I m A g E m

I m A g E m
O Velho do Espelho

"Por acaso, surpreendo-me no espelho:
quem é esse que me olha e é
tão mais velho do que eu?
Porém, seu rosto...é cada vez menos estranho...
Meu Deus,Meu Deus...Parece meu velho pai -
que já morreu"! (Mario Quintana)

P E S Q U I S A

domingo, 18 de fevereiro de 2018

Meu amigo Doratioto (III)

Durante minha graduação em História, na Universidade Feevale, busquei contatar - pelas redes sociais - o professor Francisco Doratioto ainda sob o impacto da leitura de seu livro Maldita Guerra. Para minha satisfação e surpresa Doratioto retornou e durante tres ou quatro anos, a partir de fevereiro de 2007, mantivemos correspondência por e-mail. A conclusão do curso e a agenda atribulada do professor  interromperam 'nossa prosa'... mas ela não se encerrou. Apenas começou e uma hora dessas vamos prosseguir.

"Caro Francisco Doratioto
 Fiquei honrado com tua resposta a minha mensagem. Te informo que o anexo não veio, mas tenho grande interesse de recebe-lo. Em relação aos arquivos secretos faltou comentar sobre a 'coleção Rio Branco' que teria sido 'surrupiada' pelo Brasil. 

Outra questão, a título de curiosidade de estudante de história e porque tenho lido muito material sobre a formação do Rio Grande do Sul: na Feira do Livro de Porto Alegre foi lançada, em 2006, uma coleção chamada de Historia Geral do Rio Grande do Sul que contará com a participação de mais de uma centena de historiadores e estudiosos. A coleção sob a coordenação geral de Nelson Boeira - reitor da UERGS - e Tau Golin - da U.P.F - foi lançada pela Méritos Editora e do total previsto de 05 volumes, dois já foram foram lançados - "A Colonia" e " O Império" - que estão na minha fila para leitura, logo depois da tua obra. No volume O Império tua obra sobre a Grande Guerra é muito citada e varias ilustrações constante da tua obra são tambem apresentadas. (...)

Abraços

Gilnei Andrade"

14/02/2007

Caro Gilnei,


Suspeito que o curso de História vai te colocar em crise existencial/intelectual, pois vai questionar seus valores e convicções. Sempre é assim, não se faz um curso de História impunemente...(risos) 

  Esqueci de comentar sobre a Coleção RIo Branco. A coleção foi devolvida ao Paraguai e encontra-se, hoje, no Archivo General, em Assunção. Lá está não só com a mesma designação, mas, inclusive, com o catálogo em português de quando a documentação estava na Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro. Aliás, o Archivo Nacional não alterou sequer a classificação. Antes de ser devolvida, a Coleção foi microfilmada e encontra-se à disposição dos pesquisadores na Biblioteca Nacional. 

   É difícil pesquisar em microfilmes o dia todo e, como eu vivi no Paraguai, resolvi pesquisar a documentação original. O pessoal do Archivo foi muito simpático (acho que fiquei uns dois meses indo lá diariamente) mas vários documentos da Coleção Rio Branco, que constavam no catálogo brasileiro, que pedi não foram encontrados. Foram recebidos pelo Paraguai mas, depois, desapareceram, provavelmente roubados ou extraviados. Por sorte, há a cópia microfilmada no Rio de Janeiro... 
  Grato pela informação sobre a coleção Historia Geral do Rio Grande do Sul; não a conhecia. Conhecia, sim, a série Uma História do RIo Grande do Sul, da UPF, iniciada recentemente e da qual comprei "A ocupação do território", de Mário Maestri. 
  Bons estudos por aí.

  
Doratioto"
02/03/2007



"Prezado Gilnei,

Eis a informação que fiquei devendo: os 50.000 documentos da chamada coleção Rio Branco foram devolvidos ao Paraguai em 1982. Eles estão citados em vários artigos\trabalhos científicos. Caso queira conferir veja em: 

http://www.bvp.org.py/biblio_htm/telesca_jesuitas/007_rio_branco.pdf
ou ainda em:

http://www.dialogos.uem.br/include/getdoc.php?id=737&article=253&mode=pdf.

Aliás, a revista Diálogos, deste último link, é muito boa e está disponível on line. Vale a pena ver. 


 Abraços,


 Doratioto"  02/04/2007

sábado, 10 de fevereiro de 2018

Meu amigo Doratioto (parte II)

Durante minha graduação em História, na Universidade Feevale, busquei contatar - pelas redes sociais - o professor Francisco Doratioto ainda sob o impacto da leitura de seu livro Maldita Guerra. Para minha satisfação e surpresa Doratioto retornou e durante tres ou quatro anos, a partir de fevereiro de 2007, mantivemos correspondência por e-mail. A conclusão do curso e a agenda atribulada do professor  interromperam 'nossa prosa'... mas ela não se encerrou. Apenas começou e uma hora dessas vamos prosseguir. 


"Caro Francisco Doratioto
Estou debruçado sobre o 'Maldita Guerra' que ganhei nas festas de fim de ano. Também tive acesso a tua entrevista publicada pelo Correio Braziliense. 
Embora poucos anos de idade nos separem (eu sou de 1962) tenho um longo percurso a fazer no encalço do teu exemplo. Entrei para a (Universidade) Feevale de Novo Hamburgo - RS, em 2005 buscando a concretização do sonho de cursar história. Havia concluído o antigo 2º grau em 1981 e voltei, 24 anos depois...
... Estou namorando teu livro. Já li umas 200 páginas mas ainda não enfrentei-o pra valer. Já li a introdução, as conclusões, as notas, a cronologia, os acervos consultados...já admirei as fotos e ilustrações. Mas vou pegar ' o touro pelas aspas' nas próximas semanas.  Tenho observado e participado de algumas discussões no site de relacionamentos Orkut na comunidade "Guerra do Paraguai" onde tua obra é presença constante e teu nome muito citado. Tenho a impressão que outra 'lenda' vem sendo alimentada em relação a Grande Guerra. Trata-se da discussão sobre os arquivos secretos que o Brasil possuiria. Pergunto e sentiria-me muito honrado com tua resposta:

- Existem realmente arquivos no Brasil, sem acesso público, em relação a Guerra?
- O que falta ser divulgado e,  ainda hoje necessitaria de sigilio oficial, nos ditos arquivos secretos do Brasil? 
- Caso haja, ainda, documentação histórica em arquivos militares por que nao iniciamos um movimento pela sua liberação imediata e disponibilização em um local apropriado para pesquisas e exibição?
Bem, chega. Já tomei muito do teu tempo. Espero que, nos próximos meses, possas autografar 'o meu ... nosso' livro. Até lá ,estará lido, várias vezes.
Um grande abraço.
 

