seu primo, José Antônio de Oliveira Guimarães, filho de Inácio José de Oliveira Guimarães e de sua falecida esposa Tereza da Silva Santos.




Historicamente também tem fundamental importância e participação a figura de Inácio José de Oliveira Guimarães, outro genro de Donana, casado com Tereza da Silva Santos. Abastado fazendeiro, chefe de polícia no Boqueirão e líder político que foi, até, deputado da República Rio-Grandense. Durante a Revolução Farroupilha a vila de Boqueirão era o centro jurisdicional eclesiástico da área que se estendia de Corrientes até as cercanias de Porto Alegre. Em razão disso, Boqueirão era também um centro político e populacional importante. O chefe político de Boqueirão era Inácio José de Oliveira Guimarães que durante toda a revolução, deu apoio logístico aos farrapos, através dos escravos, fornecendo cavalos e gado, construção e reparo de barcaças e lanchões.


 
Placa existente na Igreja da Vila Boqueirão 
onde Donanna foi sepultada.


 
Igreja do Boqueirão


A Fazenda do Sobrado foi utilizada como quartel general por Bento Gonçalves e seus comandados, além de ter prestado auxílio e abrigo a Giuseppe Garibaldi, que ali se resguardava da Armada Imperial. Segundo Egon Ziebell de Abreu, era na Fazenda que Bento Gonçalves se reunia com Inácio José de Oliveira Guimarães para acertar contatos políticos e para deliberar sobre os rumos da guerra na região do litoral.



O historiador afirma, ainda, que a estância era conhecida dos navegantes da lagoa, pois o sobrado servia de farol devido a um lampião que Donanna conservava todas as noites em uma das janelas, bem no alto. De Pelotas até Porto Alegre não existia nenhuma construção daquele porte na margem da Lagoa dos Patos.Mas não foi só durante a Revolução Farroupilha que a Fazenda São Lourenço ou Fazenda do Sobrado teve fundamental importância.




Quando eclodiu a Guerra do Paraguai, atendendo a convocação do Império, Joaquim Francisco dos Santos Abreu (o almirante Abreu), filho de Antônio Francisco dos Santos Abreu, engajou-se às tropas imperiais. Egon Ziebell de Abreu afirma que a Fazenda do Sobrado ter-se-ia constituído como “um ponto de destaque na região de tal ordem, que chegou a hospedar a Princesa Isabel e seus acompanhantes”, tendo sido “diversas vezes requisitada, não só no período da Revolução Farroupilha, como também na Guerra do Paraguai”. Atualmente a Fazenda do Sobrado possui área de 300 hectares distribuídos em plantações de arroz, milho e soja, além da criação de bovinos e eqüinos. Pertence à Ivani Serpa, viúva de Solimar Serpa, que a adquiriu do médico pelotense, Dr. Ariano Carvalho, herdeiro dos primitivos donos. Restaurada e em bom estado de conservação, as linhas harmoniosas da sede da fazenda contrastam com as seteiras (vide foto abaixo), que guardam a memória de épocas em que se faziam necessárias tais medidas de defesa.



 
 No detalhe, entre as janelas, a seteira que permitia a defesa do Sobrado e disparos de advertência afastando barcos e visitantes indesejados.



 
Detalhes dos móveis 


O antigo sobrado vem recebendo inúmeros turistas, atraídos por seu valor histórico-cultural. Proporciona a eles seu conhecimento da história do Rio Grande do Sul, do município de São Lourenço e de seu envolvimento na Revolução Farroupilha, além do convívio com as lides campeiras. Sem falar das lendas que rondam o velho sobrado. Conforme relatos existentes nas noites de vendaval são ouvidas vozes vindas do antigo casarão.
(Informações fornecidas por Ivani Serpa, viúva de Solimar Serpa, atual proprietária da Fazenda do Sobrado. Artigo original disponível no site http://www.jornalminuano.com.br/noticia.php?id=13594&data=&volta)


 
 Cristaleira conhecida como 'pula-neguinho'



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

ABREU, Egon Ziebell de. Aconteceu no Sobrado... contos da história de um povo da Lagoa dos Patos. Esteio: Pabreu Design& Comunicação, Ed. do autor, 2001, 36p.

COARACY, Vivaldo. A colônia de São Lourenço e seu fundador Jacob Rheingantz. São Paulo: Saraiva, 1957.

FUCKS, Patrícia Marasca. Artigo ‘ Os usos do patrimônio arquitetônico na atualidade:de produto cultural a atrativo turístico’ publicado na Revista de Pesquisa e Pos Graduação da U.R.I – Universidade Regional Integrada. Santo Ângelo-RS, 2003 Disponível no site http://www.uri.br/publicaonline/revistas/artigos/72.pdf

Secretaria da Cultura assina termo de uso do Parque Histórico Bento Gonçalves


 Bento Gonçalves


A secretária estadual da Cultura, Mônica Leal, assinou hoje (7 de fevereiro) em seu gabinete, o termo de permissão de uso do Parque Histórico Bento Gonçalves pela Associação de Amigos da instituição, com a presença de seu presidente, o vereador Diogo Trescastro e do sócio emérito Carlos da Rosa Sobrinho, que preside o Sindicato Rural e assume voluntariamente a direção cultural do Parque.

