João Jorge e Jacobina Maurer

João Jorge e Jacobina Maurer

I m A g E m

I m A g E m
O Velho do Espelho

"Por acaso, surpreendo-me no espelho:
quem é esse que me olha e é
tão mais velho do que eu?
Porém, seu rosto...é cada vez menos estranho...
Meu Deus,Meu Deus...Parece meu velho pai -
que já morreu"! (Mario Quintana)

P E S Q U I S A

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Historiadores irlandeses revêem a Guerra do Paraguai pela ótica de Elisa Lynch



 

A irlandesa Elisa Lynch foi uma prostituta ambiciosa e manipuladora que incitou o ditador paraguaio Francisco Solano López a iniciar o conflito mais sangrento da história da América Latina, a Guerra do Paraguai. Pelo menos essa é a versão que ficou para a história, amplamente divulgada pelos periódicos brasileiros da época e que dirou até hoje.

Mas um grupo internacional de historiadores está propondo que a "Evita Perón do Paraguai" foi na verdade uma corajosa mulher à frente de seu tempo, que se dedicou ao país frente à invasão das tropas do Brasil. Uma mulher que cavou pessoalmente a cova do companheiro após ele ser morto por lanceiros brasileiros.

Para a maioria dos brasileiros, a Guerra do Paraguai é um período esquecido, renegado a vagas lembranças das aulas de história. Já para os paraguaios, foi o momento no qual o seu país, que despontava como potência da América do Sul, foi atirado de volta à idade da pedra, com estupros em massa e no qual em torno de 90% da população masculina foi dizimada.

E a obra "Calúnia: Elisa Lynch e a Guerra do Paraguai" mostra que essa ferida está aberta até hoje na sociedade paraguaia ao mostrar essa guerra trágica pela ótica de uma mulher que ficou lembrada como uma das mais cruéis do mundo.

O livro trilingue, em português, espanhol e inglês, é resultado do esforço conjunto de uma equipe de historiadores que se basearam em milhares de documentos de diversos países.




Veja abaixo a entrevista com o autor Michael Lillis, ex-diplomata que morou por vários anos no Brasil e se interessou por essa figura acusada de ajudar a criar um dos piores conflitos da América do Sul.

Livraria da Folha - Quando você ficou interessado pela primeira vez em Elisa Lynch?

Foi em 1991, eu estava me dirigindo ao Paraguai a negócios, trabalhava com leasing de aviões para empresas da região e o então presidente do país, General Rodrigues, pediu para me ver depois que assinamos o contrato. Ele disse que queria me perguntar o que eles achavam na Irlanda da heroína nacional do Paraguai? Eu não sabia do que ele estava falando, mas como fui um diplomata por vinte anos respondi "com muito interesse, sua excelência". Quando saímos do escritório eu perguntei a um amigo do que se tratava e ele me contou sobre Elisa Lynch. Outro colega depois me enviou um livro chamado "World's Wickedest Women" [pode ser traduzido como "as mulheres mais más do mundo"] e havia um capítulo inteiro dedicado a ela, onde ela era descrita como uma torturadora e prostituta. E nós provamos com nossa pesquisa que isso não possui nenhum fundamento histórico.

Livraria da Folha - Como foi o processo de criação da obra?

Em 1991 eu comecei apenas a me interessar pelo assunto, sem nenhuma pretensão de escrever um livro. Depois diversos amigos do Paraguai, Brasil e da Europa nos reunimos para trocar informações sobre Elisa Lynch. E então começamos a lidar com isso de forma mais séria a partir do ano 2001 com a ajuda do falecido comandante Rolim Amarro, fundador da TAM. Ele organizou um seminário de duas semanas em Assunção onde nós ouvimos cerca de doze historiadores de diversas partes do mundo, que trouxeram novas informações sobre essa mulher fascinante. Eu me afastei um pouco do livro após o acidente aéreo que causou a morte do comandante Rolim, pois ele era um grande amigo, mas retomamos o projeto nos últimos anos. Nós reunimos cerca de 10 mil documentos de diversas regiões do mundo, dos Estados Unidos, Brasil, Paraguai, Irlanda e muitos da Biblioteca do Vaticano.

