Participei da XIV edição do Fórum de São Paulo, em Montevideo, como delegado do PT - Partido dos Trabalhadores. O Encontro ocorreu nos dias 23, 24 e 25 de junho de 2008 e da delegação brasileira de cerca de 60 pessoas, mais da metade deslocou-se de onibus saindo de Porto Alegre.
Saímos de Porto Alegre no feriado da quinta-feira e atravessamos a fronteira por Chuí. Chegamos a Montevideo na manhã de sexta-feira e o chefe da delegação, Gilson Gruginskie foi promovido a sargento porque nos levou direto para o local da reunião, sem banho e sem descanso, após 12 ou 13 horas de viagem.
O Forum de São Paulo realizou-se no Parlamento del Mercosur (foto acima) um prédio muito bonito, onde antes funcionava o Paque Hotel, um hotel-cassino, na Lhambra Sur. O cassino continua funcionando bem ao lado do local onde ficamos, mas o 'sargento' Gilson deixou claro que, como delegação do partido do Lula, devíamos ser exemplares. Quem peleia contra os bingos no Brasil, não pode nem pensar em caça-níquel ou roleta no Uruguay...
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Parte da delegação gaúcha na foto acima. |
Ficamos hospedados no Hotel Richmond na San Jose, no centro. A propaganda da internet mostrava um hotelzinho pequeno e agradável, como a maioria dos hotéis baratos de Montevideo. Mesmo com a impressão de propaganda enganosa o hotelzinho foi uma boa experiência. Quem vive de salário e de uma forma simples se sente em casa (acho que em casa a gente abre mais as janelas e combate com mais empenho os ácaros e o cheiro de mofo).
Como uma criança numa loja de doces me sentia em relação a visita ao Uruguay. Para quem estuda e gosta de História, como eu, tem muita coisa para ver e visitar. Viajei com várias indicações de lojas , livrarias e museus. Tudo bem anotadinho... só faltou combinar com a meteorologia. Houve um desses ciclones, no mar, perto da Argentina e choveu e ventou direto até no domingo, quando começou a melhorar. Conhecí poucos lugares, mas conhecí o pampero, um primo mau humorado do nosso vento minuano. Conhecí também o mormaço, como eles chamam o tempo úmido, frio e feio. Prá mim, mormaço era só um calorão.
Não fui na maior feira ao ar livre da América Latina, a feira da rua Tristán Narvaja. Não visitei internamente o Teatro Solis, nem a Casa de Garibaldi, nem a Casa de Artigas, nem o Museu Romântico, nenhum dos diversos museus da cidade, nem o estádio do Penharol... No domingo na hora de ir embora fizemos um tour, de onibus, por alguns pontos turísticos da Ciudad Vieja. A Rosa, no microfone do onibus, relembrou sua vivência prática e seus encontros.. políticos, é claro. O Alvaro Alencar revelou-se - teoricamente - um conhecedor dos meandros da noite de Montevideo.
Enfrentamos, durante toda nossa estadia, dois tipos de adversidade: de um lado o tempo, com mormaço e pampero, que não deixavam a gente sair para lugar algum e de outro o Gilson, sempre de olho, para impedir o desgarramento da delegação. Na manhã que chegamos - sexta - os delegados foram divididos em três talleres (grupos ou oficinas): Andino amazônico, Cone Sul e Caribenho/Mesoamericano. A maioria dos nossos delegados ficaram no taller Cone Sul. Aos poucos fomos nos ambientando e descobrindo os demais brasileiros no Encontro. O Secretário de Relações Internacionais do PT nacional, Valter Pomar, era o sub-comandante da delegação onde também estavam o Nilmário Miranda, de Minas, o José Eduardo Cardozo e o Joaquim Soriano de São Paulo, o Raul Pont e a Maria do Rosário do Rio Grande, entre outros. O PCdoB e o PCB também participaram do Encontro.
Na tarde do primeiro dia houve nova divisão em três grupos dessa vez: juventude, gênero e parlamentares. Nos atrasamos para a parte da tarde porque fugimos da vigilância do Gilson e fomos almoçar no Mercado da Ciudad Vieja. Eu, a Sandra, a Magda Flores e o Lucio Costa provamos a 'parrijada' e um belo vinho. Na mesa ao lado o Alvaro Alencar e o Joaquim Soriano pareciam dois monges medievais tal a felicidade no semblante e no sotaque. No mercado dei-me conta que os brasileiros haviam invadido a cidade. Em todos os bares e restaurantes, nos corredores estreitos e na fila do banheiro falava-se mais português que espanhol. Se houvesse alguma unidade de objetivos poderíamos ter retomado a ideia da Província Cisplatina. Mas que nada, os brasileiros só queriam passear, comprar, comer, beber e dar risadas...