O documento permite que a Associação dos Amigos do Parque Histórico Bento Gonçalves gerencie as atividades de cunho histórico-cultural e as revertam para sua manutenção.



Também possibilitará a elaboração de um plano de manejo, onde ações distintas serão zoneadas, com prioridade para atividades culturais e de educação ambiental, tanto para os visitantes como para os moradores da região.

Nos próximos dias será realizado um levantamento da estrutura do parque, com 280 hectares, localizado no município de Cristal, e também da réplica da casa, onde o General Bento Gonçalves viveu e morreu, junto com sua família, que receberá escoramento devido a problemas no telhado.“O maior problema do Parque é a limpeza. Vamos explorar o campo depois que tiver tudo arrumado”, afirma Carlos da Rosa Sobrinho.



Com 280 hectares, o local pretende ser um museu vivo em homenagem a Bento Gonçalves e à Revolução Farroupilha.
Dentro do prédio histórico se encontra um conjunto de animais taxidermizados (empalhados), doados pelo senhor Carlos da Rosa Sobrinho, que representam a fauna da região. São 800 espécies, incluindo cobras e aves, que estão descontextualizadas dentro do prédio histórico.


A idéia é construir um museu que contextualize as espécies, assim como fazer o inventário do que existe no acervo.O visitante também pode conferir um conjunto de pedras com placas das capitais farroupilhas.



O local tem visitação mensal de 1500 pessoas, tendo alcançado o número de 150 visitantes no último domingo do feriado de Carnaval.


Site: http://www.cultura.rs.gov.br/ 08/02/2008 10:07

Parque Histórico General Bento Gonçalves



O Parque Histórico General Bento Gonçalves foi criado através do Decreto Nº 21.624, em 28 de janeiro de 1972. Está localizado na antiga Sesmaria do Cristal, originada por uma doação de terras feita por D. João VI ao alferes Joaquim Gonçalves da Silva, pai do líder farroupilha Bento Gonçalves.
Com área de aproximadamente 280 hectares, o parque possui mata nativa, campos e banhados, com espaço destinado a acampamento. No seu interior foi construído, em 1976, junto às ruínas da casa original, uma réplica daquela que pertenceu a Bento Gonçalves. Nela existe um museu, dividido em dois tipos de acervos: um com réplicas da indumentária farroupilha, e outro composto por animais taxidermizados - empalhados -, doados à Secretaria de Estado da Cultura por Carlos da Rosa Sobrinho.
Atendimento ao público: O endereço do parque é BR 116 - Sul, KM 423, Cristal/RS, CEP.: 99.195-000. Telefone (51) 9989.7021. O funcionamento é de terças a domingos, das 9h às 17h. Diretor:Eutalio Germano da Silva. Site:
http://www.cultura.rs.gov.br/

sábado, 9 de fevereiro de 2008

Museu Júlio de Castilhos - Porto Alegre - RS

Julio de Castilhos 


Fachada do Museu


Canhão no pátio do Museu 

Landau que pertenceu a Carlos Barbosa - Presidente da Província


Monumento a Julio de Castilhos na Praça da Matriz - P. Alegre

Museu Júlio de Castilhos




O casarão do Museu Julio de Castilhos, na Rua Duque de Caxias, nº 1231, foi construído em 1887 para servir de moradia ao Coronel Augusto Santos Roxo, herói na expedição de reconquista do território brasileiro ocupado pelas forças paraguaias.
No entanto, adquirido pela Comissão Executiva do Partido Republicano Rio-grandense (PRR), o prédio acabou sendo doado a Julio de Castilhos que ali viveu com sua esposa, Honorina, e seus seis filhos.
Em 1909, foi realizada a primeira reforma na casa para adaptá-la às atividades de exposição. Depois, vieram outras duas: em 1925, com a construção de duas salas no pavilhão superior, e durante o período de 1968 a 1973, quando o prédio recebeu reformas no telhado, no forro, no assoalho, na rede hidráulica e na elétrica. O Museu voltou a ser aberto ao público durante as festividades dos seus 70 anos.
Em 1975, o prédio ao lado da sede do Museu, de número 1.205, construído entre os anos de 1917 e 1918, foi adquirido pelo governo do Estado para possibilitar a ampliação da instituição. As obras de restauração do anexo foram concluídas em 1996, inaugurando novos espaços de exposição. Neste mesmo ano, o casarão do Julio de Castilhos foi desativado, em vista da necessidade de reformas no telhado e da colocação de um novo forro, ações que foram realizadas, parcialmente, em 1997.

