João Jorge e Jacobina Maurer

João Jorge e Jacobina Maurer

I m A g E m

I m A g E m
O Velho do Espelho

"Por acaso, surpreendo-me no espelho:
quem é esse que me olha e é
tão mais velho do que eu?
Porém, seu rosto...é cada vez menos estranho...
Meu Deus,Meu Deus...Parece meu velho pai -
que já morreu"! (Mario Quintana)

P E S Q U I S A

domingo, 21 de novembro de 2010

O processo da ditadura contra Dilma Rousseff

O Superior Tribunal Militar acata pedido do jornal Folha de S.Paulo e libera acesso ao arquivo da ditadura contra a presidente eleita Dilma Rousseff.

Quais serão as consequências da divulgação das informações?
Dentro de alguns dias o caso terá seu desfecho. Todo o Brasil saberá o que está escrito na ficha real de Dilma Vana Rousseff guardada no cofre militar até aqui. Tudo com as devidas chancelas de Humberto de Alencar Castelo Branco, Arthur da Costa e Silva, Emílio Garrastazu Médici e Ernesto Geisel.

O artigo é de Celso Marcondes, da Carta Capital.

“STM libera processo da ditadura contra Dilma”: essa é manchete de capa da edição desta quarta-feira 17 do jornal Folha de S.Paulo. A matéria principal ocupa quase toda a página 4 e na abertura já comemora: “advogada da Folha diz que resultado é vitória ‘de toda a sociedade’ ”. (...)

Até aqui, o que, em síntese, todos sabem, é que Dilma Rousseff combateu a ditadura militar desde muito jovem. Militou numa organização guerrilheira chamada Vanguarda Armada Revolucionária – Palmares, ficou presa por mais de dois anos, foi torturada barbaramente e depois de libertada retomou sua vida no Rio Grande do Sul.

Do meu ponto de vista, é o suficiente, não preciso saber mais. Fico satisfeito em ter conhecimento que, mesmo usando de métodos que nunca aprovei, ela teve a coragem de combater os terroristas que tomaram de assalto o governo e o Estado brasileiro em 1964. Eram eles, como se sabe, militares, apoiados e sustentados por civis, entre os quais muitos empresários, inclusive da área de comunicação.

No entanto, para muita gente conhecer este resumo daquela fase da vida de Dilma não bastou. Desde o momento em que ela foi cogitada como candidata do presidente Lula, a internet foi dominada por uma onda de mensagens que questionavam o currículo militante da candidata. Taxada de cara como “terrorista” até uma ficha falsa foi montada, a descrever os atentados, sequestros e assaltos a banco nos quais ela teria se metido. A mesma Folha, na época, foi o único jornal que embarcou na história da suposta ficha e a publicou em primeira página, com os devidos comentários desairosos. Sem ouvir antes a acusada. Revoltada, Dilma reagiu, pediu direito de resposta, o jornal foi obrigado a lhe dar espaço e a recuar na denúncia, reconhecendo que não tinha atestado a autenticidade da peça montada não se sabe aonde, o que se constituiu num dos episódios mais vergonhosos da história recente do jornal.

Não faltaram entrevistas com ex-companheiros de militância, nem com ex-militares ou carcereiros que teriam tido contato com Dilma nos anos 70. O que se buscava então era, digamos, algo mais concreto no currículo da militante: teria participado de algum sequestro ou assalto? Atirado ou matado alguém? Delatado companheiros? Em nenhum momento, porém, qualquer jornalista, depois de muitas entrevistas e pesquisas em outros arquivos que existem pelo País, conseguiu qualquer prova de participações ou atos da jovem de 20 anos em eventos semelhantes.

O que imaginavam os que pretendiam “conhecer melhor a história” da candidata era que, se acusada concretamente de participação numa ação violenta, haveria material de combustão suficiente para abalar sua campanha eleitoral. Numa sociedade pronta para ser comovida por campanhas conservadoras incentivadas por parte da grande mídia, é fácil imaginar a repercussão que teria uma manchete do tipo “Dilma participou de assalto que ocasionou morte de inocente”.

Esta manchete – ou similares – nunca chegou à televisão ou aos grandes jornais, embora tenha frequentado à exaustão a internet.
(...) Às vésperas da realização do segundo turno, a liminar da Folha de S.Paulo endereçada ao STF gerou uma onda de rumores nas campanhas. Esperava-se que uma “grande novidade” vinda da abertura do processo causasse comoção suficiente para abalar a trajetória da candidata rumo à vitória nas urnas. A sabedoria da ministra Cármem Lúcia, porém, tirou do Supremo a responsabilidade pela decisão e inviabilizou o final da história antes do pleito. Saberemos finalmente se a presidenta eleita – não diplomada ainda -, no auge dos seus 20 anos, participou ou não de assaltos, sequestros e atentados. Conheceremos também como foi seu comportamento nas masmorras.

Estará tudo lá, escrito, bonitinho, preto no branco, apenas marcado pela ação do tempo. Com carimbos, assinaturas, rubricas e protocolos. Também pareceres, fotos, recortes de jornais, talvez. Tudo com as devidas chancelas de Humberto de Alencar Castelo Branco, Arthur da Costa e Silva, Emílio Garrastazu Médici e Ernesto Geisel.

Os jornalistas da Folha devorarão avidamente as informações do processo e nos brindarão com um resumo delas. Outros órgãos de imprensa, como já fizeram no dia de hoje com a decisão do STM, repercutirão tudo. Aí então, uma parte dos brasileiros dirá: nada me toca, continuo a admirar a coragem que a presidenta tinha aos seus 20 anos. Se ela de fato participou de algum ato violento, seus algozes já a fizeram pagar por isso. Mesmo assim, não reconheço nenhuma credibilidade nos arquivos infectos e nos processos manchados de sangue dos generais que escreveram o pior momento da nossa história. E credibilidade é matéria prima da imprensa.
Porém, haverá quem vá dizer: não avisamos? Vocês elegeram uma terrorista.
O efeito que este debate irá causar ninguém sabe medir. È fato, porém, que a Folha comemora hoje a “vitória de toda a sociedade”. Enquanto ela comemora, muitos arquivos e processos continuam fechados. E torturadores e seus mandantes caminham impunes por nossas ruas. Ou morrem de velhice.

