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O Velho do Espelho

"Por acaso, surpreendo-me no espelho:
quem é esse que me olha e é
tão mais velho do que eu?
Porém, seu rosto...é cada vez menos estranho...
Meu Deus,Meu Deus...Parece meu velho pai -
que já morreu"! (Mario Quintana)

P E S Q U I S A

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Um caçador de caçadores

Henrique Luiz Roessler, um protetor da natureza

Ambientalista avant la lettre gaúcho, fundador da União Protetora da Natureza – UPN, Roessler foi um dos precursores da proteção ambiental no Brasil, destaca Elenita Malta Pereira. Sua luta paraconscientizar a população se dava através de artigos em jornais e em fiscalizações a campo.

 Por: Márcia Junges

Conhecido em todo o Rio Grande do Sul nos anos 1940-60, Henrique Luiz Roessler atuava como fiscal das contravenções à natureza no estado. Em sua trajetória “prática e escrita estavam imbricadas de maneira indissociável, como armas em sua luta para defender a natureza dos devastadores”, explica Elenita Malta Pereira na entrevista que concedeu, por e-mail, à IHU On-Line
 Munido de leituras e conhecimentos, Roessler tinha um grande diferencial: “aplicar, na prática, o conteúdo dessas leituras e, através das crônicas jornalísticas, difundir esses conhecimentos para o público em geral”. Já àquele tempo ele queixava-se da falta de verbas e, inclusive, de um veículo para fazer as fiscalizações a campo. 
Fundou a União Protetora da Natureza – UPN e foi incansável na denúncia dos ataques contra o patrimônio natural gaúcho. Para Elenita, “hoje, quando as consequências dos exageros na exploração da natureza estão visíveis a todos, provocando situações ainda não dimensionadas pelo homem, como as mudanças climáticas e o colapso de inúmeros ecossistemas, o discurso de Roessler ainda faz sentido”.

Elenita Malta Pereira - Graduada, mestre e doutoranda em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS é autora da dissertação Um protetor da natureza: trajetória e memória de Henrique Luiz Roessler, que intitula sua palestra nesta quinta-feira, 17-11-2011, no IHU ideias, das 17h30min às 19h, na Sala Ignácio Ellacuría e Companheiros, no Instituto Humanitas Unisinos – IHU.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Quem foi Henrique Luiz Roessler? Qual é o contexto de sua vida, luta e origens?
Elenita Malta Pereira – Roessler era filho de descendentes de imigrantes alemães oriundos da região próxima à fronteira com a França. Sua família era proprietária da empresa Pedro Blauth & Companhia, que atuava no ramo da navegação no Rio dos Sinos. Nasceu em Porto  Alegre em 1896, mas ainda bebê veio com os pais morar em São Leopoldo, cidade onde, mais tarde, foi desenhista, construtor de barcos, escultor e contabilista. Estudou no colégio jesuíta Nossa Senhora da Conceição, onde passeios ao ar livre e banhos no Rio dos Sinos faziam parte da rotina dos estudantes.
A atividade que o tornou um personagem conhecido em todo o Rio Grande do Sul nos anos 1940-60 foi uma eficiente atuação como fiscal das contravenções à natureza no estado. Em 1934, um conjunto de leis de proteção à natureza começou a ser publicado pelo governo de Getúlio Vargas, como o Código de Caça e Pesca e o Código das Águas. Também nesse ano apareceu o primeiro Código Florestal brasileiro, que previa a formação de uma polícia florestal em todo o Brasil. Em 1939, Roessler, que já era capataz do Rio dos Sinos – remunerado – desde 1937, ofereceu-se para trabalhar gratuitamente nessa polícia, ocupando o cargo de delegado florestal. Cinco anos depois, acumulou a função de fiscal de caça e pesca. Os dois cargos eram vinculados ao Ministério da Agricultura, na época o órgão responsável pela proteção à natureza no país.

IHU On-Line – Em que aspectos é possível dizer que Roessler foi um dos precursores da proteção ambiental no Brasil?
Elenita Malta Pereira – No contexto em que Roessler viveu já havia discussão ambiental, mas não da forma abrangente como há hoje. O termo “ecologia”, até o início dos anos 1970, estava restrito ao meio acadêmico e, pelo que pude verificar, nunca foi utilizado por Roessler. Ele se apoiava em leituras de revistas de divulgação, como “Caça e Pesca”, editada por Monteiro Lobato , “Chácaras e quintais”, uma das mais importantes publicações da época, e de livros escritos por autores brasileiros e estrangeiros sobre conservação dos elementos naturais. O seu grande diferencial foi aplicar, na prática, o conteúdo dessas leituras e, através de crônicas jornalísticas, difundir esses conhecimentos para o público em geral. Na trajetória de Roessler, prática e escrita estavam imbricadas de maneira indissociável, como armas em sua luta para defender a natureza dos devastadores.

