I m A g E m

I m A g E m

O velho do espelho

"Por acaso, surpreendo-me no espelho:
quem é esse que me olha e é
tão mais velho do que eu?
Porém, seu rosto...é cada vez menos estranho...
Meu Deus,Meu Deus...Parece meu velho pai -
que já morreu"! (Mario Quintana)

P E S Q U I S A

sábado, 25 de março de 2017

Tornavida tornador


Faz um mês que o furacão passou. Desses que a força da natureza apavora. Ainda assusta a lembrança de vê-lo por dentro. Naquele vazio do meio do tornado. Naqueles segundos antes que os corredores de vento, com suas forças levem tudo para o ar.



Olhar o todo depois que o tornado passou e ir aos poucos, bem aos poucos, percebendo a grandeza dos seus estragos. Um tornado remove o que é estável por baixo da terra. Pelas entranhas. E joga longe. Quebra. Enche de água, que junta com o todo e cobre tudo de lama. E a gente olha longe na vista, até o horizonte e percebe tudo fora do lugar. Carcaças. Lixos. Formas irreconhecíveis do que antes era concreto. Pedaços. Do avesso. Quebrado. Destruído. Desmontado. Desfacelado. E coberto de lama.
E não se sabe por onde começar, olhar o todo dá falta de ar. Como se o ar do mundo pesasse dentro dos pulmões e nosso corpo pendesse pra frente. E se o olhar periférico dá vertigens, o olhar minucioso – aquele que olha os detalhes, que calcula os segundos que o tornado levou para passar, a força dos ventos e a velocidade que atingiu o solo – dá frio. Como se um sopro de gelo diminuísse a velocidade do coração em bombear sangue para o resto do corpo. E as extremidades funcionam sem vitalidade, estranhas ao novo ritmo do metabolismo. 



Então os dias após o tornado começam a passar e é difícil perceber com clareza quando é dia ou noite. A lama fez muita poeira e uma camada grossa cobre o céu. O misto da falta de percepção das horas com a falta de referências estáveis das coisas agora reviradas, faz com que habitemos o limbo. Esse espaço onde não agimos por falta de entendimento do passo seguinte. Observamos. Procuramos por pedaços de carcaças que sejam possíveis reconhecer e aos poucos começamos a reconstruir mentalmente o lugar das coisas, para buscar uma direção.
O processo de reconstrução desse espaço é lento. Quando reconhecemos um objeto, limpamos ele e decidimos se ele volta para o lugar anterior, se ele ganha um novo espaço ou se ele vai fora. Tem objetos que não são mais úteis. Tem objetos quebrados que a gente deixa de lado porque talvez daqui a pouco a gente encontre a parte que falta e tem objetos novos, que o tornado trouxe consigo de outros lugares.


Mas não tentamos limpar toda a lama de uma só vez. Até porque esse pó não sai instantaneamente. A gente começa tirando a camada mais grossa com uma pá. A segunda camada varrendo. A terceira com um pano úmido e ainda assim permanece uma camada fina que a gente percebe algumas horas depois de ter limpado. 
É difícil limpar e organizar as coisas sem ter ideia da dimensão do que a gente tem que organizar. Quão além do horizonte os estragos do furacão chegaram? Foco. Escolhe um objeto. Limpa. Define o que fazer com ele. Foco. Outro objeto. Limpa. Define o que fazer com ele. Nunca o todo. 



O lugar inteiro está cheio de lodo e o processo é lento. Tem algumas pessoas limpando também e tem outras fazendo castelo com a lama. Durante esse um mês vários ventos fortes assustaram. Alguns ventos conseguiram derrubar coisas que já haviam sido ajeitadas e o temor em relação a isso é que um novo furacão se aproxime.
Não sei quantos meses levarão para que a lama vá embora. Até que as coisas se “normalizem” nessa nova forma de organização. De um novo lugar, que não nega a passagem do furacão, pelo contrário, se reconhece mais forte em função dele. E que tem suas raízes rasas, recém replantadas, como esperança de novos frutos. Mas com o entendimento que nem toda planta sobrevive ao replantio. Enquanto isso tem brotos novos, nascidos pelas brechas, depois da tormenta e que já nascem entendendo esse espaço como o mundo real. Como ele é.

                                                                                                   Thais Andrade

Nenhum comentário:

Postar um comentário