Livraria da Folha - Você encontrou algum tipo de dificuldade por parte do governo brasileiro ou da comunidade acadêmica do país?

Não. O nosso principal historiador brasileiro, Ricardo Maranhão, chegou a se preocupar, pois parte dos arquivos brasileiros sobre a Guerra do Paraguai ainda é confidencial, está fechado para consultas. Não sabemos nada sobre o que existe dentro desse arquivo secreto e eu acho que a maioria dos historiadores de hoje concordaria que seria uma atitude positiva liberá-los, uma vez que selados como estão eles são fonte de especulação e até paranóia sobre o conteúdo desses documentos. A Irlanda tem uma história também difícil, semelhante à do Paraguai em diversos aspectos, e acredito que sempre é importante disponibilizar o máximo possível de informações para ajudar a diminuir o trauma que fica em um país que passa por momentos históricos tão devastadores.

Livraria da Folha - Você acha que o governo brasileiro hoje possui algum tipo de responsabilidade, não só de abrir esses documentos ao público, mas de talvez fazer uma declaração sobre a atuação brasileira no período?

Tanto eu quanto o co-autor Ronan somos irlandeses, e como falei nosso país passou por diversos momentos conturbados com a Inglaterra pela independência e outros episódios que remontam há séculos. Esse legado do passado sempre foi um enorme problema para a relação entre os países, mas quando Tony Blair emitiu em 1997 um pedido de desculpas pela responsabilidade da Inglaterra pela Grande Fome de 1840, que causou a morte de milhões de irlandeses, esse gesto obviamente não solucionou as divergências, mas foi uma grande ajuda para curar essa cicatriz do passado. Quando você vai para o Paraguai hoje você ainda percebe esse tipo de cicatriz na sociedade.

Livraria da Folha - Em todas as guerras ocorrem grandes perdas. O que houve de diferente da do Paraguai?

Nos dois últimos anos da guerra, eu sinto dizer, ocorreram diversas atrocidades contra civis. O Duque de Caxias chegou a recomendar ao imperador Dom Pedro 2º o fim do combate, pois o Brasil tinha claramente vencido, mas o imperador insistiu em continuar com a campanha. E isso deixou uma marca muito forte na consciência paraguaia. Não cabe a mim dizer que tipo de gesto o governo brasileiro deveria realizar. Poderia ser um pedido de desculpas, poderia ser, como acredito que o presidente Lula já esteja fazendo, encontrar formas de melhorar as relações entre as duas nações, talvez algo relacionado à hidrelétrica de Itaipu, que é muito importante para a infraestrutura do país. O Paraguai é muito pobre e o Brasil é uma nação que possui um lugar importante no mundo e acho que existem formas que o Brasil possa auxiliar o vizinho que também sejam proveitosas para o Brasil.

Livraria da Folha - Qual você considera a importância desse tipo de revisão de verdades históricas consideradas estabelecidas?

É importante que cada geração reveja o passado e reescreva a história. No caso da Guerra do Paraguai, e da biografia de Elisa Lynch em particular, isso é de extrema importância. Na criação deste livro nós descobrimos que muitas das lendas que cercava essa personagem foram fabricadas por inimigos tanto dentro quanto fora do Paraguai. E no final das contas, mesmo que ela não tenha sido perfeita de forma alguma, era uma mulher extremamente interessante, com grande coragem, que foi muito dedicada à causa paraguaia. Com relação ao conflito, ele simplesmente destruiu o Paraguai e deixou um terrível legado histórico no país. E devido à nossa perspectiva como irlandeses, um país que também passou por períodos históricos muito difíceis, consideramos que é importante trazer à tona essas questões para que possamos, tanto fazer algo sobre elas hoje, quanto evitá-las no futuro.