Agradecemos ao amigo Lucio Costa, advogado e militante das boas causas, pelo envio deste artigo que foi publicado originalmente na Carta Capital.


(*) Celso Marcondes é jornalista, editor do site
Carta Capital e diretor de Planejamento da revista.

sábado, 13 de novembro de 2010

Rio Grande do Sul Prazer em Conhecê-lo

"A este país, meu senhor, tenho chamado a Terra dos Muitos...Há aqui muita carne, muito peixe... muita courama, muito pantano. No verão muita calma, muita mosca, muita mutuca, muito mosquito, muita pulga. No inverno muita chuva, muito vento, muito frio, muito trovão. E, em qualquer tempo, muito trabalho, muita faxina, muito boa água, muita esperança e muita saúde para servir a Vossa Mercê".
(LESSA, Barbosa em "Rio Grande do Sul Prazer em Conhecê-lo", pag. 51)

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Pepe Mujica vence eleição no Uruguay


Agencia Terra / EFE




Os primeiros resultados oficiais do segundo turno das eleições realizadas neste domingo no Uruguai confirmam a vitória da legenda de esquerde da Frente Ampla integrada por José Mujica e Danilo Astori, em cima do conservador Partido Nacional de Luis Alberto Lacalle e Jorge Larrañaga. Com 29,5% dos votos apurados pela Corte Eleitoral, a chapa Mujica-Astori obteve 314.312 votos e a de Lacalle-Larrañaga 313.283 votos.
 
 
Horas atrás, Mujica, 74 anos, discursou como o vencedor do segundo turno das eleições presidenciais uruguais segundo projeções. Ele chamou as principais forças da oposição, o Partido Nacional e o Partido Colorado, a trabalharem pela unidade. "Nem vencedores, nem vencidos. Apenas elegemos um governo que não é dono da verdade", disse Mujica, falando a centenas de partidários que celebravam sua vitória diante do Hotel NH Columbia, em Montevidéu.
Mujica foi designado para suceder Tabaré Vázquez no cargo a partir de 1º de março de 2010.


 Em um discurso conciliador, o presidente virtualmente eleito mais de uma vez se referiu a Luis Lacalle, candidato do Partido Nacional derrotado na votação de hoje. Falando a seus apoiadores, ele também disse para que "não cometam o erro de ofender quem fez uma opção diferente" no processo eleitoral. Mujica agradeceu ao atual presidente, Tabaré Vázquez, que estava ao seu lado no palanque, e fez um apelo em favor da integração e da unidade também no âmbito regional latino-americano.

"Somos todos compatriotas", afirmou. Mujica, que nos anos 60 passou a integrar o Movimento de Libertação Nacional-Tupamaros, guerrilha que atuou até o início da década seguinte, saudou ainda os partidos Colorado e Independente. Além disso, chamou a atenção para a "necessidade de tentar buscar um sentido de unidade" que beneficie o país no futuro e pediu desculpas pelos momentos em que pode ter ofendido seus adversários, motivado por seu "temperamento de combatente".

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Jornal La Republica de Montevideo



Capa do jornal La Republica do Uruguai sobre as eleições de 2010 no Brasil (nada a ver com as manchetes da Folha, Estadão e Veja, né?)

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Os oitos anos do governo Lula




Neste último artigo do ano aqui no Correio, não tenho como não falar dos oito anos trepidantes, em todos os sentidos, que estão chegando ao fim. Os anos Lula não apenas mudaram para sempre o Brasil. Mudaram também nossa forma de sentir e pensar nosso país.
Sob Lula, aprendemos a enxergar a pobreza, a importância de combatê-la e, mais recentemente, a celebrar sua redução. Vimos um presidente chegar ao poder contrariando tudo o que sempre nos pareceu natural: sem berço, sem diplomas, sem o apoio das elites econômicas e pensantes.

Vimo-lo, depois, quebrar todas as convenções ao exercer o poder: falando a linguagem desabrida do povo, cometendo metáforas rasas e gafes frequentes, quebrando a liturgia do cargo, trocando o serviço à francesa do Itamaraty por um buffet self-service, tomando café com os catadores de papel e exercitando uma aguerrida diplomacia presidencial sem falar outra língua.

Não haverá outro Lula, pois o Brasil que o gerou não haverá mais. E isso é bom. Neste período, 28 milhões de brasileiros cruzaram a linha da pobreza e outros 20 milhões ascenderam à classe C. Mais extraordinário é que esse feito tenha acontecido sem a quebra de um só cristal. Ou seja, Lula não tomou uma só agulha dos mais ricos para dar aos mais pobres.
Não privou os banqueiros de seus lucros para estender o crédito ao andar de baixo. Não reduziu as exportações do agrobusiness para dar mais comida ao povo. Não garfou a poupança da classe média para criar o Bolsa Família. Tudo fez harmonizando interesses e moderando conflitos.
Todos ganharam, embora os mais pobres tenham começado a tirar a diferença. Em 2009, apesar da crise, a renda média dos 40% mais pobres cresceu 3,15% e dos 10% mais ricos penas 1,09%. E isso é bom para todos, inclusive para os ricos. Este ano, os números serão mais eloquentes. O crescimento da economia, que pode chegar aos 8% em 2010, será o maior em 24 anos. Desta vez foi crescimento sem inflação e com distribuição de renda. No final do período Lula, terão sido gerados 15 milhões de empregos. Este ano, a nova classe C vai gastar R$ 500 bilhões em 2010, superando o consumo das classes A e B.
Sob Lula, a percepção do Brasil mudou também lá fora. Agora o país é player, é líder no G-20, é um dos Brics, vai sediar a Copa do Mundo em 2014 e as Olimpíadas em 2016. Nem tudo foi resolvido, nem tudo foi feito e não faltaram as decepções. Sobretudo as políticas, com os casos de corrupção intermitentes.
Mas o saldo a favor de Lula foi bem maior e levou-o ao píncaro da popularidade. Mesmo assim, ele continua sendo um presidente intragável para uma minoria. Talvez para aqueles 4% ou 5% que, nas pesquisas frequentes, consideram seu governo péssimo, contra os 80% que o consideram ótimo ou bom. As relações com a mídia serão um capítulo na história a ser escrita. Vivi a minha pequena parte.