Gilnei Andrade"

11/02/2007








"Caro Gilnei,

Fico contente em saber de que está lendo Maldita Guerra e está gostando. Não sabia que havia uma comunidade Guerra do Paraguai no Orkut. Não pretendo, porém, frequentá-la pois me ocuparia tempo que não tenho, sob pena de deixar outras atividades. Não há problema de você divulgar na comunidade as informações que dou neste e-mail. 


Essa questão dos supostos arquivos secretos não terá fim. Conheço diferentes diplomatas, que ocuparam altos postos no Itamaraty e que, creio, seriam sinceros comigo que me disseram não existir um tal arquivo. Em síntese creio que: 
1) Não existe um arquivo, organizado e mantido intencionalmente secreto, sobre a Guerra do Paraguai no Itamaraty. Ademais, pesquisei bastante no Itamaraty e, por mais secreto que seja um arquivo, ele deixa traços de sua existência na documentação aberta à pesquisa e nunca os encontrei. Seria uma enorme surpresa para mim se ele, de fato, existisse. 


2) Contudo, o arquivo histórico do Exército não está organizado; há milhares de documentos nunca classificados e, como resultado, nunca lidos; entre eles pode ser - veja é uma hipótese, não é que haja - que haja documentos sobre a guerra ainda não conhecidos.  Esse é o típico caso da impossibilidade científica de se dar uma prova negativa. Por exemplo, prove que eu não estive esta noite, às 3 horas da madrugada, em Marte! Parece evidente que não estive, pois não há tecnologia para tanto mas... que prova pode ser dada se não o raciocíno lógico? É o caso de se dizer que há documentos secretos sobre qualquer coisa. Se são secretos, não há como provar que eles não existem, pois não se pode abrir fisicamente todas as salas de um arquivo, em busca de algo que não existe, para provar que....não existe! 
O problema de todos os arquivos no Brasil é falta de recursos, humanos e financeiros. Isso é o que falta para organizá-los. Falo, evidentemente, sobre documentos do século XIX ou anteriores e não os referentes ao período pós 1964, sobre os quais há celeuma e não é minha especialidade e, por desconhecimento, não posso dizer nada. 


3) A origem dessa celeuma é uma afirmação infeliz do ex-secretário de Direitos Humanos Nilmário Miranda. Suspeito que ele, pressionado pelos jornalistas a fazer alguma declaração sobre a abertura ou não de arquivos da época do regime militar, recorreu ao argumento sobre o suposto arquivo secreto Guerra do Paraguai. Por quê? Como muita gente (inclusive eu, antes de me dedicar a pesquisar o assunto) ele deve ter lido a interpretação de ter sido a guerra causada pela Inglaterra, etc. etc... e que haveria documentos secretos... Assim, vendeu como comprou uma interpretação que não tem base documental ou lógica histórica. 

Abraço, 
Doratioto"   14.02.2007

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Eu te desejo vida

"TE DESEJO VIDA"
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Flavia Wenceslau \
Maya de Munich
Te desejo a sorte de tudo que é bom De toda alegria ter a companhia Colorindo a estrada em seu mais belo tom Eu te desejo a chuva na varanda Molhando a roseira pra desabrochar E dias de sol pra fazer os teus planos Nas coisas mais simples que se imaginar E dias de sol pra fazer os teus planos Nas coisas mais simples que se imaginar Eu te desejo a paz de uma andorinha No vôo perfeito contemplando o mar E que a fé movedora de qualquer montanha Te renove sempre, te faça sonhar Mas se vier as horas de melancolia Que a lua tão meiga venha te afagar E a mais doce estrela seja tua guia Como mãe singela a te orientar Eu te desejo mais que mil amigos A poesia que todo poeta esperou Coração de menino cheio de esperança Voz de pai amigo e olhar de avô Coração de menino cheio de esperança Voz de pai amigo e olhar de avô Eu te desejo vida, longa vida Te desejo a sorte de tudo que é bom De toda alegria ter a companhia Colorindo a estrada em seu mais belo tom Eu te desejo a chuva na varanda Molhando a roseira pra desabrochar E dias de sol pra fazer os teus planos Nas coisas mais simples que se imaginar Eu te desejo a paz de uma andorinha No vôo perfeito contemplando o mar E que a fé movedora de qualquer montanha Te renove sempre, te faça sonhar Mas se vier as horas de melancolia Que a lua tão meiga venha te afagar E que a mais doce estrela seja tua guia Como mãe singela a te orientar Eu te desejo mais que mil amigos A poesia que todo poeta esperou Coração de menino cheio de esperança Voz de pai amigo e olhar de avô Eu te desejo a chuva na varanda Molhando a roseira pra desabrochar E dias de sol pra fazer os teus planos Nas coisas mais simples que se imaginar E dias de sol pra fazer os teus planos Nas coisas mais simples que se imaginar E dias de sol pra fazer os teus planos Nas coisas mais simples que se imaginar... Español Yo te deseo larga vida Yo te deseo vida, larga vida Te deseo la suerte de todo lo que es bueno De tener toda la alegria como compañía Coloreando la calle en sus mas lindos tonos Yo te deseo la lluvia en la baranda Mojando las rosas (o los rosales) para que florescan Y días de sol para planear las cosas mas simples que puedas imaginar Yo te deseo la paz de una golondrina en su vuelo perfecto contemplando el mar Y que la fe que mueve las montañas Te renueve siempre y te haga sonar Pero si vinieran las horas de melancolía Que la luna te proteja con su claridad Y mas de doce estrellas sean tus guias Como madres puras te puedan orientar Yo te deseo mas de mil amigos La poesia que todo poeta esperó Corazón de niño, lleno de esperanza Voz de padre amigo y mirada de abuelo