Fama de mal assombrado -

As duas mortes trágicas ocorridas nas dependências do Museu Julio de Castilhos - a de Julio de Castilhos, em 1903, vítima de uma cirurgia, realizada em seu próprio quarto, para a retirada de um tumor; e a de sua esposa, Honorina, em 1905, que, inconformada com a morte do marido, se suicidou num dos aposentos da casa - têm suscitado a fama de a instituição ser mal assombrada.
Desde a década de 70, quando se intensificaram as visitas ao Museu, até a atualidade, depoimentos de populares e funcionários atestam a visão de fantasmas circulando pelo ambiente. Um dos casos mais conhecidos refere-se a um vigilante noturno que, após fazer a guarda no Museu, pediu demissão, apavorado com a companhia indesejável que tivera na noite anterior.



sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

09. MeMóRiA SiNDiCaL (II)

Conclat - A fundação da CUT em versos 

Aos amigos, companheiros,
trabalhadores do Brasil inteiro
agora quero falar
de algo muito importante
que em S. Bernardo foi se dar
me escutem nesse instante
poi sei que vão gostar.

Nesta cidade bandeirante
pelo mundo reconhecida
foi dado um passo adiante
que vai mudar nossa vida,
no ano de 83
foi no seu oitavo mês
de26 a 28 foram os dias
prá nós de grande alegria.

Mais de cinco mil companheiros
vindos do Brasil inteiro
se juntaram prá conversar
do I Congresso da Classe Trabalhadora
nós fomos participar,
já numa quinta-feira
nós começamos a chegar
do nordeste, do sul, do norte
gente de todo lugar.

Companheiros que uma semana
já estavam a viajar
mais de um dia de barco
prum ônibus pegar,
tres dia e tres noite
de estrada prá viajar
e na emoção da chegada
tinham força prá cantar.

De algo acontecido
dias antes do Congresso
todo mundo tinha sabido,
alguns sindicatos de safados
de participar tinham desistido,
o Congresso foi um sucesso
mesmo eles não tendo ido
nós já 'tava' mesmo cansado
de tanto ser manobrado
de tanto ser traído.

Uma coisa importante
não pode ser esquecida,
quase metade dos participantes
era companheiro rural
que com sua voz decidida
deram ao nosso Congresso
uma importancia especial.

Falaram do dia-a-dia
da sua vida sofrida,
falaram das covardias
contra eles cometida,
falaram da pobreza
e da falta de comida,
falaram das injustiças
da riqueza protegida,
falaram da sua luta,
falaram da Margarida.

Margarida companheira,
paraibana, nordestina.
Margarida assassinada
com um tiro de carabina,
quando teu povo se junta
todos gritam o teu nome
“é melhor morrer na luta
do que morrer pela fome”,
Margarida tu tá presente
na esperança dessa gente
no chão que tu caiu morta
a mando de um patrão,
muitas, muitas outras margaridas
por certo renascerão.

Muitas coisas importantes
por nós foram decididas
não se pode aceitar
a exploração toda vida,
sem terra não pode ficar
quem a terra tá plantando,
não pode morrer na pobreza
quem constrói toda riqueza
e o patrão tá sustentando.

E nós todos reunidos
tomamos uma decisão
damos prazo pro governo prá ele dar solução,
ou termina com o decreto
que rebaixam os salários
e devolve os sindicatos
cassados pros operários,
acaba os acordos
com o Fundo Internacional
assume a Reforma Agrária
acabando com a injustiça social
ou nossa resposta será:
- Nós vamos a Greve Geral.

E prá não desapontar
o trabalhador brasileiro
que há muito tempo pedia
todos unidos num sindicato
sem importar a categoria,
e porque cada delegado
sem criar a CUT
de S. Bernardo não saía
a CENTRAL ÚNICA DOS TRABALHADORES
nascia.

A partir desse dia
um novo momento iniciou
pra todos companheiros
e para o movimento sindical
viva a Central Única dos
Trabalhadores,
organizando a Greve Geral.


Autor: Gilnei Andrade
São Bernardo do Campo, agosto de 1983

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

O pescador de arenques

O pescador de arenques é um romance histórico que conta a saga dos imigrantes pomeranos desde a sua antiga terra até chegar ao Brasil, em especial a São Lourenço do Sul. O município era, na época (metade do século 19), a mais isolada e austral das colônias alemãs do País.Por meio do protagonista Peter Kampke, um intrépido pescador do mar Báltico, o leitor é levado a testemunhar a seqüência de episódios responsáveis pela formação de um povo na história brasileira.




A obra trata-se de um romance histórico inédito que narra a épica passagem dos pomeranos pela Europa, Estados Unidos da América e Brasil. O pescador de arenques, com 242 páginas, é uma obra escrita pelo historiador Jairo Scholl Costa e foi editada pela Editora da Universidade Católica de Pelotas (Educat).



O livro é o primeiro épico no Brasil a contemplar a história do povo alemão da Metade Sul do Estado. Devido ao recente lançamento, o livro ainda não está disponível na Capital, Pelotas e outros centros. Por enquanto, a aquisição só pode ser feita pelo contato direto com o autor (por meio do e-mail jaustral19 @hotmail.com) ou nas livrarias Laguna e Livros & Companhia, ambas de São Lourenço.