GUILHERME SOLARI
colaboração para a Livraria da Folha
30/11/2009 - 12h23
http://www1.folha.uol.com.br/folha/livrariadafolha/ult10082u659511.shtml
 

Cúrame

                                                                                                   Tela Candido Lopes



Háblame
que no te oiga
Quiéreme
que yo no sepa
Cuídame
que no lo vea
No me mires, no me escuches
haz de cuenta que no existo
Cúrame,
que no sane
Vierte en mi
tu indiferencia

                                                                                Tela Juan Blanes



Cálmame
que en mi se agite
el deseo como un fuego
y me muera por besarte
Llámame
no me respondas
sáciame
que no me alcance
Déjame,
que yo me rinda
que te siga que te ruegue
que después te de la espalda
Cúrame

Juana Molina

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Língua




                                                                                               Caetano Veloso

Gosto de sentir
a minha língua roçar 
A língua de Luís de Camões
Gosto de ser e de estar
E quero me dedicar
A criar confusões de prosódias
E uma profusão de paródias
Que encurtem dores
E furtem cores como camaleões
Gosto do Pessoa na pessoa
Da rosa no Rosa
E sei que a poesia
está para a prosa
Assim como o amor
está para a amizade
E quem há de negar
que esta lhe é superior
E deixa os portugais
morrerem à míngua
"Minha pátria é minha língua"
Fala mangueira! Fala!
Flor do Lácio Sambódromo
Lusamérica latim em pó
O que quer
O que pode
Esta língua?
(...) E que o Chico Buarque de Holanda nos resgate
E - xeque-mate - explique-nos Luanda
Ouçamos com atenção os deles
e os delas da TV Globo
Sejamos o lobo do lobo do homen
Adoro nomes
Nomes em Ã
De coisas como Rã e Imã
Nomes de nomes Como Scarlet Moon
Chevalier Glauco Matoso e Arrigo Barnabé
e Maria da Fé e Arrigo Barnabé
Flor do Lácio Sambódromo
Lusamérica latim em pó
O que quer
O que pode Esta língua? (...)

A procissão dos acorrentados



A revista Manchete, na sua edição de 21 de janeiro de 1984, publicou essa matéria relatando fato ocorrido em São Sebastião do Caí. 

PS - Lembro da repercussão desse caso, na época.



CRÉDITO DA FONTE:
Blog História do Vale do Caí de Renato Klein 
em www.historiasvalecai.blogspot.com.br

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Bandas militares davam o tom patriótico a sangrentos combates da Guerra do Paraguai

Batalha musical

Vinicius de Carvalho
18/1/2011 
 Fui no Itororó
Beber água não achei
Achei bela morena
Que no Itororó deixei
 




Não há criança no Brasil que não conheça esses versos. Talvez a consciência histórico-geográfica de onde fica o Itororó tenha se perdido, mas esta cantiga folclórica lembra o riacho que dá nome a uma das mais sangrentas batalhas da Guerra do Paraguai (1864-1870). Esta lembrança musical do maior conflito militar em que o Brasil já esteve envolvido, também conhecido como Guerra da Tríplice Aliança, não é a única. Os músicos militares estiveram presentes e tiveram importante papel durante todo o conflito.

Clarinetas, trombones e flautas juntaram-se a canhões e baionetas e compuseram uma verdadeira trilha sonora do campo de batalha. As bandas de música eram parte integrante dos Batalhões de Fuzileiros e dos Batalhões de Caçadores do Exército Permanente, ou seja, do Exército profissional. Também os Batalhões de Voluntários da Pátria tinham bandas em seus quadros. Diferentemente do Exército de Linha, que tinha músicos com formação militar prévia, os dos Batalhões de Voluntários da Pátria vinham das camadas populares, muitos deles sem uma formação militar inicial, e que aprenderam a tocar em bandas civis ou mesmo em igrejas. Esse fato fez com que o repertório popular estivesse muito presente na campanha militar, já que era isso que estes instrumentistas estavam habituados a tocar.