Colunista política de O Globo, nunca apontei, nos seis governos e sete legislaturas que cobri, apenas o bem ou o mal. Assim erigi minha credibilidade de analista político. A partir de 2003, divergi do pensamento único que passou a vigir na mídia, não engrossando a cruzada anti-Lula. Na elite do jornalismo político, muito poucos, além de mim e de Franklin Martins, fugiram ao padrão monopólico e demonizador.
Houve preço. Em 2005, veio o maccarthismo e com ele os cães raivosos e o espírito de delação. Um deles espumou, em 2005, que Lula só não caíra ainda porque uma lista de jornalistas lulistas, aberta com meu nome, havia aparelhado a imprensa! Por algum tempo sustentei o apedrejamento, mas, já tendo sofrido uma ditadura, rejeitei a escolha entre autoimolação e sujeição.
No final de 2007, aceitei o convite para dirigir a TV Pública que seria criada, cumprindo a Constituição Federal. Pouco vi o presidente depois disso. Tenho trabalhado com absoluta liberdade e os resultados estão aí. Nunca recebi queixas ou bilhetinhos de ministros.
Não tenho a menor importância na história maior que se encerra agora. Conto isso aqui porque esses detalhes fazem parte do ambiente venenoso, eivado de intolerância, elitismo e ódio de classe em que Lula governou e construiu o legado que deixa ao país.

Tereza Cruvinel [Correio Brasiliense]

quinta-feira, 1 de julho de 2010

22. Um ‘mzungu’ contador de histórias

Ryszard Kapuscinski nasceu em 1932 na Polônia. Graduado em História pela Universidade de Varsóvia foi correspondente de jornais e revistas de seu país na Ásia, América Latina e África. É o autor polonês mais traduzido e publicado no estrangeiro. Ryszard Kapuscinski faleceu em janeiro de 2007, aos 75 anos, após uma longa enfermidade.


Sobre seu livro “Ébano – Minha Vida na África” (Companhia das Letras, 2005) o autor diz não se tratar “de um livro sobre a África, mas sobre algumas pessoas que lá encontrei e com as quais passei algum tempo. Esse continente é grande demais para ser descrito. É um verdadeiro oceano. Um planeta diferente, composto de várias nações, um cosmo múltiplo. Somente por comodidade simplificamos e dizemos África. Na verdade, a não ser pela denominação geográfica, a África não existe”.


Ryszard Kapucinski vai encadeando uma história na outra e vai construindo, defronte dos nossos olhos – como se fosse uma parede de tijolos - uma narrativa humana e vibrante, tão poética que torna-se, em muitos momentos, épica. O autor fala da luminosidade, do calor, das distâncias e das diferenças em relação a noção de tempo.
Em alguns dos capítulos discorre sobre a tragédia da malária, doença que contraiu, no continente africano. Descreve com detalhes a dor e a agonia de alguém atingido pela doença. Narra sua experiência pessoal, igual à de milhares, milhões de africanos. Vale-se desse relato apresentar o Dr. Patel, médico que o atendeu, neto de hindus.
Passa então a descrever o processo de colonização dos europeus no continente. A inexistência de estradas e o temor em relação aos povos hostis e as doenças tropicais fizeram com os que os conquistadores, somente de forma esporádica e a contragosto, se aventurassem no interior do continente. Embora tenham permanecido na costa africana por mais de quatro séculos sempre mantiveram uma atitude de temporariedade, uma preocupação com o lucro fácil e imediato, sem uma visão empresarial de longo prazo.


No final do século XIX, após a Conferência de Berlim, as metrópoles adotaram uma visão mais planificada em relação às colônias. As terras férteis prometiam grandes lucros tanto na cultura do café, chá, algodão e abacaxi quanto com a exploração – noutra região do continente – de diamantes, ouro e cobre. Mas para que isso se efetivasse eram necessários meios de transporte. A construção de estradas, ferrovias e pontes necessitavam de trabalhadores assalariados que não existiam no continente. Não havia operários brancos, pois os brancos, como senhores, não realizavam trabalho físico. Também não havia operários negros porque as populações locais não tinham noção de dinheiro, conheciam há séculos um sistema de comércio baseado nas trocas, e não adaptariam-se ao trabalho remunerado. Foi aí que trouxeram de outra grande colônia britânica – a Índia – os trabalhadores hindus. Dessa forma o avô do Dr. Patel chegou ao Quênia e depois veio para Uganda onde se estabeleceu.



O Dr. Patel contou que à medida que os trabalhadores hindus e outros foram se afastando do litoral um novo horror abateu-se sobre eles: o ataque dos leões. Narra, a seguir, a saga do animal conhecido como o rei das selvas. O Dr. Patel conta que seus antepassados não portavam armas e que as empresas não lhes davam proteção. Restava aos hindus horrorizados e apavorados, em suas barracas, ouvirem os gritos das vítimas sendo arrastadas e dilaceradas pelos leões que, depois de saciados, sumiam novamente na escuridão.
Noutro relato, mais ameno, o Dr. Patel fala sobre a ganância dos portugueses que comercializavam marfim. Eles insistiam com os nativos que, em função da dificuldade de caçar os elefantes, passassem a trazer as presas dos elefantes mortos naturalmente. A resposta surpreendeu-os: não existiam elefantes mortos, nem cemitérios desses animais. A morte dos elefantes foi um segredo que os africanos ocultaram dos brancos por muito tempo. O elefante era considerado sagrado e sua morte também era sagrada para os nativos. O elefante embora longevo, não é imortal. A morte natural dos elefantes ocorre normalmente ao anoitecer, quando as manadas vêm tomar água nos lagos e rios. As manadas esticam as trombas na água para beber. Os elefantes mais velhos não têm mais força para erguer a tromba. Para beber entram cada vez mais no fundo e seu próprio peso prende-os na lama. Quanto mais se debatem, mais afundam e acabam morrendo afogados. No fundo dos lagos e rios africanos encontram-se os cemitérios dos elefantes, tão cobiçados pelos portugueses.





