I m A g E m

I m A g E m

O velho do espelho

"Por acaso, surpreendo-me no espelho:
quem é esse que me olha e é
tão mais velho do que eu?
Porém, seu rosto...é cada vez menos estranho...
Meu Deus,Meu Deus...Parece meu velho pai -
que já morreu"! (Mario Quintana)

P E S Q U I S A

sexta-feira, 28 de abril de 2017

Radicais Livres


Gilnei Andrade passa a integrar o quadro de colunistas do portal novohamburgo.org  Formado em Licenciatura em História, Gilnei Andrade vêm enriquecer o quadro de colunistas do portal novohamburgo.org com o “Radicais Livres”, nele nosso leitor terá atualidades e reflexões sobre política semanalmente. Andrade fala do que será um pouco destas opiniões para reflexão dos leitores, “Um laxativo virtual para administrações empatadas que não fluem que retiram direitos e parcelam salários. E também para crises de legitimidade de administrações paridas por golpe de força jurídico-midiático”.

APRESENTAÇÃO:                                                                                                               
GiLnEi AnDrAdE, aos 55 anos e recém aposentado, é um jovem avô e ‘viejo militante’ de boas causas. Professor, historiador, militante social e dirigente político desde o final dos anos 70. Tem formação superior de Licenciatura em História pela Universidade Feevale. Fundador do PT e da CUT, presidente do PT NH por 5 anos, coordenador regional e candidato a vice-prefeito em 1996. Assessor na Câmara Municipal no período 1989/1992 e na Assembleia Legislativa RS de 1999 a 2009. Diretor do Orçamento Participativo, Diretor de Relações Institucionais e Secretário Geral de Governo e Relações Comunitárias da Administração Municipal de Novo Hamburgo entre 2009 e 2016.

domingo, 2 de abril de 2017

MUDA PT - POR UMA ESQUERDA DEMOCRÁTICA E SOCIALISTA

Essa é a tese apresentada pela Chapa MudaPT para  o PED Processo de Eleições Diretas do PT em Novo Hamburgo - RS no ano de 2017




Fora Temer! Diretas Já!
Cada vez mais o caráter classista e conservador do golpe fica mais claro, assim como a necessidade de uma alternativa política de combate. A linha política que essa consigna expressa dará confiança e novo potencial à mobilização popular. É o centro da tática do PT, o rumo que organiza e dá coerência ao conjunto das ações parciais na luta social e no parlamento. Define o campo democrático das forças com as quais estabeleceremos alianças e, consequentemente, veta qualquer aliança com forças golpistas inimigas.   
Os golpistas que colocaram Temer na presidência não têm legitimidade para governar, estão envolvidos até o pescoço com a corrupção, com o ataque generalizado às conquistas da cidadania e da classe trabalhadora. Tem, no entanto, uma forte retaguarda: a coalizão dos partidos da direita - PSDB e PMDB em primeiro lugar -, interesses econômicos dos bancos e grandes empresas nacionais e multinacionais, grandes meios de comunicação, como a Rede Globo. E ainda tem como base, no Congresso Nacional, uma maioria golpista e reacionária.


Unidade Para Derrotar o Golpe 
Os esforços do PT, neste período, devem estar dirigidos para a formação de uma ampla frente oposicionista, de caráter democrático-popular - ao nível social e parlamentar - que unifique as lutas contra as reformas neoliberais do Governo usurpador, de um lado, e de outro, promova todos os movimentos necessários para convocação de eleições diretas para presidente, visando por fim ao atual governo ilegítimo e golpista de Temer. Devemos propor às forças sociais e partidárias que compõem as Frentes Brasil Popular e Povo Sem Medo uma frente unificada para orientar todo o processo de luta para derrubar o golpismo e organizar comitês populares que tenham capacidade de mobilização e de tomada de decisão sobre os rumos das lutas. Essa frente unificada deve impulsionar bandeiras que acumulem forças para a resistência democrática brasileira. Por isso, para além da denúncia do golpe e a campanha pelas diretas, essa frente lutará contra as reformas trabalhista, previdenciária, orçamentária e do ensino médio, contra os retrocessos para a população negra, LGBT e mulheres, contra os abusos do Judiciário e Ministério Público e a entrega das riquezas nacionais ao capital estrangeiro, como o Pré Sal. 



Lula Presidente 
Devemos construir junto com as Frentes Brasil Popular e Povo Sem Medo, PCdoB, PDT PSOL, PCO e movimentos sociais e populares uma frente com o objetivo de eleger um governo democrático, popular, republicano e progressista, que revogará todos os decretos e leis golpistas e promoverá a convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte Soberana, com ampla participação popular e liberdade irrestrita de comunicação. Neste processo o PT há de apresentar ao debate das forças democráticas e populares a pré-candidatura presidencial do companheiro Lula. 




Um Partido Democratizado, Organizado pela Base e de Luta 
Para enfrentar o novo período, nosso partido precisa ser radicalmente democratizado, organizado pela base e voltado para a elaboração estratégica e tática. Ao mesmo tempo deverá integrar-se em um processo social amplo de reorganização da esquerda brasileira, estabelecendo relações regulares e fraternas com os partidos de esquerda, aprofundando a construção da Frente Brasil Popular e o diálogo com a Frente Povo Sem Medo, enfim um partido de lutas! 
O PT deve recuperar o caráter militante de sua política de finanças, de modo a ampliar sua fonte própria de recursos financeiros para além dos obtidos através do Estado (Fundo Partidário e contribuições de detentores de mandatos, gestores (as) e assessorias), bem como manter a determinação de estrito cumprimento de vedação ao recebimento de recursos de empresas. As finanças devem ser conduzidas com transparência.


 A Luta Contra a Corrupção 
Vivemos um período marcado pelo mais forte ataque ao PT desde nossa fundação. A campanha sistemática organizada por grandes meios de comunicação, com apoio logístico de setores do judiciário e, em outras frentes, com pesado financiamento empresarial nacional e internacional, tem o objetivo de “eliminar o PT” da vida política do País. Não se trata de debater os erros e acertos do partido e apresentar sínteses que reduzam a corrupção no Estado brasileiro, trata-se apenas de silenciar o partido que, durante quase quatro décadas, foi a voz dos trabalhadores, da juventude, das mulheres, dos negros, e de todos que lutam por mais direitos e contra todas as formas de discriminação e opressão.
O PT será mais impermeável a corrupção na exata medida em que lidere, com outras forças progressistas, a luta contra corrupção no Brasil. Não aceitaremos que os setores mais corruptos da sociedade brasileira, aqueles que por séculos se locupletaram do dinheiro público, tentem virar símbolos da miséria moral que eles próprios produziram.


Novo Hamburgo - Novos Caminhos 
Para quem deseja fazer um debate honesto a respeito do PT de Novo Hamburgo, da nossa derrota eleitoral de 2016 e do futuro do partido na cidade duas questões preliminares são fundamentais: não fizemos uma administração que comprometesse as chances de vitória e a divisão interna não foi determinante para o resultado eleitoral. 
O fator fundamental foi - sem dúvida - a campanha jurídico-midiática incessante contra o PT e nossos governos, que tinha e segue tendo como objetivo aniquilar definitivamente nossas chances de hegemonia social e de vitórias eleitorais fundamentais. O futuro do Partido dos Trabalhadores ainda está em aberto e ainda temos legitimidade social para resgatar antigos compromissos e buscar novos caminhos que nos recoloquem em condições de fazer a disputa social que se avizinha. Nossos próximos passos serão determinantes. E as velhas fórmulas e acordos estão sendo sepultadas, dia após dia, mesmo para alguns que não querem enxergar a nova realidade.



