João Jorge e Jacobina Maurer

João Jorge e Jacobina Maurer

I m A g E m

I m A g E m
O Velho do Espelho

"Por acaso, surpreendo-me no espelho:
quem é esse que me olha e é
tão mais velho do que eu?
Porém, seu rosto...é cada vez menos estranho...
Meu Deus,Meu Deus...Parece meu velho pai -
que já morreu"! (Mario Quintana)

P E S Q U I S A

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

18. Como el Uruguay no hay

Participei da XIV edição do Fórum de São Paulo, em Montevideo, como delegado do PT - Partido dos Trabalhadores. O Encontro ocorreu nos dias 23, 24 e 25 de junho de 2008 e da delegação brasileira de cerca de 60 pessoas, mais da metade deslocou-se de onibus saindo de Porto Alegre.

                                        

Saímos de Porto Alegre no feriado da quinta-feira e atravessamos a fronteira por Chuí. Chegamos a Montevideo na manhã de sexta-feira e o chefe da delegação, Gilson Gruginskie foi promovido a sargento porque nos levou direto para o local da reunião, sem banho e sem descanso, após 12 ou 13 horas de viagem.


                                       

O Forum de São Paulo realizou-se no Parlamento del Mercosur (foto acima) um prédio muito bonito, onde antes funcionava o Paque Hotel, um hotel-cassino, na Lhambra Sur. O cassino continua funcionando bem ao lado do local onde ficamos, mas o 'sargento' Gilson deixou claro que, como delegação do partido do Lula, devíamos ser exemplares. Quem peleia contra os bingos no Brasil, não pode nem pensar em caça-níquel ou roleta no Uruguay...

Parte da delegação gaúcha na foto acima.
Ficamos hospedados no Hotel Richmond na San Jose, no centro. A propaganda da internet mostrava um hotelzinho pequeno e agradável, como a maioria dos hotéis baratos de Montevideo. Mesmo com a impressão de propaganda enganosa o hotelzinho foi uma boa experiência. Quem vive de salário e de uma forma simples se sente em casa (acho que em casa a gente abre mais as janelas e combate com mais empenho os ácaros e o cheiro de mofo).


                                        

Como uma criança numa loja de doces me sentia em relação a visita ao Uruguay. Para quem estuda e gosta de História, como eu, tem muita coisa para ver e visitar. Viajei com várias indicações de lojas , livrarias e museus. Tudo bem anotadinho... só faltou combinar com a meteorologia. Houve um desses ciclones, no mar, perto da Argentina e choveu e ventou direto até no domingo, quando começou a melhorar. Conhecí poucos lugares, mas conhecí o pampero, um primo mau humorado do nosso vento minuano. Conhecí também o mormaço, como eles chamam o tempo úmido, frio e feio. Prá mim, mormaço era só um calorão.

                                  

Não fui na maior feira ao ar livre da América Latina, a feira da rua Tristán Narvaja. Não visitei internamente o Teatro Solis, nem a Casa de Garibaldi, nem a Casa de Artigas, nem o Museu Romântico, nenhum dos diversos museus da cidade, nem o estádio do Penharol... No domingo na hora de ir embora fizemos um tour, de onibus, por alguns pontos turísticos da Ciudad Vieja. A Rosa, no microfone do onibus, relembrou sua vivência prática e seus encontros.. políticos, é claro. O Alvaro Alencar revelou-se - teoricamente - um conhecedor dos meandros da noite de Montevideo.

Enfrentamos, durante toda nossa estadia, dois tipos de adversidade: de um lado o tempo, com mormaço e pampero, que não deixavam a gente sair para lugar algum e de outro o Gilson, sempre de olho, para impedir o desgarramento da delegação. Na manhã que chegamos - sexta - os delegados foram divididos em três talleres (grupos ou oficinas): Andino amazônico, Cone Sul e Caribenho/Mesoamericano. A maioria dos nossos delegados ficaram no taller Cone Sul. Aos poucos fomos nos ambientando e descobrindo os demais brasileiros no Encontro. O Secretário de Relações Internacionais do PT nacional, Valter Pomar, era o sub-comandante da delegação onde também estavam o Nilmário Miranda, de Minas, o José Eduardo Cardozo e o Joaquim Soriano de São Paulo, o Raul Pont e a Maria do Rosário do Rio Grande, entre outros. O PCdoB e o PCB também participaram do Encontro.