Após seu restabelecimento o autor retornou a seu apartamento em Dar-es-Salaam, em Tanganica onde voltou a apresentar problemas de saúde e descobre que estava com tuberculose. O longo e doloroso tratamento possibilitou que fizesse amizade com dois africanos que trabalham no posto médico local: Edu e Abdullahi. Fala, então, que nos locais onde o cristianismo e o islamismo não haviam se estabelecido o nome das pessoas era de uma riqueza imensa.
O nome das crianças refletia além de um sentimento poético dos pais um acontecimento importante. Nomes como Manhã Radiosa, Sombra da Acácia ou Uhuru (independência, em suaíli) ou Nyerere (nome de um presidente do país) eram comuns. Com a chegada e o crescimento das religiões monoteístas esse mundo exuberante e variado reduziu-se a poucas dezenas de nomes bíblicos ou do Alcorão. Foi perdendo-se, dessa forma, um grau de identificação do indivíduo com a sua comunidade onde o nome de cada pessoa proclamava algum feito registrado na memória do seu povo.
Conta ainda que ao caminhar sozinho pelos becos dos bairros africanos observava que as crianças fugiam assustadas e chorando. Quando faziam travessuras as mães dessas crianças diziam que o ‘mzungu’ (branco) viria pegá-las para comer.


O autor vivencia a agitação política em várias das jovens nações africanas. Acompanha a derrubada do sultão de Zanzibar e o alastramento da agitação política que atingiu também o Quênia, Tanganica e Uganda. Participa da cobertura jornalística desse período em que toda a África Oriental fervilhava em revoltas e golpes de estado. Mas jamais perdeu a atenção em relação a vida das pessoas comuns do povo nesse momentos tormentosos. Continua falando da exuberância vegetal, perde-se na confusão das trilhas e caminhos não sinalizados, arrisca-se nos encontros acidentais com serpentes, manadas de búfalos e elefantes. Não lamenta o permanente risco de vida das viagens em pequenos aviões ou em frágeis embarcações. Nem as oportunidades em que correu o risco de ser executado pelos pelotões de fuzilamento. Os relatos do autor sobre a vida na África, apresentados na sua obra, são elaborados do ponto de vista do africano comum e retratam quatro décadas de convivência do autor com a realidade africana. O tempo dedicado a leitura de cada página do seu livro é plenamente recompensado. Conhecer a África pelos olhos desse ‘mzungu’ é como banhar-se nas águas de um rio numa tarde escaldante, como provar uma fruta saborosa sentado sob a sombra da árvore ou como sentir o cheiro da terra molhada quando as primeiras gotas de chuva vem beijar a terra ressecada.

FONTE: Trabalho de pesquisa realizado durante o curso de História pela Universidade Feevale
                                                                                                                 
                                                                     Gilnei Andrade

terça-feira, 9 de março de 2010

Viva a bombacha!! Viva o nosso Leonardo!!


Morreu o cantor nativista Leonardo.

O cantor nativista Jader Moreci Teixeira, de 71 anos, mais conhecido como Leonardo morreu nesta madrugada no Hospital de Viamão. Após uma melhora considerável registrada, ainda neste sábado, o músico não resistiu a três paradas cardíacas e acabou morrendo no começo da madrugada deste domingo. O cantor sofria de complicações renais.
Ele estava internado desde a última segunda-feira, por volta das 22h, quando sentiu-se mal e estava com pressão baixa. Na quarta-feira, foi detectado um problema renal. Na quinta-feira, durante um procedimento de hemodiálise, Leonardo teve uma parada cardíaca, foi reanimado e entrou em coma induzido.
O corpo do cantor nativista está sendo velado na Capela 3 do Cemitério Parque Saint Hilaire, localizado na avenida Senador Salgado Filho, 2980, em Viamão. O sepultamento ocorrerá no mesmo local a partir das 17h.
Leonardo é autor de sucessos como "Céu, Sol, Sul, Terra e Cor"; "Tertúlia"; "Viva Bombacha"; "Batismo de Sal", entre outras. Ele apresentava o programa Província de São Pedro, que vai ao ar na Rádio Guaíba aos domingos, entre 6h e 8h.

Fonte: http://www.rádioguaíba.com.br/

   

                                    Viva a Bombacha                                                        Leonardo (Jader Moreci teixeira)

Os cristãos batiam cascos 
os mouros se defendiam
Espadas, lanças cruzadas 
traçavam rumos na história
Os orientais ostentavam 
calças largas que faziam
Mais leves às cavalgadas 
na derrota ou na vitória

Era a bombacha chegando 
para gaúdio do campeiro
Que cavalgou nos potreiros 
laçando, fazendo aparte
Prá bailanta, hora de arte
 jogo de osso, carteado
Era a veste domingueira 
feita de brim ou riscado

(Viva a bombacha, 
tchê viva a bombacha
Não interessa se faz frio
 ou sol que racha)

Foi depois da grande guerra 
me falou um castelhano
Que a bombacha foi usada 
pelos gaúchos pampeanos
Historiadores da terra 
garantem que o nobre pano
É uma herança legada 
por beduínos araganos
A verdade é que a bombacha 
é de muitos continentes
Mas foi com nossos valentes 
que ganhou notoriedade
Uniu o campo à cidade 
e a juventude do pampa
Lhes dando uma nova 
estampa raízes de liberdade

 

domingo, 28 de fevereiro de 2010

21 Freitas de Andrade

Pesquisa genealógica
Alguns resultados da minha pesquisa genealógica amadora:



1. Pelo lado materno somos filhos de Erna Terezinha de Freitas (Erna Terezinha Freitas de Andrade) nascida em 21.06.1937 em São Sebastião do Cai e falecida em 24 de junho de 1974, na mesma cidade.


