João Jorge e Jacobina Maurer

João Jorge e Jacobina Maurer

I m A g E m

I m A g E m
O Velho do Espelho

"Por acaso, surpreendo-me no espelho:
quem é esse que me olha e é
tão mais velho do que eu?
Porém, seu rosto...é cada vez menos estranho...
Meu Deus,Meu Deus...Parece meu velho pai -
que já morreu"! (Mario Quintana)

P E S Q U I S A

sexta-feira, 5 de julho de 2013

MARTIN FIERRO: UM POEMA DA DIGNIDADE LATINO-AMERICANA

 E atendam à relação
de um gaúcho perseguido,
que foi bom pai e marido
delicado e diligente;
entretanto muita gente
o considera bandido. 




Martín Fierro: o anti-herói gauchesco da literatura do Prata

 Profa Dra. Lisana Bertussi (UCS) 

 Muito se tem enfatizado a importância de considerar a literatura gauchesca como um produção literária de três pátrias: Brasil (especificamente o Rio Grande do Sul) Argentina e Uruguai). De fato há muita semelhança na cultura desses três países cuja economia é baseada fundamentalmente na atividade pastoril, que gera um tipo regional semelhante e uma literatura regional similar, pois autores como o uruguaio Bartolomé Hidalgo, o argentino José Hernández ou o gaúcho Ramiro Barcelos enfocam um universo comum: o pampa. 

Também já se chamou a atenção para o fator que foi determinante na grande produção e recepção dessa literatura, ou seja, o fato de ela estar muito vinculada a lutas políticas desses países, o que não ocorreu nos EUA que também tem no cawboy um tipo análogo, mas sem uma produção literária regional significativa.  A gauchesca no Rio Grande do Sul, como insistentemente a História e Crítica ressaltaram, teve como ênfase uma visão otimista do universo campeiro, visto como uma espécie de paraíso, habitado pelo herói mitificado em centauro dos pampas e monarca das coxilhas,2 de que temos muitos exemplos desde a literatura oral, passando por poetas do século XIX, como Apolinário Porto Alegre, Bernardo Taveira Júnior ou, mais modernamente, um Jayme Caetano Braun, embora haja exceções, como o próprio Antonio Chimango de Ramiro Barcelos ou a Trilogia do gaúcho a pé de Cyro Martins. 

José Hernández ao configurar seu Martín Fierro opõe-se a essa posição diante da realidade, apresentando uma visão realista e negativa da vida de um campeiro que se constitui em anti-herói, por ser talhado por circunstâncias adversas, que enfraquecem sua força. Ele, que vivia em paz com sua família, é recrutado para as lutas da fronteira, que se traduzem em defender as estâncias de militares ou grandes fazendeiros das invasões indígenas, vivendo de forma miserável e explorado pelos superiores. E quando fugia era perseguido até ser apanhado e levado de volta para a tropa ou para a prisão, se não fosse castigado com a morte. 
E atendam à relação
de um gaúcho perseguido,
que foi bom pai e marido
delicado e diligente;
entretanto muita gente
o considera bandido. (MF p.20)

Martín Fierro que “foi bom pai e marido/ delicado e diligente”, por circunstâncias sociais, é considerado por “muita gente” da sociedade como “bandido”. É essa a configuração do anti-herói, segundo o Dicionário de Teoria da narrativa: 

A peculiaridade do anti-herói decorre de sua configuração psicológica, moral,
social e econômica, normalmente traduzida em termos de desqualificação. Neste
aspecto, o estatuto do anti-herói estabelece-se a partir de uma desmitificação [...]
Apresentado como personagem atravessada por angústias e frustrações o antiherói
concentra em si os estigmas de épocas e sociedades que tendem a
desagregar o indivíduo [...] (REIS/ LOPES, 1988, p.92) 01

E a personagem lembra o tempo passado que, sob seu ponto de vista, romântico opõe-se ao presente infeliz. Observe-se:

Recordo – que maravilha!...
como andava a gauchada
sempre alegre, bem montada
e disposta para a lida;
mas, hoje em dia, - que vida!...
anda toda aporreada. (MF p.24)


Aqui pode-se observar que o anti-herói adquire foros de coletivo, pois faz parte da “gauchada” que “andava sempre alegre, bem montada”. É significativo que o bem estar do gaúcho esteja relacionado com a posse do cavalo, elemento importante na configuração do gaúcho feliz, no Prata, e do mito do centauro dos pampas, fruto do forte vínculo com esse animal, tão decantado no Rio Grande do Sul.

Eu não tinha nem camisa,
ou coisa que se pareça;
só p’ra isca a sorte avessa
me dava trapos enfim...
Nada se iguala ao fortim
para que um homem padeça. (MF p.38)

Por mais azar até o mouro
escapou da minha mão;
não sou lerdo... mas irmão,
veio o comandante um dia,
dizendo-me que o queria
“p’ra ensiná-lo a comer grão” (MF.p.38)

Sem “camisa” vestido com “trapos” tendo perdido o “mouro” para o comandante que, ironicamente dito, apenas “o queria/ ’p’ra ensinar a comer grão’”, o gaúcho expressa sua “má sorte” e “infortúnio” reforçada por estar “a pé”, o que nos lembra 'O tatu'  do cancioneiro popular “de freio na mão e a pé” e a Trilogia do gaúcho a pé deCyro Martins, marcos da desmitificação do mito gauchesco no Rio Grande do Sul.

Na literatura gauchesca de nosso Estado, um tipo muito elogiado, na poesia e prosa, é o gaúcho livre, o gaudério, ou vago, o homem que, não criando raízes em lugar algum, vive de pequenos serviços temporários nas lides com o gado nas fazendas.  Em Hernández, pelo contrário, ele é visto como um degradado despido de qualquer dignidade. E é assim que Martín Fierro se vê.

 01  REIS, Carlos e LOPES, Ana M. Dicionário de teoria da narrativa. São Paulo:
Ática, 1988. [Série Fundamentos, n.29]



 Profa Dra. Lisana Bertussi (UCS) 
 Professora do Departamento de Letras e do Mestrado em Letras, 
cultura, regionalidade da Universidade de Caxias do Sul em

 
Martin Fierro II


Martín Fierro é um poema épico redigido conforme o falar do gaúcho divido em duas partes: "O Gaúcho Martín Fierro" escrito em 1872 e, "A Volta de Martín Fierro" de 1879.