Na tarde do primeiro dia houve nova divisão em três grupos dessa vez: juventude, gênero e parlamentares. Nos atrasamos para a parte da tarde porque fugimos da vigilância do Gilson e fomos almoçar no Mercado da Ciudad Vieja. Eu, a Sandra, a Magda Flores e o Lucio Costa provamos a 'parrijada' e um belo vinho. Na mesa ao lado o Alvaro Alencar e o Joaquim Soriano pareciam dois monges medievais tal a felicidade no semblante e no sotaque. No mercado dei-me conta que os brasileiros haviam invadido a cidade. Em todos os bares e restaurantes, nos corredores estreitos e na fila do banheiro falava-se mais português que espanhol. Se houvesse alguma unidade de objetivos poderíamos ter retomado a ideia da Província Cisplatina. Mas que nada, os brasileiros só queriam passear, comprar, comer, beber e dar risadas...

Andamos muito de táxi. Esse meio de transporte é barato, os carrinhos são pequenos, parecidos com o do Mr. Bean e os motoristas adoram tirar fininho dos outros carros. Os taxis lembram as viaturas antigas da Polícia Rodoviária Federal, são pretos com o teto amarelo. A Magda animou-se a tal ponto que teve de ser contida para não surrupiar um táxi e sair dirigindo enlouquecida pelas ruas de Montevideo. Já um companheiro nosso, da juventude de Bagé, não se conteve e surrupiou o coração de um taxista local que deve estar, até hoje, suspirando de paixão. Na volta de uma festa nosso companheiro de Bagé repousou seu cansaço no ombro amigo do motorista.

Gilnei e Guillermo
Outra grata surpresa da delegação foi o companheiro Guillermo (foto acima), o mais brasileiro dos uruguaios. Foi nosso mestre e mentor intelectual, nossa mão amiga em todas as situações de dificuldade com o idioma, com a localização na cidade, com a história dos tupamaros e da esquerda no Uruguay, com as diferenças culinárias e principalmente com o câmbio. Quem diria nosso grande 'Guilhermino', um internacionalista, socialista e histórico militante esquerdista tornou-se o cambista oficial da delegação atrapalhada com as cotações do dólar, do real e do peso.

Nesta foto, tirada num raro momento de turismo estou defronte o belo Palácio Legislativo. 
Com algum esforço você vai conseguir enxergar tanto quanto eu enxerguei, ou seja, quase nada.
                           
No segundo dia foi possível sentir o nervosismo de alguns jornalistas que farejavam guerrilheiros colombianos portando fuzis automáticos soviéticos. Sintomático como a revista Veja, do Brasil, ocupou o lugar da antiga 'Seleções' na condição de preferida da Central de Inteligência Americana. A delegação gaúcha chegou a discutir sobre a necessidade de esconder as bombas de chimarrão para não dar informações ao inimigo sobre o potencial do nosso arsenal bélico. Mas deixou por isso mesmo já que não valia a pena gastar pólvora com chimango...


Nesta foto o Palácio Legislativo aparece em toda sua exuberância. Eu não estou nela porque 
em dias claros de sol e céu azul não faço turismo, permaneço em reuniões nas salas fechadas.
                                     
