I m A g E m

I m A g E m
O Velho do Espelho

"Por acaso, surpreendo-me no espelho:
quem é esse que me olha e é
tão mais velho do que eu?
Porém, seu rosto...é cada vez menos estranho...
Meu Deus,Meu Deus...Parece meu velho pai -
que já morreu"! (Mario Quintana)

P E S Q U I S A

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

29. VIDAS CURTIDAS, VOZES DUBLADAS E SONHOS EXPORTADOS (parte II)


                                                  A memória do setor coureiro-calçadista:
 os trabalhadores do setor nos anos 1970 e 1980

INTRODUÇÃO -

Foi através da porta da fábrica, que o homem pobre, a partir do século XVIII, foi introduzido ao mundo burguês.

Nas décadas finais do século XX, tudo parecia mais acelerado e o mundo cada vez menor.Submetidos a uma overdose de informações via rádio, televisão, jornais, outdoors, telefonia celular e internet assistimos, na comodidade dos nossos lares, as idas e vindas dos ônibus espaciais; as sondas terrestres passeando no solo desértico e arenoso de Marte; a guerra da Bósnia; da Chechênia; os massacres étnicos na África; a covardia dos ataques contra os árabes no Oriente Médio; a transformação dos heróis doutrinados e fabricados pelos Estados Unidos em inimigos da humanidade, como Sadam Hussein, Osama Bin Laden e o talibã medieval; a invasão do Kuwait e as ofensivas do Império Americano contra o Iraque.

Novamente, “tudo que era sólido e estável se esfumaçou no ar; o sagrado foi profanado e fomos obrigados finalmente a encarar com serenidade nossas condições de existência e relações recíprocas,” como profetizaram Marx e Engels no célebre Manifesto de 1848. Vimos os bombardeios cirúrgicos das modernas guerras eletrônicas, como se fossem mais um torneio de videogame dos nossos filhos. Cercados de parafernálias eletrônicas, senhores e escravos delas, presenciamos em tempo real a chegada do homem à Lua; ideologias soterradas na queda do Muro de Berlim; o ataque às torres gêmeas em Nova Iorque; as eleições presidenciais de verdadeiros ícones na África do Sul e no Uruguai; de um índio e um bolivariano populista na Bolívia e na Venezuela; de um jovem negro nos Estados Unidos e de um operário metalúrgico no Brasil que, graças aos méritos de sua bem sucedida administração, garantiu como sucessora uma mulher, estreante em disputas eleitorais, um fato que ‘nunca antes na história’ da jovem República brasileira havia acontecido.

Enfim, somos espectadores passivos, ou não, de cada tragédia mundial, desastre ambiental ou nova denúncia de corrupção governamental. Com a instantaneidade das comunicações e a superficialidade das relações pessoais e de trabalho tudo pode ser desejado, tudo pode ser adquirido e tudo pode ser descartado. Não necessariamente nessa ordem. 
O final do breve século XX foi acompanhado de uma grande sensação de angústia porque as pessoas, ao se incompatibilizarem com o tempo, tornaram-se escravas da agenda de trabalho, do relógio transmutado em celular e das horas que transformam a pressa em gastrite e os infindáveis compromissos em depressão. 
Aceitamos a lógica da destruição do passado com a conformidade de quem a cada dia envelhece uma semana e encurta a distância do derradeiro encontro com Kronos, senhor do tempo e responsável pelo derradeiro acerto de contas. Não percebemos que esse ritmo de mudanças destruiu também os mecanismos que vinculavam nossa experiência pessoal à das gerações passadas. Eric Hobsbawm, em sua obra Era dos Extremos – o breve século XX (1914-1991) caracterizou isso como uma presentificação que dissolve a memória histórica: "Quase todos os jovens de hoje crescem numa espécie de presente contínuo, sem qualquer relação orgânica com o passado público da época em que vivem"; (HOBSBAWM, 1995, p. 13).

Em relação ao mundo do trabalho Edgar de Decca, em seu livro O Nascimento das Fábricas afirmou que “dentre todas as utopias criadas a partir do século XVI, nenhuma se realizou tão desgraçadamente como a sociedade do trabalho. Fábricas-prisões, fábricas-conventos, fábricas sem salário, que aos nossos olhos adquirem um aspecto caricatural, foram sonhos realizados pelos patrões e que tornaram possível esse espetáculo atual da glorificação do trabalho. (...) A palavra latina e a inglesa labor, ou a francesa travail, ou grega ponos ou ainda a alemã arbeit, todas elas, sem exceção, assinalam a dor e o esforço inerentes à condição do homem, e algumas como ponos e arbeit tem a mesma raiz etimológica que pobreza (penia e armut, em grego e alemão, respectivamente). A dimensão crucial dessa glorificação do trabalho encontrou suporte definitivo no surgimento da fábrica mecanizada, que se tornou a expressão suprema dessa utopia realizada, alimentando, inclusive, as novas ilusões de que a partir dela não há limites para a produtividade humana. Contudo, os ecos das resistências dos homens pobres a se submeterem aos rígidos padrões do trabalho organizado são audíveis desde o século XVII e assinalam a presença da fábrica a partir de uma marco distinto daquele definido pelos pensadores do século XIX. Aqueles primeiros homens, que se viram constrangidos pela pregação moral do tempo útil e do trabalho edificante, sentiram em todos os momentos de sua vida cotidiana o poder destrutivo desse novo princípio normativo da sociedade.
Sentiram na própria pele a transformação radical do conceito de trabalho, uma vez que essa nova positividade exigiu do homem pobre a sua submissão completa ao mando do patrão. Introjetar um relógio moral no coração de cada trabalhador foi a primeira vitória da sociedade burguesa, e a fábrica apareceu desde logo como uma realidade estarrecedora onde esse tempo útil encontrou o seu ambiente natural, sem que qualquer modificação tecnológica tivesse sido necessária. Foi através da porta da fábrica, que o homem pobre, a partir do século XVIII, foi introduzido ao mundo burguês.“

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