A Guerra do Paraguai modifica, assim, as bandas brasileiras. Os civis levavam a composição popular para o campo de batalha e, ao retornarem da guerra, voltavam militarizados. Quase todas as bandas civis passaram a usar uniformes que lembravam os dos soldados e a marchar em forma, como uma tropa. O repertório popular passou a ser também usual entre as bandas militares.

As polícias militares de cada estado do Brasil que mandaram tropas para a Guerra do Paraguai também levaram seus músicos, já que muitas dispunham de bandas organizadas antes mesmo do início do conflito.

Um bom exemplo é o caso da Banda da Polícia Militar da Bahia, que em 1865 parte com o 10º Corpo de Voluntários para a guerra. Segundo algumas crônicas, os componentes da banda atuavam como padioleiros e tocavam nos intervalos das lutas para alegrar os soldados.

Mas os músicos tinham também funções militares. As bandas tocavam em formaturas das tropas e mesmo em marchas. Na Guerra do Paraguai, tocavam durante os combates, ainda que isso pareça absurdo. É o que relata Paulo de Queiroz Duarte, autor de obra fundamental para os estudos sobre a Guerra do Paraguai, quando fala da tática de formação de quadrados empregada pela infantaria no combate. Após a os soldados entrarem em formação, os corneteiros e tambores ocupavam o centro do quadrado e a banda tocava enquanto durasse o fogo. Os corneteiros e tambores repassavam todas as ordens de combate.

Duarte não diz o que tocavam, mas pode-se imaginar que não seriam canções populares. Muito provavelmente, alguma marcha de caráter bastante militar, ou mesmo algum hino patriótico. (...)

FONTE:
http://www.revistadehistoria.com.br/secao/artigos/batalha-musical


(...) Uma curiosidade a respeito da famosa cantiga "Fui no Itororó":
O escritor Veríssimo de Melo relaciona Itororó com o ribeirão homônimo, palco de grande batalha em 6/12/1868 entre as tropas do Brasil e do Paraguai. Para isso, ele se baseia numa versão recolhida em Santa Catarina, em que aparecem os nomes do famoso general Pedro Juan Caballero e do major Moreno, que controlava a artilharia, impedindo a passagem da ponte de Itororó, provocando muitas mortes e assim ensangüentando as águas do ribeirão - daí a alusão de não se achar água para beber. O último verso seria uma reminiscência da frase latina "Veni, vidi, vinci" dita por Júlio César ao Senado de Roma:

Eu fui lá no Tororó
Beber água e não achei,
Ver Moreno e Caballero
Já fui, já vi, já cheguei  (...)

FONTE:
http://tudoporsaopaulo1932.blogspot.com.br/2011/10/medalha-de-bravura-da-guerra-do.html

Esclavos romanos: una cabeza y serás libre

La batalla de Cannas tuvo lugar en agosto del año 216 a.C. dentro de la Segunda Guerra Púnica. El ejército de Aníbal, cartaginés, se enfrentó a las tropas romanas de Cayo Terencio Varrón y Lucio Emilio Paulo. Estos últimos fueron derrotados y quedaron en una situación delicada. Como salida desesperada, el ejército romano decidió reclutar a esclavos para su filas mediante un método algo peculiar.


Batalla de Zama
Batalla de Zama


Los generales romanos prometieron la libertad a todos los esclavos que lucharan en su bando y volvieran después de la batalla con la cabeza de algún enemigo. Esta idea, que puede parecer casi buena a priori, tuvo un resultado no tan bueno, según narra Tito Livio en Historia de Roma desde su fundación.
El mayor inconveniente para los romanos lo constituían las cabezas convertidas en precio de la libertad. En efecto, cuando uno daba prontamente muerte a un enemigo, primero perdía tiempo con el engorro de cortarle la cabeza en medio de la confusión y la aglomeración; después, con la mano derecha ocupada en sostener la cabeza, los más aguerridos quedaban al margen del combate y la lucha quedaba en manos de los cobardes y pusilánimes.
Como decía, una idea que se tornó contra aquellos que la habían tenido. Y es que tiene lógica que si el precio de la libertad es una cabeza, una, se corte la primera que se tenga a mano y se deje de lado la batalla conseguido tal botín. Es más, los más fuertes esclavos irían a por los más débiles enemigos, ya que una cabeza es una cabeza independientemente de lo bueno o malo que sea como soldado el que la sostiene, y así después de un rato quedarían en el campo de batalla los más fuertes de los enemigos romanos y los más débiles de los esclavos.