O livro de José Hernández é um protesto contra as tendências europeizantes do presidente Domingo Faustino Sarmiento (1868-1874). Sarmiento acreditava que para a "civilização" imperar na Argentina era necessário derrotar o gaúcho e, importar a "sociedade", a "cultura" e imigrantes da Europa para povoar o país. Contra isso José Hernández rebelou-se. O manifesto do seu desagrado - o contrapondo ao "Facundo" de Sarmiento - foi "O gaúcho Martin Fierro".


Exilado em 1879, Hernández escreverá Martin Fierro em Santana do Livramento, no sul do Brasil. Em “Martin Fierro” a figura gaúcho difere do paradigma do “monarca dos pampas” que o movimento tradicionalista oficial propagandeia a décadas. Na obra de Hernández temos o gaúcho como o pobre dos campos, como o perseguido:


"o gaúcho anda sempre fugindo.
Sempre pobre e perseguido:
não tem cova nem ninho
como se fosse um maldito;
porque ser gaúcho...
o ser gaúcho é um delito.


"No Manual das Zonzeras Argentinas - um livro genial na desmistificação do pensar "colonizado" - Arturo Jauretche dirá que da identificação da "civilização" com a Europa e da "barbárie" com a América Latina surge uma racionalidade de "negação da América e afirmação a Europa". Essa é a matriz de uma mentalidade "colonizada", sempre pronta a copiar o que ontem vinha da Europa e o que hoje vem dos Estados Unidos da América; uma razão que ao voltar as costas à seu povo e sua cultura subordina-se as razões e aos interesses de outros: as razões e aos interesses do Norte.
A seguir, os primeiros versos do Martín Fierro:


1 Aquí me pongo a cantar
Al compás de la vigüela,
Que el hombre que lo desvela
Una pena extraordinaria
Como la ave solitaria
Con el cantar se consuela.



2 Pido a los Santos del Cielo
Que ayuden mi pensamiento;
Les pido en este momento
Que voy a cantar mi historia
Me refresquen la memoria
Y aclaren mi entendimiento.



3 Vengan Santos milagrosos,
Vengan todos en mi ayuda,
Que la lengua se me añuda
Y se me turba la vista;
Pido a Dios que me asista
En una ocasión tan ruda.



4 Yo he visto muchos cantores,
Con famas bien obtenidas,
Y que después de adquiridas
No las quieren sustentar:
Parece que sin largar
Se cansaron en partidas.



5 Mas ande otro criollo pasa
Martín fierro ha de pasar,
Nada la hace recular
Ni las fantasmas lo espantan;
Y dende que todos cantan
Yo también quiero cantar.

Link com o contéudo integral de Martin Fierro:

Créditos da postagem original a Lucio Costa no blog: http://bolichoycultura.blogspot.com/


PS -  (postado originalmente em setembro de 2010 e atualizado em julho de 2013)

O MITO DO GAÚCHO


Como transformar os párias em ícones ?


 


Os gaúchos são homens  “sem chefes, sem leis, sem polícia, tem da moral social, senão idéias vulgares e, sobretudo, uma sorte de probidade condicional que os leva a respeitar a propriedade de quem lhes faz benefício ou de quem os emprega, ou nele deposita confiança: entregues ao jogo com furor, esse vício, que parecem praticar como um meio de encher o vácuo de seus dias, é a fonte dos roubos e às vezes das mortes que cometem(...)” (Nicolau Dreys)





Nicolau Dreys, na sua Notícia Descritiva da Província do Rio Grande de São Pedro do Sul aponta o gaúcho como “um homem do campo, que veste indumentária característica e manifesta predileção pelo cavalo como meio de locomoção”. Esse gaúcho é diferenciado de outro, também por Nicolau Dreys, que se apresenta “sem chefes, sem leis, sem polícia, tem da moral social, senão idéias vulgares e, sobretudo, uma sorte de probidade condicional que os leva a respeitar a propriedade de quem lhes faz benefício ou de quem os emprega, ou nele deposita confiança: entregues ao jogo com furor, esse vício, que parecem praticar como um meio de encher o vácuo de seus dias, é a fonte dos roubos e às vezes das mortes que cometem(...)”. Auguste Saint Hilaire também aponta o gaúcho como “estes homens sem religião, nem moral, na maioria índios ou mestiços, que os portugueses designavam pelo nome de garruchos ou gahuchos, que vagavam pelos campos em busca do gado chimarrão fugitivo dos primeiros povoamentos espanhóis e subsistiam da retirada e da comercialização do couro destas tropas”.




Essa variedade de significações é surpreendente, porque, hoje, gaúcho é um adjetivo gentílico para todo o povo do Rio Grande do Sul. Augusto Meyer explica essa transformação no ensaio “Gaúcho, história de uma palavra”. Nesse ensaio,  Augusto Meyer aponta a literatura gaúcha como a principal responsável pela transformação do significado da palavra gaúcho.




terça-feira, 2 de julho de 2013

Flavio Koutzii: “Esse é o melhor Brasil que temos depois da ditadura”


“Um dos paradoxos da situação provocada pelos protestos de rua que sacudiram o Brasil nas últimas semanas é a impressão, estimulada por alguns setores bem identificados, de que o país estaria acabando quando, na verdade, está começando um novo ciclo, em um novo patamar. É claro que há problemas relativamente agudos na educação, na saúde e na segurança, mas não podemos fazer de conta de que não existiram os grandes avanços que o país teve nos últimos anos. Estou convencido de que esse é o melhor Brasil que nós temos depois da ditadura”. A avaliação é de Flavio Koutzii, dirigente histórico do PT gaúcho e nacional, que, ao mesmo tempo em que reconhece a legitimidade das manifestações e vê nelas uma expressão de mudança qualitativa na política brasileira, adverte para o risco de uma regressão no país que provoque o desmonte das políticas construídas nos últimos dez anos.
Em entrevista ao Sul21, Koutzii analisa os significados políticos das manifestações, procura situá-las num contexto histórico mais amplo e reconhece responsabilidades do PT e do governo federal nesse quadro de crise da representação política e partidária. Entre as responsabilidades do governo, o ex-chefe da Casa Civil do governo Olívio Dutra assinala uma escolha que, para ele, resultou num desastre: a incapacidade de disputar suas próprias políticas e símbolos no espaço dominante da comunicação:
Houve uma omissão a respeito. Não se trata de uma falha, mas de uma escolha, uma escolha de não enfrentar os monopólios da mídia. Isso tem a ver com o fato de que o tom, a ênfase e o próprio código valorativo do que efetivamente se fez tiveram uma grande diminuição de potência, porque nem o governo transformou isso em bandeiras. O governo anunciou o que fez, é verdade. Mas isso está no meio de todos os demais anúncios. O governo raramente disputou isso como a vitória de uma política, o que no Brasil é considerado um pecado e daria umas cem edições da Folha de São Paulo e umas cinco mil edições da Veja”.
Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21
Leia, a seguir, a íntegra da entrevista.