IHU On-Line – Quais eram suas principais atitudes de denúncia e conscientização sobre o cuidado com o ambiente?
Elenita Malta Pereira – Fiscalizando tanto as margens do Rio dos Sinos como o desmatamento, as queimadas, a caça e a pesca ilegais, Roessler viajou por todos os cantos do Rio Grande do Sul, aplicando autos de infração, multas e se envolvendo em conflitos com quem não aceitava sua fiscalização rigorosa. Um dos maiores problemas que ele enfrentou foram as “passarinhadas”, uma prática muito apreciada nas cidades que receberam grupos étnicos italianos no estado. Roessler e os “passarinheiros” protagonizaram episódios de violência física e, principalmente, simbólica em xingamentos de ambas as partes: para os caçadores, Roessler era um “cangaceiro”, “autoritário”, “nazista”, que atrapalhava suas passarinhadas. Para Roessler, os caçadores eram “tarados de alma negra”, “assassinos”, movidos por uma “herança maldita” de seus antepassados.
Em uma dessas fiscalizações, em 1952, Roessler sofreu um acidente em que perdeu o pé direito. Isso o obrigou a ficar dez meses afastado da fiscalização (o que foi uma tortura para ele!) e a usar uma prótese mecânica para o resto da vida. A perna substituta provocava dores, mas não o suficiente para afastá-lo das diligências de fiscalização. Depois do período de repouso, ele voltou a fiscalizar e, em abril de 1954, sofreu um processo judicial movido pelos caçadores de passarinhos, vivendo um dos períodos mais difíceis da sua vida.

                                         Amor à natureza

Em dezembro de 1954, ele foi destituído dos cargos de delegado florestal e de fiscal de caça e pesca, por conta de um novo estatuto dos funcionários públicos, que não permitia funções não remuneradas (Lei 1.711/52). Para contornar a situação, entre as alternativas possíveis, Roessler, espelhando-se em iniciativas semelhantes no exterior e no Brasil, fundou a União Protetora da Natureza – UPN, em 01-01-1955. A UPN, sediada em São Leopoldo, foi a primeira entidade de proteção à natureza do Rio Grande do Sul em sentido amplo: sua militância abrangia a defesa de todos os elementos naturais. 
Em 1955, Roessler conseguiu, pelo menos, reaver uma das credenciais perdidas. Através do contato com amigos influentes, conseguiu continuar como fiscal de caça e pesca, no âmbito da Secretaria de Agricultura estadual. Dessa forma, atuando na UPN e na fiscalização, ao mesmo tempo, pôde aliar a atuação prática, coibindo as transgressões das leis protetoras, com uma série de campanhas educativas pela proteção dos elementos naturais, através de palestras e distribuição de panfletos em escolas, clubes assistencialistas, a agricultores e ao público em geral. 

Em fevereiro de 1957, Roessler se tornou colunista do jornal Correio do Povo, na seção “Assuntos Rurais”, publicando crônicas sobre os problemas ambientais do Rio Grande do Sul daquele contexto, sempre às sextas-feiras. Esse espaço foi importantíssimo em sua trajetória, porque tornou seu trabalho conhecido por um número bem maior de pessoas. Ao todo, ele publicou cerca de 300 textos, abordando a questão florestal (desmatamento, queimadas, reflorestamento), o drama dos rios (poluição industrial, morte de peixes envenenados, projetos de retificação do Rio dos Sinos), a matança de pássaros motivada pela “passarinhada”, a pesca ilegal (utilização de objetos proibidos, dinamite), a matança de alevinos nas bombas de sucção nas lavouras de arroz, o impacto da moda (casacos de peles, adereços com penas de pássaros), os direitos dos animais (utilização de animais como cobaias, vivissecção, crueldades), a constituição de parques e reservas naturais, a educação de crianças e jovens para a proteção da natureza e o questionamento da noção de “progresso”. 
Essa variedade de temas era tratada com uma linguagem ácida, corrosiva até, permeada de ironia muitas vezes. É que Roessler queria muito chamar a atenção das pessoas sobre a urgência de se mudar a conduta em relação à natureza: para ele, era preciso criar, forjar, o amor à natureza e a mentalidade de conservação dos elementos naturais.

