I m A g E m

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O Velho do Espelho

"Por acaso, surpreendo-me no espelho:
quem é esse que me olha e é
tão mais velho do que eu?
Porém, seu rosto...é cada vez menos estranho...
Meu Deus,Meu Deus...Parece meu velho pai -
que já morreu"! (Mario Quintana)

P E S Q U I S A

terça-feira, 22 de novembro de 2016

30. VIDAS CURTIDAS, VOZES DUBLADAS E SONHOS EXPORTADOS (parte III)

A memória do setor coureiro-calçadista: os trabalhadores do setor nos anos 1970 e 1980


Em Novo Hamburgo, no sul do Brasil, mesmo para aqueles que viveram e testemunharam as últimas décadas, alguns acontecimentos históricos permanecem desconhecidos ou parecem muito distantes. É necessário refletir sobre isso, pois, aqueles que não compreendem o passado estão condenados a repeti-lo. “Uma vez como tragédia e outra como farsa”, diria o velho Karl Marx. O presente trabalho apresenta resultados de uma pesquisa cujo principal objetivo foi compreender de que forma ashistórias de vida e as narrativas biográficas podem (re)construir o passado e colocar o sujeito como centro da História.

A percepção que a comunidade de Novo Hamburgo construiu da história do setor coureiro-calçadista foi fortemente influenciada pelo Jornal NH, um periódico voltado para o desenvolvimento regional com foco nos acontecimentos e anseios da população do Vale dos Sinos. O Jornal NH é um dos protagonistas principais na árdua tarefa de reconstrução da memória do setor coureiro-calçadista nos anos 1970 e 1980 ao lado dos os trabalhadores individualmente e suas organizações associativas e sindicais, com suas lutas e publicações enquanto expressão coletiva dessa realidade. Também os empresários, os exportadores e os administradores públicos são construtores dessa história, mas sobre eles já existe pesquisa mais avançada e alguma literatura.

Foi justamente para desvendar e jogar luz sobre a participação dos trabalhadores nesse processo de construção ou reconstrução de memória que aceitei o desafio da pesquisa como bolsista de iniciação científica. Através de depoimentos, recuperamos testemunhos ignorados pela historiografia tradicional que nos dão uma visão com pontos de vista diferentes, ou até opostos, em relação aos discursos oficiais que contam a história do setor. Os depoimentos pessoais nos permitem captar o que as pessoas vivenciaram e experimentaram, resgatando o indivíduo como verdadeiro sujeito do processo histórico. Desta forma, a história contida e contada nas páginas do jornal NH, ao longo dos anos, pode ser comparada ao depoimento de alguns trabalhadores que estavam dentro das fábricas no
mesmo período.

Esses trabalhadores resgatam da sua memória a vinda para a cidade grande, a realidade do trabalho dentro das fábricas, o pleno emprego, as crises do setor, as relações com os sindicatos e suas mobilizações e as lembranças simples da vida numa cidade e numa região em pleno e anárquico desenvolvimento. Nos depoimentos, acompanhamos o surgimento dos bairros e vilas das cidades da nossa região e os inúmeros problemas provocados por esse crescimento desordenado. Enfim, através desses trabalhadores podemos ouvir e compreender a voz e o cotidiano, os problemas pessoais da vida dos sujeitos que fizeram parte da história do setor coureiro-calçadista. E tudo isso poderia ter sido infinitamente melhor, a vida dessas pessoas poderia ter se realizado de forma muito mais significativa e produtiva se elas não fossem mudas e invisíveis. Elas definitivamente não foram vistas, nem ouvidas por quem criou e difundiu a versão oficial da história do setor coureiro-calçadista na região.

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