“Há um pensamento desagregador muito comum hoje entre os cronistas da mídia e editorialistas ao abordar a realidade política, econômica e social brasileira | 
Sul21: As mobilizações e protestos de rua que sacudiram o país nas últimas semanas constituíram um fenômeno completamente inesperado. Qual a sua caracterização geral sobre as mesmas, se é que já é possível fazer tal caracterização?
Flavio Koutzii: Essas mobilizações, de fato, foram inesperadas e tiveram como elemento deflagrador reivindicações em várias cidades relacionadas ao preço das tarifas de ônibus. Rapidamente, se agregou a este cenário um nível importante de repressão policial que deu mais combustão a essa energia inicial. Pelo contexto brasileiro, o que aconteceu foi surpreendente, mas do ponto de vista do cenário mundial, ao qual não há nenhum abuso em recorrer para estabelecer alguns parâmetros e referências, torna-se um pouco menos surpreendente. Se olhamos para a Primavera Árabe, as manifestações nos países europeus completamente avassalados pela política de destruição dos direitos mínimos de cidadania, de trabalho e de garantias sociais, temos a percepção inicial, e talvez até mais do que isso, do poder imenso das chamadas redes sociais. Não era exatamente uma novidade tecnológica, mas houve certa desatenção para o fato de que se tratava de uma novidade social de grande potência.
Merece destaque, no caso brasileiro, a sintonia e a sincronia com que os processos se deram rapidamente nas principais cidades do país de forma multitudinária e quase instantânea. É um fenômeno mais ou menos análogo, considerando as respectivas diferenças de contexto, ao que vinha acontecendo em outros países, para derrubar ditaduras ou para denunciar o caráter destrutivo da hegemonia neoliberal no terreno da economia e da aniquilação de direitos sociais. Ainda no caso brasileiro, se considerarmos a visão dos “secadores” do desenvolvimento econômico do país, para tomar uma expressão futebolística, temos a impressão de que esse é o pior Brasil que já tivemos. Eu estou absolutamente convencido de que esse é o melhor Brasil que nós temos depois da ditadura. Há um pensamento desagregador muito comum hoje entre os cronistas da mídia e editorialistas ao abordar a realidade política, econômica e social brasileira. Esse pensamento teve uma pequena repercussão, mas teve, nas pautas levadas adiante nas manifestações para tentar criar a impressão que esse é o pior Brasil da história. Um dos símbolos desse tipo de pensamento foi a famosa capa da Veja com o tomate, que foi uma grande tergiversação.
Sul21Se esse é o melhor Brasil que nós temos depois da ditadura, e há fartos indicadores para apoiar essa afirmação, como entender esses protestos de rua?
FK: Afirmar isso não retira, é claro, a legitimidade das manifestações. Um dos paradoxos da situação atual é essa impressão, estimulada por alguns, de que o país estaria acabando quando, na verdade, está começando um novo ciclo, em um novo patamar. É claro que há problemas relativamente agudos na educação, na saúde e na segurança, mas não podemos fazer de conta de que não existiram os grandes avanços que o país teve nos últimos anos. Mas não resta dúvida de que essas manifestações representam uma ruptura qualitativa em relação a qualquer outro processo que o Brasil já viveu. Isso é o mínimo que se pode dizer. Eu venho de uma geração que atravessou as primeiras lutas que ainda foram possíveis de fazer, de forma direta e massiva, depois do golpe de 64 e da instauração da ditadura. O ápice da luta neste período inicial pós-golpe foi a passeata dos 100 mil, em 1968, no Rio de Janeiro. Foi uma coisa extraordinária, mas durante o período de acumulação para chegar até essa passeata, atividades com 100 pessoas, em sua maioria compostas por jovens também, eram consideradas um grande sucesso.

“Houve um movimento da direita para tentar capturar o movimento, uma vez que, dada a sua constituição, ele é impulsionado não só pela pluralidade de eixos” | 
Estou falando de 50 anos atrás, mas isso ajuda a perceber, até pela experiência vivida, que o gigantismo do processo atual (com manifestações simultâneas que chegaram a reunir 800 mil, um milhão de pessoas em todo o Brasil) é um fato muito relevante. Não menos relevante é o perfil majoritariamente jovem dessas manifestações. Além disso, colocou-se um tema sobre o qual creio que a esquerda, e mesmo o governo nacional, tem que se interrogar fortemente: uma situação dessa dimensão não cai do céu, ela não pode simplesmente ser impulsionada pelas redes, senão a tecnologia é tudo e a política é nada. Não há, obviamente, no início desse processo nenhuma motivação conspiratória, o que não quer dizer que no decorrer do mesmo, em virtude de sua dimensão, não tenha se colocado uma nova situação política, uma grande mexida no tabuleiro político do país, fazendo com que outras forças começassem a se mover.
Sul21Que forças começaram a se mover e em que direção?
FK: Houve um movimento da direita para tentar capturar o movimento, uma vez que, dada a sua constituição, ele é impulsionado não só pela pluralidade de eixos, mas também por uma espontaneidade inicial de quem participa dele. Mas não existe propriamente uma geração espontânea do movimento e não se pode confundir potencialidade tecnológica com motivos que têm como base expectativas sociais não efetivadas. Volta aí o tema do paradoxo que citei anteriormente e que aparece nos debates hoje nas redes e fora delas. Se eu, reconhecendo todas as dificuldades e limites, afirmo os valores parciais do processo dos últimos dez anos, com Lula e Dilma, logo vem alguém dizer: “Ah, você está dizendo então que está tudo uma maravilha, que está tudo bem na saúde e na educação, que a segurança é perfeita…”. É um clichê lamentável, empobrecido e simplificador, muito a gosto do maniqueísmo.
Esta forma de discutir, que vem se tornando comum em setores médios da população, está sempre nos trilhos do maniqueísmo. Qualquer afirmação positiva é confrontada com tudo o que ainda falta por fazer. E não é levado em conta o caráter concreto e positivo de tudo o que já foi feito. Não se leva em conta, por exemplo, que o modo pelo qual a política e a economia foram administradas nos últimos anos colocou cerca de 30 milhões nisso que vem sendo chamado, certo ou errado, de nova classe média. Será que a aposta feita antes da crise mundial de 2008 de ampliar o mercado interno não foi um elemento que nos permitiu enfrentar a ressaca mundial decorrente da crise do universo financeiro que comanda cada vez mais perversamente a economia e controla muitas sociedades? Arrancar 15 milhões de pessoas da mais extrema pobreza é algo sem significado, de menor importância? Cinco milhões de pessoas beneficiadas pelo Luz para Todos é um detalhe secundário?
Poderia seguir dando outros tantos exemplos. A política internacional, que deu autonomia e capacidade de potencializar a posição do Brasil no cenário mundial não tem nenhuma importância. O fato é que há uma lista de muitas realizações que é substantiva. Poderia citar ainda o Bolsa Família, a política de quotas…Há uma discussão político-ideológica em torno dessas políticas. Elas existem, incidem sobre a sociedade e tem um alcance extraordinário, como é o caso do Bolsa Família. Tem o pré-sal, a Petrobras, que está sempre na linha de tiro da direita. Esse é o Brasil. Tem tudo o que falta, é verdade, senão as pessoas não estariam falando nisso, mas o que falta no que falam é o reconhecimento do que já foi feito, não como um paraíso, mas como avanços concretos e substantivos.