IHU On-Line – Como essas críticas eram recebidas pelas empresas e pelo poder público? Ele tinha apoio da população em sua causa?
Elenita Malta Pereira – Essa foi uma questão interessante que apareceu em minha pesquisa. Havia empresas que o apoiavam, como fabricantes de armas e vendedores de artigos para a caça e pesca em geral. Essas empresas patrocinavam seus cartazes e panfletos educativos, numa espécie de “marketing socioambiental”, parecido com o que vemos atualmente. Por mais paradoxal que isso possa parecer hoje, Roessler não era contra a caça legalizada, e sim contra a caça ilegal, fora de época e que matasse espécies não permitidas por lei. Mas houve conflitos com curtumes da região do Vale do Rio dos Sinos, que despejavam seus resíduos in natura, contaminando a água bebida pelas populações ribeirinhas.
 Em fevereiro de 1961, houve uma grande mortandade de peixes no Rio dos Sinos provocada pelos detritos dos curtumes, segundo Roessler. Ele chegou a enviar carta a Jânio Quadros , solicitando providências. O presidente sensibilizou-se com o ocorrido e sancionou um decreto (50.877/61) com medidas mais rigorosas para a punição dos estabelecimentos que lançassem resíduos nos rios. Quando ele renunciou, Roessler ficou desolado, porque, em sua opinião, foi o único presidente que se importou com os recursos naturais do país. No entanto, em geral, o governo apoiava mais no discurso do que na prática, porque criava órgãos e publicava leis, mas Roessler queixava-se constantemente da falta de verbas e até de um veículo para realizar as diligências de fiscalização. Pelo que pude apurar, seus leitores no Correio do Povo o apoiavam, especialmente os professores, que, aliás, eram fundamentais para o sucesso das campanhas educativas da UPN.

IHU On-Line – Quais são as principais atividades da Fundação Estadual de Proteção Ambiental Henrique Luis Roessler?
Elenita Malta Pereira – A Fundação Estadual de Proteção Ambiental - Fepam, além de conceder licenças ambientais, é um dos órgãos responsáveis pela fiscalização e aplicação das leis de proteção ambiental no estado. Ela faz mais ou menos o que Roessler fazia, através do Serviço Florestal e da Divisão de Caça e Pesca. Por isso o homenageou Roessler em seu nome.

IHU On-Line – Em que ideias se baseava a produção escrita de Roessler?
Elenita Malta Pereira – Um aspecto que não havia sido previsto no início de meu trabalho, mas que acabou ocupando um espaço importante na pesquisa, foi a “ideia de natureza” de Roessler. A partir da análise de uma amostragem de textos correntes no Rio Grande do Sul e no Brasil, bem como de autores citados em suas crônicas jornalísticas, foi possível constatar que ele estava muito bem sintonizado com o que se produzia sobre o tema. Seu discurso se alicerçava no nacionalismo, na educação e na religião. Articulando esses três elementos, formulou sua concepção de natureza: uma criação divina, uma dádiva de Deus aos humanos e, ao mesmo tempo, o patrimônio maior da nação, por isso o incentivo à sua proteção, através de campanhas educativas, era fundamental. 
Somente quando as pessoas entendessem o quanto a natureza era importante, haveria esperança de um amanhã; o uso responsável dos elementos naturais era necessário para que as gerações futuras não sofressem com a falta deles, bem como a reserva de áreas naturais, ainda “intocadas” pelo homem. Esses dois princípios nortearam toda sua atuação e pensamento: conservação e preservação; eram seus mandamentos, sua profecia, que ele seguia e anunciava à sociedade. Roessler se sentia um predestinado, apresentava-se mesmo como um profeta, prevendo que, se o homem não fizesse sua parte, a terra se tornaria um deserto, um inferno. Incorporando um discurso que sacralizava a natureza, através da utilização de imagens religiosas e reforçando a culpa humana pela destruição dos elementos naturais, visava atingir o maior número possível de adeptos para sua crença: a religião da proteção à natureza.

IHU On-Line – Em que medida ele influenciou a criação de ONGs e entidades voltadas à proteção ambiental?
Elenita Malta Pereira – Em 1971, a Agapan  homenageou Roessler, ao lado do Padre Balduíno Rambo , como patrono. A Agapan-NL , de São Leopoldo, hoje UPAN, fez o mesmo. Em 1978, quando um grupo de jovens alunos do Prof. Kurt Schmeling resolveu fundar uma entidade ecológica, seu nome foi escolhido para designá-la: Movimento Roessler. 
Algumas das pessoas que fundaram essas entidades eram ex-integrantes da UPN, que não conseguiram reorganizar-se depois da morte de Roessler, em 1963 (Roessler se mostrou insubstituível em sua luta obstinada contra os transgressores das leis ambientais; ele era quase um homem-entidade, centralizando todas as decisões e atividades). Outros eram ligadas ao naturismo e eram leitores das crônicas dele no Correio do Povo. Um dos fundadores da Agapan, Augusto Carneiro, afirmou ter sido “ecologizado” por Roessler.