Fuente: Gabinete de curiosidades romanas, de J.C. McKeown
Publicado no site Curistoria - (lunes, 13 de mayo de 2013) - www.curistoria.blogspot.com

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Os Primeiros Jornais do Brasil


or causa da censura e da proibição de tipografias na colônia, impostas pela Coroa Portuguesa, o Brasil tardou a conhecer a imprensa. Data de 10 de Maio de 1747 a ordem régia de D. João V, executando o seqüestro de todas as letras de imprensa que se encontrassem no Brasil. Somente em 1808 é que surgem os dois primeiros jornais brasileiros. Em junho, o Correio Braziliense, editado e impresso em Londres pelo exilado Hipólito da Costa e em setembro do mesmo ano, a Gazeta do Rio de Janeiro. (...)


quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Pedro Adams filho e família


http://memoriadopovoalemao.blogspot.com.br/search?q=pedro+adams+filho




Na foto tirada no início da década de 1930, está o empresário Pedro Adams Filho, pioneiro da indústria calçadista em Novo Hamburgo, com a segunda esposa e os filhos do primeiro e do segundo casamento, na cidade de Porto Alegre. Pedro Adams Filho faleceu na metade da década de 1930.

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Obras Hospital Sagrada Familia - S.S. do Caí 1936



O construtor Eugênio Eyb projetou e ajudou a erguer muitas obras importantes no Caí e região. Inclusive várias igrejas. Nenhuma obra sua foi maior, entretanto, do que a construção do Hospital Sagrada Família. A foto acima mostra as obras como estavam no ano de 1935. Note-se que a capela do hospital não foi construída na primeira fase da obra, sendo acrescentada anos mais tarde.Também a unidade de psiquiatria não fez parte da construção inicial. O hospital é, até hoje, uma das maiores obras já erguidas no Caí. Entre as igrejas projetadas por ele, estão a luterana do bairro caiense da Conceição, a ampliação da igreja matriz de São Sebastião, no Caí, as igrrejas católica e luterana de Alto Feliz. Foi ele que projetou, também, o altar da igreja católica da Feliz. Nascido na Alemanha, ele veio para o Brasil em 1922, fugindo da miséria que assolou a Alemanha depois da sua derrota na Primeira Guerra Mundial. 
Eugênio Eyb viveu no Cai por várias décadas, até a sua morte, em 1969.

 Foto do arquivo de André Eyb
www.historiasvalecai.blogspot.com

24. A Queda de Nova Paris

Nova Paris caiu num domingo de primavera,
no final de outubro.
Muito foi e continuará sendo
escrito e falado sobre a queda de Nova Paris.
Os comentaristas e cientistas políticos,
os historiadores e os sociólogos
vão se lançar sobre o tema
como abutres sobre a carcaça
e vão elaborar as mais diversas teorias.
Que o façam!!
...
Testemunha ocular das últimas semanas de Nova Paris,
passo a relatar o que vi e vivi sobre a queda.


É uma versão pessoal, engajada e parcial,
escrita no calor da batalha
por alguém que ousou transformar
cada praça e esquina numa trincheira de luta.
Alguém que recusou-se a acreditar
que travava as últimas batalhas 
de uma guerra perdida muito antes.