“Quer dizer que todo mundo pode tentar defender e usar a linguagem dos meios de comunicação atuais para o que quiser, menos o governo?” | 
Sul21Todos esses avanços e resultados parecem ter desaparecido do debate político atual. Como isso pode ocorrer, na sua avaliação?
FK: É como se não tivessem acontecido e como se, juntos, não articulassem um olhar global mais auspicioso sobre a realidade do país. O que isso tem a ver com as manifestações? Tem a ver com um dos elementos da política do governo federal nestes anos, um elemento que é uma escolha e é um desastre: a incapacidade de disputar suas próprias políticas e símbolos no espaço dominante da comunicação. A realidade é que hoje o governo e todo o campo progressista e de esquerda não tem instrumentos para enfrentar esse problema. Pior ainda: houve uma omissão a respeito. Não se trata de uma falha, mas de uma escolha, uma escolha de não enfrentar os monopólios e corporações da mídia. Se juntarmos esses fios, podemos ver que isso tem a ver com o fato de que o tom, a ênfase e o próprio código valorativo do que efetivamente se fez teve uma grande diminuição de potência, porque nem o governo transformou isso em bandeiras. O governo anunciou o que fez, é verdade. Mas isso está no meio de todos os demais anúncios.
O governo raramente disputou isso como a vitória de uma política. Consequentemente, não politizou a própria política que usou, o que é considerado um pecado no Brasil. É claro que isso daria umas cem edições da Folha de São Paulo e umas cinco mil edições da Veja, como se fosse uma grande imoralidade administrativa. Quer dizer que todo mundo pode tentar defender e usar a linguagem dos meios de comunicação atuais para o que quiser, menos o governo? Então, o governo tem uma grande dose de responsabilidade aí. Ocorre essa explosão crítica, nutrida em parte por problemas reais, e, por outro lado, não tem nada, por parte de uma política governamental, que fez coisas tão boas e tão importantes, na defesa política do que fez e na disputa de ideias na sociedade. Essas realizações foram decisivas para a reeleição de Lula e para a eleição da Dilma, porque incidiram na vida real das pessoas. Isso é fantástico. O que é inaceitável é não fazer a batalha política em torno dessas coisas alcançadas. Assim, a direita fica falando sozinha. Esse é um dos temas que considero muito importante para fazer um diagnóstico mais amplo e contextualizado do que está acontecendo. Se tivesse ocorrido uma disputa sobre o que realmente foi feito, seria possível tensionar democraticamente o próprio processo de mobilizações e protestos.
Dois ou três dias depois que as coisas começam a acontecer já é possível perceber uma leve derrapagem de partes do movimento que começam a apontar diretamente para o governo federal. Neste momento entram em ação, na mídia e nas redes sociais, usinas que começam a trabalhar, com maior ou menor sutileza, na direção da desestabilização do governo e da presidência em particular, apostando na lógica do quanto pior, melhor. Esses elementos todos fazem parte de um primeiro olhar sobre como essas coisas todas se articularam. O fator surpresa foi a aparição dos protestos com essa intensidade. O fator explicação é o que temos o dever de procurar, de refletir sem sectarismos ou esquematismos, mas distinguindo as coisas. Esse processo todo acabou se tornando uma espécie de condenação global do país, como se nada tivesse acontecido e como se não estivéssemos muito bem em várias áreas.
Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21
Sul21E parece ter sido muito rápida essa transição de um movimento focado na questão do preço das passagens do transporte coletivo para uma espécie de condenação geral do governo, dos partidos, dos políticos em geral. Qual é a parte de responsabilidade dos partidos neste processo, em especial do PT e dos seus principais aliados? Há um razoável consenso em torno do diagnóstico que vivemos, de fato, uma crise do sistema partidário e de representação política. Qual é o peso dos partidos nessa crise?

