I m A g E m

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O Velho do Espelho

"Por acaso, surpreendo-me no espelho:
quem é esse que me olha e é
tão mais velho do que eu?
Porém, seu rosto...é cada vez menos estranho...
Meu Deus,Meu Deus...Parece meu velho pai -
que já morreu"! (Mario Quintana)

P E S Q U I S A

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

16. Leopoldo Petry

 
Leopoldo Petry - obra do
pintor Ernesto Frederico Scheffel


Leopoldo Lorscheitter Petry nasceu no bairro Industrial, na época conhecido como Matadouro dos Kroeff, em Novo Hamburgo - RS, no dia 15 de julho de 1882. Era filho do imigrante alemão e agrimensor Pedro Petry e de Barbara Lorscheitter, de São José do Hortêncio. Em 1891 entrou como aluno interno num colégio jesuíta, em São Sebastião do Caí, onde permaneceu por dois anos. Em 1893 foi para o Seminário Episcopal de Porto Alegre, também jesuíta, onde permaneceu por seis anos.

Em 1899 aceitou o convite e tornou-se professor na nova escola paroquial católica de Hamburgo Velho. Em 1902, aprovado em concurso, foi professor alfabetizador e diretor da escola pública de meninos de Lomba Grande. Nesse período casou-se com Maria Luiza da Silveira, que faleceu precocemente, em janeiro de 1911. Após a morte da esposa retirou-se do magistério e mudou-se, por um curto período, para Passo Fundo. Trabalhou como auxiliar de guarda-livros, em Porto Alegre.

Em 1912 adquiriu uma pequena olaria, perto da casa de seus pais, onde trabalhou por quatro anos e meio. Contraiu seu segundo matrimônio, em 1914, com Maria da Neves Marques e dessa união nasceram seus seis filhos que, no futuro, lhe dariam 24 netos, 53 bisnetos e 15 tataranetos. No dia 16 de janeiro de 1917 assumiu como secretário da Intendência Municipal de São Leopoldo, onde permaneceu até 01 de fevereiro de 1923, data de sua nomeação como coletor estadual de Novo Hamburgo, função que ocupou até 1927. 

                                                                                                Arte sobre foto - Paulo Haubert
Maria das Neves Petry
 
Ao lado de Jacob Kroeff Neto e Pedro Adams Filho, foi um dos líderes do movimento de emancipação de Novo Hamburgo de São Leopoldo que alcançou seu objetivo no dia 05 de abril de 1927. Jacob Kroeff Neto foi o primeiro intendente provisório de Novo Hamburgo. No dia 29 de maio de 1927, Leopoldo Petry elegeu-se como intendente (prefeito) de Novo Hamburgo. Exerceu o cargo de Intendente de 05 de julho de 1927 até 15 de novembro de 1930, quando foi afastado e chegou a permanecer detido, por alguns dias, por não aderir à Frente Única Gaúcha, muito forte na região. Nesse período manifestou-se favoravelmente ao movimento constitucionalista, que questionava o governo de Getúlio Vargas e cujo recrudescimento posterior levaria, entre outras coisas, ao conflito armado de 1932.

Em 04 de agosto de 1931 assumiu como ajudante do Cartório de Notas e Registros de Imóveis de Novo Hamburgo. Em 1934 foi eleito para a presidência da Sociedade União Popular do Rio Grande do Sul, uma instituição criada para atuar na defesa dos interesses sócio culturais da população rural do Estado. Profissionalmente, com o falecimento do titular assumiu o Cartório de Registro de Imóveis de Novo Hamburgo onde permaneceu até sua aposentadoria em 07 de julho de 1947, com quarenta anos de serviço público. Aposentado, voltou a atividade política e elegeu-se vereador em Novo Hamburgo, de 1951 a 1955, tendo exercido a presidência da Câmara Municipal e assumido a Prefeitura, interinamente. Durante a maior parte de sua carreira política permaneceu alinhado ao Partido Republicano Rio-Grandense. Mas na fase final elegeu-se vereador pela PRP – Partido de Representação Popular, ligado ao integralismo.

Leopoldo Petry foi professor, escritor, historiador, jornalista e político. Como professor foi um alfabetizador e como escritor fundou o anuário Der Famillinfreund Calender, em 1911, e o semanário O Cinco de Abril, em 1927. Foi colaborador de vários jornais para os quais escrevia em português, ou em alemão e autor de diversos livros e publicações sobre a imigração alemã e a história de São Leopoldo e Novo Hamburgo. Lançou na década de 50 o livro Carvalhos e Palmeiras, um livro de contos regionais, publicou, em 1957, o livro O episódio do Ferrabraz - Os mucker, obra sobre os colonos do Morro Ferrabraz em Sapiranga -RS que, seguindo a liderança religiosa e messiânica de Jacobina Mentz Maurer e João Jorge Maurer foram atacados pelo Exército Brasileiro, em 1874, resultando em mortes e prisões. Este livro obteve grande repercussão e sucesso. Em 1957 publicou o livro Pátria, Imigração e Cultura editado pela Federação dos Centros Culturais 25 de julho, de São Leopoldo.