Flavia Wenceslau -  http://www.universomistico.org/s/flavia-wenceslau.html

sábado, 19 de agosto de 2017

Para compreender a Sociedade do Espetáculo

Uma estudiosa de Guy Debord propõe pistas para acessar o pensamento do filósofo. Sua obra central, que completa 50 anos, vasculhou as lógicas de dominação do capitalismo contemporâneo 
                                                                                                                         Por Iná Camargo Costa 

 Arte política 
Logo depois de publicar seu livro A sociedade do espetáculo (1967), Guy Debord fez um filme com o mesmo nome (1973) no qual retoma todos os procedimentos do cinema de agitprop desenvolvido na Rússia revolucionária por gente como Eisenstein, ao mesmo tempo em que faz avançar tanto as propostas dos seus antecessores quanto as que enunciou no livro, que foi pensado entre outras coisas como uma intervenção no debate estético-político francês. 

Cena de “A Sociedade do Espetáculo”, filme de 1973. O livro de Debord foi publicado sete anos antes

Disponível no You Tube com legendas em português, este filme merece ser visto e revisto, pois a totalidade dos seus argumentos está ali exposta, bem como a resposta que Guy Debord queria dar no plano da política e da arte. No plano da política, trata-se de resgatar o programa da democratização radical do modo de produção e, por consequência, de revolucionar por completo o modo de vida sob o capitalismo (ainda em aliança com a fraude chamada socialismo nos anos de 1960-70). 
O filme já seria uma expressão legítima deste processo de luta, na medida em que identifica e denuncia processos, agentes, modos de expressão artístico-publicitários, etc., e já é uma proposta prática e artística do que fazer (para citar Lenin, uma das referências de Debord). A começar pela publicidade, os processos fundamentais da nossa sociedade do espetáculo continuam os mesmos, mas seus agentes já foram substituídos por outros menos toscos, de modo que uma atualização do filme (não do livro) poderia reaproveitar sua estrutura básica (no sentido do détournement, como ele mesmo fez com os filmes então apreciados espetacularmente pelos cinéfilos franceses) e substituir as cenas daquele presente francês por cenas do nosso presente (2017). Desconfio que os resultados seriam igualmente impressionantes. 
Um filme assim diria muito mais do que a quase totalidade dos discursos supostamente críticos dos processos a que temos assistido espetacularmente nos anos que se seguiram às manifestações de junho de 2013. O texto que segue foi preparado para uma exposição do tema aos integrantes da Brava Companhia de teatro em 2009 (reproduzida a seguir) e acolheu de modo radical a proposição debordiana do détournement. Isto é: salvo pela edição, tudo o que será lido está no livro A sociedade do espetáculo. Aqui a sua função é contribuir para apropriações do pensamento debordiano que sejam mais produtivas do que até agora tem acontecido, pelo menos no Brasil, em que se observa o lamentável fenômeno da apropriação espetacular de um pensamento que se pretende crítico do espetáculo.

Descrição do fenômeno histórico
https://www.youtube.com/watch?v=Y-JwqQowAdk

Espetáculo é ao mesmo tempo uma relação social e a relação interpessoal mediada por imagens. É o modelo atual da vida que domina na sociedade. É a justificação total das condições e dos objetivos do sistema capitalista. O espetáculo é o discurso ininterrupto que a ordem atual faz a respeito de si mesma. É um monólogo laudatório. Começa no pseudo-diálogo da vida cotidiana e familiar, desenvolve-se na vida econômica, é cultivado metodicamente na universidade e constitui o oxigênio dos meios de comunicação. Como elemento constitutivo do espetáculo, a publicidade é mentira metódica. Cada nova mentira da publicidade é também a confissão da mentira anterior. Cada queda de uma figura do poder totalitário revela a comunidade ilusória que a aprovava por unanimidade. O espetáculo é absolutamente dogmático e, ao mesmo tempo, não pode chegar a nenhum dogma sólido. 

Gênese 
 A sociedade do espetáculo deita raízes em todas as formas sociais que a precederam. Mas a ordem das coisas que está no âmago da dominação do espetáculo moderno nasceu no mesmo momento histórico em que a representação do proletariado (suas organizações) passou a opor-se radicalmente à classe: o primeiro passo deu-se quando o bolchevismo triunfou na Rússia e a social-democracia lutou vitoriosamente pela velha ordem. O segundo passo foi dado pelo stalinismo que instrumentalizou a Terceira Internacional como força de apoio da sua diplomacia para sabotar todos movimentos revolucionários e apoiar governos burgueses dos quais esperava retribuição em seus negócios mundiais. O fascismo – passo seguinte –, por mais que seja adepto da mais conservadora ideologia burguesa, em si mesmo não é fundamentalmente ideológico. Ele é arcaizante em seu recurso ao mito para organizar a comunidade definida por pseudo-valores arcaicos como raça, sangue e chefe. O fascismo é arcaísmo tecnicamente equipado e constitui um dos fatores do espetáculo moderno, a começar pelo papel essencial que desempenhou na destruição do antigo movimento operário (previamente desarmado pela social-democracia e pelo stalinismo). O fim da União Soviética e seus satélites (ocorrido no ínicio dos anos de 1990), a aliança da mistificação burocrática, significa que a burguesia perdeu o adversário que objetivamente a sustentava unificando de modo ilusório a negação da ordem presente. O proletariado não foi suprimido, como afirmam os intelectuais a serviço da sociedade do espetáculo. Ao contrário, ele se amplia com a extinção do campesinato e com a extensão da lógica do trabalho assalariado para os “serviços” e as profissões intelectuais – entre as quais a de artista. E o trabalho intelectual assalariado tende a seguir a lei da produção industrial da decadência, na qual o lucro do empresário depende da rapidez da execução e da má qualidade do material utilizado.