2. Erna era filha de Amantino Jose de Freitas (16maio1902 / falecimento 1975 em S.S. do Cai) e Herminia Rodrigues da Silva (Herminia Rodrigues de Freitas - Vó Mindoca) nascida em 08 jan.1909 / falecida em 1989 em SSdo Cai).


3. O avô Amantino era filho de Alfredo Jose de Freitas (1877/1927) e Maria Olinda Lucas (1870/1969). A avó Herminia era filha de Joao de Deus Rodrigues da Silva (1884/1934) e Amalia Rodrigues da Rosa (1884/1934).


4. O bisavô Alfredo Jose era filho de Isaac Jose de Freitas (1852/1912) e Bernardina Pereira Netta (1852/1912). O casamento de Isaac e Bernardina foi em 21 maio 1869 em Nossa Senhora dos Anjos – Gravataí – RS.

5. A bisavó Maria Olinda Lucas era filha de Paulino Jose Lucas (1845/1895) e Felicia Antonia (1845/1895) . 


6. O bisavô Joao de Deus era filho de Manoel Rodrigues da Silva ( 1859/1909) e Manoela Rodrigues da Silva (1859/1909).


7. A bisavó Amalia Rodrigues da Rosa era filha de Guilhermino Rodrigues da Rosa (1859/1909) e Maria Emilia da Rosa (1859/1909).


8. O tataravô Isaac era filho de Jose Gomes de Freitas (nasc1825/falec.1900 em São Francisco do Sul – Santa Catarina) e Cândida Maria de Jesus ( nasc. em 1825/ falec.1900 em São Francisco do Sul – SC). O casamento de Jose Gomes e Candida foi em 1850 em S. Francisco do Sul – SC)


9. A tataravó Bernardina Pereira Netta era filha de Zepherino Correa da Silva (1827/1877) e Anna Pereira Netta (1827/1877). 


10. A tataravô Felicia era filha de Ursula...(1820/1870). 


1.  Pelo lado paterno  somos filhos de Amandio Pereira de Andrade (DN 22/04/1937 em SSdoCai). 


2. Amandio é filho de Franklin Pereira de Andrade (DN 01/01/1914 e falec. em 1976 em SS do Cai) e Augusta de Freitas (DN 07/09/1907 e falecida em 23/03/1974 em SS do Cai).


3. O Avô Franklin é filho de Sylvio Pereira de Andrade ( Flores – nasc. em 1889 e falec. em 1939) e Leonilda Pereira de Andrade (1889/1939).


              Sylvio Pereira de Andrade (Flores – N 1889 F 939) e Leonilda Pereira de Andrade (1889/1939)                    com os filhos Antonio e Franklin e filhas Generosa, Hortencia e Julia 


4. A avó Augusta é filha de João Manoel de Freitas ( 1882/1932) e Genoveva de Freitas (1882/1932).


5. O bisavô Sylvio é filho de Franklin Pereira de Andrade (1864/1914) e Clara Viegas (1864/1914).

                                                         Augusta de Freitas (N 07/09/1907                                                         F 23/03/1974 em S.S.do Cai)

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

20. Freitas de Andrade

                                                                                                            Foto: arquivo da família
                                                     40 anos depois - Gilson, Gilnei e Gislane no fim da                                                                                           década de 1960 e no final da década de 2000/2010.


                                                                                  Foto: arquivo da família
                               20 de setembro de 1958 -  O casamento de Amandio Pereira de Andrade e                                                    Erna Terezinha de Freitas na igreja velha da vila Conceição, em S.S.do Caí, marca o                                 início do "clã Freitas de Andrade".


                                     Foto: arquivo da família

                                          Augusta de Freitas Andrade e Franklin Pereira de Andrade (com um afilhado)                                                  são os pais de Amandio Pereira de Andrade. Foto tirada em São Sebastião                 do Caí-RS defronte o armazém. 

                                                            Foto: Sandra Amorim  Esta é a Júlia Ramcheski de Andrade
           Bisneta do Amandio e da Erna e tataraneta do Franklin, 
          da Augusta, do Amantino e da vó Mindoca. A vida continua!!!


                                                                                                                                Foto: arquivo da família

                                 Nesta foto, no final dos anos 60, está a família de Amandio Pereira de Andrade e                                                 Erna Terezinha Freitas de Andrade defronte o Armazém Andrade na estrada                      Julio de Castilhos, atual rua Esperanto, em São Sebastião do Caí - RS.
                                Da esquerda para a direita o Gilson, a Gislane, o Gilnei. O automóvel era                                                             uma camioneta que o Amandio chamava de "borguivargue'. Embora não tenha                                                     certeza acho que tratava-se de um modelo borg-warner. O carro era um Borgward                                                  cujo modelo, no Brasil, era conhecida como Isabella. Nas paredes do armazem           anúncios das bebidas e cigarros da época.

domingo, 11 de outubro de 2009

19. Mel

Pelas mãos desse menino chegam a seu destino essas flores especiais. São flores enviadas por alguém que te amou há muito tempo atrás. Por isso são importantes, receba-as com devoção, elas quebram um feitiço que nasceu de uma paixão. De novo é outono - dezoito dias se foram desde que maio chegou - e a mais linda bruxinha da minha vida não voou. Uma flor sempre é linda e o romantismo não morreu, saiba que te amo ainda e que o último romântico sou eu:

Quando estava em você
e você estava em mim,
me dizias pra deixar,
que era bom ficar assim.
E agora porque não dizes
onde andas, por favor,
como vou chamar de amiga
quem já chamei de amor.

Quando te conheci
nasceu em mim um novo dia,
no momento que te vi
soube que serias minha.
Foste minha esperança,
tudo que um homem quer,
com teu jeito de criança
e teu corpo de mulher.

Quando estava em você
e você estava em mim,
me dizias pra deixar,
que era bom ficar assim.
E agora porque não dizes
onde andas, por favor,
como vou chamar de amiga
quem já chamei de amor.

Mas na vida nem tudo
foi feito para dar certo,
quanto mais eu te amava
menos tu estavas perto,
sei que gostavas de mim
mas era por outro que sonhavas,
mesmo em nossos momentos
fui apenas fantasia
porque no teu pensamento
era outro que te tinha.

