Renan Santos e Kim Kataguiri exibem crachás de circulação livre pela Câmara dos Deputados |
Este
artigo se divide em dois momentos. No primeiro, que agora apresentamos,
se faz a exposição do mundo de sentido histórico, ou melhor, de um
momento em que os sentidos históricos são reduzidos, possibilitando o
aparecimento de grupos como o MBL (Movimento Brasil Livre): trata-se da
lógica da terceirização, que se faz de modo predatório no plano dos
afetos políticos, ou seja, da precarização dos liames que sustentam o
âmbito político.
a) Os meios e os fins: os filhos diletos da precarização
Em momentos históricos conturbados, nos quais os termos de uma gramática política progressista e de resistência são esgarçados na medida em que são usurpados pelos discursos do retrocesso,
torna-se sinuoso e difícil traçar linhas de compreensão, pois tudo
parece fora dos limites da razoabilidade. Quanto mais os retrocessos
buscam avançar, tudo parece cada vez mais menos razoável: tempos onde o absurdo parece ser a normalidade, exigir razoabilidade soa como desatino. Regido pelo golpismo como forma social difusa,
o trágico momento da vida nacional exige um esforço continuado para que
se possa entendê-lo. Este esforço para não nos entregarmos à regência do absurdo também exige novidade teórica:
novos problemas não são debelados por velhos remédios. Do contrário,
continuaremos com “placebos” que além de ineficazes, prejudicam a
formação de um bom diagnóstico; e, sem este, não se pode iniciar
qualquer bom movimento crítico.
Ora,
a criatividade que possibilita a novidade teórica e que pode nos abrir
novas vias de compreensão, ao que parece, pode começar em não se prender
a limites rígidos entre esferas diferentes. Não se trata tanto de ter
medo de misturar, mas de não isolar. “Ecletismos frouxos” são tão ruins
quanto “isolacioanismos duros”. Assim, antes que possamos passar ao
núcleo deste artigo, a saber, de que o MBL (Movimento Brasil Livre)
enquanto organização é a expressão atual mais acabada da precarização do
político, isto é, da redução da esfera pública e dos liames coletivos,
deve-se compreender o mundo de sentido histórico que possibilita este
tipo de organização por meio da relação com o mundo do trabalho, particularmente com a difusão do processo de terceirização.
Ao fim veremos que esta organização estruturada segundo a lógica
neoliberal atualmente se apresenta como entidade que presta “serviços
terceirizados” ao governo: o que, por um lado, demonstra a fraqueza do
governo ilegítimo; e, por outro, aponta para o avanço de caracteres
fascistas.

Em
um primeiro momento, o âmbito político foi sucumbindo ao discurso
neoliberal: era a fase em que a máquina pública deu lugar aos privatismos sob a égide da ideologia da gestão eficiente.
O Estado assumia perante a “opinião pública” sua incapacidade de gerir
atividades que antes se consideravam indelegáveis a terceiros. À medida
que cedeu terreno, isto é, delegou atividades, logo delegou poder, se
enfraqueceu, de modo que agora delega aspectos institucionais primários,
como, por exemplo, o uso público da palavra. A precarização
da máquina estatal traz em seu bojo a precarização do político em seu
sentido mais amplo: o encolhimento da esfera pública também em seus
aspectos simbólicos e afetivos. Por isso, em meados dos anos 90, quando o privatismo mostrou sem pudores seu cinismo, não víamos movimentos ou organizações análogos ao MBL,
pois apenas o aparelho midiático era suficiente para garantir o avanço
do consentimento público da lógica neoliberal. Mas, como é da natureza
do neoliberalismo fazer de tudo, da religião aos medos coletivos, um
negócio lucrativo, agora o discurso que quer o encolhimento máximo do
Estado está acrescido da transformação da manifestação política em
negócio. Justamente pela perda das características eminentemente
políticas da manifestação pública, a precarização não é apenas material,
do aparelho estatal, mas se trata da precarização do próprio sentido do político.
Dessa maneira, se estamos no âmbito da precarização do político, no qual os posicionamentos e as manifestações públicas tornam-se negócios, não resta senão indagar: O que vende o MBL?
Quem quer que entre no site desta “organização política” terá a
sensação de estar entrando em uma loja de variedades: ao lado de links
que dão acesso a textos, sempre com manchetes que exploram algum tema
“da vez”, é possível comprar de tudo: de blusas a canecas. Tudo
anunciado com uma apelação emocional e direta: “Não deixe o MBL acabar!! Compre nossos produtos!!”.