Resultado de imagem para guy debord
Guy Debord
Crítica 
A crítica à sociedade do espetáculo só terá consequência prática se apontar para a organização revolucionária. E tem que ser globalmente formulada contra todos os aspectos da vida social, que estão sob o encanto do fetiche da mercadoria. A cultura é a esfera geral do conhecimento e das representações do vivido. Numa sociedade dividida em classes, ela é o poder de generalização que existe em separado, como divisão intelectual do trabalho e trabalho intelectual da divisão. Mas a cultura é também o lugar da busca da unidade perdida. Nesta busca, a cultura como esfera separada é obrigada a negar a si mesma, produzindo-se como intervenção crítica da economia política. 
A crítica espetacular do espetáculo, funcional a ele, é um empreendimento da sociologia, que estuda a separação recorrendo às ferramentas conceituais e materiais produzidas pela separação. A apologia do espetáculo, ou publicidade, por sua vez, constitui um pensamento do não pensamento, um esquecimento explícito da prática histórica. O falso desespero da crítica espetacular e o falso otimismo da pura publicidade do sistema são idênticos enquanto pensamento submisso. Para destruir a sociedade do espetáculo é preciso pôr em ação uma força prática. A teoria crítica do espetáculo só se torna verdadeira ao unificar-se à corrente prática da negação da sociedade de classes. E esta negação, a retomada da luta de classes revolucionária, se tornará consciente de si ao desenvolver a crítica do espetáculo, que é a teoria das suas condições reais, as condições práticas da opressão atual. O espetáculo é a ideologia por excelência, porque expõe e manifesta em sua plenitude a essência de todo o sistema ideológico: o empobrecimento, a subordinação e a negação da vida real. O espírito do espetáculo é completamente despótico. Nunca a censura foi tão perfeita. Esta sociedade já não aceita ser criticada. O discurso espetacular silencia tudo o que é propriamente secreto e tudo o que não lhe convém. A ignorância dos espectadores nasce daquilo que o espetáculo ensina. O discurso do espetáculo não deixa espaço para resposta. A lógica só se forma socialmente pelo diálogo; não é fácil e ninguém quer ensiná-la aos espectadores. Por outro lado, nenhum drogado estuda lógica porque já não precisa dela e já não tem esta possibilidade. 
A preguiça do espectador é a mesma de qualquer intelectual, do especialista formado às pressas, que vai sempre tentar esconder os estreitos limites dos seus conhecimentos através da repetição dogmática de algum argumento de autoridade sem qualquer lógica. O discurso da sociedade do espetáculo é falacioso, enganador, impostor, sedutor, insidioso e capcioso. A maior exigência da máfia, onde quer que esteja, é estabelecer que ela não existe, ou que foi vítima de calúnias. Este é apenas o seu primeiro ponto de semelhança com o capitalismo e a sociedade do espetáculo.

segunda-feira, 17 de julho de 2017

Historiadora pesquisa o trabalho de médico brasileiro que articulou psiquiatria com segurança nacional

Segundo Luiza das Neves Gomes, doutoranda em História Social pela UFRJ, as ideias de Antonio Carlos Pacheco e Silva ajudaram a legitimar diversas ideias que caracterizaram o regime militar. 
                                         
Por Bruno Leal | Agência Café História 27 de junho de 2017
Disponível em 

 “Ao médico, é óbvio, cabe papel de grande relevo nesse combate e o dever de colaborar, com o mais ardoroso espírito cívico e patriótico, em tudo quanto concorra para a segurança nacional”. Assim escreveu o médico-psiquiatra Antonio Carlos Pacheco e Silva (1898-1988) em seu livro “Hippies, drogas, sexo, poluição”, publicado no Brasil em 1974 pela editora Martins Fontes. A trajetória e o trabalho de Pacheco e Silva, defensor da psiquiatria como compreensão das “doenças morais” que ameaçavam a segurança nacional no século XX, são os objetos de pesquisa de Luiza das Neves Gomes, doutoranda do Programa de Pós-Graduação em História Social da UFRJ (PPGHIS). 

Luiza Gomes - PPGHIS/UFRJ
Foto: Luiza Gomes - Luiza Gomes é doutoranda no PPGHIS/UFRJ. Foto: Bruno Leal. 
Em conversa com o Café História, Gomes explicou que sua pesquisa busca entender como os trabalhos de Pacheco e Silva e sua participação em diversos espaços sociais e políticos relacionam-se com os debates científicos ligados à higiene mental nas discussões que permeavam a Doutrina de Segurança Nacional (DSN) e a Doutrina de Guerra Revolucionária (DGR), ambas elaboradas nos anos 1950 e 1960. Luiza entende Pacheco e Silva como um “intelectual orgânico”, conforme categoria usada por Rene Armand Dreifuss “1964: a conquista do estado” (1981). 

Dreifuss afirma que nos anos 1960 no Brasil uma elite intelectual lutava pelos interesses do capital multinacional. Como consequência disso, acabou se formando um conjunto de agentes sociopolíticos e um aparelho civil e militar modernizante. Esses agentes, os tecno-empresários e os militares, muitos deles membros dos quadros da ESG, eram caracterizados por Dreifuss como os intelectuais orgânicos do novo bloco de poder em formação. Esses intelectuais serão os principais atores políticos para implementação do regime militar. Dreifuss, é importante dizer, se apropria do trabalho de Antonio Gramsci, para quem o intelectual orgânico é todo intelectual que, diferentemente do “intelectual tradicional”, é vinculado a um projeto de classe ou fração de classe – explicou Gomes.  