Quando estava em você
e você estava em mim,
me dizias pra deixar,
que era bom ficar assim.
E agora porque não dizes
onde andas, por favor,
como vou chamar de amiga
quem já chamei de amor.

Não tive como impedir que,
numa sexta-feira de abril,
tu partisse, fosse embora
ficaram somente as lembranças,
de cada dia, cada hora,
tantas coisas vividas pela gente,
banhos tomados a dois
espuma em corpos quentes.

Quando estava em você
e você estava em mim,
me dizias pra deixar,
que era bom ficar assim.
E agora porque não dizes
onde andas, por favor,
como vou chamar de amiga
quem já chamei de amor.

A massagem improvisada
te fazia suspirar,
tuas pernas me abraçavam
não queriam me soltar.
Nos teus olhos morenos,
e nos teus lábios gostosos,
nos teus seios pequenos
e no colo aconchegante
eu todo me entreguei
e o que ouvi nesse instante
nunca mais esquecerei...
mais fácil as abelhas
esquecerem de fazer mel
do que eu esquecer teu nome,
minha vida, meu amor, meu céu...

Quando estava em você
e você estava em mim,
me dizias pra deixar,
que era bom ficar assim.
E agora porque não dizes
onde andas, por favor,
eu não sei chamar de amiga
quem já chamei de amor.


Gilnei Andrade
Novo Hamburgo - 1987

sábado, 10 de outubro de 2009

As fronteiras do país farroupilha

FICÇÃO

Na versão do historiador Mário Maestri, o Rio Grande do Sul seria conhecido pelos vizinhos como a República do Pampa Ao propor um exercício de ficção, o caderno Cultura convidou o historiador Mário Maestri, o jornalista e escritor Elmar Bones e o professor de literatura Luiz Horácio para escrever sobre a Revolução Farroupilha (1835 – 1845).

Na nova e diferente guerra dos três autores gaúchos o final é outro. Não bate, claro, com o conflito real, que eclodiu no fim da noite de 19 de setembro, na Ponte da Azenha, em Porto Alegre. Os imperiais e farroupilhas se enfrentaram 118 vezes, com 3,4 mil mortos, em dez anos. O número de feridos nunca foi calculado.

“Após concentrar suas forças na luta contra as insurreições do Pará, do Maranhão e da Bahia, os exércitos imperiais conheceram graves derrotas no Sul, concluídas com a rendição do barão de Caxias, após o desastre brasileiro na batalha do Cerro de Porongos, em 15 de novembro de 1845. Dois anos mais tarde, o Brasil reconhecia a independência e estabelecia relações com a República do Pampa, nome assumido pela antiga província de São Pedro do Rio Grande do Sul”.

As tendências históricas, materializadas na ação concreta das classes embaladas pelas suas necessidades sociais, levaram a que o parágrafo inicial constitua mero exercício de imaginação sobre eventual registro, em manuais escolares brasileiros de 2009, da hipotética vitória da secessão farroupilha. Elucubração que talvez encontre justificativa na celebração privada e pública incessante e irrefletida do movimento separatista, promovido em 1835-45, pelos latifundiários escravistas do meridião rio-sulino.

As fronteiras pampianas não seriam as de hoje, demarcadas, ao norte, pelos rios Mampituba e Pelotas, e, ao sul, pelo arroio Chuí. Uma forte crise imperial permitiria que a eventual raia republicana setentrional abiscoitasse parte do território catarinense.

Porém, é mais provável que a jovem república tivesse seus limites nos rios Jacuí-Ibicuí, permanecendo brasileiros Porto Alegre e todo ou parte do norte da antiga província de São Pedro. A população livre da capital libertou-se e resistiu às tropas farroupilhas, apoiada ativa ou passivamente pela comunidade colonial-camponesa alemã, que nada tinha a ganhar e muito a perder com os republicanos da Campanha. Pela indômita resistência, Porto Alegre, três vezes cercada e bombardeada pelos farroupilhas, ostenta, hoje, no seu brasão, a consigna de “leal” – ao Império – e “valorosa” – diante dos republicanos.

A República do Pampa possuiria população diminuta e de perfil étnico diverso que o atual. Como no resto do Brasil, os grandes proprietários fundiários sulinos sempre se opuseram ao assentamento de camponeses.

A imigração alemã não seria retomada, com a fundação de Santa Cruz [1847], e as quatro colônias italianas imperiais [1875] seriam desviadas para territórios brasileiros. A república latifundiária não conheceria o impulso demográfico e a acumulação de capitais permitidos pela proliferação de economias familiares nascidas da vaga colonial-camponesa europeia. Portanto, nada de vinho, nada de cerveja, nada de polenta, nada de indústria! A própria economia pastoril conheceria forte golpe com a secessão. Sem o apoio das províncias centrais brasileiras, o tráfico de trabalhadores escravizados seria abolido, sob a pressão inglesa. As fortes perdas de cativos para o Uruguai, durante a guerra de independência, seriam repostas com dificuldade e a necessidade de fortalecer os exércitos pampianos levaria à abolição da escravatura, como nas repúblicas vizinhas. Um ponto para os republicanos!

A produção charqueadora-pastoril sofreria com a falta de mão de obra para ser explorada. Os fazendeiros farroupilhas do norte do Uruguai, entre eles o general Netto e Francisco Pedro de Abreu, se submeteriam comportados às leis da nação vizinha, ou seriam expulsos a patadas, pelo presidente blanco, como Atanásio Aguirre, pois não poderiam esconder-se sob a bandeira dos exércitos imperiais, como fizeram em 1851 e 1865. O estrangulamento da imigração camponesa alemã e a inexistência da italiana, polonesa, judia, etc. materializariam o destino pastoril sonhado pelos chefes e ideólogos farroupilhas para a antiga província.

Como no Uruguai, na República do Pampa não brotariam as indústrias artificiais, contra as quais os descendentes políticos farroupilhas – liberais, federalistas, libertadores, udenistas, neoliberais etc. – mobilizaram-se e mobilizam-se. Cidades como Caxias, Marau, Santa Cruz do Sul não existiriam nas fronteiras da nação farroupilha. A saída seria transformar os pampas em um imenso deserto verde, igual que o Uruguai atual!