Esta apelação direta e emotiva que segue as peças publicitárias ao
quais somos expostos todos os dias, cuja lógica é dizer tudo
diretamente, porém não falar tudo, supõe a “necessidade” do movimento,
que não “pode acabar”. Mas, isto não é dito diretamente ao “consumidor”.
Ser direto, segundo querem nos fazer crer as estratégias publicitárias,
é o mesmo que dizer tudo. Os produtos, ressalte-se que de gosto
duvidoso a qualquer um que já tenha tido um contato mínimo com os textos
clássicos de estética filosófica, estão na seção denominada: “Loja MBL”.
Ao entrar nesta seção, a sensação de estar em uma loja de variedades é
substituída pela certeza de se adentrar em uma galeria do kitsch político.
Todavia, essa divisão entre a “loja virtual” e o restante do site, que
por sua vez não teria conteúdo mercadológico, mas político, é apenas
aparente. O produto de ponta oferecido não são as “bugigangas” que levam
o nome do grupo. O MBL vende algo mais valioso. Esta mercadoria mais
valiosa é a própria política. A precarização da política a torna
mercadoria manuseável como qualquer produto destinado ao consumo.
Desse modo, enquanto o simulacro público do grupo se pauta na imagem de organização política, seu modus operandi é essencialmente econômico. Seguindo a via iniciada pelo privatismo, trata-se de vender aquilo que antes não se vendia. A transformação da saúde e da educação em serviço, deixando, pois, de ser direito, tem seu par equivalente de semelhança na venda do imaginário, da participação política, da sensação de pertencimento, em suma, na venda dos afetos e desejos políticos, de modo que o site do grupo nada mais é que uma vitrine. Na seção do site denominada “Participe”, são vendidos “Planos”
para aqueles que desejam associar-se ao movimento. Tais planos,
obedecendo a uma estratégia criativa, embora pobre, possuem os, no
mínimo risíveis, nomes de: “Agente da CIA” (o mais barato), “Irmãos Koch” e, coincidência ou não, o mais caro chama-se “Mão Invisível” (pobre Adam Smith, vítima do business
predatório de seus seguidores). Ativismo político ao seu alcance, basta
pagar! Só em tempos de precarização dos sentidos políticos, grupos que
se definem como “organização de ativismo político” vendem
participações efetivas em seus próprios quadros. Também é oferecida
consultoria, para que se possa abrir “franquias” do movimento, de tal
modo que não fica claro o que é político e o que é negócio.
Alguma contradição, para um grupo que se evidenciou no bojo dos
discursos anticorrupção? Ali tudo se passa na mimetização da
oportunidade única dos feirões Black Friday, que são os
momentos em que os picos de excitação do consumo atingem seus níveis
mais elevados, quem não comprar os planos ficará de fora, segundo a
expressão de um dos textos do site, desse “momento excitante do país”.
Caso
típico neoliberal: a redução do político ao econômico. Novo nicho de
mercado, no qual a mercadoria é a participação política; a clientela: os
segmentos mais reacionários, que são também os mais consumistas. E, por
fim, não poderia faltar, um garoto propaganda: jovem (pois a estratégia
atual difusa pelo mundo do consumo alia consumismo e juventude),
“aguerrido”, de fala fácil, visual descolado e gestual que mimetiza a
inexpressividade das linguagens comerciais. Tal como no âmbito do
consumismo predatório, não se vendem produtos, mas sonhos e satisfações.
Em outras palavras, compra-se status e visibilidade. Vendem o
desejo da participação política e transformam em negócio a condição
humana primaz de fazer parte de uma coletividade engajada. Ora, o
consumismo enquanto realidade não apenas material, mas também simbólica,
agora, passa a operar mais ainda com a gestão lucrativa do campo afetivo-passional, neste caso, em seu aspecto mais eminentemente político.
O
MBL é o exemplo expressivo de como se pode obter um regime lucrativo de
compra e venda de aspirações e desejos políticos. Por isso, os
“meninos” do MBL são os filhos diletos da precarização, porque conseguem
fazer dela um negócio. Bons alunos da cartilha neoliberal que
enxergaram aquilo que o momento propiciava. Filhos da precarização do
político fazem disso o seu negócio, travestindo-se de puro ativismo
político. E quanto maior a precarização, maiores as oportunidades de
negócios. Isto lhes propicia o atual governo dos ilegítimos, logo passam
a prestar “serviços terceirizados” a tal governo: terceirização da palavra e terceirização da força. Questões abordadas na próxima parte deste artigo.
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