Nosso segundo período à frente da Administração Municipal teve erros, carência de debates mais profundos e de fóruns que auxiliassem na disputa social pela hegemonia da cidade. Teve também problemas na condução de obras e serviços. Todos estes problemas, aliás, existiram em maior ou menor medida também no nosso primeiro mandato. Afirmar que a vitória eleitoral de 2012 e 2013 consagrou o governo Tarcísio a ponto de apagar os erros cometidos e dispensar mesmo a possibilidade de comparações e avaliações é totalmente descabido. Também a derrota eleitoral em 2016 não fez desaparecer todos os acertos e esforços do bom trabalho realizado. Condenar sem julgar e considerar como fracasso todo trabalho realizado a ponto de cogitar uma confissão pública de culpa beira a insanidade. Ao afirmar e registrar isso em documento alguns companheiros mergulham num maniqueísmo raso e dão as costas a realidade dos fatos na tentativa de encaixotar os acontecimentos na estreiteza de uma avaliação imexível e pré-concebida. 
A Administração 2013 - 2016 foi rigorosamente uma gestão de continuidade e de aprofundamento nas mudanças estruturais que melhoraram a vida da nossa gente em áreas como saúde, educação, habitação, assistência social e tantas outras. Também é possível afirmar que não houve um só momento em que o então prefeito Luís Lauermann e o seu secretariado tenham rompido com nossos compromissos de classe ou com nossos compromissos programáticos.


O que justifica então uma divisão tão profunda e irreparável como a havida no PT de Novo Hamburgo? 
Primeiro é preciso afirmar: não houve descontinuidade no primeiro escalão da Prefeitura. Quase todo o Secretariado do Governo Tarcísio permaneceu no Governo Lauermann. E praticamente todos os dirigentes que se afastaram saíram por sua própria iniciativa. 
A honestidade do debate nos obriga a dizer que houve pouca nobreza política entre os grupos antagônicos que se formaram. Houve sim uma manifestação do ex-prefeito Tarcísio que verbalizou convictamente que desde o primeiro período o Governo Lauermann deveria seguir cem por cento as orientações do antigo mandatário. Este foi o início do conflito. Para um importante grupo de militantes era inaceitável este tipo de imposição. Porque a população de Novo Hamburgo não aceitaria o fato de ter votado num fantoche. Houve, mais do que tudo, uma disputa por espaços de poder na máquina do governo. E quando a disputa não se justifica na política torna-se necessário apelar para a exacerbação de fatos menores. Faz-se necessário criar disputas artificiais. 
Mesmo assim o resultado eleitoral de 2016, repetimos, não pode ser atribuído a este processo político de ruptura havido no PT. Nem mesmo o pequeno engajamento de largos setores do Partido na campanha majoritária ou segmentos do Partido que fizeram campanha para outros candidatos foram determinantes. Nem mesmo a postura adotada de priorizar apenas duas ou três candidaturas a vereança - nenhuma mulher - e depois assistir de camarote o esforço de convencimento e construção de uma nominata inteira de mulheres e da maioria das candidaturas masculinas determinou o resultado. Mas contribuiu para agravar ainda mais o ambiente interno da campanha. 



Por mais importantes que sejam as lideranças do deputado Tarcísio e do então prefeito Luís Lauermann não foi a divergência partidária interna que nos derrotou. Foi a conjuntura política nacional. Isto fica absolutamente evidente pelo resultado que obtivemos de norte a sul do país, sem exceções. Um resultado de derrota eleitoral grave. Um resultado que - apesar de alguns setores não enxergarem - foi de todos e atingiu a todos. 
Nossas diferenças internas são incompreensíveis para o cidadão comum e não foram levadas em conta na hora da decisão do voto. Nossa derrota não se deveu a uma má gestão ou à divisão interna. Mas o contrário não é verdadeiro. Ou seja: para que obtenhamos vitórias será necessária unidade interna, um novo programa, novos caminhos e novas alianças. O que precisamos, em síntese, é a construção da UNIDADE para que o PT MUDE! 



Um PT Unido capaz de Fazer Oposição ao governo do PSDB 
A construção da unidade do partido, para se ter sucesso nos embates com os nossos verdadeiros inimigos, é uma obrigação de todas(os) os(as) militantes. Essa unidade que a Chapa Muda PT busca, não significa que iremos “botar prá baixo do tapete” muitas atitudes incorretas e erros praticados por companheiros(as) da nossa e das outras tendências políticas do PT de Novo Hamburgo. 
Toda crítica que se faz, tem como objetivo colaborar para que a Unidade que se pretende seja fruto de uma relação sincera entre todos nós. Sem esconder as opiniões que temos sobre fatos internos que avaliamos incorretos ou injustos. A unidade nos fortalece!




Chapa MudaPT  Novo Hamburgo - RS - Anita Lucas de Oliveira presidenta 

sábado, 1 de abril de 2017

32. Leve as crianças pela mão



Leve as crianças pela mão
pelas trilhas do bem,
 nas curvas, na lama,
 pelas pedras soltas,
na estreiteza do caminho, 
sofra, chore, caleje teus pés
e sinta quase vomitar
a alma, de aflição, 
por não saber se estás agindo certo 
mas não solte a mão deles...



No futuro, no fim da trilha
tudo terá passado,
até o presente passado será,
mas nossos filhos terão 
 de passar, de novo,
pela mesma trilha, conduzindo 
pelas mãos outras criaturinhas ...



E mesmo que a neblina baixe  
e a chuva caia
com raios e trovões,
mesmo que a trilha suma 
eles vão saber, eles lembrarão,
vão sentir nossa presença
e o calor de nossa mão,
não irão se perder



e seguirão conduzindo
as próximas gerações
pelas trilhas do bem
por onde sempre passaram
os lutadores sociais e 
 os proletários - os melhores filhos -
da classe trabalhadora...

Gilnei Andrade
31 março 2017

sexta-feira, 31 de março de 2017

O povo yazidi grita por socorro

 A situação do povo yazidi é praticamente desconhecida entre nós. Muito pouco se conhece da sua história e dificilmente ouvimos falar deles em algum noticiário local. Mas não é assim em relação aos governos da Europa que conhecem muito bem a situação. Apesar de todas as advertências, em 2014, vergonhosamente permitiram que o DAESH (Isis Estado Islâmico) massacrasse mais de cinco mil yazidís no distrito de Singal, Curdistão Sul, noroeste do Iraque.




 A região curda (Kri), no Iraque, goza de autonomia sendo governada por Massud Barzani que sucedeu seu pai, Mustafá Barzani, que governou dos anos 60 até a sua morte em 1979. Singal está tecnicamente sob o controle administrativo do governo central do Iraque. A segurança do KRRG (Governo Regional do Kurdistão) e as forças militares estão presentes e ativas dentro do Singal. O ataque de agosto de 2014 foi facilitado porque as forças regulares de Barzan retiraram-se da zona, na noite anterior, levando tudo que puderam principalmente as armas deixando na mais absoluta solidão todos os habitantes do Singal. O DAESH entrou na região e massacrou milhares de yazidis. Outras milhares de mulheres e meninas foram sequestradas e vendidas como escravas sexuais em mercados do Iraque. Ainda hoje o paradeiro de cerca de tres mil mulheres é desconhecido. Outros cinquenta mil yazidís fugiram para as montanhas de Singal numa marcha desesperada em que tiveram de suportar a fome e a desidratação que maltratou principalmente as crianças e os idosos.