“tem uma espécie de racismo operando que faz com que não suportem o fato de milhões de pessoas que viviam na pobreza terem melhorado de vida” |
FK: Essa é uma questão fundamental. Temos vários elementos precedentes que foram alimentando um caldo de cultura e uma atmosfera política que potencializaram a amplitude e a dimensão do que acabou ocorrendo, e eu diria também, potencializaram a paixão e o rancor que às vezes se misturaram indistintamente nessa atmosfera. Não tenho dúvida que o estado maior das finanças, da grande mídia e de setores empresariais muito importantes nunca estiveram tão bem do ponto de vista de sua atividade empresarial capitalista. Mesmo assim, eles não suportam. Como disse o Chico Buarque certa vez, tem uma espécie de racismo operando que faz com que não suportem o fato de milhões de pessoas que viviam na pobreza terem melhorado de vida. Mesmo tendo ocorrido uma ampliação espetacular do mercado interno brasileiro, que incorporou milhões de pessoas que estavam numa situação de “pré-consumidores” – e escolho essa palavra porque diz respeito a esses setores -, o que os ajudou a não sucumbirem à crise de 2008, eles não suportam quem está no governo hoje. E isso que o que estamos fazendo são políticas de moderadas reformas dentro da sociedade capitalista.
O horizonte socialista, por mais que me doa pessoalmente reconhecê-lo pois dediquei minha vida a esse projeto, não está colocado. Tem gente que não gosta que se diga isso, mas acho que precisamos chamar as coisas pelo nome. O projeto socialista colapsou e os reformistas moderados fizeram coisas boas e interessantes para o povo brasileiro. Mas elas não têm a ver com reformas radicais ou com perspectivas revolucionárias. Essa é a situação e esses são os nomes das coisas que temos diante de nós.
Essa é a moldura do debate sobre a responsabilidade dos partidos. Nós acabamos vivenciando uma crescente relativização de certos valores. Eu me incluo nessa responsabilidade pelo período em que fui dirigente, pelo conjunto da própria trajetória do PT. Eu até aceitaria essa frase que costumam jogar na nossa cara, de que todos os partidos são iguais, com uma ressalva: são quase iguais, mas não fazem a mesma coisa. Essa questão é fundamental. O PT, por uma série de processos em que se envolveu, como o próprio tema do mensalão, foi erosionando dramaticamente a sua própria autoridade moral, que lhe deu tanta potência política e foi tão vital para seu crescimento nos primeiros vinte anos. Mas cabe uma ressalva. Nós podemos ter ficado muito parecidos com os outros, mas a nossa ideia sobre o que fazer do Brasil é diferente da ideia da direita. É por isso, também, que ela nos combate. Não é só porque ela não gosta do nosso cheiro; também não gosta das nossas ideias.

“A escolha de uma espécie de” realpolitik”, ditada pela necessidade de fazer um governo de coalizão também é um elemento inescapável neste debate” | 
A nossa responsabilidade, falando como petista, ao dissolver certo núcleo ético que acompanhava a vitalidade das nossas políticas e que nos nutriu para chegarmos onde chegamos, produziu um efeito no campo da direita. Impotente, pelo esgotamento do seu projeto executado nos anos 90 durante o governo Fernando Henrique, ela desloca para o centro da política o tema da ética e da moral. E nós demos muita sopa. Com os erros e procedimentos pelos quais somos responsáveis, nem sempre exatamente como eles dizem, nós abrimos um flanco que eles usaram para introduzir um cavalo de troia no nosso campo, reduzindo a política ao tema da ética, quando a política que se faz, certa ou errada é, na verdade, o centro da política. A política é a expressão de uma disputa de poder.
A escolha de uma espécie de” realpolitik”, ditada pela necessidade de fazer um governo de coalizão também é um elemento inescapável neste debate. Escolha em relação à qual, diga-se de passagem, eu não tenho nenhuma alternativa a oferecer, a não ser em um aspecto: as coligações podem ser feitas, quando temos um peso importante ou certa hegemonia, para garantir a hegemonia de uma determinada política, política esta que deve ser explicitada. Se não explicitamos essa política e se essa hegemonia se sustenta pelo padrão clássico de troca de favores, temos aí um segundo elemento para entender a crise de autoridade.
Nós evitamos tensionar esse padrão para preservar um amplo leque de alianças. O preço disso é o aumento da despolitização. Nós não fizemos uma disputa enérgica e permanente sobre aquilo que efetivamente fizemos, que tem sentido, tem a ver com desenvolvimento, com distribuição de renda, com a melhoria da vida das pessoas. E isso também não foi feito, em parte, para não espantar aliados. Não creio que seja muito esquerdismo defender que a explicitação da índole dessas políticas poderia causar a perda de alguns aliados, mas poderíamos também entusiasmar muita gente. Creio que isso ajuda a entender a formação de um enorme buraco na política que é ocupado e disputado agora.
Sul21Há um debate em curso sobre a disputa desses movimentos que estão nas ruas. Além disso, o anúncio feito pela presidenta Dilma Rousseff, propondo um plebiscito para encaminhar a Reforma Política, tirou o Congresso da situação de sono esplêndido na qual estava até então, trazendo-o para o centro da cena política. E parece que o Congresso, de modo geral, não reagiu bem às propostas de plebiscito e de um processo constituinte para fazer a Reforma Política. Na sua avaliação, quais são as chances de o Congresso aprovar uma reforma que dialogue com os sentimentos e opiniões que vêm das ruas?

“Tenho um pequeno otimismo sobre a possibilidade de saírem algumas coisas interessantes daí, como a entrada mais consistente de alguns novos protagonistas no espaço da política, mesmo que façam um discurso contra os políticos e os partidos” | 
FK: Acho muito difícil que isso ocorra, pois aí entra em ação o sistema de defesa da corporação. Mas é possível que eles deem alguns anéis para não perderem todos os dedos. Isso depende também da continuação ou não dessas manifestações massivas. Acho que o ritmo tende a diminuir, pois exige um esforço dramaticamente duro. Outras manifestações que assistimos pelo mundo, em realidades políticas distintas, se estenderam por meses até, período no qual aconteceram muitas coisas. Uma das questões importantes para este futuro próximo é acompanhar a evolução de forças interessantes que estão surgindo nessas mobilizações e que não são forças ultraminoritárias. É possível que a grandeza dessa experiência política faça com que certos segmentos que participam dele busquem certa organicidade ou certa forma de permanecer. Esse é um dos dilemas profundos de alguns movimentos em outros países, como é o caso da Espanha. Não se isso vai acontecer aqui. No caso da Espanha, a recusa de certa organicidade foi um pouco fatal. Quem acabou se elegendo foi a pior direita de todas, a mais destrutiva para o povo espanhol.
Sul21No Egito acabou acontecendo algo parecido. No final, até agora, não houve nenhuma grande mudança na estrutura de poder e o resultado da eleição foi a vitória da Irmandade Muçulmana…
FK: Sim, é exatamente o que quero dizer. As mobilizações de rua foram ocorrendo, mas não conseguiram dar um salto qualitativo com uma nova base social potencialmente promissora. Espero que isso não se repita aqui e penso que esse tema ainda está em aberto e vai depender de outros fatores. Neste sentido eu acho que o governo Tarso está indo bastante bem, pois tentou rapidamente estabelecer canais de diálogo reais e não apenas para tentar atenuar a gravidade do conflito. Tenho um pequeno otimismo sobre a possibilidade de saírem algumas coisas interessantes daí, como a entrada mais consistente de alguns novos protagonistas no espaço da política, mesmo que façam um discurso contra os políticos e os partidos. A verdade é que eles estão fazendo política o tempo todo, e não no sentido pejorativo. Então, acho que seria precoce e mesmo errado, do ponto de vista político, abusar de caracterizações que comecem a construir distâncias maiores dos que as que existem neste momento, quando talvez seja possível diminuí-las.
Sul21Na sua avaliação, os protestos e mobilizações de rua trouxeram algum risco de ruptura institucional para o país?
FK: Acho que essa hipótese não pode ser descartada por quem está prestando atenção nesses acontecimentos. Tudo isso começou a acontecer, cabe lembrar, a pouco mais de um ano do início da campanha para as eleições presidenciais de 2014. A dimensão dos fatos redistribuiu um pouco as peças no tabuleiro. Esse tabuleiro já mudou, o que não quer dizer que os novos posicionamentos já estejam cristalizados. Por isso não excluo a necessidade de seguir muito atento a evolução desse cenário. Uma situação dessa grandiosidade traz muitas incertezas. O certo é que em 2014 decidiremos se o país continua com as mudanças, que podem ser graduais mas apontam na direção dos interesses do seu povo, ou se teremos uma regressão com o desmonte do que foi construído nestes últimos dez anos. Isso não é uma visão paranoica nem conspirativa. É uma visão do atual tabuleiro político.
Marco Aurélio Weissheimer