IHU On-Line – Qual é o seu principal legado para as gerações que o sucedem?
Elenita Malta Pereira – Hoje, quando as consequências dos exageros na exploração da natureza estão visíveis a todos, provocando situações ainda não dimensionadas pelo homem, como as mudanças climáticas e o colapso de inúmeros ecossistemas, o discurso de Roessler ainda faz sentido. Esquadrinhando o Rio dos Sinos em sua canoa e dormindo muitas noites de verão na casinha de Tarzan que construiu em cima de uma árvore, ele buscou a integração máxima com a natureza. 
Fez muito mais do que o possível em sua breve vida (63 anos), divulgando a proteção à natureza em todos os recantos do estado do RS, em todos os suportes ao seu alcance. Seus textos, no mínimo, podem nos mobilizar à ação ainda, mesmo que os problemas atuais sejam outros, bem mais difíceis, aliás. A paixão com que denunciava negociatas de madeira, muitas vezes estimuladas pelo próprio estado, ou com que defendia a educação de jovens e crianças pela proteção à natureza ainda podem nos inspirar na luta por justiça ambiental e pela difusão de uma postura responsável para com a biodiversidade que nos cerca. 
Como Roessler fez muitas vezes, podemos e devemos cobrar atitudes corretas de políticos e de empresas que, muitas vezes, usam a palavra “sustentabilidade” – hoje extremamente vulgarizada – como uma estratégia de promoção de suas imagens, e não realmente preocupadas com a manutenção da vida em todas as suas formas.
De forma contundente e apaixonada, seus escritos apresentavam os problemas, denunciavam transgressões e sugeriam soluções para acabar com a devastação. Seu mérito foi justamente oferecer informações sobre a situação ambiental do Rio Grande do Sul naquele momento, na esperança de conscientizar as pessoas da necessidade de transformação. Com toda a destruição ambiental a que estamos assistindo, principalmente nos recentes episódios de morte de toneladas de peixes no seu querido Rio dos Sinos, podemos perceber que essa era uma tragédia anunciada por Roessler. 
Cabe perguntar: ainda dá tempo de ouvi-lo?

FONTE PESQUISADA:
http://www.ihuonline.unisinos.br/index.php?option=com_content&view=article&id=4208&secao=380

                                  Henrique Luiz Roessler

Henrique Roessler é um destes muitos heróis anônimos do Brasil. Feito Zumbi e Aimberê, ele também lutou pela nossa Terra. Sua obra maior: A defesa da natureza. Nos idos de 1939 começa a atuação deste gaúcho nascido em 1896.
Trabalhando como voluntário, obtém o posto de delegado de caça e pesca, movendo intensa ação fiscalizadora, apoiado por uma rede de mais de 400 colaboradores do sul do país. Fez muitos amigos e inimigos. Estes últimos conseguiram que fosse demitido do cargo por exercê-lo gratuitamente.
Em resposta, funda em 1.º de janeiro de 1955 a União Protetora da Natureza (UPN), primeira entidade ecológica brasileira. Já em 1953 ele havia criado o Juramento de Proteção à Natureza e passado a publicar artigos no Correio do Povo, atividade que manteve até 1963, quando faleceu.
Antes disso, perdeu parte do pé em armadilha promovida por caçadores. Seu exemplo frutificou. Muitas entidades ecológicas, começando pela Agapan, seguiram seu exemplo. Entre ela, o Movimento Roessler para Defesa Ambiental, de Novo Hamburgo/RS.

Sua obra foi resgatada no livro O Rio Grande do Sul e a Ecologia. Seu nome batiza hoje vários logradouros, incluindo praças, ponte, parques e a própria Fundação de Proteção Ambiental do Rio Grande do Sul (FEPAM).