Mustafá e Massud Barzani


A única ajuda que receberam veio das Unidades de Auto-Defesa das YPG-J (que estavam lutando contra o DAESH - Estado Islâmico em Rojava / Síria) e das milícias do PKK - Partido dos Trabalhadores do Kurdistão. (O PKK é um movimento que permanece inexplicavelmente na lista de organizações terroristas, á pedido da Turquia e com a anuência dos EUA e da Europa.) A presença do PKK na região é intolerável para o governo de Barzani e seu aliado regional Erdogan, presidente da Turquia. Cento e oitenta mil yazidís foram deslocados forçosamente e encontram-se espalhados em vários centros de refugiados da região. As mulheres que sobreviveram decidiram organizar-se e juntaram-se as forças de Auto-Defesa e criaram suas próprias (YBBSs / YJS) num juramento que não sofreriam outro massacre sem condições de reação e defesa.



Pois justamente nesse momento, exatamente agora, três anos depois a cidade volta a ser atacada mas desta vez não pelo DAESH mas diretamente pelas forças peshmergas de Barzani. Dias depois de Barzani declarar - em linhas gerais - que o povo do Singal devia expulsar o PKK da região para evitar problemas e comprometer-se a não aceitar nenhum tipo de coordenação ou participação nas YBBS/YJS as preparações para o ataque foram iniciadas. A primeira medida que assumiu o governo do KRRG (Governo Regional do Kurdistão) liderado por Barzani foi bloquear a única entrada para a região. Depois, confiscou todos os bens dos que tentavam sair do lugar e antes do ataque direto, impediu a entrada de qualquer tipo de ajuda, desde alimentos e medicamentos até autopeças.



Nesse momento uma grande marcha ocorre na Europa para chamar a atenção internacional sobre o que está acontecendo com os yazidis. Não apenas para que os Governos Europeus condenem os ataques mas para que não permitam que aconteça. A marcha começou na Alemanha e culminará na Bélgica,onde será entregue na sede do Parlamento Europeu um pedido expresso nesses termos. Trata-se de uma apelo desesperado porque ainda há tempo para agir.



A pergunta que o povo yazidi faz ao mundo é se desta vez vão impedir a violência antes que ela ocorra.

FONTE -  Marcha por Singal em                                    https://www.facebook.com/nathaliabenavidesss/media_set?set=a.10209561706903062.1073741985.1339170318&type=3

sábado, 25 de março de 2017

Tornavida tornador


Faz um mês que o furacão passou. Desses que a força da natureza apavora. Ainda assusta a lembrança de vê-lo por dentro. Naquele vazio do meio do tornado. Naqueles segundos antes que os corredores de vento, com suas forças levem tudo para o ar.



Olhar o todo depois que o tornado passou e ir aos poucos, bem aos poucos, percebendo a grandeza dos seus estragos. Um tornado remove o que é estável por baixo da terra. Pelas entranhas. E joga longe. Quebra. Enche de água, que junta com o todo e cobre tudo de lama. E a gente olha longe na vista, até o horizonte e percebe tudo fora do lugar. Carcaças. Lixos. Formas irreconhecíveis do que antes era concreto. Pedaços. Do avesso. Quebrado. Destruído. Desmontado. Desfacelado. E coberto de lama.
E não se sabe por onde começar, olhar o todo dá falta de ar. Como se o ar do mundo pesasse dentro dos pulmões e nosso corpo pendesse pra frente. E se o olhar periférico dá vertigens, o olhar minucioso – aquele que olha os detalhes, que calcula os segundos que o tornado levou para passar, a força dos ventos e a velocidade que atingiu o solo – dá frio. Como se um sopro de gelo diminuísse a velocidade do coração em bombear sangue para o resto do corpo. E as extremidades funcionam sem vitalidade, estranhas ao novo ritmo do metabolismo. 



Então os dias após o tornado começam a passar e é difícil perceber com clareza quando é dia ou noite. A lama fez muita poeira e uma camada grossa cobre o céu. O misto da falta de percepção das horas com a falta de referências estáveis das coisas agora reviradas, faz com que habitemos o limbo. Esse espaço onde não agimos por falta de entendimento do passo seguinte. Observamos. Procuramos por pedaços de carcaças que sejam possíveis reconhecer e aos poucos começamos a reconstruir mentalmente o lugar das coisas, para buscar uma direção.
O processo de reconstrução desse espaço é lento. Quando reconhecemos um objeto, limpamos ele e decidimos se ele volta para o lugar anterior, se ele ganha um novo espaço ou se ele vai fora. Tem objetos que não são mais úteis. Tem objetos quebrados que a gente deixa de lado porque talvez daqui a pouco a gente encontre a parte que falta e tem objetos novos, que o tornado trouxe consigo de outros lugares.


Mas não tentamos limpar toda a lama de uma só vez. Até porque esse pó não sai instantaneamente. A gente começa tirando a camada mais grossa com uma pá. A segunda camada varrendo. A terceira com um pano úmido e ainda assim permanece uma camada fina que a gente percebe algumas horas depois de ter limpado. 
É difícil limpar e organizar as coisas sem ter ideia da dimensão do que a gente tem que organizar. Quão além do horizonte os estragos do furacão chegaram? Foco. Escolhe um objeto. Limpa. Define o que fazer com ele. Foco. Outro objeto. Limpa. Define o que fazer com ele. Nunca o todo. 



O lugar inteiro está cheio de lodo e o processo é lento. Tem algumas pessoas limpando também e tem outras fazendo castelo com a lama. Durante esse um mês vários ventos fortes assustaram. Alguns ventos conseguiram derrubar coisas que já haviam sido ajeitadas e o temor em relação a isso é que um novo furacão se aproxime.
Não sei quantos meses levarão para que a lama vá embora. Até que as coisas se “normalizem” nessa nova forma de organização. De um novo lugar, que não nega a passagem do furacão, pelo contrário, se reconhece mais forte em função dele. E que tem suas raízes rasas, recém replantadas, como esperança de novos frutos. Mas com o entendimento que nem toda planta sobrevive ao replantio. Enquanto isso tem brotos novos, nascidos pelas brechas, depois da tormenta e que já nascem entendendo esse espaço como o mundo real. Como ele é.