Um médico-psiquiatra “civil militarizado” 
Pacheco e Silva foi um dos pioneiros da psiquiatria militar brasileira. Formado em Medicina pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, produziu diversos estudos sobre eugenia e higiene mental, muitos dos quais buscavam demonstrar como o atraso social, o declínio produtivo e o comunismo eram consequências diretas e indiretas de doenças mentais e morais. Nos anos 1960, foi um dos principais difusores da DSN e da DGR no meio civil, além de defensor do regime militar instalado no país em 1964. Ao longo de sua carreira, escreveu livros, realizou palestras e conferências. Foi presidente da Liga Paulista de Higiene Mental (1926), Deputado Constituinte (1933-1934), professor da Universidade de São Paulo (1935-1967), membro da Escola Superior de Guerra (anos 1950 e 1960), vice-presidente do Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (IPES) e membro da comissão executiva da Aliança Renovadora Nacional (ARENA), além de membro de outros espaços que o ajudaram a legitimar e difundir suas ideias. 

Pensamento conservador e ditadura militar
A relação de Pacheco e Silva com o meio militar era bastante considerável, não só no âmbito da ESG, da qual foi aluno e conferencista, mas também na Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG), no jornal Notícia do Exército e no Centro de Preparação de Oficiais da Reserva do Exército (CPOR), onde circulavam publicações suas sobre Segurança Nacional. Para Gomes, Pacheco e Silva foi um “civil militarizado”.  Segundo a historiadora, o pensamento de Pacheco e Silva foi bastante pautado pelo conservadorismo. “Entre as décadas de 1920 e 1940”, ela explica, “seus trabalhos apontavam uma íntima relação entre o mundo laboral e a higiene mental”. Para o médico-psiquiatra, o rendimento de uma indústria se equacionava através do estado de saúde física e mental de seus trabalhadores, haja vista que um indivíduo corroído pelas “verminoses sociais” não poderia se tornar produtivo. 

Outro tema bastante presente em seus estudos nessa época era o “aperfeiçoamento da raça”, sempre pautado pela eugenia. – Pude verificar como Pacheco e Silva entendia os problemas sociais da época, exercendo juízos de valor e retratando determinados grupos enquanto entidades mórbidas, como judeus, muçulmanos, japoneses, ciganos e hippies. Ele via estes grupos como uma ameaça à ‘homogeneidade da população’ devido às suas características culturais e religiosas, que ele julgava perniciosas para a “raça em formação”. Na década de 1960, Pacheco e Silva se destacou quanto aos alertas que fazia à sociedade sobre o avanço do comunismo e da propaganda comunista no Brasil, cabendo, segundo ele, às elites do país cuidar das condições materiais e educacionais da nação para evitar a adesão às ideias revolucionárias. 

Gomes cita o caso de uma conferência proferida na ESG, em 1961, onde Pacheco e Silva mostrou grande preocupação com as “personalidades psicóticas” e “desajustadas” que estariam suscetíveis à influência dos comunistas e das táticas soviéticas. Essas ideias circularam em instituições como a USP, a FIESP, o Fórum Roberto Simonsen, o IPES, o Wolrd Anti-Communist League e diversos veículos de imprensa, como os jornais Folha de S. Paulo e O Globo. – Muitos dos valores pregados por Pacheco e Silva ganharam espaço no projeto da grande burguesia brasileira e multi­nacional que visava garantir seus investimentos pautados em um modelo de desenvolvimento modernizante. Valores que perpassavam pela a preservação da família, da escola, da harmonia no trabalho, da obediência às normas políticas e da religião cristã – disse a historiadora. 

 Fontes e descobertas 
Gomes, que é orientada pelo historiador Renato Lemos, está trabalhando com documentos encontrados na Escola Superior de Guerra (ESG), na Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG), no jornal Noticiário do Exército e no Centro de Preparação de Oficiais da Reserva do Exército (CPOR). A maior parte de suas fontes, no entanto, encontra-se no Museu Histórico Carlos da Silva Lacaz, da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. No fundo “Pacheco e Silva”, Gomes debruça-se sobre correspondências, fotografias, atas, recortes de jornais, laudos periciais, plantas arquitetônicas, regimentos, relatórios, artigos especializados, separatas de sua produção e originais, entre os quais manuscritos, relatórios e textos não publicados. Embora a pesquisa ainda esteja em seu segundo ano, a historiadora já encontrou diversos documentos interessantes. É o caso de um livro sobre psiquiatria militar escrito por Pacheco e Silva logo depois da entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial. Neste livro, financiado pelo Fundo Universitário de Pesquisa para Defesa Nacional, o médico discorre sobre os temas do recrutamento e das neuroses de guerra. Além disso, Gomes também destaca as atas de reunião da Liga Anticomunista Internacional, da qual Pacheco e Silva foi presidente na década de 1970, e um documento manuscrito de Pacheco e Silva idealizando a Associação dos Revolucionários de 64 e sua ata de Fundação e o Estatuto, que tinha como objetivo manter vivos os ideais da “Revolução Brasileira”.

domingo, 16 de julho de 2017

Antidepressivos, alívio ou dependência?



Woman taking prozac.