Um olhar de fora


Conheci Nova Paris
bem antes de nossa chegada ao poder.
Participei das disputas em Nova Paris
quando a maioria da direção do partido era jovem
e saía com gosto de vitória na boca,
mesmo após as derrotas. 
Conheci a velha guarda que,

duas décadas atrás,
ousou conduzir nossos sonhos à realidade.
Em todos esses anos
a experiência de Nova Paris
nos encheu de orgulho e satisfação.
As lágrimas derramadas
nesses vinte anos
foram de emoção e contentamento,
nunca de desencanto ou decepção.

...
Mas não sou de Nova Paris.
Sou um soldado do interior,
onde o exemplo de Nova Paris
foi constante motivo de agitação e propaganda,
uma forte presença
a atemorizar nossos adversários,
uma motivação para a continuidade da luta

e de constantes fustigações
ás administrações tradicionais.

...
Não sabia dos detalhes
da vida em Nova Paris,
ao longo do tempo que governamos,
nem sabia como administrávamos, no dia a dia.
As notícias que sempre nos chegavam
eram animadoras e acreditávamos
que a imensa maioria do povo de Nova Paris
amava e orgulhava-se da experiência
comandada por nossos camaradas.
...
Nos informes que recebíamos

nunca foi mencionado
que em Nova Paris

o comodismo, a burocratização e a arrogância

haviam crescido como a erva daninha 
na estação das chuvas.


O início do fim
 
Sabíamos que nem tudo eram flores.
Nas guerras desses tempos modernos
a vitória não significa a eliminação física
dos adversários e eles continuam,
ano após ano,
eleição após eleição,
buscando formas de nos derrotar.
...
E quando a derrota bateu às nossas portas
o que mais doeu não foi a alegria previsível
no rosto dos nossos adversários.
Doeu mesmo ver
que grande parte do povo
que lutou conosco nos primeiros anos,
comemorava nossa derrocada.
...
Os adversários não vieram de fora
com tanques avançando pelas ruas,
como na Primavera de Praga
ou na Praça da Paz Celestial.
Os mesmos de sempre
lideravam a luta contra nós
e eram apoiados pelos nossos vizinhos,
artistas, pequenos comerciantes
e parcela expressiva dos trabalhadores
que presunçosamente pensávamos representar.

Com a derrota cravada no coração

Tal qual a Canudos de Antonio Conselheiro
à medida que o cerco se fechava
mais gente vinha em socorro a Nova Paris.
Dispostos a resistir
e reverter a qualquer custo
uma derrota anunciada.
...

Não tivemos a recepção esperada,
apesar do carinho e da satisfação do encontro,
chamava nossa atenção
o número reduzido
de soldados da cidade dispostos a lutar.
Na chegada a Nova Paris
descobrimos espantados
que o medo dominava os camaradas.
Nos seus olhos havia temor
em relação ao futuro,
o desalento paralisava suas ações
e impedia a explosão da necessária reação.
...
Quando nas primeiras horas
nos explicaram a situação
que encontraríamos pela frente,
custamos a acreditar.
Disseram-nos das dificuldades
da batalha até aquele momento,
da necessidade de paciência e discrição
evitando enfrentamentos desnecessários

e executando tarefas de apoio
as tropas locais.
Contaram da frustração
de uma grande esperança
de ajuda que viria do Norte.
E do Norte só vieram
nuvens de tempestade
que animavam os adversários.
...


Nos primeiros dias de nossa estada
em Nova Paris houve
questionamentos abertos as lideranças regionais.
Os companheiros que vieram
de diversas regiões para apoiar Nova Paris
tinham, em sua grande maioria,
mais experiência que os dirigentes locais
a quem deviam obedecer.





A esperança esboçou um sorriso



Não aceitamos carregar discretamente
nossos estandartes e ouvirmos,
sem contestar, opiniões cheias de medo,
preconceito e ignorância.
Viemos para o confronto,
para ouvir e contestar, disputar as consciências,
reverter falsos conceitos e opiniões.

...