Casa de Jacob Rheingantz será recuperada e transformada em museu


 São Lourenço do Sul - A Prefeitura de São Lourenço do Sul, RS, vai recuperar a Casa do Colono, prédio que pertenceu ao prussiano Jacob Rheingantz e serviu de moradia aos primeiros imigrantes alemães-pomeranos a se instalarem no Município, há 150 anos. O espaço, depois de reciclado, será transformado no Museu da Colonização Alemã-Pomerana, cujo Sesquicentenário está sendo comemorado este ano.

Nesta sexta-feira (18), às 17h, durante o ato de lançamento oficial do Sesquicentenário da Colonização Alemã-Pomerana, na localidade de Coxilha do Barão, acontecerá a assinatura de contrato para o desenvolvimento do Projeto. Na mesma oportunidade, o prefeito José Nunes irá sancionar o Projeto de Lei 105/07, denominando o Terminal Rodoviário como José Antônio de Oliveira Guimarães. Em 1850, Guimarães doou parte da Fazenda São Lourenço, situada na margem esquerda do rio, para uma nova povoação e, em 1858, firmou contrato comercial com o prussiano Jacob Rheingantz, iniciando-se, então, a colonização alemã-pomerana na região.

Localizada em Picada Moinhos, na Coxilha do Barão, interior de São Lourenço do Sul, a casa que pertenceu a Jacob Rheingantz preserva as características arquitetônicas da segunda metade do século 19. O projeto técnico de reciclagem e modernização será desenvolvido pela Fundação Simon Bolivar e encaminhado ao Governo Federal, para a obtenção de benefícios da Lei Rouanet junto à iniciativa privada.



Além de reformar e recuperar a edificação, mantendo as características originais, a criação do Museu da Colonização preservará a memória histórica dos imigrantes, cultura, costumes e trajetória ao longo dos séculos. Uma campanha junto à comunidade lourenciana recuperará objetos, utensílios e vestimentas que pertenceram aos colonizadores.

“O museu vai revitalizar uma área de valor histórico para São Lourenço do Sul e será um novo atrativo do Caminho Pomerano, o que representa a diversificação do turismo rural no Município”, explica o secretário do Turismo, Indústria e Comércio e presidente da Agência de Desenvolvimento do Turismo na Costa Doce, Zelmute Oliveira.
A proposta da comissão organizadora do Sesquicentenário é que o museu seja gerenciado com participação da sociedade civil através de uma Fundação, a ser criada. A Prefeitura realizará seleção, através de concurso público, para a contratação de museólogo.

Valor Histórico - Construído por volta de 1860, a casa foi erguida e serviu de moradia a Jacob Rheigantz, fundador da Colônia de São Lourenço em 18 de janeiro de 1858. Embrião do Município e centro inicial da presença pomerana e alemã na região, a colônia permaneceu privada até ser emancipada e transformada em Município. Em 1877, ano da morte de Rheigantz, a colônia já tinha um total de 52 mil hectares e mais de 6 mil moradores entre imigrantes e descendentes.
Projeto - A equipe técnica responsável pela elaboração do projeto é composta por três arquitetos, um engenheiro, dois estagiários e uma consultora de restauro. O trabalho engloba pesquisa histórica com levantamento de documentação sobre o edifício e a comunidade local, levantamento fotográfico e arquitetônico, mapeamento de danos, diagnóstico do prédio, projeto de recuperação da edificação e do futuro museu. A estimativa é de que esteja concluído em 45 dias. (Agência de Notícias BrasilAlemanha/Neues)




FONTE:

Site http://www.vivasaoleo.com.br/ 17/01/2008 16h50min.

Cultura perde Martins Livreiro



 Porto Alegre, 27 de janeiro de 2008.
O corpo de Manoel dos Santos Martins Livreiro, proprietário da tradicional livraria e Editora Martins Livreiro, foi sepultado no sábado no Cemitério João XXIII, em Porto Alegre. Ele faleceu aos 81 anos em conseqüência de um Acidente Vascular Cerebral (AVC), após uma internação desde 24 de dezembro passado no Hospital Mãe de Deus.
Livreiro desde 1953, fundou a primeira livraria ambulante do RS, percorrendo o Estado em um caminhão. Comercializava livros usados, esgotados e raros. Na década de 80 começou a editar, lançando cerca de 700 títulos em 800 edições de obras diretamente ligadas ao Rio Grande do Sul, numa trajetória sempre a serviço da cultura rio-grandense.
Entre os vários prêmios recebidos, Martins Livreiro, como era conhecido, foi condecorado com a Comenda Simões Lopes Neto, do governo Amaral de Souza (1982); Cidadão Emérito de Porto Alegre (1987); patrono da III Feira do Livro de Cachoeira do Sul (1987), cidade que o homenageou com o Diploma Patrimônio Histórico Cultural da Prefeitura de Cachoeira do Sul (1993) e o samba- enredo do Carvanal de 1995 ‘Martins Livreiro no Universo da Cultura’. Recebeu, ainda, prêmios como o Livreiro Mais Antigo, o troféu Homem Talento RS e o troféu Literatura Gaúcha – MTG (2005).
Sócio benemérito da Academia Rio-Grandense de Letras, receberia o prêmio Imortais, da Casa dos Açores do RS, no próximo 23 de fevereiro. A distinção é concedida em vida às pessoas que realizaram trabalho de destaque na área cultural do RS.


