João Jorge e Jacobina Maurer

João Jorge e Jacobina Maurer

I m A g E m

I m A g E m
O Velho do Espelho

"Por acaso, surpreendo-me no espelho:
quem é esse que me olha e é
tão mais velho do que eu?
Porém, seu rosto...é cada vez menos estranho...
Meu Deus,Meu Deus...Parece meu velho pai -
que já morreu"! (Mario Quintana)

P E S Q U I S A

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Vapor Garibaldi no porto de Caí

O Garibaldi transportava passageiros e, também, os 
produtos de exportação do Vale do Caí e da Serra  

Esta foto foi tirada no local onde hoje existe o cais do porto de São Sebastião do Caí. Ela foi feita da margem esquerda do rio (o lado da cidade) e o prédio que se avista na foto está situado na localidade de Matiel, na margem oposta. Esse prédio ainda existe. Produtos da região colonial alemã do Vale do Caí e da colônia italiana de Caxias eram exportados através do porto do Caí. A carroça puxada por mulas era o veículo mais usado no transporte de longa distância. A carroça mais à esquerda, carrega um tonel. Provavelmente de vinho, vindo da Serra. Os sacos empilhados, tudo indica, são de feijão, grande produto de exportação do Vale do Caí no final do século XIX. Normalmente, as cargas eram levadas em balsas rebocadas pelo vapor.
Foto do Arquivo Histórico de São Sebastião do Caí

FONTE: www.historiavalecai.blogspot.com.br

domingo, 14 de julho de 2013

Conheça o Projeto Ockham

                       
 Vivemos o tempo das informações instantâneas. Sofremos um bombardeio de informações que nada tem a ver com a busca ou aumento de conhecimento. Precisamos adotar algumas medidas de precaução nessa caminhada, selecionar as fontes de estudos e pesquisa, resistir aos atalhos da 'wikipedia' e ao fundamentalismo dos sites religiosos e ou exotéricos.
Sem abandonar a postura de respeito as convicções religiosas e heranças culturais mas evitando as armadilhas da pseudociência. Conceder o benefício da dúvida aos argumentos da fé. Se quisermos acreditar numa informação pronta basta fé, mas se quisermos aprender e avançar no aprendizado é preciso pesquisar.
É absolutamente necessário poder questionar, ousar duvidar. Essa forma de raciocínio assenta seus pés firmemente no conhecimento científico e deve ser estimulado e desenvolvido. Não proponho uma postura de ceticismo arrogante. Mas também não precisamos aderir sem raciocinar a seitas, irmandades, novas e velhas religiões que surgem a cada semana. 
Um bom exemplo dessa postura é o Projeto Ockham que pode ser acessado no site http://www.projetoockham.org/.


 
 

Objetivos do projeto Ockham

Você acredita que sua personalidade é influenciada pela posição que certos corpos celestes ocupavam no céu no momento de seu nascimento? Acredita que alienígenas estão entre nós e tentam se comunicar conosco desenhando círculos nas plantações inglesas? Acredita numa forma de medicina que cura utilizando remédios constituídos de água e açúcar? Por falar em cura, você acredita em cura através de cristais? Pirâmides? Imposição das mãos? Cromoterapia?
Pois nós até gostaríamos de acreditar. Afinal de contas, seria ainda mais interessante viver em um mundo onde pudéssemos mover um objeto com o poder da mente, curar um parente apenas pelo pensamento positivo, prever o futuro, fazer contato freqüente com extraterrestres. Mas infelizmente não podemos. Nossa formação científica e personalidade questionadora nos impede de acreditar em um fenômeno não comprovado apenas porque ele é emocionalmente agradável. Por isso somos chamados de céticos.
Ser um cético não significa duvidar de tudo, como a origem grega da palavra pode levar a crer. Ser um cético não é ser um chato sem imaginação que se recusa a sonhar com civilizações extraterrestres. Nós, os céticos, simplesmente exigimos uma quantidade maior de evidências do que as pessoas um pouco mais ansiosas em crer. E exigimos que estas evidências passem pelo crivo da melhor ferramenta desenvolvida até hoje para diferenciar o fato da ilusão: o método científico. Mostre-nos um fenômeno paranormal que se repita em um experimento controlado; mostre-nos um médium que exiba alguma mediunidade que um mágico profissional não consiga reproduzir; mostre-nos afirmações que possam ser testadas, mostre-nos dados, quantidades e medidas. Não é pedir tanto considerando a responsabilidade que a crença no paranormal traz.
O objetivo deste site NÃO é atacar pura e simplemente qualquer crença não-científica, mas prestar um humilde serviço à humanidade ajudando a desmascarar mitos e lendas urbanas e traçando a linha divisora entre magia e ciência; uma linha que nos parece mais tênue do que deveria em nossos dias. Nossa motivação para isso não é somente estragar o prazer de quem procura aconselhamento nos horóscopos diários, ou que procura cura em um fenômeno místico paranormal, mas vem do fato de acreditarmos que muitas destas crenças são seriamente nocivas e perigosas, ou no mínimo responsáveis por embotar a inteligência e engrossar a ignorância.