Durante o sábado realizaram-se duas sessões plenárias uma de balanço político e outra, á tarde, sobre os processos de integração. No domingo, último dia do Encontro, houve nova plenária discutindo "A Esquerda no Governo" e, á tarde, houve a aprovação da Declaração Final do Encontro e votação das resoluções apresentadas. Os principais pontos de discussão do Fórum de São Paulo foram a denúncia e a condenação da política de guerra preventiva na América Latina, a atuação dos Estados Unidos na Colômbia e a conseqüente invasão do território equatoriano pela Colômbia, apoiada pelos norte-americanos. Também foi saudada a vitória de Fernando Lugo nas recentes eleições do Paraguai que simboliza o ingresso de mais um país no mapa das forças progressistas e de esquerda no continente. O apoio ao governo de Evo Morales que enfrenta ameaças de sublevação e autonomia de determinadas regiões da Bolívia controladas pela oposição foi muito citado.

O secretário geral do PT - Partido dos Trabalhadores, José Eduardo Cardoso, defendeu o apoio ao governo de Evo Morales, que tem pela frente uma difícil jornada com o referendo revogatório que será realizado no dia 10 de agosto. José Eduardo Cardoso falou sobre os desafios do PT que concorrerá em 2010, sem Lula como candidato, mas, mesmo assim, o dirigente brasileiro acredita que existam condições efetivas para unir forças progressistas e garantir um terceiro mandato do PT no governo federal.
Durante a última plenária do Forum de São Paulo, no domingo, as discussões sobre o Tratado de Itaipu e sobre as imigrações políticas e econômicas que esvaziam países latino americanos e, cada vez mais, engrossam a fila de ilegais nos Estados Unidos, Europa e Japão foram as únicas polêmicas. A comitiva paraguaia conseguiu, no último momento, incluir no documento uma resolução que afirma o FSP como mediador e apoiador do Paraguai nas renegociações de tratados hidroelétricos com o Brasil e a Argentina.


Levei algum tempo para me dar conta de algo simples e genial, algo que a gente vê tanto que demora para compreender. Montevideo lembra Porto Alegre: a ciudad vieja e o mercado, as avenidas floridas, os prédios históricos e também a avenida a beira-mar com o Rio da Prata e o Atlântico no lugar de irmãos mais velhos do Guaíba. Mas tinha algo charmoso no ar, a cidade parecia aberta enchendo nossos olhos e Porto Alegre, não. Até que... caiu a ficha.


                              
Eu, o senador da Frente Ampla, Jose Mujica e a Sandra

Na chegada antes de Montevideo eu ví, e depois não ví mais, pequenos out-doors no chão cuja imagem tinha algum movimento. Mas eram pequenos, pouco mais de um metro quadrado e ficavam nas esquinas das ruas. Depois na área central não os avistei mais e ao buscá-los com os olhos ví algo muito mais majestoso, a beleza do invisível. Montevideo não tem outdoors, nem luminosos nem propagandas gigantescas escondendo a cidade. Ela parece mais aberta porque é mais aberta, linda, despoluída, desnuda... Porto Alegre também pode ser assim ou voltar a ser assim, basta despí-la da poluição visual...

  
                                               

No encerramento do Encontro o presidente da Nicarágua, Daniel Ortega homenageou vários lutadores dos partidos de esquerda da América Latina,  empolgou-se e fez um longo e chato discurso. Inspirou-se em Fidel ou em Hugo Chavez cujos discursos duravam horas. Ao citar, com pesar, a morte de Tirofijo, comandante histórico das Farc alimentou a sanha dos caçadores de guerrilheiros infiltrados na imprensa.




Eu, pessoalmente, apreciava mais o Daniel Ortega, comandante da Frente Sandinista nos anos 80. Aquele Ortega, mais carismático e conciso, não perderia para o sono a atenção de um plenário tão qualificado.

Agradecimento a todos integrantes da delegação e à Clarissa Pont, filha do Raul, de cuja matéria jornalística para a Agência Carta Maior emprestei algumas informações.

PS - Na iminência da vitória eleitoral de José Mujica da Frente Ampla para a presidência do Uruguai volto a postar o artigo abaixo sobre o Foro de São Paulo realizado em junho de 2008.

Gilnei Andrade
em outubro de 2009
                                

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