sexta-feira, 28 de junho de 2013

26. A emoção e a coragem de José Paulo Bisol

Do que tu lembras quando te falam do Bisol?
Eu lembro do vice do Lula em duas eleições, do secretário de segurança do Governo Olívio sempre envolvido em polêmicas, do senador combativo e do juiz aposentado que declamava seus poemas no rádio e na TV. Bisol disputou como candidato a vice-presidente de Lula em 1989 e 1994.
Em 1989 foi alvo de várias acusações da grande imprensa que fazia denuncias e questionava sua atuação como senador. Brizola condicionou sua presença no palanque de Lula, no 2º turno da disputa, á ausência de Bisol. Em 1994 acabou sendo substituído na chapa de Lula, em plena campanha, por Aloisio Mercadante.
Como Bisol bem lembrou na entrevista abaixo, o primeiro comício de 2º turno de 1989 onde Brizola, após abrir seu apoio a Lula, participou foi o de Novo Hamburgo, no dia 05 de dezembro.



O dia em que o todo o Brasil acompanhou 
                                             os acontecimentos de Novo Hamburgo                                                       

Eu lembro desse dia e como aconteceu. Foi assim:                                                                           Depois de uma dia de reuniões em Porto Alegre, no dia 05 de dezembro, seriam realizados dois comícios em Novo Hamburgo no fim da tarde e depois, á noite, em Caxias do Sul. O clima em Novo Hamburgo era de extremo cuidado com a segurança porque a confusão no comício do Collor em Caxias do Sul (provocado pelo pessoal do Collor com camisetas do Lula) havia ocorrido poucos dias antes.
Brizola só aceitou vir a Novo Hamburgo e subir no palanque se Bisol não estivesse. Mas Bisol deslocou-se para Novo Hamburgo antes de Lula e Brizola e criou-se uma situação surreal. Bisol passou pela avenida Sete de Setembro ou imediações onde conversou com pessoas e brincou com uma criança e veio para a Câmara de Vereadores onde seria o comício. 
No primeiro turno o comício de Brizola em Novo Hamburgo havia reunido cerca de 30 mil pessoas e o comício do segundo turno, no fim da tarde, reunia quase o mesmo público.


                                    

Quando Lula, Brizola e a comitiva chegaram reuniram-se na sala da bancada do PT, no quarto andar da Câmara, enquanto Bisol era mantido no plenário no térreo que dava acesso a grande sacada que servia como palanque do comício. A tentativa de convencer Bisol a ir para Caxias do Sul - onde Brizola não iria - era dificultada por sua insistência em ficar no comício onde grande público já aguardava mesmo antes do seu início. 
Quando o comício começou Lula e Brizola desceram para o térreo enquanto Bisol, finalmente convencido, subia a serra para Caxias. O comício foi muito bonito, como foram todas as atividades de 1989 e no dia seguinte toda a imprensa nacional falou do 05 de dezembro de 1989, o dia em que o Brasil todo voltou seus olhos para Novo Hamburgo.

                                                                                     Gilnei Andrade



 
A entrevista de Bisol -

...O único partido em que me senti confortável, realizado, foi esse partido que acabo de falar: o PT daquela época. No que eu pude, eu lutei. Só não entrei pro PT naquele tempo, porque pra ser vice eu não podia entrar. Isso em 89 e 94. 

Sul21 – Na campanha de 89, houve um incidente envolvendo o senhor e o Brizola, não é verdade? Acho que foi num palanque, no Rio de Janeiro.
Bisol -
Acho que não foi no Rio. Foi aqui mesmo no Rio Grande do Sul. Acho que em Novo Hamburgo. Ele disse que não iria ao palanque em que eu estivesse. Ele me surpreendeu completamente, porque nunca tinha me dito nada. Alguém soprou alguma coisa no ouvido dele e ele acreditou. É por isso que eu digo que ele fez muita bobagem em relação à minha pessoa. Depois se arrependeu. Quando nós fizemos as pazes ele me pediu desculpas.