Um grande estudioso brasileiro de saúde mental apresenta as obras e pesquisas internacionais que estão contestando a eficácia de alguns dos medicamentos mais lucrativos da indústria farmacêutica

Paulo Amarante, entrevistado por Eliane Bardanachvili, no site do Centro de Estudos Estratégicos da Fiocruz

Não se pode medir depressão como se mede glicemia, anemia ou hipertensão. Por se tratar de problema para o qual não há um índice padrão de detecção, a depressão tornou-se um conceito maleável, posto a serviço dos interesses da indústria farmacêutica, para incrementar a venda de medicamentos. “Elegeu-se a depressão como doença a ser cada vez mais alargada, para abarcar situações da vida, como conflitos, desgosto, desemprego, separação, luto, e formatar como doença”, analisa nesta entrevista ao blog do CEE-Fiocruz o sanitarista Paulo Amarante, vice-presidente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), pesquisador do Laboratório de Estudos e Pesquisas em Saúde Mental e Atenção Psicossocial, da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (Laps/Ensp/Fiocruz) e presidente honoris causa da Associação Brasileira de Saúde Mental (Abrasme).
Paulo alerta quanto aos malefícios das drogas prescritas, em especial os antidepressivos, que podem ser mais prejudiciais do que aquilo que buscam combater. “Começou-se a observar que esses medicamentos geram dependência e que sua suspensão e retirada é tão difícil quanto a de uma droga ilícita ou do álcool. E praticamente não há serviço especializado no mundo nesse tipo de desintoxicação”, aponta.
170710-Epidemia
Os laboratórios farmacêuticos, no entanto, denuncia Paulo, encomendam e financiam pesquisas que patologizem o comportamento das pessoas diante de dificuldades cotidianas. Ele cita, entre as investigações realizadas nesse sentido, a do jornalista americano Robert Whitaker, vencedor em 2010 do Investigative Reporters and Editors Book Award, pelo livro Anatomia de uma epidemia: pílulas mágicas, drogas psiquiátricas e o aumento assombroso da doença mental. O livro foi lançado no Brasil em 3/7/2017, pela Editora Fiocruz.