Foi um homem interessado e incentivador dos esportes e da mudança de hábitos alimentares, na busca da preservação da saúde física e mental. Praticava e aconselhava a realização de exercícios e atividades físicas e ao adaptar uma velha bicicleta foi, possivelmente, o inventor da primeira bicicleta ergométrica. Caminhava à noite pelas ruas do bairro onde morava, cultivava legumes e alfafa no pátio dos fundos de sua casa. Foi organista da capela Sagrado Coração de Jesus no bairro Santo Afonso e nos últimos anos de sua vida manteve sua produção literária e dedicou-se a uma campanha de construção de um hospital no bairro Santo Afonso. Em todo material pesquisado e mesmo nas primeiras conversas informais, com seus descendentes, não há referência a origem da patente militar. Na sua autobiografia não há menção alguma ao caminho que percorreu para chegar a patente de major. Não seguiu uma carreira militar tradicional e a patente deve ser honorífica como reconhecimento a serviços prestados, talvez na própria Sociedade União Popular. 

                                                                Arte sobre foto - Paulo Haubert
Leopoldo Petry

Petry foi um patriarca nas relações familiares. Freqüentemente era surpreendido gesticulando e discursando para si mesmo. Repetia muitas vezes, entre os amigos, que a verdadeira alegria de viver resumia-se num velho ensinamento: ‘mens sano in corpore sano’. Adotou um estilo de vida disciplinado e regrado, levantava cedo e pedalava sua bicicleta, sem rodas, no sótão da casa, na sua alimentação não faltava aveia, leite, mel, suco de ameixas pretas, torta de bolacha com creme de manteiga e gemada com vinho. Ao anoitecer recolhia-se para seus aposentos onde lia os periódicos para sua esposa, enquanto ela fazia crochê. Mantinha um lápis preso por um cordão na cabeceira da cama para anotar as idéias que afloravam durante a noite. Na falta de papel apropriado para suas anotações escrevia em tampas de caixas ou em qualquer papel ao alcance da mão. Sua escrivaninha e a banqueta de trabalho eram altas para evitar uma posição cômoda porque segundo ele “a comodidade não favorecia a agilização do espírito”.

Foi o criador da Associação dos Municípios do Vale do Rio do Sinos, incentivador da FENAC, sócio-honorário do Museu Visconde de São Leopoldo, patrono da cadeira número 17 do Instituto Histórico de São Leopoldo. Durante décadas defendeu e organizou uma campanha que visava retificar, através de canalização, o traçado do Rio do Sinos, no trecho conhecido como Baixada. Buscava dessa forma combater os prejuízos e perdas provocadas pelas enchentes do Rio do Sinos e criar, ao mesmo tempo, uma nova área de expansão agrícola na região desenvolvendo, ainda, a navegação comercial e turística.

Leopoldo Petry foi um político polêmico e arrojado. O homem simples e tímido cedia espaço, nas lides políticas, a um parlamentar de excepcional formação intelectual, capaz de liquidar seus críticos e adversários citando, com a mesma desenvoltura, fatos e personagens da antiga Grécia, do Império Romano, do Renascimento e da época contemporânea. Buscou transmitir seu legado político incentivando e abrindo caminho a pessoas de suas relações e parentesco como o médico Wolfram Metzler, seu sobrinho, que foi vereador, deputado estadual e federal e que faleceu durante a campanha eleitoral que o tornaria o primeiro Senador da República, nascido em Novo Hamburgo. Também o empresário e advogado Níveo Leopoldo Friedrich, casado com Luiza Friedrich, uma das filhas de Petry, foi prefeito de Novo Hamburgo e até hoje mantém participação na vida social e política da região.

Leopoldo Petry deixa um respeitável legado que exige mais estudos e reflexão, homem enérgico e gentil, tímido e ao mesmo tempo polemista de tendências autoritárias. Leopoldo Petry faleceu, após uma rápida enfermidade, no Hospital Regina em Novo Hamburgo, no dia 29 de novembro de 1966, aos 84 anos de idade. Recebeu as honras fúnebres no Palácio Municipal e o município decretou luto oficial por três dias. O jornal Correio do Povo, edição de 01 de dezembro de 1966 noticia os atos fúnebres de Leopoldo Petry, com a presença de autoridades do Governo Estadual e da Assembléia Legislativa, das Forças Armadas, do Instituto Histórico e Geográfico do Estado, do Arcebispo de Porto Alegre Dom Vicente Scherer, de prefeitos e vereadores de vários municípios do Vale do Rio do Sinos.

FONTE: Trabalho de pesquisa realizado durante curso de História na Universidade Feevale com documentação material existente no Museu da Imigração Visconde de São Leopoldo e originais do trabalho de pesquisa da historiadora Liene Schutz.   


                                                              Gilnei Andrade                                                            

3 comentários:

  1. Estou investigando esse personagem, por motivos de ancestralidade, já que a minha avó paterna é Maria Luciana Petry e meu genro é Samuel Fernando Petry. É a história de um grande homem, que ajudou na formação dessa região do Vale dos Sinos. Fez a sua parte com com muita honradez e serve de exemplo às futuras gerações.

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  2. É possivel resgatar muito de sua vida e trajetória pois seus filhos, netos e bisnetos vivem aqui na região e no Estado. Se precisar de alguma informação posso te colocar em contato com familiares de Novo Hamburgo caso não os tenha. Gilnei Andrade

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