 

Você sabe quem foi Guilherme de Ockham?
GUILHERME DE OCKHAM

 

 Uns dizem que Guilherme de Ockham foi o último dos pensadores medievais, outros, que ele foi o primeiro dos pensadores modernos. Seja como for, é deste frade franciscano do século XIV a honra de demarcar a virada do pensamento escolástico medieval em direção ao pensamento científico moderno.
Guilherme de Ockham (algumas vezes grafado Occam) nasceu no vilarejo de Ockham, na Inglaterra, entre 1280 e 1300. Completou seus estudos na Universidade de Oxford, onde lecionou por algum tempo, posteriormente mudando-se para Paris. Em 1324 foi chamado pela primeira vez diante do Papa para prestar contas por suas idéias pouco ortodoxas. Quatro anos depois foi excomungado devido ao seu apoio ao grupo conhecido como "Os Espirituais", a ala extremista da Ordem Franciscana que se opunha à opulência da Igreja, e fugiu para a corte do Imperador Luís em Munique (um rival do Papa), onde viveu até sua morte, possivelmente em 1349.
Ockham poderia ser classificado como empirista e cético. Empirista por defender a necessidade da experimentação como fonte do conhecimento, em oposição à crença corrente de que o verdadeiro conhecimento só poderia ser obtido pelo uso da razão pura; e cético, na medida que dizia ser impossível provar a existência de Deus através de qualquer ferramenta racional (embora não fosse por isso um descrente).
Ao pregar a separação entre a religião e a razão, Ockham traçou uma linha divisória entre os assuntos da fé e da razão e permitiu libertar a filosofia, berço comum de todas as ciências, da teologia. Hoje em dia o nome de Ockham se encontra imortalizado no famoso argumento dialético de sua autoria conhecido por "Navalha de Ockham", o princípio de que diante de duas teorias que explicam igualmente os fatos observados, a mais simples é a correta. A seguir analisamos um pouco melhor esta e outras idéias filosóficas de Ockham.

O pensamento de Ockham

 

 
Platão acreditava que existiam dois mundos, um mundo invisível ao homem constituído de idéias ou formas e o nosso próprio mundo constituído de objetos e coisas. As propriedades de um objeto em nosso mundo (cor, consistência, brilho, beleza, etc) seriam conseqüências da forma deste objeto no mundo das formas ou idéias. Por exemplo, uma cadeira poderia possuir algumas ou todas as propriedades da forma "cadeira" (serve para sentar, possui encosto, tem quatro pernas, etc) existente no universo das idéias.
O homem somente poderia apreciar e tocar os objetos e coisas, mas deveria se lembrar que este não é o universo real. É sobre isso que trata a famosa alegoria da Caverna de Platão, onde pessoas acorrentadas numa caverna de costas para a entrada são capazes de ver somente as sombras projetadas pelo mundo externo e por isso acreditam que estas sombras são as coisas reais e que não há nada além da caverna.
Como conseqüência, Platão acreditava que as coisas em nosso mundo eram irreais e imperfeitas, tanto mais irreais e imperfeitas quanto mais se distanciassem de sua forma do mundo das idéias (é fácil entender assim, o sentido original da palavra "ideal"). Daí, Platão negava que qualquer conhecimento verdadeiro pudesse advir da observação da natureza e da experiência, e que tentar aprender com o que os nossos sentidos nos mostram seria o mesmo que tentar aprender algo a partir das sombras na caverna. A razão e somente ela, segundo Platão, possibilitaria o conhecimento.
Aristóteles, discípulo de Platão, manteve em sua filosofia os universais (como eram conhecidas as formas) de seu mestre, mas acreditava que estas podiam ser alcançadas pelo exame e comparação das coisas em nosso mundo. Graças principalmente a Tomás de Aquino, que tomou a filosofia de Aristóteles e a conformou segundo a ótica cristã, esta visão prevaleceu no mundo medieval.

Ockham por outro lado era um Nominalista, ou seja, acreditava que os universais dos quais falavam Platão e Aristóteles não passavam de nomes, palavras, definições. O que importava para Ockham era o concreto, o palpável, o objeto passível de experimentação.
O conhecimento deveria vir da experiência, dos sentidos, pois não poderia existir uma idéia sem que uma experiência sensível a gerasse. Este foi o nascedouro de uma discussão que se arrastou por séculos e ainda se arrasta dividindo empiristas e racionalistas.
Como decorrência de seu empirismo, Ockham acreditava que não se poderia produzir nenhuma prova racional da existência de Deus. Deus seria uma experiência sensorial e acreditar Nele dependeria da fé, e da fé somente. Divorciando a razão e a fé, Ockham prestou um inestimável serviço à filosofia e as ciências que dela nasceriam. Mas visto que o principal papel da filosofia na Idade Média era o de fornecer uma base lógica para a teologia, Ockham também prestou um igual serviço à teologia, que livre da obrigação de tentar justificar-se racionalmente, pode alçar vôos mais extravagantes. Em nome da fé tudo passaria a ser possível e o céu (literalmente) seria o limite.
Como franciscano, Ockham acreditava na tese de que Jesus em vida não havia tido posses e que portanto a Igreja e seus seguidores deveriam despojar-se de todos os bens materiais e viver na pobreza. Ockham, que se bom franciscano só devia possuir a túnica que vestia (tudo além disso seria uma extravagância), parece ter aplicado este ideal franciscano à filosofia e propôs retirar dela toda redundância, todo o peso extra, tudo o que lhe fosse supérfluo.
Ockham em suas obras escreveu: "Pluralitas non est ponenda sine neccesitate" (Entidades não devem ser multiplicadas além do necessário), ou seja, é inútil fazer com mais o que pode ser feito com menos. Os estudiosos dos séculos posteriores aplicaram este pensamento ao método científico e uma versão modificada desta frase se tornou conhecida por "Navalha de Ockham".


Sobre a Navalha de Ockham


A Navalha de Ockham da maneira como foi popularizada pela ciência (um tanto diversa da sua formulação original) diz que entre duas teorias que explicam igualmente os mesmos fatos, a mais simples é a correta. Em outras palavras, se uma explicação simples basta, não há necessidade de buscar outra mais complicada.
A Navalha também é conhecida por "Princípio da Economia". Um exemplo clássico do uso deste principio pode ser visto na discussão histórica em torno da estabilidade do Universo. Isaac Newton, um gênio da física mas também um homem profundamente místico, estava convencido de que os planetas não poderiam permanecer imutavelmente em suas órbitas sem a interferência de Deus.
Imaginava o Universo como um relógio (uma invenção relativamente moderna em sua época), o qual Deus teria posto em movimento na Criação e que precisava ser corrigido de tempos em tempos, tal qual um relógio que precisa de corda para continuar funcionando. Sem Deus agindo como um relojoeiro celeste, calculara Newton, os planetas, acabariam arrefecendo seu movimento devido às mútuas influências gravitacionais, desviando-se de suas órbitas até colidirem entre si.