Co-editor, com o pesquisador Fernando Freitas, do site Mad in Brasil, versão brasileira do site Mad in America, para integrar a comunidade de língua portuguesa à rede internacional, ampliando o diálogo voltado à construção de um novo paradigma de assistência psiquiátrica, Paulo também está concluindo um novo livro, Lugares da memória: causos, contos e crônicas, sobre loucos e loucuras. O livro reunirá relatos de situações que ele recolheu ao longo de sua trajetória e terá prefácio do antropólogo italiano Massimo Canevatti e Eduardo Torre.
O tema dos medicamentos prescritos será discutido em seminário internacional, a ser realizado pelo Laps, com apoio do CEE-Fiocruz, nos dias 30 e 31/10 e 1º/11/2017, no auditório da Ensp. Robert Whitaker está entre os nomes já confirmados, ao lado de Lisa Cosgrove, professora de Psicologia Clínica da Universidade de Massachussets-Boston, co-autora com o jornalista do livro Psiquiatria sob influência: corrupção institucional, danos sociais e proposições para a reforma, e Jaakko Seikkula, da Finlândia, à frente da experiência do Diálogo Aberto (Open Dialogue), abordagem que reduziu os diagnósticos de esquizofrenia no país. “A vida não é uma norma. Cada vida é muito pessoal”, observa Paulo. “O normal não é o estado de bem estar eterno, permanente, ideal. O normal é a capacidade de reação às adversidades”.
Leia a seguir a íntegra da entrevista.
De que forma as drogas prescritas são um problema de saúde pública, e como está esse entendimento por parte da sociedade?
A questão das drogas prescritas tem sido levantada há alguns anos. Tinha-se a concepção de que o uso das drogas psiquiátricas como tratamento para os transtornos mentais era um grande avanço da medicina, da bioquímica, da indústria farmacêutica. Isso vem desde os primeiros tratamentos, logo após a Segunda Guerra Mundial, com o primeiro antipsicótico, a clorpromazina. De lá para cá, vieram sendo produzidos antipsicóticos de segunda e terceira gerações, antidepressivos etc. A ideia de avanço estava no imaginário dos profissionais. Isso, no entanto, passou a ser duramente questionado por psiquiatras que começaram a ver que não eram só as drogas psiquiátricas que possibilitavam uma ressocialização, como argumentava a indústria farmacêutica. A superação do modelo manicomial, da prática asilar, com a adoção de outras práticas de participação social, coletivização, resgatando os sujeitos, sem submetê-los a constrangimentos, segregação e exclusão, surtia efeito muito importante. Uma das marcas da ciência moderna é romper com essa explicação simplista de causa efeito, e, nesse caso, de que a causa do transtorno é uma alteração bioquímica. O homem é um ser complexo, e as alterações bioquímicas não seriam causa, nem necessariamente efeito. É algo simultâneo; o homem pensa a partir de processos simbólicos e neuroquímicos ao mesmo tempo. A teoria do distúrbio neuroquímico vem sendo criticada desde a década de 1970, e só não cai devido a um forte interesse mercadológico. No caso dos antidepressivos, principalmente, pesquisas muito sérias mostram que eles têm efeito igual ou inferior ao placebo, à psicoterapia ou a outras abordagens não científicas, como as religiosas. Há ainda os grupos comunitários que se organizam para dar suporte, os amigos…
Que pesquisas vêm sendo feitas nesse sentido?
No âmbito da própria medicina, temos o Peter Gotzsche [ver aquiaqui], um dos fundadores da Biblioteca Cochrane, que reúne pesquisas baseadas em evidências, e Joanna Moncrieff, da University College London, uma das fundadoras da Rede de Psiquiatria Crítica [ver aqui]. Há também as pesquisas realizadas por formadores de opinião, como o jornalista Robert Whitaker, que ganhou o prêmio de jornalismo investigativo, em 2010, com o livro Anatomia de uma epidemia: pílulas mágicas, drogas psiquiátricas e o aumento assombroso da doença mental, e a professora Lisa Cosgrove, da Universidade de Massachussets-Boston. A eficácia dos medicamentos passou a ser questionada, mostrando-se que podem ser auxiliares, paliativos, opcionais em alguma situação, mas não permanentemente, não exclusivamente. Mais recentemente, começou-se a levantar, ainda, que os antidepressivos causam dependência química, levando a uma síndrome de abstinência quando retirados, confundida com recidiva da depressão. Sem o medicamento, a pessoa volta a ter um quadro depressivo, como se fosse um retrocesso. Como, ao receber o antidepressivo novamente, ela melhora, essa melhora é associada ao medicamento, como se fosse a mesma coisa que uma infecção, que pode voltar se o antibiótico for suspenso. Na verdade, o que há é uma situação de abstinência.
Essas questões foram trazidas à tona pela OMS, que definiu a depressão como tema de campanha pelo Dia Mundial da Saúde de 2017, em abril…A OMS chamou atenção para o uso indiscriminado de antidepressivos, sua suspensão e retirada, tão difícil quanto a de uma droga ilícita ou do álcool. As pessoas não podem parar de imediato; têm sintomas de abstinência, como insônia, irritabilidade, palpitações, um mal estar por vezes insuportável. E não há serviço especializado no mundo em desintoxicação de antidepressivos; não há técnicas, estudos para lidar com isso, porque durante muito tempo a psiquiatria negou que esses medicamentos causariam síndrome de abstinência nesse nível. A OMS agora reconheceu pela primeira vez em dois relatórios importantes que os antidepressivos causam dependência e que seu uso da forma como se dá no mundo inteiro é um problema maior que a depressão em si. É como se disséssemos que o uso de antibiótico causa mais problemas que a infecção.
O problema das drogas prescritas representa, então, mais um embate entre saúde e mercado…É sempre a política de mercado versus a política de saúde. O trabalho de Robert Whitaker mostra como a indústria farmacêutica e a classe psiquiátrica estão mancomunadas para produzir, com pesquisas, uma elasticidade no conceito de depressão de forma a abarcar situações da vida cotidiana como conflitos, desemprego, desgosto, separação, luto. Essas situações começaram a ser formatadas como depressão. De fato, é possível moldar um comportamento. Como o ser humano é muito sugestionável, se dissermos que o que ele tem é depressão, ele passa a ter. Se a mídia mostra depoimentos de pessoas importantes  que dizem “fui depressivo”, “tenho TOC”, “tenho pânico”, isso causa um efeito…
O que é depressão, afinal? Ela existe como doença?
Não temos um critério definitivo. Não se pode medir depressão como se mede glicemia, anemia ou hipertensão, não há um índice padrão ou um índice médio permanente. Trata-se de um conceito, e, exatamente por ser tão maleável, tão subjetivo, tornou-se propício a que se elegesse a depressão como a doença a ser cada vez mais alargada. Pânico, obsessão-compulsão, transtorno do déficit de atenção e hiperatividade (TDAH)… No caso dessa última, os pais são levados a mudar seu olhar para ver na criança não alguém rebelde, em crescimento, mas alguém com uma patologia. Problemas cotidianos, escola fracassada – não apenas a escola pública brasileira, mas o modelo de ensino, sua proposta já superada –, pobreza, falta de recursos, baixos salários, tudo contribui para uma piora do quadro. Há também as situações de crise evolutivas, como entrada na terceira idade, iniciação na vida sexual, incapacidade de realização de ato sexual, saída da primeira infância para a puberdade, entrada na vida adulta, crises de identidade que podem vir acompanhadas de uma certa situação depressiva. E o comportamento das pessoas diante das dificuldades acaba sendo patologizado. O livro de Allen Frances, Salvando o normal [Saving the normal – ver aqui], é uma crítica a essa ampliação do conceito de anormalidade.