Sul21 – Dali para a frente ficaram amigos?
Bisol -
Ficamos distantes. Eu continuei a ser um testemunho favorável a ele, do seu momento mais importante, que foi o momento da Legalidade. Não dá para a gente gente desvalorizar o valioso porque houve uma coisa errada. Essa grandeza é mínima.

http://www.sul21.com.br/jornal/2011/09/bisol-%E2%80%9Clula-e-um-neoliberal-capitalista-ele-nao-tem-nada-de-novo%E2%80%9D/


terça-feira, 18 de junho de 2013

A resposta é mais democracia

                                                  
                                                    
 Não enxergar o elo entre as ruas e o ciclo histórico costuma ser fatal    às lideranças de uma época. Acreditar que o elo, no caso dos recentes protestos em São Paulo, está no aumento de 20 centavos sobre uma tarifa de transporte congelada desde janeiro de 2011, é ingenuidade.
Supor que a ordenação entre uma coisa e outra poderá ser restabelecida à base de cassetetes e pedradas é o passaporte para o desastre. Desastre progressista, bem entendido.
A lógica conservadora nunca alimentou dúvidas existenciais ou políticas quanto a melhor forma de manter o caos nos eixos.Esse é um apanágio do seu repertório histórico.O colapso do trânsito, inclua-se nesse desmanche o custo e o tempo despendidos nos deslocamentos, é apenas o termômetro mais evidente de um metabolismo urbano comatoso.Cerca de 1/3 dos paulistanos, aqueles mais pobres, residentes nas periferias distantes, levam mais de uma, a até mais de duas horas no trajeto da casa ao trabalho.Os tempos indicados são referentes à ida; não consideram o gasto no retorno.Os dados são de pesquisa recente do Ibope. Não se produz uma irracionalidade desse calibre sem um acúmulo deliberado.
Estudos do Ipea reiteram a piora nas condições de transporte urbano das principais áreas metropolitanas do país desde 1992.O Brasil tem a taxa de urbanização mais alta em uma América Latina que lidera o ranking mundial nesse indicador, diz a ONU. O país concluiu a transição rural/urbana em três décadas, açoitado pela política de modernização conservadora do campo.Isso se fez sob a chibata de uma ditadura militar .E não poderia ter sido feito exceto assim.
A virulência do Estado ditatorial fez em um terço do tempo aquilo que as nações ricas levaram um século para realizar. A coagulação da insensatez na atual ‘imobilidade urbana’ reflete o saldo de perdas e danos dessa marcha batida da história.
O crescimento populacional desordenado das grandes cidades, agudizado pelas referidas migrações é um dos alicerces da ruína. Ancorada na omissão pública de décadas, a expansão irracional e especulativa da mancha urbana ganhou vida própria.Com os desdobramentos logísticos sabidos: aumento das taxas de deslocamento e motorização; explosão dos congestionamentos e do custo do transporte.Na vida da cidade e no bolso de cada cidadão.
Não é figura de retórica dizer que esses ingredientes acionam o pino de cada bomba de gás lacrimogênio e faíscam o pavio de cada enfrentamento irrefletido nas batalhas campais registradas na cidade de São Paulo em menos de uma semana. Repita-se: o conservadorismo tem certezas esféricas quanto a melhor forma de lidar com a nitroglicerina social contida nas cápsulas de concreto que ergueu no país nas últimas décadas.
Suas escolhas não podem ser as mesmas das forças progressistas.O nivelamento regressivo acontecerá caso a inércia política ceda o comando dos acontecimentos à lógica da violência.



No caso dos protestos em São Paulo, a responsabilidade da autoridade municipal é superlativa. Cabe-lhe reafirmar o divisor entre a gestão progressista de uma sociedade e a visão conservadora sobre os seus conflitos.
Carta Maior saudou a vitória de Fernando Haddad em 2012 por entender, como entende, que ele representa o resgate do cimento da democracia na reconstrução de São Paulo.Mais que isso.Por entender que a sorte de São Paulo sob a liderança da nova administração marcará o destino da agenda progressista brasileira no período em curso.A maior metrópole latino-americana constitui um gigantesco laboratório de desafios e recursos.Tem a escala necessária para gerar contracorrentes vigorosas, a ponto de sacudir e renovar a agenda da esquerda brasileira, após mais de uma década no comando do país.
A deriva em que se encontram os serviços e espaços públicos da cidade é obra meticulosa e secular de elites predadoras. Ao longo de décadas, a Prefeitura consolidou-se aos olhos da população como um anexo dessa lógica expropriatória, quando deveria funcionar como um escudo do interesse coletivo.Incapaz de se contrapor à tragédia estrutural que marca a luta pela vida em São Paulo, tornou-se uma ferramenta irrelevante aos olhos da cidadania.
A tragédia se completa com o descrédito da população em relação ao seu próprio peso na ordenação institucional da cidade. Daí para acender uma espiral de enfrentamentos bastam 20 centavos de diferença na tarifa. Sim, há outras nuances e interesses entrelaçados ao destaque esquizofrênico com que a mídia convoca e, depois, alardeia o caos a cada protesto.Tais motivações são as mesmas que fizeram do tomate um astro olímpico na modalidade ‘descontrole dos preços’, há menos de um mês.
As mesmas que hoje alardeiam ‘a explosão’ do dólar – e, ontem, denunciavam o ‘populismo cambial’ e os malefícios, verdadeiros, do Real sobrevalorizado. Essas motivações exercitam sua sofreguidão cotidianamente na mesmice de uma mídia que se esboroa sob o peso de sua própria irrelevância jornalística.
A resposta da Prefeitura de São Paulo aos protestos não deve se pautar pelos uivos do jogral conservador.
Não se trata, tampouco, de conciliar com a violência gratuita.
Mas, sim, de encarar as manifestações como um mirante privilegiado para fixar uma nova referência na vida da cidade. Qual seja, a de calafetar o abismo conservador que predominou secularmente na relação entre a Prefeitura e os moradores da metrópole, sobretudo a sua parcela mais pobre. O trunfo do prefeito Fernando Haddad é ter sido eleito para isso. Ele tem legitimidade para subtrair espaços à engrenagem opressora e devolve-los a uma cidadania há muito alijada das decisões referentes ao seu destino e ao destino do seu lugar.
Um salto de qualidade e intensidade na participação democrática na gestão da cidade; essa é a resposta para a fornalha da insatisfação.Da qual os incidentes de agora podem representar apenas um prenúncio pedagógico.São Paulo é o produto mais representativo do capitalismo brasileiro.Um labirinto de contradições, uma geringonça que emperra e se arrasta, desperdiça energia e cospe gente enquanto tritura e refaz o seu concreto de desigualdade.
Não há solução administrativa ou orçamentária imediata para o caos deliberadamente construído aqui.
A resposta à lógica que sequestrou a cidade dos seus cidadãos é devolvê-la a eles fortalecendo os canais existentes e abrindo outros novos, que dilatem o seu discernimento e a capacidade de erguer linhas de passagem entre o presente e o futuro.A alternativa é a anomia, eventualmente sacudida de gás lacrimogênio e pedradas.