                                                                                                   Thais Andrade

quinta-feira, 16 de março de 2017

31. DESAGRAVO AO JORNALISMO PERSEGUIDO

Esse é um manifesto sincero de desagravo e reconhecimento a importância social e política do jornalismo que não pode ser alvo de socos e chutes na bunda ou qualquer outro tipo de perseguição ou agressões por pior que seja sua qualidade e por mais desleais e mentirosos que sejam alguns profissionais que o exercem; 

O jornalismo não pode ser perseguido mesmo que o jornalista esteja de roupa de palhaço, de bailarina ou de mergulhador de aquário porque o jornalista pode até ser um palhaço mas os palhaços não podem ser jornalistas; 

O jornalismo não pode ser ameaçado mesmo que o jornalista seja do tipo que arrasta seus filhos e sobrinhos para verdadeiros "programas de índio de cinema" porque o jornalista é pai e tio mas nem todos pais e tios são jornalistas; 

O jornalismo deve ser respeitado mesmo quando, travestido, torna-se 'jornalismo opinativo' trazendo opiniões que ninguém pediu, versões que ninguém acredita e fatos que ninguém corrobora pois é melhor um jornalista de opiniões reacionárias e contraditórias ativo do que uma sociedade cheia de opiniões sem um jornalista para defende-las ou ataca-las; 

 O jornalismo deve ser resguardado mesmo quando o profissional escreve para um blog que só sua mãe e tias acompanham ou para uma rádio comunitária que ninguém lembra a frequência pois não importa o 'contiúdo' o que importa mesmo é garantir o direito de escrever e falar no caso de surgir alguém que queira ler ou ouvir; 

As administrações públicas (a de Novo Hamburgo também) e os poderes constituídos devem preocupar-se em garantir a integridade física e mental dos jornalistas quer estejam no inicio ou fim de carreira, gozem de boa ou má forma física, vistam-se bem ou de forma andrajosa, portem-se de forma ética e educada ou não, porque maus jornalistas vão passar ou vão empreender noutras áreas mas o verdadeiro jornalismo deve permanecer. Tem que permanecer.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Entrevista com combatente brasileiro em Rojava

Em janeiro o Comitê de Solidariedade à Resistência Popular Curda de São Paulo entrevistou Bal Dilsoz, brasileiro que está combatendo junto aos povos de Rojava e outros internacionalistas no Norte da Síria. Confira a seguir:
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Comitê: Qual o seu nome ou como podemos te chamar?  Bal Dilsoz:  Meu nome é Baz Dilsoz, mas pode me chamar de Heval Baz.
Comitê: Desde quando você está em Rojava?   Baz: Desde o ano passado (2016).
Comitê: Você se envolvia em política no Brasil? Segue alguma linha ideológica definida? Baz: Militei em um partido por quase seis anos, hoje estou num limbo ideológico entre o distributismo de esquerda e o Apoismo (segue teoria desenvolvidas por Abdullah Öcalan, conhecido como Apo entre os curdos).
Comitê: Qual o motivo que te levou a combater por Rojava? Baz: Por que aqui é a maior experiência revolucionária do nosso tempo, e por causa da monstruosidade do estado islâmico e da República da Turquia.
Comitê: Você concorda com o projeto do confederalismo democrático? E qual importância vê no que está acontecendo em Rojava atualmente? Baz: Sim, concordo e acho uma pena que no Brasil não se conheça essa corrente política. Pra mim, Rojava representa a esperança de um mundo melhor na nossa geração.
Comitê: Pode falar um pouco sobre seu time e batalhão e onde atuou. Baz: Passamos por vários Tabur (batalhão) aqui, entre infantaria ligeira, armas pesadas e logística. Trabalho não falta.
Comitê: O que você e seus companheiros esperam para o futuro próximo, na Síria e internacionalmente? Baz: Esperamos a democratização da Síria e sua unidade no federalismo, a derrota do fascismo de Erdogan e vemos com esperança as agitações revolucionárias em diversas partes do globo.
Comitê: Muitos internacionalistas atuam em Rojava também com o intuito de trazer acúmulo revolucionário para seus locais de origem, pode falar sobre isso e se acredita que parte dessa experiência pode se internacionalizar e aproveitada em um país como o Brasil. Baz: É verdade. Muitos de nós queremos adaptar as experiências daqui em nossos países de origem. O confederalismo democrático não está confinado ao Curdistão, pelo contrário, é um projeto pro mundo todo. Ele trás soluções diretas aos problemas causados hoje pelas nações-estados, e tem sobrevivido às provações práticas.
Comitê: Você aprendeu kurmanji, como se comunica?  Baz: Entre os estrangeiros falamos em inglês, geralmente. Mas todos aprendemos um pouco de Kurmanji. O quanto vc aprende depende somente da sua dedicação: tem hevalên que em três meses já conversam com os curdos, e tem outros que passam dois anos aqui e só falam "roj baş".
Comitê: Quais são as condições materiais dos locais onde vocês atuam hoje, existe dificuldades com alimentação, água potável, medicamentos e que tipos de restrições vocês sentem devido ao embargo do KRG, exemplo? Baz: Os soldados da logística do YPG são verdadeiros heróis, eles não deixam faltar nada para nós. Equipamentos, água, comida e remédios estão sempre disponíveis, mas por causa do embargo, a qualidade nem sempre é das melhores. O KRG é uma associação de criminosos, capangas de Erdogan. Seu objetivo agora é derrubar o governo revolucionário e colocar em seu lugar outra marionete do ocidente. Bom, que tentem, nós somos madeira que cupim nenhum pode furar.
Comitê: O que mais te chamou atenção nesse período? Baz: A consciência dos curdos sobre a revolução. Impressiona, só estando aqui pra saber.
Comitê: Chegou a participar de ações militares junto com combatentes mulheres? Baz: Sim, e acredite, elas são o demônio! O papel delas na luta é decisivo, são combatentes espetaculares.
Comitê: Se puder nos relatar algum acontecimento que teve junto com seu tabur pra tentarmos entender um pouco do que passa por aí. Baz: No front 103% do tempo é tédio, com 4% de margem de erro. A maior parte do tempo se faz trabalho de sentinela, se estuda e se toma chá. Mas, ao nascer e ao pôr do sol, a cobra fuma.
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“A revolução de Rojava é uma revolução das mulheres” –      Melike Yasar

Tradução: Comitê de solidariedade aos povos do Curdistão-RS.
Um silêncio forte, mas sutil é implantado durante meses sobre o Curdistão, especificamente na região de Rojava fronteira norte com a Síria e a Turquia. Os combates entre as milícias guerrilheiras da Unidade Proteção Popular (YPG / YPJ) e os mercenários do Estado Islâmico (EI) continua nas aldeias e cidades. Quando em janeiro de 2015 as forças EI foram expulsas da cidade curda de Kobanî, um processo de aprofundamento da revolução começou naquela região. 
Sob a liderança do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), o norte da Síria prevê uma nova forma de fazer política. Claro, a grande mídia silencia este fato de forma sistematicamente. Para a grande mídia, a parafernália militarista de coalizão (CI), liderada pelos Estados Unidos que bombardeia a área é muito mais atraente do que a organização de pessoas de diferentes nacionalidades que vivem em Rojava.
Melike Yasar, representante do Movimento Internacional de Mulheres curdas (MIMK), falou com o Marcha, sobre um processo aberto e em construção e, como ele se desenvolve no Curdistão sírio. O papel fundamental das mulheres para construir a revolução, a influência da vitória nas outras regiões curdas e, o futuro do Oriente Médio foram alguns dos temas discutidos.
A força das mulheres
Na linha de frente de combate estão elas. Os meios de comunicação às demonstram radiantes, quase como modelos de publicidade. Outras mídias, de redução deliberada e direta. As mulheres curdas, com seus rifles sobre os seus ombros, são uma parte fundamental de uma revolução. 
Yasar resume: “A revolução é uma revolução Rojava mulheres. A liberdade das mulheres está no cerne do paradigma do sistema Confederal. A resistência das mulheres em Rojava não começou agora, mas é o resultado da luta de muitos anos.” Assim, a referência de MIMK resume a importância das mulheres na implementação do Confederalismo Democrático em Rojava, a ideologia que rege o PKK (PYD, no norte da Síria) e que coloca em um duro questionamento as linhas políticas clássicas do Oriente Médio.
“A liberdade das mulheres significa liberdade para o povo”, diz Yasar-. Antes do proletariado, as mulheres foram o primeiro setor social oprimido. Todos os movimentos sociais e as revoluções do século XX defendeu o direito das mulheres, mas deixavam a solução para após a revolução. “Para o movimento curdo, isso foi como uma lição, ele analisou todas as revoluções e, definiu que o problema da mulher, será resolvido dentro da revolução e não após a revolução.”
Referindo-se Rojava, Yasar diz que apenas 10% das mulheres estão lutando contra o Estado islâmico e, o restante é dedicado à política e a construir uma nova sociedade, no meio de uma feroz guerra de agressão. “Em Rojava as mulheres foram às forças que armaram o sistema confederal, não somente com a luta armada em si. 
O mundo só conhece a luta armada das mulheres curdas, mas essa não é a única realidade. O mundo deve saber que as mulheres que têm armas em suas mãos é como estivessem segurando uma caneta também. A força das mulheres foi a mudança fundamental no Curdistão “.