A grande novidade seria o fortíssimo MOUBRAPAM (Movimento pela União do Brasil e do Pampa), nascido durante os motes populares ocorridos em Bagé, a capital mais populosa cidade do Pampa, quando da quinta desvalorização do estribo, moeda nacional da República, após a crise de 2008. Tudo no início do segundo mandato do presidente Tonico Augustus Nico Fagulhas, que se encerra em 20 de setembro de 2010. Caso não modifique a constituição para concorrer ao terceiro.

* Mário Maestri, historiador, é professor do Curso
e do Programa de
Pós- Graduação em História
da Universidade de Passo Fundo

FONTE: http://www.zerohora.com.br/
19 de setembro de 2009

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

18. Como el Uruguay no hay

Participei da XIV edição do Fórum de São Paulo, em Montevideo, como delegado do PT - Partido dos Trabalhadores. O Encontro ocorreu nos dias 23, 24 e 25 de junho de 2008 e da delegação brasileira de cerca de 60 pessoas, mais da metade deslocou-se de onibus saindo de Porto Alegre.

                                        

Saímos de Porto Alegre no feriado da quinta-feira e atravessamos a fronteira por Chuí. Chegamos a Montevideo na manhã de sexta-feira e o chefe da delegação, Gilson Gruginskie foi promovido a sargento porque nos levou direto para o local da reunião, sem banho e sem descanso, após 12 ou 13 horas de viagem.


                                       

O Forum de São Paulo realizou-se no Parlamento del Mercosur (foto acima) um prédio muito bonito, onde antes funcionava o Paque Hotel, um hotel-cassino, na Lhambra Sur. O cassino continua funcionando bem ao lado do local onde ficamos, mas o 'sargento' Gilson deixou claro que, como delegação do partido do Lula, devíamos ser exemplares. Quem peleia contra os bingos no Brasil, não pode nem pensar em caça-níquel ou roleta no Uruguay...

Parte da delegação gaúcha na foto acima.
Ficamos hospedados no Hotel Richmond na San Jose, no centro. A propaganda da internet mostrava um hotelzinho pequeno e agradável, como a maioria dos hotéis baratos de Montevideo. Mesmo com a impressão de propaganda enganosa o hotelzinho foi uma boa experiência. Quem vive de salário e de uma forma simples se sente em casa (acho que em casa a gente abre mais as janelas e combate com mais empenho os ácaros e o cheiro de mofo).


                                        

Como uma criança numa loja de doces me sentia em relação a visita ao Uruguay. Para quem estuda e gosta de História, como eu, tem muita coisa para ver e visitar. Viajei com várias indicações de lojas , livrarias e museus. Tudo bem anotadinho... só faltou combinar com a meteorologia. Houve um desses ciclones, no mar, perto da Argentina e choveu e ventou direto até no domingo, quando começou a melhorar. Conhecí poucos lugares, mas conhecí o pampero, um primo mau humorado do nosso vento minuano. Conhecí também o mormaço, como eles chamam o tempo úmido, frio e feio. Prá mim, mormaço era só um calorão.

                                  

Não fui na maior feira ao ar livre da América Latina, a feira da rua Tristán Narvaja. Não visitei internamente o Teatro Solis, nem a Casa de Garibaldi, nem a Casa de Artigas, nem o Museu Romântico, nenhum dos diversos museus da cidade, nem o estádio do Penharol... No domingo na hora de ir embora fizemos um tour, de onibus, por alguns pontos turísticos da Ciudad Vieja. A Rosa, no microfone do onibus, relembrou sua vivência prática e seus encontros.. políticos, é claro. O Alvaro Alencar revelou-se - teoricamente - um conhecedor dos meandros da noite de Montevideo.

Enfrentamos, durante toda nossa estadia, dois tipos de adversidade: de um lado o tempo, com mormaço e pampero, que não deixavam a gente sair para lugar algum e de outro o Gilson, sempre de olho, para impedir o desgarramento da delegação. Na manhã que chegamos - sexta - os delegados foram divididos em três talleres (grupos ou oficinas): Andino amazônico, Cone Sul e Caribenho/Mesoamericano. A maioria dos nossos delegados ficaram no taller Cone Sul. Aos poucos fomos nos ambientando e descobrindo os demais brasileiros no Encontro. O Secretário de Relações Internacionais do PT nacional, Valter Pomar, era o sub-comandante da delegação onde também estavam o Nilmário Miranda, de Minas, o José Eduardo Cardozo e o Joaquim Soriano de São Paulo, o Raul Pont e a Maria do Rosário do Rio Grande, entre outros. O PCdoB e o PCB também participaram do Encontro.

Na tarde do primeiro dia houve nova divisão em três grupos dessa vez: juventude, gênero e parlamentares. Nos atrasamos para a parte da tarde porque fugimos da vigilância do Gilson e fomos almoçar no Mercado da Ciudad Vieja. Eu, a Sandra, a Magda Flores e o Lucio Costa provamos a 'parrijada' e um belo vinho. Na mesa ao lado o Alvaro Alencar e o Joaquim Soriano pareciam dois monges medievais tal a felicidade no semblante e no sotaque. No mercado dei-me conta que os brasileiros haviam invadido a cidade. Em todos os bares e restaurantes, nos corredores estreitos e na fila do banheiro falava-se mais português que espanhol. Se houvesse alguma unidade de objetivos poderíamos ter retomado a ideia da Província Cisplatina. Mas que nada, os brasileiros só queriam passear, comprar, comer, beber e dar risadas...

Andamos muito de táxi. Esse meio de transporte é barato, os carrinhos são pequenos, parecidos com o do Mr. Bean e os motoristas adoram tirar fininho dos outros carros. Os taxis lembram as viaturas antigas da Polícia Rodoviária Federal, são pretos com o teto amarelo. A Magda animou-se a tal ponto que teve de ser contida para não surrupiar um táxi e sair dirigindo enlouquecida pelas ruas de Montevideo. Já um companheiro nosso, da juventude de Bagé, não se conteve e surrupiou o coração de um taxista local que deve estar, até hoje, suspirando de paixão. Na volta de uma festa nosso companheiro de Bagé repousou seu cansaço no ombro amigo do motorista.