Foi somente um século depois de Newton, que Pierre Simon de Laplace mostrou, com a ajuda de métodos matemáticos de aproximação, que se os planetas não se desviavam de suas órbitas era porque as interferências gravitacionais entre eles se compensavam e anulavam-se a longo prazo.
Quando indagado por Napoleão sobre por que Deus estava ausente de sua teoria, Laplace respondeu: "Sire, não precisei desta hipótese". Laplace havia aplicado a "Navalha de Ockham" à sua cosmologia: entre duas teorias, uma que exigia a existência de uma superentidade vigilante para criar e manter o universo em movimento e outra que podia conter os fenômenos observados sem incluir hipóteses adicionais, Laplace escolheu a segunda, aquela com o mínimo de suposições necessárias para explicar todos os fatos observados, ou seja, aquela com o menor número de "razões suficientes".

Logicamente Isaac Newton não desconhecia a Navalha de Ockham, até mesmo tinha sua própria versão dela: "Não se deve admitir mais causas às coisas da natureza que aquelas que forem tanto verdadeiras quanto suficientes para explicar sua aparência."


Utilizando a Navalha de Ockham no estudo do paranormal


Todas as alegações de fenômenos paranormais têm algo em comum: entre duas hipóteses que explicam igualmente os fatos "paranormais" observados, uma baseada em conhecimento bem fundamentado pela ciência e outra envolvendo seres de outros planetas, espíritos, anjos, demônios, magia, campos de energia misteriosos, ou simplesmente forças físicas desconhecidas, muitos preferem a segunda, mais "complicada", do que a primeira, mais "simples".
Como todo princípio científico mal compreendido e vulgarizado pela repetição (E=mc2, entropia, caos, herança genética, etc), a Navalha de Ockham se tornou um bordão utilizado indevidamente por leigos e por céticos ansiosos demais em descartar explicações incomuns.
Quando se diz que a teoria mais simples é a correta não se quer dizer que a teoria mais fácil de se entender é a correta. Em primeiro lugar porque simplicidade é um critério pessoal e subjetivo. Além disso a natureza certamente não tem vocação para a simplicidade; apesar de algumas leis fundamentais da física serem expressas de forma surpreendentemente simples (como as leis de Newton), isto não significa que a explicação mais simples seja sempre a correta, ou que seja correta num número maior de vezes.
Na verdade, à medida que nos aprofundamos nos terrenos da física quântica ou da cosmologia, ocorre justamente o contrário e as explicações tornam-se cada vez mais complexas. Por isso é preciso compreender que a Navalha de Ockham não trata de descartar hipóteses só porque são mais difíceis de entender. O que ela propõe é que se descarte as hipóteses que em igualdade de condições com outras, possuem mais suposições ou mais pressupostos, já que quanto mais suposições, maior a chance de que alguma delas esteja errada.
Sendo assim, o princípio da economia de Ockham se revela uma diretriz, não uma regra; uma indicação de qual caminho seguir, não um sentido obrigatório; ou seja, apenas bom senso sistematizado, que no fundo é tudo do que trata o método científico.

sexta-feira, 12 de julho de 2013

Jacobina Mentz Maurer e o Movimento Mucker (I)

Cenas do filme Os Mucker 
Filme teuto-brasileiro de  1978 dirigido por Jorge Bodanzky e Wolf Gauer.

 Título original:  
Brasil: Conflito e identidade na América Latina
Os Mucker no RS

                                                    Clarice Milani
                                                                              (*) La Insignia. Brasil, abril de 2003.


No Brasil inúmeros foram os casos de tentativas de implantação de um projeto civilizatório diferente, todos implacavelmente massacrados pela sociedade afluente: Palmares, Colônia Cecília, a República Comunista Cristã dos Guaranis, Canudos, e Contestado. Somente os episódios que tiveram evento em Canudos contaram com a cobertura de alguém do porte genial de Euclides da Cunha, deixando-nos o legado de ter mais amor, compreensão e tolerância para com o diferente, enfim.  Cada comunidade humana tem um pouco de diferente, de crenças e convicções aí meio esquisitonas mas todos somos irmãos afinal; como galhos da mesma árvore ou ondas de um mesmo oceano.

Cenas do filme Os Mucker 
Filme teuto-brasileiro de  1978 dirigido por Jorge Bodanzky e Wolf Gauer

 Em todos os tempos há pessoas que surgem com pregações diferentes ou inovadoras, nem sempre encontrando eco às suas prédicas. Quando o que dizem e principalmente o que fazem está em sintonia com a situação prática da vida das pessoas, surge fulgurante o fenômeno do messianismo. 
Talvez estejamos vivendo um tempo assim em escala global, quem poderá dizê-lo são os pósteros. Há os que surgem com pregações em nada ou quase nada sincronizadas com a vida do povo. Estes, normalmente, são tidos e havidos como tresloucados, lunáticos, coisas assim, não passando mesmo de alienados mentais. Para Touraine (1989):
       "Os messianismos são, em primeiro lugar, movimento de defesa comunitária; 
       freqüentemente, são também formas indiretas de defesa social e, por este 
motivo, são objeto de uma violenta repressão".

 Movimento dos Mucker 
 
                                               Esta é a única foto do casamento é a única que os pesquisadores                                            
                                              apontam como autêntica de João Jorge Maurer e Jacobina Mentz

 O movimento dos Mucker liderado por Jacobina Mentz Maurer e o curandeiro João Jorge Maurer em Sapiranga - RS, em 1874, no final do século XIX, também teve uma grande repercussão em toda zona de colonização alemã do RS. Na época da revolta os mucker foram combatidos pelo que eram e pelo que a população de São Leopoldo - RS, julgava que fossem. 

   Cartaz do filme Os Mucker
 Filme teuto-brasileiro de  1978 dirigido por Jorge Bodanzky e Wolf Gauer.