Rojava hoje
Reconstruir um território devastado. Essa é a premissa do movimento curdo no norte da Síria. E reconstruí-lo com base no anti-estatismo, comunitarismo e na inclusão democrática do povo. Tarefa difícil, mas que ainda está de pé em Rojava. Para Yasar, “após a vitória em Kobanî, nas aldeias e em todos os movimentos há muitos mais esperança. Da mesma forma, ainda há muitos conflitos e guerras e, a ameaça ainda não desapareceu “.
A representante curda garante que todos os países do Oriente Médio “tem um plano diferente para Rojava”, enquanto o EI “não é um movimento que luta apenas contra os curdos, mas é uma organização criada pelos países capitalistas para reordenar a região ao seu gosto.” “Isso mostra que o Estado islâmico não só luta contra os curdos, mas que luta para destruir o novo sistema nascido em Rojava.”
“As pessoas tem consciência deste novo modelo e o defende com toda força, porque é o único modelo que elas e eles podem se sentir livre e que este pertence a eles”, diz Yasar referindo-se a Confederalismo Democrático. “Você tem que saber e ser claro que este modelo é anti-capitalista, por isso os países capitalistas tentarão destruí-lo”, diz ela. 
Ela acrescenta: “O Confederalismo Democrático não se constrói após a guerra, mas na guerra. Quando a guerra civil começou na Síria a primeira coisa que fizemos foi tirar os homens de Assad para construir esse sistema em Rojava. Esse modelo é o terceiro caminho, nem com o regime de Assad e nem com os grupos terroristas. O povo curdo sabe que trouxe esse novo modelo democrático com respeito as mulheres, jovens e para todas as pessoas.
Muito antes de Rojava se declarar autônoma em 2013, o movimento curdo construiu o germe do que se esta vendo agora. “Para que possa funcionar- explica Yasar-, nos bairros se fazem seminários para informar sobre este sistema, que se baseia em que todos os povos possam viver juntos. Nos bairros, nas aldeias, nos campos foram construídas assembleias. Dentro deste sistema, a liberdade das mulheres é uma importante guia. As mulheres colocaram uma dinâmica neste sistema e isso deve ser visto como consequência da luta do movimento curdo por 40 anos.
O impacto no Oriente Médio
“O povo do Oriente Médio, especialmente nos últimos anos, está vivendo uma cultura de resistência com a qual eles querem mudar o sistema em que estão vivendo”, diz Yasar. Sem dúvida, na região cresce as brigas internas e a interferência dos EUA. Os confrontos entre regimes mais ortodoxos, como a Arábia Saudita e Turquia, com Irã e Síria marcam os últimos tempos. No meio, o povo curdo procura seu destino.
Os povos do Oriente Médio “desejam modificar os regimes atuais, mas ainda não há alternativa própria - remarca a representante da MIMK-. A resistência do povo do Oriente Médio provocou respeito, mas nos exemplos da Líbia, Tunísia e Egito havia falta de alternativa. Portanto, o modelo Rojava dá muita esperança a muitos povos do Oriente Médio, esperança que um novo sistema pode ser construído. Os Estados sem dúvida não vão aceitar, porque este projeto é de um sistema é anti-Estado.”
Yasar afirma que “em Rojava não foi simplesmente aproveitar o momento, mas que o sistema já tinha uma base. Não podemos negar que a guerra civil na Síria nos deu a chance de colocar para funcionar o sistema, mas também para defender esta terra, porque naquela época os curdos necessitavam muito dela. Sabíamos que as decisões que tomariam os países imperialistas podiam afetar negativamente o povo curdo, mas, a vitória em Rojava afetou ainda mais e de forma positiva a todos curdos”.
As incógnitas sobre o que vai acontecer no Curdistão sírio e sua influência na região permanecem latentes. Algo de novo parece emergir no Crescente Fértil, mas perigos espreitam ao redor e contradições. Até agora, a maior defesa da revolução de Rojava é dada pelas próprias pessoas que vivem nesse solo. O poder para consolidar este processo irá definir o futuro.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Como funciona a engrenagem das notícias falsas no Brasil

"A venda da publicidade costuma ser feita por agências especializadas ou via ferramentas como o Google AdSense, que seguem a lógica de um leilão: o site diz o preço mínimo que pretende receber por anúncio e qual modalidade prefere, sendo as mais comuns CPM (custo por mil impressões, que considera o número de visualizações) e CPC (custo por clique, em que o pagamento é calculado em cima de quantas vezes o anúncio foi clicado)".

Ilustríssima FSP
FABIO VICTOR  19/02/2017  02h00


Como funciona a fábrica de títulos sensacionalistas e inverdades que se disseminam nas redes sociais. Sites faturam de acordo com a audiência, que conteúdos apelativos impulsionam. Pesquisas mostram que a maioria dos leitores tem dificuldade em distinguir boatos de informações confiáveis.

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Leticia Provedel já tinha Beto Silva entre seus contatos telefônicos e recebia dele correntes e outras bobagens que costumam circular num aplicativo de celular. Especialista em propriedade intelectual e advogada de Gilberto Gil, ela conversara com Beto por telefone duas vezes, em 2015 e em 2016, para avisá-lo de que seria processado caso não retirasse do ar inverdades sobre o cantor publicadas no site Pensa Brasil. Beto, dono do site, pagou para ver. Às vésperas do Natal passado, o Pensa Brasil publicou uma notícia com o título "Lula lutou muito pelo Brasil, não merecia esse juizinho fajuto, diz Gilberto Gil", ilustrada com uma foto do artista. O "juizinho fajuto", dizia o texto, era Sergio Moro. Como jamais afirmara aquilo sobre o magistrado da Lava Jato, Gil entrou na Justiça contra o Pensa Brasil e o Facebook. Pedia a retirada imediata de todos os links e compartilhamentos da notícia falsa.
Citando decisão do ministro Herman Benjamin, do Superior Tribunal de Justiça, segundo a qual "a internet é o espaço por excelência da liberdade, o que não significa dizer que seja um universo sem lei e infenso à responsabilidade pelos abusos que lá venham a ocorrer", o juiz Carlos Saraiva, do Rio de Janeiro, deferiu o pedido de Gil. A liminar saiu numa sexta, 23 de dezembro de 2016. No dia seguinte, o conteúdo foi removido. Gil decidiu manter uma ação de indenização por dano moral.
Essa e outras notícias falsas sobre críticas do cantor a Sergio Moro haviam chegado ao conhecimento do juiz da Lava Jato. Quem se encarregou de desfazer a mentira foi o jornalista Jorge Bastos Moreno, amigo de Gil, ao final de um evento público com o juiz. Admirador da obra do cantor baiano, Moro gostou de saber. Ao receber a decisão da Justiça do Rio, Beto alegou que apenas reproduzira o conteúdo de um site parceiro.