Publicado na Página do Gaúcho, no site 
www.paginadogaucho.com.br


sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

08. Duelo


Seus pés afundaram
em terreno pantanoso,
e o equilíbrio difícil
deixaram-no, ainda mais, receoso.

Tudo escuro ao redor
mas ele sabia
que não estava só,
brilhavam na escuridão
os olhos da criatura,
uma fêmea, fera leonina...

Sentia o cheiro dela,
ouvia sua respiração,
pressentia o ataque
e sabia de sua determinação.




Como todo ariano,
era um sobrevivente,
que lutou dia após dia
sem nunca desistir,
mas poderia um carneiro
- mesmo com valentia -
a um leão resistir?
Sentia o perigo
e então se preparou
sentiu o calor da fêmea
quando ela atacou.
Viu seu olhos faiscarem
por baixo dos pelos negros,
ouviu seu grito de ataque
e seu corpo se arrepiou.
Os corpos dos dois se chocaram
e tombaram no chão,
presos e sem respiração,
sentiu as unhas da fera
cravarem nas suas costas
e prenderem suas pernas,
segurou-a então com força
num abraço mortal.

Mordendo e sendo mordido
sentiu o cheiro do suor e sangue
espalhando-se no ar,
pêlos e cabelos se confundiam,
conflito de terra e mar,
sentiu sua alma sugada
sentiu sua vida findar...





Sem poder mais resistir
segurou firme sua lança
e a fera estocou.
Manteve a lança cravada
penetrando o corpo da fera
e olhando nos olhos dela
ouviu seus gemidos e gritos.
Pouco depois
a fera saciada
agradecia baixinho
a graça de viver
enquanto ele, feliz,
morria de prazer.

Autor: Gilnei Andrade

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Expedições e Crônicas das Origens

                                 Santa Catarina na Era dos Descobrimentos Geográficos (1501-1600)

Canibalismo, histórias de piratas, de conquistas de terras tão exóticas como hostis e uma fauna e flora descritas entre o real e o mítico. Este é o ambiente em que personagens históricos se movimentam na obra do pesquisador brasileiro Amílcar D'Avila de Mello, Expedições e Crônicas das Origens – Santa Catarina na Era dos Descobrimentos Geográficos (1501-1600) lançado em outubro de 2005 pela editora Expressão.

O livro, dividido em três volumes em capa dura e generosamente ilustrado com mapas, óleos, gravuras e fotografias, é fruto de quase quinze anos de pesquisa entre Brasil, Espanha, Inglaterra, EUA e países da Bacia do Prata. Nos dois primeiros volumes, o escritor aborda as expedições em terras e águas do Sul do Brasil ao longo do século XVI e, o terceiro volume – articulado em uma espécie de antologia – abriga informações de mais de 50 cosmógrafos, religiosos, capitães de navios e outros personagens que escreveram sobre a região naquele período. Argumentando que é impossível escrever a história da Santa Catarina quinhentista sem situá-la no conceito mais amplo da exploração, conquista e colonização européias da Bacia do Rio da Prata, Amílcar afirma que "contar a história do primeiro século da presença européia nestas latitudes é, principalmente, trazer à luz a gesta dos espanhóis em nossa terra".



 O historiador explica porque ainda não se contou, em detalhes, a história de Santa Catarina vinculada à América espanhola: "Há pouco mais de um século, as fronteiras meridionais da nação eram disputadas a 'espada e a pata de cavalo', como ainda costumam dizer os descendentes dos guerreiros que ajudaram a desenhar o mapa do País. É compreensível, pois, o ranço ufanista dos diplomatas e intelectuais brasileiros do passado que, defendendo interesses geopolíticos, privaram os catarinenses de mais de um século de sua história colonial 'varrendo-a para debaixo do tapete'".


Não é por acaso que a imensa maioria das expedições e dos cronistas compilados pelo autor são espanhóis, como Martín Fernández de Enciso, Luis Ramírez, Alonso de Santa Cruz, Alvar Núñez Cabeza de Vaca, Martín del Barco Centenera e outros que, como eles, escreveram sobre as conquistas no Novo Mundo. Como descreve Amílcar no primeiro volume de Expedições, muitos destes cronistas se encontravam "em condições extremas, sob a constante ameaça de ataques indígenas, de doenças ou ferozes onças que não poupavam conquistadores nem conquistados". A partir de relatos extraídos de cartas pessoais, oficiais e documentos do aparato burocrático da Coroa Espanhola, o pesquisador reconstituiu o cotidiano quinhentista tanto pela ótica européia como pela dos conquistados.Fiel ao espírito da época, Amílcar lembra que, diferente do que se costuma acreditar, os exploradores estavam longe de meros aventureiros. "Trata-se dos astronautas daquele tempo", reitera o escritor, destacando a importância e juventude dos membros das expedições.
Também o papel da Espanha daquela época, como uma potência mundial, fica claro em capítulos como "A Coroa do Rei da Espanha é a Órbita do Sol", no segundo volume da obra que tem mais de 1500 páginas.