A imprensa na época abriu manchetes denominando-os praticantes do amor livre. O conflito durou de 1869 até 1874 com um final trágico. Vários foram mortos, inclusive Jacobina, pelo exército e guarda imperial. Os mucker remanescentes submeteram-se a julgamento. Para este período, a documentação é completamente falha. O processo foi moroso,a apelação da sentença, ocorrida em junho do mesmo ano, absolveu alguns mucker. Alguns mucker absolvidos voltaram para suas casas antigas, ou para o que restava delas. Uma família foi obrigada a passar sete anos escondidos no mato. Cozinhavam a noite para não fosse vista a fumaça durante o dia. 

Cenas do filme Os Mucker 
Filme teuto-brasileiro de  1978 dirigido por Jorge Bodanzky e Wolf Gauer.  


 A comunidade que seguia Jacobina acreditava que Jacobina ela era a enviada do messias , em seus discursos apelava à reforma moral diante do iminente fim do mundo, introduzindo elementos dramáticos onde aqueles que não a seguissem iriam para o inferno e os demais teriam suas almas seriam salvas e passariam deste plano terrestre para o plano espiritual. Jacobina explicou o mundo à maneira dos adeptos. Este movimento teve forte conteúdo social, dirigido contra os ricos e contra a ruptura da igualdade primitiva. Com a desconfiança dos adversários sobre as prédicas da líder, as ameaças sofridas pelos seguidores e a própria vingança dos Mucker quando desceram do Morro Ferrabraz e destruíram a paz da zona de colonização deixando muitos mortos, casa e lavouras queimadas acendeu-se o estopim para os confrontos entre colonos e adeptos da seita. 

        O livro Os Mucker do padre jesuíta Ambrosio Schüpp, o primeiro a ser escrito
     sobre o episodio mucker, era abertamente contra Jacobina e seus seguidores
       e alimentou muito das idéias que a região adotou e preservou sobre o conflito.
Nos dois primeiros ataques sofridos os mucker saíram vencedores mas em 02 de Agosto de 1874 foram derrotados pelas tropas do exército imperial com a ajuda dos colonos locais dispostos a matar todos os adeptos de Jacobina Maurer. Quando as tropas chegaram ao Morro Ferrabraz, exterminaram a líder Jacobina e mais dezessete membros da seita que haviam se refugiado no meio do mato. Com este fim trágico alguns remanescentes mucker foram entregues as autoridades para serem julgados e condenados. As crianças mucker foram entregues a famílias alemãs para serem educadas.
Jacobina teve seis filhos, Jacob, Henrique, Francisco Carlos, Matilde e Aurélia, e a suposta filha Leidart (que em alemão significa "duro no sofrimento"), de três meses, encontrada morta pelos paisanos.

Cenas do filme Os Mucker 
Filme teuto-brasileiro de  1978 dirigido por Jorge Bodanzky e Wolf Gauer.

 Comentavam que Jacobina havia degolado a criança de colo para que seu choro não denunciasse o local do esconderijo.Dos demais filhos as notícias até hoje foram de Jacob, que residiu em Uruguaiana e de Aurélia que se casou com um mucker, Miguel Noe. Outro filho, Francisco Carlos Maurer, teve sua história  resgatada á partir de projeto de pesquisa realizado durante a graduação em Arquivologia e também através da genealogia,  que resgatou sua memória familiar. Francisco Carlos migrou de Novo Hamburgo para São Pedro do Sul, cidades do RS, com sua esposa Augusta Klein, aos 24 anos de idade.
 
Cenas do filme Os Mucker 
Filme teuto-brasileiro de  1978 dirigido por Jorge Bodanzky e Wolf Gauer

 Ele sabia que sua mãe chamava-se Jacobina Maurer mas não que era a líder dos Mucker. Francisco foi criado por um carpinteiro que escondeu a verdadeira identidade do rapaz pois os colonos perseguiram os mucker anos depois da tragédia com medo que se formasse outra seita religiosa. Francisco Carlos comprou duas colônias de terras em Poço Redondo, interior de São Pedro do Sul - RS e lutando conseguiu aumentar suas rendas e viveu economicamente bem. Atuava como carpinteiro nas horas vagas. Teve sete filhos, o primogênito Gervin aos dezessete anos, fez um pacto de morte com mais um amigo e foram, cada um, para sua casa e se enforcaram. Francisco nunca perdoou o filho. Francisco faleceu em 1949 de problemas circulatórios.


Cenas do filme Os Mucker 
Filme teuto-brasileiro de  1978 dirigido por Jorge Bodanzky e Wolf Gauer.

 Os reflexos para a família foram negativos, alguns descendentes dos mucker não gostavam de comentar o assunto e eram contra as atitudes de Jacobina Maurer não aceitando de forma alguma o que sua ancestral fez. Tiveram que casar cedo as filhas para que não soubessem que eram descendentes dos mucker. Os vizinhos chamavam as crianças descendentes de "muckinhas". E quando os adultos falavam no assunto tiravam as crianças de perto para que não escutassem a história, quando as crianças pediam para falar sobre Jacobina, ficavam bravos e desconversavam mandando as crianças para fora casa. 
Essas famílias sem dívida perderam sua auto-estima, conviveram com o medo e a vergonha de comentar o assunto e dar entrevistas o que só começou a acontecer mais de 100 anos depois da tragédia. 

Clarice Milani é pesquisadora e bacharel em Arquivologia 
pela Universidade Federal de Santa Maria, RS, Brasil. 

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Quem é o Grande Irmão?

À luz do caso Edward Snowden, envolvendo vigilância em massa, a historiadora Keila Grinberg reflete, na coluna deste mês, sobre privacidade nos tempos de Google e Facebook, em que as pessoas abrem mão dela por livre e espontânea vontade.

 Em tempo de conexão total, em que conversas podem ser acompanhadas em tempo real, e-mails lidos e ligações telefônicas rastreadas, nos tornamos informantes de nós mesmos, reflete historiadora.