TEIA

Em entrevista à Folha, o dono do Pensa Brasil deu outra versão: disse que três fontes, todas representantes de movimentos pró-impeachment de Dilma Rousseff (PT), haviam visto um show de Gil em que ele dissera a tal frase contra Moro. "Buscamos de todas as formas, mas não conseguimos um vídeo desse show." Alberto Júnio da Silva, 37 anos, vive em Poços de Caldas, sul de Minas, onde é conhecido como Beto Silva - ou Beto Louco - o apelido, ele diz, foi dado pela "coragem de denunciar" problemas da cidade.
Beto é hoje o integrante mais ativo e barulhento de um trio que se formou em Poços e logo alçou a nível nacional o negócio do grotesco nos meios digitais. Seus sites integram uma teia de páginas que disseminam pela internet informações falsas e/ou de teor sensacionalista – uma pandemia conhecida no mundo todo sob o rótulo de "fake news" (notícias falsas) e que passou a chamar a atenção devido a sua influência em votações no Reino Unido e nos EUA, no ano passado.
Luciano Vieira e Luciano Moura são os outros integrantes do trio, que se uniu no início desta década em torno da marca Pensa Poços. Criada para tratar de temas da cidade, já batizou um jornalzinho, uma webrádio e uma página no Facebook –que hoje Beto toca sozinho, após o grupo ter rachado.

Pensa Brasil, Brasil Verde e Amarelo, Diário do Brasil, Folha Digital, Juntos pelo Brasil, Jornal do País, Saúde, Vida e Família, Você Precisa Saber, Em Nome do Brasil, Folha de Minas, The News Brazil e Na Mira da Notícia são sites que estão ou estiveram recentemente no ar com características semelhantes. 

Foram criados por membros do trio ou por alguém próximo a ele – em alguns casos, um deles registrou o domínio e cedeu para parceiros desenvolverem os sites. Se há problemas com uma página, ela é fechada, e logo reaparece sob um novo endereço.
"É preciso talento até para criar um domínio", comenta Vieira, que tocava o Brasil Verde Amarelo até janeiro, quando, segundo conta, o Google lhe informou que ele perdera sua conta por violar políticas de conteúdo da empresa. Ele atribui o revés ao espalhafato do ex-parceiro Beto, a quem dirige termos pouco amistosos.
Vieira, que hoje vive em Lavras (MG), mantém uma página do Brasil Verde Amarelo no Facebook e está associado aos sites Jornal do País (disse que o domínio é dele, mas que amigos cuidam da página, na qual há várias postagens em seu nome) e Juntos Pelo Brasil (afirmou que não é dele, mas aparece no expediente como diretor e atende o celular registrado na página). A reportagem não conseguiu contato com Luciano Moura. 

Na eleição presidencial de 2014, ele teve seus 15 minutos de fama quando a campanha de Aécio Neves, candidato pelo PSDB, acionou o Ministério Público para investigar o site Poços 10, que atacava o tucano e a família dele. Moura era um dos autores do site – que não existe mais – e fazia a página de um vereador petista da cidade. As ações de Beto Silva e da rede de Poços de Caldas, contudo, não se guiam exclusivamente por motivos político-ideológicos. Na cidade, o Pensa Poços já atacou (e defendeu) políticos de todos os matizes. A teia abriga páginas explicitamente de direita (como era o Brasil Verde e Amarelo), outras pró-Lula e pró-PT (caso do Em Nome do Brasil) e ainda outras que atiram para todos os lados.
O Pensa Brasil, maior site de Beto, está nesse último segmento. Costuma ser rotulado como de direita e prosperou com a debacle petista, mas volta e meia ataca Aécio e o governo Temer (PMDB). O que une esses sites é a busca por cliques. No mundo digital, clique é dinheiro. E, quanto a isso, o Pensa Brasil de Beto Silva não vai nada mal.
                                                                                                                                                                                                    


ANÚNCIOS

Sites lucram com a venda de anúncios. Quanto maior a audiência da página, mais ela ganhará com publicidade. Segundo a empresa comScore, que mede audiência digital, o Pensa Brasil teve em dezembro passado 701 mil visitantes únicos, com média de três páginas vistas por visita (ou seja, 2,1 milhões de páginas vistas/mês). Jornal mineiro mais acessado na web, o "Estado de Minas" teve no mesmo mês 2 milhões de visitantes únicos e 16 milhões de páginas vistas.
A comScore registra que, em março de 2016 – mês da maior manifestação pró-impeachment e da condução coercitiva do ex-presidente Lula -, o Pensa Brasil alcançou 3,2 milhões de visitantes únicos e 10,7 milhões de páginas vistas. A turbulência política de 2016, aliás, foi uma "era de ouro" da audiência digital, da qual os sites de notícias falsas se beneficiaram à larga.
Beto Silva não quis dizer quanto ganha com o Pensa Brasil. Profissionais do mercado publicitário consultados pela reportagem estimaram que os anúncios do site rendam de R$ 100 mil a R$ 150 mil por mês, dos quais até 50% ficariam com o intermediário e o restante com o dono do site.
A venda da publicidade costuma ser feita por agências especializadas ou via ferramentas como o Google AdSense, que seguem a lógica de um leilão: o site diz o preço mínimo que pretende receber por anúncio e qual modalidade prefere, sendo as mais comuns CPM (custo por mil impressões, que considera o número de visualizações) e CPC (custo por clique, em que o pagamento é calculado em cima de quantas vezes o anúncio foi clicado).
Os anunciantes definem o perfil de público que querem atingir, mas não controlam em que site a propaganda será veiculada. A audiência é o principal requisito para quem anuncia; no caso de sites de notícias, não costuma haver verificação sobre a credibilidade do veículo ou a qualidade da reportagem. Em geral sob títulos berrantes, com notícias que embaralham verdade e mentira, o Pensa Brasil e seus similares se retroalimentam, com ajuda de páginas e perfis criados por seus donos no Facebook.

Em 6 de fevereiro, por exemplo, três dias depois da morte da ex-primeira dama Marisa Letícia, o Pensa Brasil publicou uma notícia com o título "Marisa fotografada na Itália. Morte da mulher de LULA é mentira, ENTENDA!".  O texto dizia: "Sem barreiras na internet e redes sociais, tanto notícias verdadeiras como falsas podem se espalhar rapidamente. Após a morte da esposa de Lula, Marisa Letícia, espalhou-se uma notícia de que a mesma não estaria morta (boato). Isto! Está [sic] correndo boatos de que Marisa esteja viva e foi flagrada recentemente na Itália". Em seguida, apresentavam-se detalhes da mentira, publicada dois dias antes pelo site Saúde, Vida e Família, sob o título "Marisa é fotografada na Itália e médicos contestam farsa de morte com caixão lacrado!!!". Este texto trazia o crédito "via agência de notícias".
No mesmo dia 6, logo após o Pensa Brasil publicá-la, a notícia falsa foi compartilhada no Facebook por várias das páginas ligadas a Beto Silva, por ele próprio e por perfis com indícios de serem falsos, como o de uma certa Debora Tavares Frayha, que só compartilha páginas do Pensa Brasil e é identificada como funcionária da Folha de Minas (que não existe, mas cujo domínio era de Beto Silva). E também por leitores reais.  
Outros títulos publicados nas últimas semanas pelo Pensa Brasil: "Donald Trump manda recado: '-Brasileiros, a Europa não precisa de visto, vão pra lá'" (3.fev); "DEA-USA e INTERPOL 'estariam' investigando Aécio Neves por tráfico internacional de drogas" (8.jan); "Advogado que desacatou Sergio Moro pode ir preso ainda hoje junto com Lula" (13.dez). Nenhuma delas apresentava elementos factuais que comprovassem a manchete.