Henrique Roessler e sua Luta dentro de uma Perspectiva Histórica


Por Arno Kayser

Por ter nascido no final do século passado, Henrique Roessler teve a oportunidade de conviver com a natureza gaúcha relativamente intacta. O que pode ser perfeitamente visto nos trabalhos de Balduíno Rambo, pesquisador contemporâneo e conterrâneo de São Leopoldo, que, trabalhando a campo nos anos 20 e 30 escreveu um dos livros fundamentais das Ciências Naturais gaúchas: “A Fisionomia do Rio Grande do Sul”.
Este trabalho é uma continuidade dos trabalhos de Lidmann e Saint-Hilaire e descreve um tempo em que a paisagem natural era marcada pela pecuária extensiva. As florestas de Araucária e as matas do Alto Uruguai ainda estavam de pé em sua maioria.
São os tempos da doutrina positivista de Borges e uma tecnologia humana disponível no estado com pouco impacto ambiental. O que foi muito bem retratado por José Lutzenberger (pai do ecologista) em suas cenas gaúchas. Neste ambiente é que viveu e cresceu o menino jovem Roessler. Tempos de contato com uma natureza rica e preservada que permitia coisas como beber água direto do rio do Sinos, em plena rua da margem, bem no centro de São Leopoldo, onde ele vivia com os pais.
Com a década de 20 e 30 inicia um novo ciclo na economia brasileira. É o início da industrialização no país, calcada no capital acumulado pelos barões do café e na grande massa de imigração estrangeira e européia que trouxe mão de obra qualificada. No Vale do Sinos também ocorreu o mesmo fenômeno.
Neste tempo é que Pedro Adams Filho monta as primeiras fábricas modernas de calçados baseadas no uso de máquinas importadas movidas pela energia elétrica da usina pioneira da cascata de São Miguel (construída em 1916). Máquinas estas importadas apoiadas pela política nacionalista de Getúlio Vargas.
Paralelo a isto ocorre o período de grande devastação florestal visando num primeiro momento a exploração do pinho nativo e depois a expansão agrícola até o rio Uruguai para cultivo de trigo e mais tarde de soja para substituir as importações no período da 2ª Guerra Mundial.
Roessler denuncia a existência de mais de 1500 serrarias operando no Estado nesta época. Este fato produziu uma grande modificação na paisagem gaúcha e os primeiros sinais de poluição e expansão urbana desordenada na grande Porto Alegre. Tempo em que se começou a deixar de tomar banhos no Guaíba, por exemplo.
Foi contra estes efeitos que Roessler se voltou. Não é à toa que o seu trabalho oficial começa em 1939, como delegado de caça e pesca e posteriormente na UPN – União Protetora da Natureza. Pode-se ver isto claramente nos artigos desesperados que começou a produzir na segunda metade dos anos 50 via Correio do Povo Rural. Ali este processo é claramente apontado em artigos sobre a devastação florestal, caça, denúncias da poluição, lixo e esgotos. Ele combateu o primeiro ciclo de industrialização do país voltada para um desenvolvimento nacionalista que marcou os governos populistas dos anos de 30 a 50 desde Getúlio até JK.
Roessler não chegou a ver a segunda parte deste processo que com os governos militares foi implantada. É o período de abertura da economia ao capitalismo estrangeiro. Nos anos 60 começa a operação Tatu, que, patrocinada pela Fundação Rockfeller, introduz o calcário, trator, adubos químicos, monoculturas de exportação e agrotóxicos no campo. Acompanha o fenômeno uma grande migração campo-cidade que busca trabalho na indústria nacional emergente nos grandes centros econômicos gerandos as “Monstrópolis”, que Roessler previu com todos os problemas de poluição, esgoto e caos urbano.

No seu Vale amado, começa o ciclo de exportação de calçados em 1969 que liquidou definitivamente com o rio do Sinos. No interior, a paisagem foi profundamente modificada. Só nos anos 80, este fenômeno começou a ser revertido graças ao intenso trabalho dos herdeiros de Roessler que, iniciando pela Agapan em 1971, se multiplicaram no Estado, gerando novas gerações de ecologistas. Fenômeno que não é só gaúcho, mas mundial. Roessler o acompanhava no seu tempo via material que recebia das instituições conservacionistas da Alemanha. Hoje em dia as novas gerações fazem o mesmo muitas vezes via Internet.
Os tempos mudaram, mas muitos dos problemas ainda precisam ser enfrentados. O inimigo agora vem sob a forma de internacionalização da economia, da biotecnologia e outros aparatos. O Movimento ecológico não pode parar se quiser permanecer fiel aos seus antecessores. 

FONTE:
 http://roessler.org.br/personalidades/henrique-luiz-roessler/

Um comentário:

  1. Olá, Gilnei, muito obrigada pela divulgação da minha entrevista em seu blog. Ficou bem legal com as fotos.
    Também sou blogueira, veja meu site:
    http://avozdaprimavera.blogspot.com.br/

    Você poderia divulgar na sua lista de blogs? Faço o mesmo para divulgar o seu.
    Cadastre-se como membro para acompanhar os posts.
    abraço,
    Elenita Pereira

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