Gilnei e Guillermo
Outra grata surpresa da delegação foi o companheiro Guillermo (foto acima), o mais brasileiro dos uruguaios. Foi nosso mestre e mentor intelectual, nossa mão amiga em todas as situações de dificuldade com o idioma, com a localização na cidade, com a história dos tupamaros e da esquerda no Uruguay, com as diferenças culinárias e principalmente com o câmbio. Quem diria nosso grande 'Guilhermino', um internacionalista, socialista e histórico militante esquerdista tornou-se o cambista oficial da delegação atrapalhada com as cotações do dólar, do real e do peso.

Nesta foto, tirada num raro momento de turismo estou defronte o belo Palácio Legislativo. 
Com algum esforço você vai conseguir enxergar tanto quanto eu enxerguei, ou seja, quase nada.
                           
No segundo dia foi possível sentir o nervosismo de alguns jornalistas que farejavam guerrilheiros colombianos portando fuzis automáticos soviéticos. Sintomático como a revista Veja, do Brasil, ocupou o lugar da antiga 'Seleções' na condição de preferida da Central de Inteligência Americana. A delegação gaúcha chegou a discutir sobre a necessidade de esconder as bombas de chimarrão para não dar informações ao inimigo sobre o potencial do nosso arsenal bélico. Mas deixou por isso mesmo já que não valia a pena gastar pólvora com chimango...


Nesta foto o Palácio Legislativo aparece em toda sua exuberância. Eu não estou nela porque 
em dias claros de sol e céu azul não faço turismo, permaneço em reuniões nas salas fechadas.
                                     
Durante o sábado realizaram-se duas sessões plenárias uma de balanço político e outra, á tarde, sobre os processos de integração. No domingo, último dia do Encontro, houve nova plenária discutindo "A Esquerda no Governo" e, á tarde, houve a aprovação da Declaração Final do Encontro e votação das resoluções apresentadas. Os principais pontos de discussão do Fórum de São Paulo foram a denúncia e a condenação da política de guerra preventiva na América Latina, a atuação dos Estados Unidos na Colômbia e a conseqüente invasão do território equatoriano pela Colômbia, apoiada pelos norte-americanos. Também foi saudada a vitória de Fernando Lugo nas recentes eleições do Paraguai que simboliza o ingresso de mais um país no mapa das forças progressistas e de esquerda no continente. O apoio ao governo de Evo Morales que enfrenta ameaças de sublevação e autonomia de determinadas regiões da Bolívia controladas pela oposição foi muito citado.

O secretário geral do PT - Partido dos Trabalhadores, José Eduardo Cardoso, defendeu o apoio ao governo de Evo Morales, que tem pela frente uma difícil jornada com o referendo revogatório que será realizado no dia 10 de agosto. José Eduardo Cardoso falou sobre os desafios do PT que concorrerá em 2010, sem Lula como candidato, mas, mesmo assim, o dirigente brasileiro acredita que existam condições efetivas para unir forças progressistas e garantir um terceiro mandato do PT no governo federal.
Durante a última plenária do Forum de São Paulo, no domingo, as discussões sobre o Tratado de Itaipu e sobre as imigrações políticas e econômicas que esvaziam países latino americanos e, cada vez mais, engrossam a fila de ilegais nos Estados Unidos, Europa e Japão foram as únicas polêmicas. A comitiva paraguaia conseguiu, no último momento, incluir no documento uma resolução que afirma o FSP como mediador e apoiador do Paraguai nas renegociações de tratados hidroelétricos com o Brasil e a Argentina.


Levei algum tempo para me dar conta de algo simples e genial, algo que a gente vê tanto que demora para compreender. Montevideo lembra Porto Alegre: a ciudad vieja e o mercado, as avenidas floridas, os prédios históricos e também a avenida a beira-mar com o Rio da Prata e o Atlântico no lugar de irmãos mais velhos do Guaíba. Mas tinha algo charmoso no ar, a cidade parecia aberta enchendo nossos olhos e Porto Alegre, não. Até que... caiu a ficha.


                              
Eu, o senador da Frente Ampla, Jose Mujica e a Sandra

Na chegada antes de Montevideo eu ví, e depois não ví mais, pequenos out-doors no chão cuja imagem tinha algum movimento. Mas eram pequenos, pouco mais de um metro quadrado e ficavam nas esquinas das ruas. Depois na área central não os avistei mais e ao buscá-los com os olhos ví algo muito mais majestoso, a beleza do invisível. Montevideo não tem outdoors, nem luminosos nem propagandas gigantescas escondendo a cidade. Ela parece mais aberta porque é mais aberta, linda, despoluída, desnuda... Porto Alegre também pode ser assim ou voltar a ser assim, basta despí-la da poluição visual...

  
                                               

No encerramento do Encontro o presidente da Nicarágua, Daniel Ortega homenageou vários lutadores dos partidos de esquerda da América Latina,  empolgou-se e fez um longo e chato discurso. Inspirou-se em Fidel ou em Hugo Chavez cujos discursos duravam horas. Ao citar, com pesar, a morte de Tirofijo, comandante histórico das Farc alimentou a sanha dos caçadores de guerrilheiros infiltrados na imprensa.




Eu, pessoalmente, apreciava mais o Daniel Ortega, comandante da Frente Sandinista nos anos 80. Aquele Ortega, mais carismático e conciso, não perderia para o sono a atenção de um plenário tão qualificado.

Agradecimento a todos integrantes da delegação e à Clarissa Pont, filha do Raul, de cuja matéria jornalística para a Agência Carta Maior emprestei algumas informações.

PS - Na iminência da vitória eleitoral de José Mujica da Frente Ampla para a presidência do Uruguai volto a postar o artigo abaixo sobre o Foro de São Paulo realizado em junho de 2008.

Gilnei Andrade
em outubro de 2009