Viemos para bater e apanhar.
Não aceitamos caminhar por ruas vazias
de bairros fantasmas
onde a burguesia se esconde das próprias culpas.
Queríamos ver a cara do povo,
sentir seu carinho e seu ódio,
xingar e sermos xingados,
pedirmos perdão pela distância
que deixamos nascer
e crescer entre o povo
e aquele que deveria ser seu governo.

...
Agimos acertadamente,
foi bom desobedecermos.
Forçamos um novo acordo
com as direções locais
e tomando as ruas
fomos ao encontro do povo.
A reação do povo foi
quase tão carinhosa como antigamente.
Ao confrontar em plena rua
com um adversário provocador
ou com um trabalhador iludido por eles,
ganhávamos o respeito ou,
pelo menos, a atenção
dos que estavam a sua volta.
...
Nos últimos dias a esperança
chegou a esboçar um sorriso para nós.
Chegamos a pensar
que seria possível a vitória,
que Nova Paris iria resistir
contra tudo e contra todos.
Nas horas derradeiras
ocupamos todos os espaços,
demarcamos nosso território
e festejamos nas ruas.





A noite mais triste e 
mais longa das noites

Mas o inimigo estava convicto
do acerto de sua estratégia.
Não nos enfrentaria nas ruas,
evitaria o confronto aberto.
Unindo todos nossos adversários,
os históricos e os de ocasião
numa grande frente,
consolidou sua posição
onde era forte
e disputou conosco
em nosso território.





Acertou nos detalhes


e bateu onde acusamos
a dor dos golpes.

Dizia-se e mostrava-se igual,
ou muito parecido conosco,

em tudo que fizemos de bom.
Disse que manteria tudo
que tínhamos feito de certo
e foi implacável na denúncia
e no superdimensionamento dos erros
que só eles poderiam mudar.
...
Ressaltaram o quanto
eram parecidos com nós.
Falaram que na grande luta
que se travava no Norte
onde estávamos juntos no mesmo exército.
Foram ouvidos e foram apoiados
por muitos dos que antigamente
estavam conosco aqui no Sul.
...
E assim Nova Paris caiu.
Por uma pequena diferença mas caiu.
E caiu por inteiro
porque não existe meia-derrota.
Na mesma noite daquele dia,
no final de outubro,
saímos de Nova Paris.
Nunca tantos choraram pelas ruas
enxugando nas bandeiras e estandartes
as lágrimas da derrota.
...
Nunca uma curta viagem de retorno
foi tão longa e tão triste.
Nós sentimos na hora
o significado da derrota em Nova Paris
e choramos ao final da luta.
Dentro de Nova Paris,
muitos só foram se dar conta
do que ocorreu nas semanas
e nos meses seguintes
e devem estar chorando até agora.





Nova Paris vive


Esse é o meu relato.
Trata-se das primeiras impressões,
mas busquei retratar
da melhor forma possível
o que ví, ouví e sentí
nos poucos dias de vida
em que fui cidadão de Nova Paris.
Mas não quero que fique,
ao final, uma imagem desoladora,
uma cena de terra arrasada.
O futuro é nosso
e não desses que nos venceram.



Sua energia se consumirá em pouco tempo,
falta-lhes disciplina, ética e coesão interna.
Nós vamos lamber nossas feridas,
tratar os feridos
e honrar a lembrança dos mortos.
Vamos nos fortalecer novamente.
Sabemos que o final do tempo deles
iniciou no primeiro dia.
...
Cada dia para eles será um fardo,
cada promessa descumprida
e cada direito negado será uma luz
iluminando a memória das pessoas.
Aproxima-se o momento
de retomarmos Nova Paris
e de garantirmos, para todos,
o sagrado direito da participação popular
para voltarmos a ostentar aquele jeito
de andar sorrindo nas ruas.
...
As boas sementes,
quando enterradas em solo fecundo,
germinam após a tempestade,
o furacão ou o terremoto.
Voltarei, voltaremos a Nova Paris
e ao lado dos verdadeiros camaradas

vamos ousar lutar
e vamos ousar vencer.

Em breve, muito breve.

Gilnei Andrade, 
primavera de 2004