(*) NR: a menção ao uso de coquetéis molotov nas manifestações foi suprimida do texto por se tratar de informação divulgada pelo aparato policial, sem comprovação até o momento (12/06/2013; 23h51)

Postado por Saul Leblon às 17:37 em 
http://www.cartamaior.com.br/templates/postMostrar.cfm?blog_id=6&post_id=1264
12/06/2013

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Sergei Eisenstein (1898-1948)

 
  Revolucionário, professor, pensador do cinema, realizador, Sergei Mikhailovich Eisenstein é um dos nomes fundamentais na consolidação da linguagem das imagens em movimento. Com 26 anos fez “A greve”, mostrando que arte e política podiam andar juntas. Com 27, deu ao mundo “O Encouraçado Potemkin”, tão (ou mais) importante que “Cidadão Kane” na história do cinema.  

Filmado em apenas 2 meses e montado com extraordinário apuro técnico, o “Potemkin” tem cenas cujo ritmo supera, com folga, qualquer clip pós-moderno da geração MTV. Logo depois fez “Outubro”, menos narrativo, demonstrando sua “Teoria da Montagem de Atrações”, até hoje modelo para filmes experimentais e trabalhos de vídeo-arte. 
Nestas três obras, apesar de financiado pelo estado, Eisenstein teve bastante liberdade criativa. Seus problemas começaram com “A linha geral”. Stalin julgou que a obra não estava de acordo com o “realismo soviético”, estética que fora estabelecida pela Revolução como a mais adequada para educar e conquistar as “massas”. Stalin chegou a mudar o nome do filme para “O velho e o novo” e propor algumas alterações. Eisenstein não gostou.




Graças ao sucesso extraordinário do “Potemkin”, foi chamado pela MGM e, junto com seus colaboradores Alexandrov e Tissé, embarcou para os Estados Unidos. Só que deu tudo errado. Seus projetos não decolavam, apesar de ter amigos poderosos como Chaplin e Flaherty. Eisenstein resolveu então afastar-se de Hollywood e fazer “Que Viva México”, uma obra ambiciosa sobre a história de um país e sua cultura. Infelizmente, as filmagens foram interrompidas por problemas financeiros, e o material, mais tarde, caiu em mãos gananciosas e pouco inspiradas. 


Desolado, o cineasta só tinha uma saída: voltar para seu país e tentar recolocar-se entre as engrenagens stalinistas. Contudo, os tempos eram ainda mais duros. Nem a imprensa o perdoava por seu afastamento e pelo seu curto idílio capitalista. Começou “O prado de Bezhin”, mas as filmagens foram interrompidas por “instâncias superiores”. Quando sua carreira parecia perdida, entretanto, recebeu a ordem de filmar “Alexandre Nevski”, como uma peça de propaganda anti-germânica (Hitler crescia e ameaçava invadir a União Soviética).



E, assim como já fizera no “Potemkin”, Eisenstein construiu uma obra-prima que está acima da ideologia (ou melhor: alimenta-se da ideologia, mas não está submetida aos seus dogmas). A cena da batalha no gelo é antológica (no sentido estrito da palavra), tanto pela fotografia maravilhosa, quanto pela habilidade narrativa.




 Com o prestígio recuperado, Eisenstein começou “Ivã, o Terrível”, que deveria três partes. Mas então começou a II Guerra, e tudo se complicou. A primeira parte foi concluída, mas a segunda, que teria seqüências em cores, novamente caiu no desagrado de Stálin, que queria um herói indômito, vigoroso, monolítico, e não um ser humano de verdade, como Eisenstein planejava construir. O cineasta morreu de ataque cardíaco em 1948, em desgraça com o regime soviético, mas já consagrado no mundo todo.


FILMOGRAFIA
- “A greve” (1924)
- “O Encouraçado Potemkin” (1925)
- “Outubro” (1927)
- “A linha geral” (1929)
- “Que viva México” (1931) - inacabado
- “O prado de Bezhin” (1935) – inacabado
- “Alexandre Nevski” (1938)
- “Ivã, o Terrível” (1944/45) – em duas partes

Carlos Gerbase é jornalista e trabalha na área audiovisual, como roteirista e diretor. Disponível em http://www.terra.com.br/cinema/favoritos/eisenstein.htm

domingo, 9 de junho de 2013

Mar Portugues

O grupo Contrabando interpreta o tema "Mar Português", de um poema homónimo de Fernando Pessoa. Este tema faz parte do segundo álbum deste grupo intitulado "coisas do ser e do mar" (2008) e é uma composição original do seu guitarrista, Henrique Lopes, na voz de Nuno Cabrita. Fernando Pessoa é um poeta referencial na obra deste grupo de música. O grupo, cujo primeiro álbum, "Fresta", foi editado em 2000, conta também com interpretações de outros importantes autores da língua portuguesa, o que, aliás, define a ideia deste projecto musical, como sejam, Agostinho da Silva, Branquinho da Fonseca, Ary dos Santos ou José Gomes Ferreira.




MAR PORTUGUÊS

Ó mar salgado,
quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena?
Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
 Quem quere passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.

Fernando Pessoa

 www.youtube.com/watch?v=c7414ciO1Hs

Monte Castelo


A música (...) “Monte Castelo” de Renato Russo é um diálogo com o texto bíblico “O amor é um dom supremo’’ escrito pelo apóstolo Paulo à Igreja de Coríntios (que fala da sublimidade do amor como sentimento puro, verdadeiro e generoso) e o soneto 005 de Camões “amor é um fogo que arde sem se ver” (que apresenta o amor existente entre homem e mulher).



                  
Monte Castelo 

Ainda que eu falasse
A língua dos homens
E falasse a língua dos anjos,
Sem amor eu nada seria.

É só o amor! É só o amor
Que conhece o que é verdade.
O amor é bom, não quer o mal,
Não sente inveja ou se envaidece.

O amor é o fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer.

Ainda que eu falasse
A língua dos homens
E falasse a língua dos anjos
Sem amor eu nada seria.

É um não querer mais que bem querer;
É solitário andar por entre a gente;
É um não contentar-se de contente;
É cuidar que se ganha em se perder.

É um estar-se preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É um ter com quem nos mata a lealdade.
Tão contrário a si é o mesmo amor.

Estou acordado e todos dormem.
Todos dormem. Todos dormem.
Agora vejo em parte,
Mas então veremos face a face.

É só o amor! É só o amor
Que conhece o que é verdade,
 Sem amor eu nada seria.
Ainda que eu falasse
A língua dos homens
E falasse a língua dos anjos