A publicação desta primeira edição do livro pela Editora Expressão(1.500 exemplares), com documentos e informações inéditas que dão nova luz às pesquisas sobre aquele período, foi possível através do patrocínio da estatal brasileira Petrobras, e não estará disponível comercialmente. Entretanto, ciente da lacuna que as informações ali contidas vão preencher na narrativa histórica dos descobrimentos, Amílcar Mello organizou este trabalho de forma a poder publicá-lo em até cinco ou mais volumes. Assim, acredita o autor, Expedições e Crônicas, numa próxima edição diluída em livros menores, poderá ser também acessível a um público leitor maior que, sem dúvida, pretende atingir.



O texto fluído que prende mesmo o leigo pela narrativa ágil e riqueza de informações é mais um atrativo forte da obra de Amílcar Mello para o mercado editorial convencional. Mas a importância do livro extrapola em muito seu seguro sucesso comercial. Para o autor, "crônicas como estas não se limitam a descrever as peripécias vividas pelos recém-chegados em um continente onde praticamente tudo era surpresa. Eles conviviam com histórias de habitantes de um mundo que, para eles, passou a 'existir' de uma hora para outra".

Sobre o autor:
Natural da fronteira de Sant'Ana do Livramento, Brasil, e Rivera, Uruguai, Amílcar D'Avila de Mello vive na Lagoa da Conceição, ilha de Santa Catarina. Historiador com especialização em etnolingüística, exerce a profissão de tradutor e intérprete simultâneo nos idiomas inglês, espanhol e português. Na ONG PAS – Projeto de Arqueologia Subaquática –, coopera como pesquisador e coordenador de parcerias internacionais. Explorador moderno, Amílcar percorre transversalmente, à margem da academia, áreas ainda pouco trilhadas por estudos tradicionais.



Ficha técnica: ISBN 8587887025 1ª edição 623 p. 28,5x23cm
Data da edição: 2005 Editora:Expressão

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

Olhar vasto sobre o Sul

 




Enciclopédia organizada pela UPF e pela UERGS oferece um inédito panorama histórico do Estado, com abertura a opiniões discordantes e ambição de renovar a historiografia gaúcha. Os livros Colônia, com 368 páginas de textos inéditos e imagens raras, e Império, com 600 páginas igualmente tomadas de pesquisas, mapas, reproduções de pinturas, desenhos e fotos, saíram da gráfica na manhã da última quarta-feira. 
Com eles, o Rio Grande do Sul tem aberta sua maior obra histórica, seu panorama histórico mais abrangente - a maior empreitada cooperativa da interpretação de como se formou o Sul do Brasil. Marco editorial, sinalização de um movimento historiográfico, a coleção História Geral do Rio Grande do Sul surge no vazio. Não existia no passado recente nada parecido, com uma envergadura assim.
A iniciativa de remediar essa carência partiu do Mestrado em História da Universidade de Passo Fundo e da Universidade Estadual do Rio Grande do Sul. A série terá cinco tomos: por enquanto Colônia (séculos XVII e XVIII) e Império (século XIX) e, no ano que vem, República 1889-1930, República 1930-1985 e Povos Indígenas.


A equipe que tocou o projeto foi formada em 2003. À frente, na coordenação geral, Tau Golin, professor da UPF, e Nelson Boeira, reitor da UERGS. Mais de cem historiadores foram se integrando ao grupo: professores de departamentos de História de todo o Estado e de fora, especialistas ligados a instituições não-universitárias, pensadores das mais diferentes orientações teóricas, tanto historiadores consagrados quanto jovens pesquisadores mal saídos do doutorado. 
Os colaboradores tiveram seus artigos submetidos a um conselho editorial e a diretores específicos de cada volume. O único critério para a seleção dos trabalhos: competência acadêmica e conhecimento do assunto. O todo é uma ação intelectual sem doutrina, ineditamente aberta a discordâncias entre autores, uma formulação que não quer um ponto de vista único sobre o Rio Grande. A enciclopédia não cobre e nem pretende cobrir todos os temas possíveis, mas se ocupa de temas de que a historiografia tradicional não se ocupa, como a produção artística das épocas. Temas clássicos recebem abordagens novas, a partir de documentações até então ignoradas.