 Li recentemente que, depois de Edward Snowden, ex-funcionário da Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos (CIA, sigla em inglês), ter vazado informações sobre programas de inteligência do país, a venda de exemplares do livro 1984, de GeorgeOrwell, cresceu mais de 7.000% no site da Amazon. 
Achei curioso. Não pela relação, algo óbvia, entre o best-seller escrito em 1948 e publicado pela primeira vez, coincidentemente, no dia 8 de junho, quando estourava oescândalo, e o evento do mês. Afinal, 1984 é justamente a história de uma sociedade na qual o controle total é exercido pelo Grande Irmão, o Big Brother. 

Nós mesmos alegremente abrimos mão da nossa privacidade, continuando a usar os serviços dos gigantes da internet. Ou você viu por aí alguém protestando contra o uso do gmail? 

 

Embora inspirado diretamente nos regimes totalitários das décadas de 1930 e 1940, no livro, a história se passa em uma sociedade liberal-democrática, na qual Winstom Smith, o personagem principal, representa o cidadão comum vigiado o dia inteiro pelas teletelas e pelo Partido. No romance, Smith sabe que toda atitude suspeita é passível de denúncia à Polícia do Pensamento e que qualquer ato considerado dissidente pode originar uma denúncia. 
O que Snowden está mostrando é que, ao usar serviços de empresas como o Skype, oGoogle (“don’t be evil”), o Facebook e a Verizon (esta última, empresa de telefonia norte-americana), nossas conversas podem ser ouvidas em tempo real, nossos e-mails podem ser lidos, nossas ligações telefônicas podem ser rastreadas. A diferença é que ninguém precisa denunciar. Nós mesmos alegremente abrimos mão da nossa privacidade, continuando a usar os serviços dos gigantes da internet. Ou você viu por aí alguém protestando contra o usodo gmail? 


                          Big Brother Cartaz do Grande Irmão (Big Brother), personagem que exerce controle  total  sobre a sociedade no romance distópico de George Orwell, ‘1984’.
 
Ironias da história 

  No livro, o protagonista Winstom Smith representa o cidadão comum vigiado o dia inteiro pelas teletelas e pelo Partido. Orwell imaginou um mundo de vigilância total, mas ele mesmo viveu uma realidade totalmente diferente desta. 
Ao mesmo tempo em que publicava 1984, Orwell mandava sua própria lista de suspeitos de comunismo a sua amiga Celia Kirwan, que trabalhava no Information Research Department (IRD) do Foreign Office inglês. A lista contém 38 nomes de jornalistas e escritores que, segundo sua opinião, “eram cripto-comunistas”ou simpatizantes. Claro que, como todo texto tem seu contexto de produção, a lista de Orwell também tem sua época. 

 

Ele era um importante liberal antissoviético e, em 1949, muito doente, quatroanos depois da publicação de seu libelo A revolução dos bichos, estava convencido de que a Inglaterra e os demais países ocidentais perderiam a guerra ideológica contra a União Soviética. O que, evidentemente, não o desculpa. Ainda mais ao sabermos que seu caderninho de anotações continha várias outras observações, como as variações pejorativas do termo “judeu” (“judeu polonês”, “judeu inglês”), chegando mesmo a se perguntar se Charlie Chaplin seria um deles (não era). 
A lista e o caderninho de Orwell só tornam mais irônico o fato de ter se tornado, post mortem – ele faleceria no início de 1950 –, o símbolo da independência política e da defesa da liberdade de pensamento contra os excessos de qualquer Estado. Quem lê 1984 hoje, “um livro péssimo”, segundo o já bastante deprimido Orwell, procura essa reflexão.
Mas irônico mesmo é saber que Orwell foi genial ao imaginar e descrever uma sociedade que ele de fato não chegaria a conhecer, mas não teria como antever que seu caderno de anotações e suas listas de suspeitos seriam hoje desnecessários: na era da conexão total, nós nos tornamos informantes de nós mesmos. 

 

Em tempo: a lista de Orwell pode ser consultada no Arquivo Nacional inglês, em Londres, arquivada sob o número FO 1110/189. Um bom texto sobre o assunto foi escrito por Timothy Ash na revista New York Review of Books, em 2003. 

Keila Grinberg
Departamento de História Universidade Federal 
do Estado do Rio de Janeiro Revista Ciência Hoje 

 Publicado em 21/06/2013 | Atualizado em 21/06/2013

domingo, 7 de julho de 2013

Os protocolos do Sião - uma fraude histórica?

A Origem de uma Mentira 

 

Em 1903, o jornal russo Znamya, A Bandeira, publicou, de forma seriada, trechos do livro Os Protocolos dos Sábios de Sião, mas a versão que perdura até hoje e que foi traduzida para dezenas de idiomas foi publicada pela primeira vez em 1905, como um apêndice ao texto do escritor e místico russo Sergei Nilus entitulado Os Grandes e os Pequenos: A Vinda do Anticristo e o Domínio de Satã na Terra.

Mesmo que não se conheça a origem exata dos Protocolos, o que importa é sua intenção de falsamente retratar os judeus como conspiradores contra o Estado. O texto contém 24 capítulos, ou “protocolos”, que são apresentados como se fossem atas de encontros entre líderes judeus, os "sábios de Sião"e "descreve os "planos secretos" judaicos para controlar o mundo através da manipulação da economia, contrôle dos meios de comunicação, e estímulo a conflitos religiosos. 
Após a Revolução Russa de 1917, os bolcheviques, cujo partido foi criado por Vladimir Lenin, e que tinha entre suas fileiras membros judeus, conseguiu o controle da processo revolucionário. Os inimigos do bolchevismo fugiram daquele país como refugiados políticos, levando consigo cópias dos Protocolos para países do Ocidente. Logo após, passaram a circular traduções do mesmo pela Europa, Estados Unidos, América do Sul e Japão.