NY, POÇOS

A maioria dos sites sensacionalistas é registrada fora do país, não identifica os autores dos textos e não publica expediente, endereço ou telefone para contato. O Pensa Brasil segue a cartilha quase à risca. Na seção Quem Somos, diz estar registrado no Arizona (EUA), avisa que "qualquer pessoa que se sinta ofendida" deve entrar em contato por e-mail e reproduz trechos da Constituição sobre acesso à informação, resguardo do sigilo da fonte e liberdade de expressão.  Numa exceção ao jogo de sombras, há, num canto da página, sob a mensagem "Envie sua notícia por WhatsApp", um celular de Poços de Caldas. 
Quem atende é Beto Silva. Na primeira ligação, logo no começo de uma conversa que se estenderia por uma hora e 40 minutos, Beto afirmou que estava em Nova York e que só voltaria ao Brasil dali a 15 dias. Seis dias depois, sem aviso, viajei a Poços de Caldas. No térreo de um edifício de escritórios no centro da cidade, está a sala que serve de base ao Pensa Brasil e ao Pensa Poços. Beto Silva estava sentado numa mesa diante de dois grandes monitores conectados à internet. Deu-se o seguinte diálogo:

"Oi, Alberto, bom dia. Sou o Fabio, da Folha de S.Paulo, tudo bem?"
"Ôpa, tudo bem?"
"Então você já voltou de Nova York. Voltou antes."
"Voltei. Voltei... que dia é hoje mesmo?"
"Hoje é terça."
"Terça. Eu voltei no domingo. Tinha muita coisa pra resolver aqui."


Conversamos por mais uma hora e meia. Beto Silva é magro e baixinho – tem cerca de 1,60 m. Seu rosto às vezes lembra o do cantor Chico Science (1966-1997), noutras o do ex-jogador Ronaldo Fenômeno. Estava, como sempre aparece em vídeos e fotos, de boné, corrente no pescoço e relojão dourado. Quando era mais jovem, relata, foi vocalista da banda de pagode Nascente do Samba - no Youtube, é possível vê-lo cantando e chacoalhando um afoxé. Diz ter brevê de piloto privado de monomotores. Gesticula muito enquanto fala, volta e meia cruza os braços ou os põe para trás, segurando a cabeça com as mãos, e tem expressões faciais intensas. Nas duas entrevistas, por telefone e ao vivo, expôs suas ideias sobre comunicação e defendeu seu método de trabalho.

"A questão é atrair, é o sensacionalismo. A mídia dos EUA e da Europa é muito sensacionalista. O problema é que, no Brasil, os pequenos sites se aventuraram a navegar pelo marketing digital para ganhar uma grana e começaram a sobressair em relação às grandes mídias, simplesmente por copiar o modelo de fazer notícia de uma forma sensacionalista", afirma. "O que fazemos são modificações [sobre o noticiário] para tornar a notícia mais fácil e interessante", diz Beto. "Quem tem de saber o que é verdade ou mentira é quem lê a matéria."
"Acredito que a verdade não existe. Isso é o meu ponto de vista. Existe o ponto de vista da Folha, cada um tem o seu. Quantas vezes os veículos de comunicação no Brasil tiveram que se retratar? Porque não existe uma verdade absoluta (...). A não ser que vire uma ditadura, em que a grande imprensa diga o que pode ou não." E assegura: "Todas as pessoas que procuraram o Pensa Brasil, quando a matéria não era verdadeira, nós retiramos ou nos retratamos. Aí você vai falar: 'Ah, mas depois que se publica já há um grande dano'. É, a gente corre esse risco. Todo mundo corre. Somos passíveis de erros". "O problema vai ser de quem está me tachando de 'fake news'. Minha preocupação é com meus milhares de leitores - eles é que me dão o feedback correto." "Tudo é business, tudo é dinheiro. Ninguém faz isso para contar historinha. Folha de S.Paulo, 'Veja', 'Globo', ninguém faz matéria porque gosta, é atrás do dinheiro que todo mundo tá correndo."

Durante as entrevistas, Beto também relativizou a verdade. Disse que é formado em Comunicação Social/Publicidade pela Faculdade Anhanguera de Campinas e que tem pós-graduação em marketing digital pela mesma escola. Procurada, a faculdade respondeu: "Não podemos confirmar que ele tenha sido aluno da instituição, pois não encontramos o seu nome no sistema da Anhanguera".
Afirmou que o Pensa Brasil assina agências de notícias, entre as quais a Reuters e a Folhapress, do Grupo Folha, que edita a Folha. Consultada, a Reuters informou que não há entre seus assinantes ninguém com o nome dele, tampouco seu maior site ou a Artpubli Comunicação, empresa registrada em nome da mulher dele. A Folhapress afirmou que Alberto Silva chegou a assinar a agência, mas nunca pagou mensalidades, e por isso o serviço foi bloqueado.
Beto disse também que o Facebook não responde nem por 20% da audiência do Pensa Brasil. Já a empresa de medição de audiência SimilarWeb registra um peso enorme desta rede: 60% da audiência do site vem de redes sociais e, neste universo, 97% vem do Facebook.

'RECEITA DO BOLO'



Não chega a ter 10m² a sala onde fica o QG do Pensa Brasil em Poços de Caldas. Além da mesa de Beto com os monitores, há outra com três laptops. Durante a entrevista, duas jovens que trabalham com ele, ambas na faixa dos 20 anos, voltaram do almoço. Pedi para entrevistá-las, mas Beto não permitiu. Argumentou que as moças, assim como outras duas com quem se revezam, são prestadoras de serviço e que, ademais, não poderia "dar a receita do bolo". Beto –que ressalta não ser produtor de conteúdo, mas "propagador"– diz contar com uma rede de colaboradores por todo o país.
Em sua própria cidade, Beto é capaz de enxergar a verdade absoluta. Na página do Pensa Poços, que define como um trabalho "100% de cidadania", posta vídeos com cobranças e denúncias inflamadas sobre problemas municipais. Num deles, afirmava ser "mentira deslavada" a manchete de um jornal local e acusava um vereador de "esconder a verdade do povo": era 1º de fevereiro último, mesmo dia em que Beto me disse que estava em Nova York, sendo que no vídeo ele brandia um exemplar do diário poços-caldense.
O tom estridente trouxe complicações na Justiça. Além da ação envolvendo Gilberto Gil, pelos menos outros três processos de indenização por dano moral foram abertos contra Beto Silva e parceiros – em dois deles ele já foi condenado. "A linha de conduta dele [Beto] é complicada. Ele trabalha com o propósito de denegrir alguém para depois chantagear. Quis fazer isso comigo, tentou me extorquir, saí fora, não tenho mais relação", disse Paulinho Courominas, ex-prefeito de Poços (pelo PPS, hoje no PSB). Beto nega a extorsão. Conta que, a convite de Paulinho, trabalhou na campanha estadual de Pimenta da Veiga (PSDB) ao governo de Minas em 2014 e que, por não ter sido remunerado pelo serviço, entrou com uma ação trabalhista contra o político local, mas perdeu. O ex-prefeito diz que Beto foi voluntário. Na cidade, Paulinho é apontado como um entre vários políticos a quem o grupo do Pensa Poços já foi fiel e com quem depois rompeu.