Novas versões da nossa História

Colônia e Império, os dois primeiros volumes da coleção História Geral do Rio Grande do Sul, estão cheios de olhares que não se encontram na chamada historiografia tradicional gaúcha. Os novos olhares procuram ver o Rio Grande menos como um lugar fechado e que se basta sozinho e mais como um lugar que diz respeito ao que são o Brasil e a Região Platina.
No artigo Estrutura Agrária e Ocupacional, o capítulo VII de Colônia, Helen Osório, professora da UFRGS, observa que o senso comum cristalizou a paisagem agrária do Rio Grande do Sul no período colonial como um espaço de "vastas campanhas, imensos rebanhos, poucos homens". Uma visão baseada em relatos de viajantes - de portugueses, espanhóis e franceses habituados a outras paisagens. Usar outras fontes históricas, como censos de população e de terras, processos judiciais, inventários de heranças, diz Helen Osório, revela uma sociedade que não se limitava a estancieiros e peões livres e ao domínio da charqueada.
A professora aponta que, ao contrário do que está dito nas Histórias tradicionais, não havia um exclusivismo da pecuária. Na década de 1780, os lavradores suplantavam em número os criadores de gado. Então, 65% dessa população praticava agricultura em maior ou menor grau - "uma proporção ignorada pela historiografia tradicional", como indica Helen Osório. A paisagem agrária da Capitania combinava plantações de alimentos (muito trigo e mandioca) e criação de animais, uma combinação semelhante ao que ocorria na Campanha de Buenos Aires e na Colônia de Sacramento - e que "uma nova historiografia argentina vem revelando".





O continente, aqui, tinha 19 freguesias e distritos: Vacaria, Santo Antônio da Patrulha, Conceição do Arroio, Porto Alegre, Viamão, Lombas, Nossa Senhora dos Anjos, Caí, Triunfo, Santo Amaro, Taquari, Rio Pardo, Cachoeira, Encruzilhada, Povo Novo, Cerro Pelado, Rio Grande, Estreito e Mostardas. Em apenas dois o censo não registrou lavradores: Cerro Pelado e Encruzilhada. A posse de escravos estava disseminada por toda a população livre desde o início da colonização portuguesa, em todas as atividades rurais, mesmo na pecuária. Domingos Gomes Ribeiro, morto em 1764, tinha 7.200 cabeças de gado e 49 escravos. Helen Osório fala do senso comum cristalizado pelos relatos dos viajantes. 
No capítulo XIV de Colônia, Da Terra de Ninguém à Terra de Muitos: Olhares Viajantes e Imagens Fundadoras, Eliane Cristina Deckmann Fleck, pesquisadora da Unisinos, salienta que a literatura de viagem, na condição de fonte historiográfica, deve ser lida como uma reinvenção da realidade, como uma visão de mundo de alguém que escreve pensando em outro mundo, como "a transformação historiográfica de uma memória". 

Os olhares dos viajantes ergueram imagens fundadoras do Rio Grande do Sul. 

A fundação do Instituto Histórico e Geográfico do Estado, em 1922, lembra Eliane Fleck, consolidou a nossa historiografia tradicional, "tributária, em grande medida, dos relatos inaugurais produzidos pelos cronistas do período colonial". Os relatos de missionários, demarcadores, cientistas e autoridades administrativas do período forjaram o sonho de uma sociedade desde sempre democrática. Escreve Eliane Fleck: "A rusticidade e a frugalidade da vida senhorial, ao lado da hospitalidade, da camaradagem e fraternidade das relações interpessoais acabaram por determinar essa visão idealizada que ressalta o igualitarismo, a ausência de hierarquia, de privilégios e de privilegiados". 
É importante ter em mente o teor propagandístico desses relatos, a retórica utilitarista, a vontade de aplicar uma civilização européia no território bárbaro. Eliane Fleck afirma que chega a ser monótono que os documentos da época peçam o tempo inteiro remessas de casais para o povoamento do Sul. Citado por Guilhermino César em Primeiros Cronistas do Rio Grande do Sul (1969), André Ribeiro Coutinho, segundo governador do Rio Grande, garantiu em 1737 uma "terra dos muitos" a quem viesse ocupar o chão.


Catedral Metropolitana e Palácio do Governo em Porto Alegre - RS

Em Os Primeiros Pintores: Presenças Desapercebidas, Ausências Sentidas, que é o capítulo XVIII de Império, Neiva Maria Fonseca Bohns, professora de História da Arte da Universidade Federal de Pelotas, comenta, entre outros olhares, um olhar de Pedro Weingärtner. Nascido em Porto Alegre, de uma família de desenhistas e litógrafos, estabelecido para estudos na Alemanha e radicado na Itália, o artista compôs em 1898 a tela Tempora Mutantur. Executou a tela em seu ateliê em Roma, a partir de anotações tomadas em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul. Não escolheu personagens notórios da história brasileira recente. Escolheu, como faziam os pintores realistas europeus daqueles anos, uma cena com trabalhadores no campo.