A primeira tradução para o idioma árabe apareceu na década de 1920. O jornal The Dearborn Independent, de propriedade do magnata dos automóveis, Henry Ford, a partir de 1920 iniciou a publicação de uma série de artigos baseados em trechos dos Protocolos. Posteriormente, Ford os publicou em um livro entitulado O Judeu Internacional, o qual foi traduzido para, pelo menos, 16 idiomas. Tanto Adolf Hitler quanto Joseph Goebbels, que mais tarde se tornou Ministro da Propaganda Nazista, elogiavam Ford por seu trabalho O Judeu Internacional. 

 Fraude Exposta 

Em 1921, o jornal londrino Times desmascarou Os Protocolos, apresentando provas conclusivas de que ele não passava de um "plágio grosseiro", copiado em grande parte de uma sátira política contra Napoleão III, escrita pelo francês Maurice Joly em 1864, e entitulada O Diálogo no Inferno entre Maquiavel e Montesquieu, e esta obra sequer mencionava os judeus. Outras investigações revelaram que um capítulo do romance Biarritz, escrito pelo prussiano Hermann Goedsche em 1868, também "inspirou" a invenção dos Protocolos. 

A Era Nazista 

 Alfred Rosenberg , ideólogo do Partido Nazista, apresentou uma cópia dos Protocolos a Hitler no início da década de 1920, período em que o futuro líder nazista desenvolvia sua visão do mundo. Em alguns de seus primeiros discursos políticos, e ao longo de sua vida, Hitler fez referência aos Protocolos, explorando o mito de que os "judeus bolcheviques" conspiravam para dominar o mundo. Durante as décadas de 1920 e 1930, o texto Os Protocolos dos Sábios de Sião teve papel de destaque no arsenal de propaganda nazista, e o Partido Nazista publicou pelo menos 23 edições dos Protocolos entre 1919 e 1939. Após os nazistas alcançarem o poder na Alemanha, em 1933, algumas escolas passaram a usar Os Protocolos para doutrinar seus estudantes.

Em 1935, uma corte judicial suíça multou dois líderes nazistas por distribuírem uma edição em alemão dos Protocolos em Berna. O juiz que presidia o tribunal declarou que o conteúdo daquele livro era "difamatório", "falsificação óbvia" e com "absurdos sem sentido". Em 1964, o Senado dos Estados Unidos, após cuidadoso estudo, divulgou um relatório declarando que Os Protocolos haviam sido "inventados" e que seu conteúdo era formado por "um palavrório incoerente", criticando aqueles que o "vendiam de porta em porta", usando a mesma técnica propagandista de Hitler. 
 Em 1993, uma corte judicial russa emitiu uma sentença contra a Pamyat, organização nacionalista de extrema direita, por haver a mesma cometido ato anti-semita ao publicar a falsificação Os Protocolos. No entanto, apesar das mais diversas e contundentes evidências de que Os Protocolos são uma fraude, o livro continua sendo o texto anti-semita mais influente dos últimos cem anos, e até hoje atrai diversos grupos e indivíduos que são anti-semitas ou que tal se tornam após o ler. 

Os Protocolos Hoje 

 De acordo com o "Relatório sobre o Anti-Semitismo no Mundo", elaborado por especialistas do Departamento de Estado Norte-Americano em 2004, "o propósito óbvio dos [Protocolos é] incitar o ódio contra os judeus e o estado de Israel". Tanto nos Estados Unidos quanto na Europa, os grupos neonazistas, que são partidários da supremacia branca e negam a existência do Holocausto, apóiam e distribuem Os Protocolos. 
Muitos outros livros que se baseiam nos Protocolos encontram-se disponíveis em todo o mundo, até mesmo em países que não possuem população judaica, como é o caso do Japão. Tantos nos países árabes quanto islâmicos, os livros escolares ensinam Os Protocolos como se ele fosse uma realidade histórica. Inúmeros discursos políticos, editoriais, e até mesmo desenhos infantis, têm sua origem em leituras dos Protocolos. 
O tema é tão divulgado que, por exemplo, em 2002 um canal patrocinado pelo governo egípcio exibiu uma minissérie baseada nos Protocolos, mostrando , com cenas grotescas e violentas, fato que foi condenado pelo Departamento de Estado Norte-Americano. A organização palestina Hamas apóia-se parcialmente nos Protocolos para justificar seu terrorismo contra civis israelenses. 
A Internet facilitou o acesso ao texto dos Protocolos, e isto fez aumentar dramáticamente o número de pessoas a ele têm acesso. Muito embora existam vários sites que mostram que Os Protocolos são uma fraude, cresce a quantidade de outros que divulgam aquele texto, gerando mais ódio em relação aos judeus. Hoje, uma simples busca na Internet fornece centenas de milhares de endereços de páginas eletrônicas que os disseminam online, vendem, e debatem pró ou contra eles. 

FONTE:

 
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Conhecer ou não Os Protocolos?

 Livro perseguido, proibido, censurado, vedado. Para ele não vale liberdade de expressão nem liberdade de imprensa. Simples e definitivamente a humanidade não deve o ler. Porquê?A QUEM incomoda tanto?Que grupos não querem que a verdade cristalina que está por trás dos acontecimentos de nosso tempo seja sabida por todos? Que razões (e façcões) tão poderosas justificam um fenômeno tão antidemocrático?
A autenticidade desse documento é tão ÓBVIA que os autores desejam afastar a todos da leitura do texto, em intermináveis discussões sobre sua origem, para que se cansem e desistam de ler, para que se percam em um labirinto de idéias e acabem por fazer seu jogo. Desacreditar a todo o custo e ocultar a verdade é o jogo deles. 
Leia primeiro, e depois, tire suas próprias conclusões. A maior prova de autenticidade é a realização absoluta de todos esses planos, fruto de ações muito bem tomadas, e que jamais poderiam ser previstas com tanta precisão por nenhum falsificador há mais de um século. Aqui estão as tendências que o mundo toma e continua seguindo, controlado já por esses "Sábios do Sião". 
Agora já sabes o que o futuro reserva e o que esses senhores tem em mente para os próximos anos.Agora já sabes muito sobre os verdadeiros motivos e objetivos de tantos absurdos da nossa era moderna.Um livro atualíssimo, que todas as pessoas de visão devem tomar conhecimento.