MACEDÔNIA

De uma perspectiva global, e com alguma licença poética, poderia se dizer que Beto Silva habita uma espécie de Macedônia tropical.
Veles, uma cidade de 43 mil habitantes (Poços tem 165 mil) no pequeno país dos Balcãs, ganhou fama no ano passado com a revelação de que se tornara um bunker de sites de notícias falsas sobre as eleições dos EUA. Tocados por adolescentes em busca do dinheiro de anúncios, os sites inventaram notícias sensacionalistas (em geral pró-Donald Trump) e geraram milhões de engajamentos (soma de curtidas, compartilhamentos e comentários) no Facebook, integrando um movimento que, para muitos, teve peso relevante na vitória do republicano.

Segundo um estudo do site BuzzFeed, as 20 notícias falsas sobre a eleição americana com maior engajamento no Facebook nos três meses que antecederam a votação geraram mais engajamentos (8,7 milhões) que as 20 notícias reais com mais reações publicadas por grandes veículos (7,3 milhões). O BuzzFeed brasileiro chegou a resultado semelhante em relação a notícias sobre a Lava Jato publicadas em 2016: as dez falsas com mais engajamento no Facebook (3,9 milhões) superaram as dez verdadeiras (2,7 milhões) –no "top ten" das notícias falsas, há quatro da turma de Poços, três das quais do finado Brasil Verde Amarelo e uma da extinta Folha Digital.

A pedido da Folha, o Monitor do Debate Político no Meio Digital, da USP (Universidade de São Paulo), mediu o engajamento de notícias no Facebook durante três momentos de 2016: a aprovação do impeachment de Dilma no Senado, a prisão do ex-deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) e a provação em primeiro turno da PEC 241, que fixou um teto para o crescimento dos gastos públicos federais. Os sites de notícias falsas são minoritários no ranking das com maior engajamento – das páginas da teia de Poços, só o Diário do Brasil aparece.

Pesquisa do Instituto Reuters para o Estudo do Jornalismo mostra que cada vez mais brasileiros de grandes centros urbanos usam redes sociais como fonte de notícias: eram 47% em 2013, índice que saltou para 72% em 2016.

Nos EUA, estudos recentes relativizam a influência das "fake news" na eleição de Trump. Um deles, do centro de pesquisa NBER (Birô Nacional de Pesquisa Econômica), concluiu que as mídias sociais tiveram papel "importante, mas não determinante". Foram apontadas como fonte de informação mais importante por somente 14% dos americanos (contra 57% da TV, por exemplo). Ainda assim, o fenômeno preocupa. "É fato que essas notícias falsas geram bastante engajamento no Facebook e que, segundo pesquisas, as pessoas estão propensas a acreditar nelas. Isso é surpreendente e constrangedor, e por isso espera-se que algo seja feito", disse à Folha Craig Silverman, editor de mídia do BuzzFeed norte-americano, estudioso do tema e autor de uma das principais reportagens sobre "os garotos da Macedônia".
Para ele, "qualquer atitude só será eficiente se atacar as vantagens financeiras de criar notícias falsas – e deve incluir as empresas que fornecem as plataformas que estão sendo usadas para criá-las e espalhá-las". De fato, corporações digitais e empresas de mídia em todo mundo começaram a se mexer.

ENCRUZILHADA

Um dos maiores desafios do percurso, observa Silverman, é "assegurar que qualquer medida tomada para coibir notícias falsas não afete a liberdade de expressão". É uma preocupação semelhante à de Patricia Blanco, presidente do Instituto Palavra Aberta, organização dedicada à promoção da liberdade de expressão. "Como garantir uma web livre e evitar que ela seja usada de forma criminosa é algo que temos de resolver. Mas não podemos deixar que o legislador, para proteger cidadãos, crie limites à liberdade de expressão."
Sancionado em 2014, o Marco Civil da Internet isenta de responsabilidade a empresa que abriga o conteúdo. Mas, segundo Leticia Provedel, advogada de Gilberto Gil, redes como o Facebook "têm obrigação de retirar do ar, se notificadas, a calúnia, a injúria ou a difamação, sob pena de conivência".
Vítima de notícias falsas, o jornalista e ativista Leonardo Sakamoto, da ONG Repórter Brasil e blogueiro do UOL, considera que, dada a extensão do problema, é necessária uma convenção global para regular a circulação de notícias na internet e a eventual responsabilização por excessos.
No ano passado, Sakamoto foi alvo de um texto difamatório abrigado no site de notícias falsas Folha Política (sem relação com a Folha). Segundo sugeriram documentos produzidos por ordem judicial, as empresas JBS e 4Buzz promoveram a exposição do texto por meio de anúncio pago no Google –elas negam. Autor do livro "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (Leya), o blogueiro defende também, como solução a médio prazo, uma "alfabetização midiática": a introdução, nos ensinos fundamental e médio, de noções sobre como detectar argumentos fraudulentos.
Soa bem atual. Um estudo do Instituto Paulo Montenegro e da ONG Ação Educativa mostrou que apenas 8% dos brasileiros em idade de trabalhar (entre 15 e 64 anos de idade) são capazes de se expressar por textos, de opinar sobre argumentos e interpretar tabelas e gráficos.
Nos EUA, pesquisa da Universidade Stanford com alunos de ensinos fundamental e médio e de faculdades revelou que a maioria é incapaz de diferenciar notícias produzidas por fontes confiáveis de anúncios e informações falsas. O historiador norte-americano Robert Darnton, professor emérito da Universidade Harvard, diz se opor a qualquer medida que envolva censura e sugere que, "a médio ou longo prazo, isso [o consumo indiscriminado de mentiras] acaba, se autocorrige; se melhorar a política, isso melhora também".
Darnton lembra que a disseminação de notícias falsas não é novidade. Já no século 6, conta, o historiador Procópio escreveu um texto secreto, chamado Anekdota. "Ali ele espalhou fake news, arruinando a reputação do imperador Justiniano e de outros. Era bem similar ao que aconteceu na campanha eleitoral americana."

FIDELIDADE AO GRUPO

Em artigo recente, a pesquisadora americana Judith Donath, do Centro Berkman Klein para Internet & Sociedade da Universidade Harvard, escreveu que, na era das redes sociais, não se compartilha e curte notícias apenas para informar ou persuadir, mas "como um marcador de identidade, uma forma de proclamar sua afinidade com uma comunidade particular". Interagir com uma notícia falsa, argumenta, pode enfurecer os de fora dessa comunidade, mas é um "sinal convincente de fidelidade ao seu grupo".
A psicanalista e jornalista Maria Rita Kehl lê de outro modo. "Como não sabemos o que fazer com algumas notícias que nos chocam, ética ou moralmente, passamos adiante com a sensação de estar participando, de alguma forma, da esfera pública. No fundo não é muito diferente da dona de casa que ouve uma fofoca e corre para o muro, a contar para a vizinha", afirma.
"A diferença", acrescenta, "é que o 'muro' hoje é a internet, e a fofoca que a vizinha quer passar adiante chega a milhares de pessoas. O que torna o problema mais complexo é que o mesmo dispositivo que serve para espalhar notícias falsas e arruinar a imagem de pessoas públicas, também serve para mobilizar campanhas de solidariedade, por exemplo".

FABIO VICTOR, 44, é repórter especial da Folha.