Tempora Mutantur - Pedro Weingärtner
Exaustos, os dois personagens da tela fazem uma pausa no trabalho de preparar a terra bruta. Há árvores recém-abatidas a alguns passos deles. O homem e a mulher, transplantados da Europa, estão escorados em seus instrumentos. A mulher aparentemente machucou a palma da mão esquerda. Neiva Bohns diz que "parece pairar a dúvida sobre continuar ou desistir", e que o olhar evidente é: a semente de uma promissora economia agrícola "dependia da força e da coragem desses pioneiros". No meio de "uma natureza ainda exuberante de um país de recursos aparentemente inesgotáveis", o homem e a mulher lutam por um ambiente "culturalmente propício à sobrevivência".
Tempora Mutantur foi exposta em Porto Alegre em junho de 1899 e teve boa repercussão. Borges de Medeiros, presidente do Estado, comprou a tela para o Palácio do Governo, na primeira demonstração do poder republicano, aqui, de interesse por artes plásticas. Escreve Neiva Bohns: "Para um governo empenhado em consolidar as bases simbólicas de uma tradição regional, era vantajoso o incentivo da produção de imagens capazes de narrar as façanhas que colaboraram para a constituição do imaginário do povo gaúcho".


Jornalista RODRIGO BREUNIG

Coleção "História Geral do RGS" no Caderno Cultura
Publicado no Caderno Cultura - Jornal Zero Hora - 04-11-2006

domingo, 20 de janeiro de 2008

Missões jesuíticas


Ruínas na região de Sete Povos das Missões, uma das principais comunidades jesuíticas do sul do país e que foi destruída, em meados do século XVIII, pelas forças espanholas e portuguesas


A experiência de catequese das missões jesuíticas, com a visão inicial de inocência dos indígenas e do correspondente otimismo quanto à facilidade de lhes inculcar o credo, chegou até a convicção de que, diante da resistência do nativo em abandonar seus "vícios"(poligamia, nudez, canibalismo etc), a via mais eficiente para legitimar a autoridade dos colonizadores seria o consentimento gerado pelo medo.

Como explicou sutilmente São Tomás de Aquino (lição bem compreendida e aplicada por Nóbrega e Anchieta no Brasil), o medo não se confunde com coerção, pois esta comprometeria a conversão, que não pode ser forçada, já que depende de graça divina. Chegou-se assim à conclusão de que para tornar os índios mais propensos a adotar a fé cristã cumpria pô-los diante de um dilema:subordinar-se "voluntariamente" à ordem colonial agrupando-os em aldeias tuteladas pelos padres, ou encarar a perspectiva de serem caçados e escravizados pelos colonos. Nos dois casos teriam de renunciar à própria identidade cultural.

Recomendação do dia: O filme "A Missão" relata o conflito de interesses entre os colonizadores em busca do enriquecimento em contraponto com o papel dos jesuítas que queriam as reduções longe dos centros povoados, onde eles mesmos teriam o controle espiritual e temporal.


quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

Álvar Núñez Cabeza de Vaca

 
Álvar Núñez Cabeza de Vaca, conquistador espanhol do século XVI, naufragou ao largo da costa do atual estado do Texas em 1528. Juntamente com alguns companheiros de viagem, viveu os seis anos seguintes entre os índios dessa região, adotando uma boa parte dos seus modos de vida. Tendo granjeado reconhecimento entre as populações, desempenha uma função de comerciante, deslocando-se da costa para o interior, e vice-versa. Mais ainda, os índios convencem-se dos seus poderes curativos e Cabeza de Vaca, não mais do que à custa de uma mistura de ritos tradicionais indígenas e Pais Nossos e Aves Marias, como ele mesmo refere, passa assim a exercer a função de xamã.
Movido pela vontade de encontrar os seus, e depois de uma quase inacreditavelmente longa caminhada de dois anos, alcança as terras do México, onde a conquista espanhola segue em ritmo elevado. Finalmente, o desejo de reencontrar os seus compatriotas e a possibilidade de voltar a pisar solo espanhol são uma realidade. Ainda regressará às Américas, não só como explorador, mas também como governador do Vice-Reino de Rio de La Plata. Aí incompatibiliza-se com os abusos cometidos sobre os índios e acaba destituído das suas funções.
A interessante história deste homem excede as peripécias das suas viagens. Cabeza de Vaca é um dos conquistadores espanhóis que decide relatar para a posteridade a sua visão das conquistas. É nesse campo que se torna mais notável. Natural de Espanha, acaba por encontrar e viver durante um largo período numa cultura completamente estranha ao mundo que até aí conheceu. Apesar do nível de integração cultural que alcança, nunca esquece a sua terra natal nem o desejo de a rever. Nos relatos sobre esses agitados anos, a utilização do "nós" vai balançando entre o lado dos espanhóis e o lado dos índios. Até que, por fim, o indeciso "nós" acaba substituído por um "eles" comum a ambos os lados.
Tendo vivido as duas culturas, não renegando explicitamente nenhuma delas, é como se Cabeza de Vaca, de forma paradoxal – ou talvez não –, deixasse de se conseguir incluir nos dois mundos que retrata. Para ele, perante a experiência da alteridade, só resta a exterioridade.