Neste link abaixo voce pode acessar um site com o texto integral dos Protocolos:

Nota do Blog Gilnei Andrade

Vivemos na era da comunicação instantânea. A internet é uma poderosa arma do século XXI. Tudo pode ser acessado e sabendo procurar tudo pode ser encontrado. Ao resolver falar dos PROTOCOLOS tomei algumas precauções. Na minha opinião pessoal trata-se de uma publicação de extrema-direita, uma fraude histórica e política.

Pode ser lido assim como são lidos os livros da Editora Revisão de S.E. Castan, como é lido 'O Judeu Internacional', 'O Gás Acabou' ou ainda o Mein Kampf (Minha Luta) de Hitler. Melhor ser lido dessa forma, com as devidas ressalvas, do que numa reunião de neo-nazistas após um ritual de iniciação que cria no incauto um clima de expectativa, excitação e introdução aos mistérios da humanidade.

                                                                                                                                                 07/07/2013

sexta-feira, 5 de julho de 2013

MARTIN FIERRO: UM POEMA DA DIGNIDADE LATINO-AMERICANA

 E atendam à relação
de um gaúcho perseguido,
que foi bom pai e marido
delicado e diligente;
entretanto muita gente
o considera bandido. 




Martín Fierro: o anti-herói gauchesco da literatura do Prata

 Profa Dra. Lisana Bertussi (UCS) 

 Muito se tem enfatizado a importância de considerar a literatura gauchesca como um produção literária de três pátrias: Brasil (especificamente o Rio Grande do Sul) Argentina e Uruguai). De fato há muita semelhança na cultura desses três países cuja economia é baseada fundamentalmente na atividade pastoril, que gera um tipo regional semelhante e uma literatura regional similar, pois autores como o uruguaio Bartolomé Hidalgo, o argentino José Hernández ou o gaúcho Ramiro Barcelos enfocam um universo comum: o pampa. 

Também já se chamou a atenção para o fator que foi determinante na grande produção e recepção dessa literatura, ou seja, o fato de ela estar muito vinculada a lutas políticas desses países, o que não ocorreu nos EUA que também tem no cawboy um tipo análogo, mas sem uma produção literária regional significativa.  A gauchesca no Rio Grande do Sul, como insistentemente a História e Crítica ressaltaram, teve como ênfase uma visão otimista do universo campeiro, visto como uma espécie de paraíso, habitado pelo herói mitificado em centauro dos pampas e monarca das coxilhas,2 de que temos muitos exemplos desde a literatura oral, passando por poetas do século XIX, como Apolinário Porto Alegre, Bernardo Taveira Júnior ou, mais modernamente, um Jayme Caetano Braun, embora haja exceções, como o próprio Antonio Chimango de Ramiro Barcelos ou a Trilogia do gaúcho a pé de Cyro Martins. 

José Hernández ao configurar seu Martín Fierro opõe-se a essa posição diante da realidade, apresentando uma visão realista e negativa da vida de um campeiro que se constitui em anti-herói, por ser talhado por circunstâncias adversas, que enfraquecem sua força. Ele, que vivia em paz com sua família, é recrutado para as lutas da fronteira, que se traduzem em defender as estâncias de militares ou grandes fazendeiros das invasões indígenas, vivendo de forma miserável e explorado pelos superiores. E quando fugia era perseguido até ser apanhado e levado de volta para a tropa ou para a prisão, se não fosse castigado com a morte. 
E atendam à relação
de um gaúcho perseguido,
que foi bom pai e marido
delicado e diligente;
entretanto muita gente
o considera bandido. (MF p.20)

Martín Fierro que “foi bom pai e marido/ delicado e diligente”, por circunstâncias sociais, é considerado por “muita gente” da sociedade como “bandido”. É essa a configuração do anti-herói, segundo o Dicionário de Teoria da narrativa: 

A peculiaridade do anti-herói decorre de sua configuração psicológica, moral,
social e econômica, normalmente traduzida em termos de desqualificação. Neste
aspecto, o estatuto do anti-herói estabelece-se a partir de uma desmitificação [...]
Apresentado como personagem atravessada por angústias e frustrações o antiherói
concentra em si os estigmas de épocas e sociedades que tendem a
desagregar o indivíduo [...] (REIS/ LOPES, 1988, p.92) 01

E a personagem lembra o tempo passado que, sob seu ponto de vista, romântico opõe-se ao presente infeliz. Observe-se:

Recordo – que maravilha!...
como andava a gauchada
sempre alegre, bem montada
e disposta para a lida;
mas, hoje em dia, - que vida!...
anda toda aporreada. (MF p.24)


Aqui pode-se observar que o anti-herói adquire foros de coletivo, pois faz parte da “gauchada” que “andava sempre alegre, bem montada”. É significativo que o bem estar do gaúcho esteja relacionado com a posse do cavalo, elemento importante na configuração do gaúcho feliz, no Prata, e do mito do centauro dos pampas, fruto do forte vínculo com esse animal, tão decantado no Rio Grande do Sul.

Eu não tinha nem camisa,
ou coisa que se pareça;
só p’ra isca a sorte avessa
me dava trapos enfim...
Nada se iguala ao fortim
para que um homem padeça. (MF p.38)

Por mais azar até o mouro
escapou da minha mão;
não sou lerdo... mas irmão,
veio o comandante um dia,
dizendo-me que o queria
“p’ra ensiná-lo a comer grão” (MF.p.38)

Sem “camisa” vestido com “trapos” tendo perdido o “mouro” para o comandante que, ironicamente dito, apenas “o queria/ ’p’ra ensinar a comer grão’”, o gaúcho expressa sua “má sorte” e “infortúnio” reforçada por estar “a pé”, o que nos lembra 'O tatu'  do cancioneiro popular “de freio na mão e a pé” e a Trilogia do gaúcho a pé deCyro Martins, marcos da desmitificação do mito gauchesco no Rio Grande do Sul.