O que é importante entendermos sobre normalidade e anormalidade?A vida não é uma norma, há diferentes padrões, cada vida é muito pessoal. Podemos inventar a doença, ampliar o conceito de doença e patologizar todo o sofrimento, ou podemos inventar e ampliar o conceito de saúde. O normal não é o estado de bem estar eterno, permanente, ideal. O normal é a capacidade de reação às adversidades – pois elas existem – criando-se normas. A normatividade é a capacidade do ser vivo de criar normas; elas não existem de antemão. A saúde está em lidar com a situação de doença. O câncer é normal na vida; se há um corte no braço, o organismo encontra um caminho para o sangue passar, ou cria a cicatriz para organizar a pele, assim como cria a febre para reagir à infecção. Essa capacidade de criação de normas é muito pessoal. Há princípios gerais, mas nunca são universais e idênticos. O título do livro de Allen Frances, Saving de normal, que da tradução em inglês seria Salvando o normal, traz um conceito interessante: salvar o normal é admitir que existe o normal e que nem tudo pode ser considerando patológico. A editora no Brasil, no entanto, traduziu o título para Voltando ao normal, o que muda totalmente o sentido, pois parte-se do princípio de que há um padrão a ser buscado, ao qual retornar. Não estamos falando de padrão, mas de normatividade, da capacidade de criação de normas. Há muitos autores no mundo trabalhando nessa questão.
Existe um momento ou situação em que um cuidado especial torna-se necessário?Existem alguns princípios, como estado de tristeza profunda inexplicável, perda de ânimo, com ideias de ruína, autodesvalorização, autodestruição, ideias persecutórias, sem um fato relacionado a isso, sem que haja situação de luto, desemprego, separação, enfim, um disparador. Se uma situação foge à explicação racional, a um entendimento racional, podemos dizer que se trata de depressão. Mesmo isso, no entanto, deve ser relativizado. O DSM 5 [quinta e mais recente edição, de 2013, do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, da Associação Americana de Psiquiatria, que teve a primeira publicação em 1952, e lista categorias e critérios para diagnóstico dos transtornos mentais] diz que em algumas situações o luto a partir de seis meses já deve ser considerado patológico. Esse é um critério absurdo; como se o luto fosse comum em todas as sociedades e culturas. Os bororo fazem um ritual muito diferente do das viúvas espanholas, de origem latina. Minha mãe ficou um ano de preto, quando meu pai faleceu. Não era um processo individual, era cultural também.
A OMS contabiliza cerca de 300 milhões com depressão. Esse número seria superestimado, então?
Nesse caso, estamos falando dessa situação de patologização. Um dos trabalhos do Robert Whitaker, que foi o primeiro a apontar os reais interesses envolvidos nesse processo, mostrou que os laboratórios pagam milhões aos médicos para fazerem pesquisas e fundamentarem as situações de mal estar como patológicas. O sofrimento necessário, humano, é patologizado. Em outro livro seu, Psiquiatria sob influência: corrupção institucional, danos sociais e proposições para a reforma [ver aqui], Robert mostra como os laboratórios vão aos centros de pesquisa, financiam estudos e, ao longo do tempo, compram resultados. Ele conta como conseguiu, no Senado americano, acessar as contas das empresas, para comprovar que um pesquisador  chegou a receber um milhão e duzentos mil dólares em um ano para prestar consultoria a um laboratório, escrever artigos e fazer palestras indicando um medicamento que ele pesquisava daquele mesmo laboratório! Robert mostra por análise de discurso como os artigos eram escritos pelo próprio laboratório, não pelo pesquisador. Marcia Angell, que foi por muitos anos editora do New England Journal of Medicine e tem como um de seus grandes temas o medicamento psiquiátrico, também desmente os laboratórios, neste caso, quando alegam que os medicamentos são caros porque há grande investimento em tecnologia. Quem investe em tecnologia são os serviços públicos, quando  conseguem comprar as patentes dos laboratórios e produzir medicamentos acessíveis à população, ou as empresas privadas de tecnologia individual. Os laboratórios farmacêuticos não investem em tecnologia, investem fundamentalmente em publicidade.
Mas nem todo médico age de má fé ao prescrever esses medicamentos…Os laboratórios têm também estratégias para os médicos em seus consultórios. Uma é levando representantes para apresentação dos medicamentos, com amostras e brindes. Em alguns países, como Estados Unidos e Espanha há um movimento, o No, thank you, ou No, gracias, de médicos que não aceitam os representantes dos laboratórios. Você entra no consultório do médico, e está lá: a agenda é Prozac, a caneta é Prozac, o bloquinho é Prozac, o calendário é Prozac, e ele receita o Prozac, consciente ou inconscientemente. Os laboratórios também oferecem vouchers para jantares nas churrascarias mais caras da cidade, convidam para ir aos congressos no exterior, pagam as passagens, muitas vezes em primeira classe, pagam hospedagem. Nos congressos, dão notebooks de brinde, dão balas e chocolates dentro das embalagens de medicamentos, a caixinha do remédio com amendoim coberto de chocolate dentro. Tenho algumas guardadas. Isso é uma produção simbólica que tem influência na forma de prescrever.
Como romper com tudo isso?
Médicos, pesquisadores, professores teriam que ter um compromisso ético com o paciente e com a sociedade, não com os laboratórios farmacêuticos. É um princípio e deveria haver políticas públicas voltadas a isso. Os laboratórios públicos de pesquisa, ligados a universidades, não poderiam ter financiamento direto da indústria farmacêutica. Já pesquisei, apontei e encaminhei essa reivindicação para o Conselho de Medicina, mas não dá em nada. Esses laboratórios recebem dinheiro da indústria para encomendas específicas. Essa relação deveria ser intermediada pela Capes, pelo CNPq, para onde os laboratórios encaminhariam os recursos, constituindo o Fundo Nacional de Pesquisa. E as universidades concorreriam. Isso não pode ser feito diretamente com a indústria; coloca-se em xeque a autonomia do laboratório público. Presenciei a apresentação de uma pesquisa mostrando aumento assustador do diagnóstico psiquiátrico em São Paulo. Na hora, eu disse ao pesquisador: “Você me assustou, nem vou mais a São Paulo, pois a cidade está muito doente!”. E perguntei: “Você recebe dinheiro diretamente do laboratório farmacêutico?”. A pessoa respondeu que recebia, mas que isso não interferia em sua pesquisa. Eu disse que ela precisaria me provar que não interferia, pois o resultado da pesquisa mostrava que sim. Tanto a indústria farmacêutica, quanto as do tabaco e do álcool deveriam pagar um subsídio, um imposto a centros financiadores que, estes sim, acompanhariam as pesquisas. Aí sim, poderíamos pesquisar se a maconha tem efeito medicinal ou nocivo, se o uso de ritalina é ou não positivo, de forma independente.
Nesse embate entre saúde e mercado, como desmedicalizar sintomas, sem, no entanto, minimizar o sofrimento das pessoas? Afinal, a depressão é tida como doença silenciosa, em que as pessoas que sofrem não são ouvidas ou acolhidas. Somos criados na relação com o outro; nossa identidade está nessa relação. A necessidade de reflexão, introspecção, escuta é imanente, constituinte do sujeito. Essa, no entanto, não é uma questão exclusivamente médico-sanitária, somente do âmbito da saúde. As comunidades ditas primitivas são muito mais sábias nisso, com seus métodos de relações de vizinhança, de cooperação, para fazer frente a essa necessidade. Nós temos essas redes, mas não valorizamos! Na comunidade aqui do lado vemos uma mãe que perdeu um filho contar com uma rede de apoio, de solidariedade das vizinhas que vão dormir com ela, que levam um bolinho… Mas isso não é valorizado. A primeira coisa que se faz quando se perde alguém é tomar um antidepressivo para suportar a crise. O que é preciso, no entanto, é viver aquela crise, e as redes são importantes para isso. Mas como não se dá valor a elas, e o Estado não sabe como propiciar esse acolhimento por meio de uma política pública, e, ainda, como há uma quebra de relações de comunidade promovida pela televisão, pelo medo e pela insegurança, a Igreja acaba ocupando esse espaço. No meu bairro as pessoas sequer se cumprimentam dentro do elevador. Elas não se abrem em sua comunidade, vão para a Igreja fazer uma catarse espiritual ou vão procurar um médico. A questão da depressão é paradigmática, aponta para a ausência do outro, da rede de solidariedade nas grandes cidades. Com as perdas de vínculo, as pessoas ficam sós. O importante seria podermos restabelecer vínculos.

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