Na literatura gauchesca de nosso Estado, um tipo muito elogiado, na poesia e prosa, é o gaúcho livre, o gaudério, ou vago, o homem que, não criando raízes em lugar algum, vive de pequenos serviços temporários nas lides com o gado nas fazendas.  Em Hernández, pelo contrário, ele é visto como um degradado despido de qualquer dignidade. E é assim que Martín Fierro se vê.

 01  REIS, Carlos e LOPES, Ana M. Dicionário de teoria da narrativa. São Paulo:
Ática, 1988. [Série Fundamentos, n.29]



 Profa Dra. Lisana Bertussi (UCS) 
 Professora do Departamento de Letras e do Mestrado em Letras, 
cultura, regionalidade da Universidade de Caxias do Sul em

 
Martin Fierro II


Martín Fierro é um poema épico redigido conforme o falar do gaúcho divido em duas partes: "O Gaúcho Martín Fierro" escrito em 1872 e, "A Volta de Martín Fierro" de 1879.


O livro de José Hernández é um protesto contra as tendências europeizantes do presidente Domingo Faustino Sarmiento (1868-1874). Sarmiento acreditava que para a "civilização" imperar na Argentina era necessário derrotar o gaúcho e, importar a "sociedade", a "cultura" e imigrantes da Europa para povoar o país. Contra isso José Hernández rebelou-se. O manifesto do seu desagrado - o contrapondo ao "Facundo" de Sarmiento - foi "O gaúcho Martin Fierro".


Exilado em 1879, Hernández escreverá Martin Fierro em Santana do Livramento, no sul do Brasil. Em “Martin Fierro” a figura gaúcho difere do paradigma do “monarca dos pampas” que o movimento tradicionalista oficial propagandeia a décadas. Na obra de Hernández temos o gaúcho como o pobre dos campos, como o perseguido:


"o gaúcho anda sempre fugindo.
Sempre pobre e perseguido:
não tem cova nem ninho
como se fosse um maldito;
porque ser gaúcho...
o ser gaúcho é um delito.


"No Manual das Zonzeras Argentinas - um livro genial na desmistificação do pensar "colonizado" - Arturo Jauretche dirá que da identificação da "civilização" com a Europa e da "barbárie" com a América Latina surge uma racionalidade de "negação da América e afirmação a Europa". Essa é a matriz de uma mentalidade "colonizada", sempre pronta a copiar o que ontem vinha da Europa e o que hoje vem dos Estados Unidos da América; uma razão que ao voltar as costas à seu povo e sua cultura subordina-se as razões e aos interesses de outros: as razões e aos interesses do Norte.
A seguir, os primeiros versos do Martín Fierro:


1 Aquí me pongo a cantar
Al compás de la vigüela,
Que el hombre que lo desvela
Una pena extraordinaria
Como la ave solitaria
Con el cantar se consuela.



2 Pido a los Santos del Cielo
Que ayuden mi pensamiento;
Les pido en este momento
Que voy a cantar mi historia
Me refresquen la memoria
Y aclaren mi entendimiento.



3 Vengan Santos milagrosos,
Vengan todos en mi ayuda,
Que la lengua se me añuda
Y se me turba la vista;
Pido a Dios que me asista
En una ocasión tan ruda.



4 Yo he visto muchos cantores,
Con famas bien obtenidas,
Y que después de adquiridas
No las quieren sustentar:
Parece que sin largar
Se cansaron en partidas.



5 Mas ande otro criollo pasa
Martín fierro ha de pasar,
Nada la hace recular
Ni las fantasmas lo espantan;
Y dende que todos cantan
Yo también quiero cantar.

Link com o contéudo integral de Martin Fierro:

Créditos da postagem original a Lucio Costa no blog: http://bolichoycultura.blogspot.com/


PS -  (postado originalmente em setembro de 2010 e atualizado em julho de 2013)

O MITO DO GAÚCHO


Como transformar os párias em ícones ?


 


Os gaúchos são homens  “sem chefes, sem leis, sem polícia, tem da moral social, senão idéias vulgares e, sobretudo, uma sorte de probidade condicional que os leva a respeitar a propriedade de quem lhes faz benefício ou de quem os emprega, ou nele deposita confiança: entregues ao jogo com furor, esse vício, que parecem praticar como um meio de encher o vácuo de seus dias, é a fonte dos roubos e às vezes das mortes que cometem(...)” (Nicolau Dreys)





Nicolau Dreys, na sua Notícia Descritiva da Província do Rio Grande de São Pedro do Sul aponta o gaúcho como “um homem do campo, que veste indumentária característica e manifesta predileção pelo cavalo como meio de locomoção”. Esse gaúcho é diferenciado de outro, também por Nicolau Dreys, que se apresenta “sem chefes, sem leis, sem polícia, tem da moral social, senão idéias vulgares e, sobretudo, uma sorte de probidade condicional que os leva a respeitar a propriedade de quem lhes faz benefício ou de quem os emprega, ou nele deposita confiança: entregues ao jogo com furor, esse vício, que parecem praticar como um meio de encher o vácuo de seus dias, é a fonte dos roubos e às vezes das mortes que cometem(...)”. Auguste Saint Hilaire também aponta o gaúcho como “estes homens sem religião, nem moral, na maioria índios ou mestiços, que os portugueses designavam pelo nome de garruchos ou gahuchos, que vagavam pelos campos em busca do gado chimarrão fugitivo dos primeiros povoamentos espanhóis e subsistiam da retirada e da comercialização do couro destas tropas”.




Essa variedade de significações é surpreendente, porque, hoje, gaúcho é um adjetivo gentílico para todo o povo do Rio Grande do Sul. Augusto Meyer explica essa transformação no ensaio “Gaúcho, história de uma palavra”. Nesse ensaio,  Augusto Meyer aponta a literatura gaúcha como a principal responsável pela transformação do significado da palavra gaúcho.