Andamos muito de táxi. Esse meio de transporte é barato, os carrinhos são pequenos, parecidos com o do Mr. Bean e os motoristas adoram tirar fininho dos outros carros. Os taxis lembram as viaturas antigas da Polícia Rodoviária Federal, são pretos com o teto amarelo. A Magda animou-se a tal ponto que teve de ser contida para não surrupiar um táxi e sair dirigindo enlouquecida pelas ruas de Montevideo. Já um companheiro nosso, da juventude de Bagé, não se conteve e surrupiou o coração de um taxista local que deve estar, até hoje, suspirando de paixão. Na volta de uma festa nosso companheiro de Bagé repousou seu cansaço no ombro amigo do motorista.
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Gilnei e Guillermo
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Outra grata surpresa da delegação foi o companheiro Guillermo (foto acima), o mais brasileiro dos uruguaios. Foi nosso mestre e mentor intelectual, nossa mão amiga em todas as situações de dificuldade com o idioma, com a localização na cidade, com a história dos tupamaros e da esquerda no Uruguay, com as diferenças culinárias e principalmente com o câmbio. Quem diria nosso grande 'Guilhermino', um internacionalista, socialista e histórico militante esquerdista tornou-se o cambista oficial da delegação atrapalhada com as cotações do dólar, do real e do peso.
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Nesta foto, tirada num raro momento de turismo estou defronte o belo Palácio Legislativo.
Com algum esforço você vai conseguir enxergar tanto quanto eu enxerguei, ou seja, quase nada. |
No segundo dia foi possível sentir o nervosismo de alguns jornalistas que farejavam guerrilheiros colombianos portando fuzis automáticos soviéticos. Sintomático como a revista Veja, do Brasil, ocupou o lugar da antiga 'Seleções' na condição de preferida da Central de Inteligência Americana. A delegação gaúcha chegou a discutir sobre a necessidade de esconder as bombas de chimarrão para não dar informações ao inimigo sobre o potencial do nosso arsenal bélico. Mas deixou por isso mesmo já que não valia a pena gastar pólvora com chimango...
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Nesta foto o Palácio Legislativo aparece em toda sua exuberância. Eu não estou nela porque
em dias claros de sol e céu azul não faço turismo, permaneço em reuniões nas salas fechadas. |
Durante o sábado realizaram-se duas sessões plenárias uma de balanço político e outra, á tarde, sobre os processos de integração. No domingo, último dia do Encontro, houve nova plenária discutindo "A Esquerda no Governo" e, á tarde, houve a aprovação da Declaração Final do Encontro e votação das resoluções apresentadas. Os principais pontos de discussão do Fórum de São Paulo foram a denúncia e a condenação da política de guerra preventiva na América Latina, a atuação dos Estados Unidos na Colômbia e a conseqüente invasão do território equatoriano pela Colômbia, apoiada pelos norte-americanos. Também foi saudada a vitória de Fernando Lugo nas recentes eleições do Paraguai que simboliza o ingresso de mais um país no mapa das forças progressistas e de esquerda no continente. O apoio ao governo de Evo Morales que enfrenta ameaças de sublevação e autonomia de determinadas regiões da Bolívia controladas pela oposição foi muito citado.
O secretário geral do PT - Partido dos Trabalhadores, José Eduardo Cardoso, defendeu o apoio ao governo de Evo Morales, que tem pela frente uma difícil jornada com o referendo revogatório que será realizado no dia 10 de agosto. José Eduardo Cardoso falou sobre os desafios do PT que concorrerá em 2010, sem Lula como candidato, mas, mesmo assim, o dirigente brasileiro acredita que existam condições efetivas para unir forças progressistas e garantir um terceiro mandato do PT no governo federal.
Durante a última plenária do Forum de São Paulo, no domingo, as discussões sobre o Tratado de Itaipu e sobre as imigrações políticas e econômicas que esvaziam países latino americanos e, cada vez mais, engrossam a fila de ilegais nos Estados Unidos, Europa e Japão foram as únicas polêmicas. A comitiva paraguaia conseguiu, no último momento, incluir no documento uma resolução que afirma o FSP como mediador e apoiador do Paraguai nas renegociações de tratados hidroelétricos com o Brasil e a Argentina.
Levei algum tempo para me dar conta de algo simples e genial, algo que a gente vê tanto que demora para compreender. Montevideo lembra Porto Alegre: a ciudad vieja e o mercado, as avenidas floridas, os prédios históricos e também a avenida a beira-mar com o Rio da Prata e o Atlântico no lugar de irmãos mais velhos do Guaíba. Mas tinha algo charmoso no ar, a cidade parecia aberta enchendo nossos olhos e Porto Alegre, não. Até que... caiu a ficha.
Eu, o senador da Frente Ampla, Jose Mujica e a Sandra
Na chegada antes de Montevideo eu ví, e depois não ví mais, pequenos out-doors no chão cuja imagem tinha algum movimento. Mas eram pequenos, pouco mais de um metro quadrado e ficavam nas esquinas das ruas. Depois na área central não os avistei mais e ao buscá-los com os olhos ví algo muito mais majestoso, a beleza do invisível. Montevideo não tem outdoors, nem luminosos nem propagandas gigantescas escondendo a cidade. Ela parece mais aberta porque é mais aberta, linda, despoluída, desnuda... Porto Alegre também pode ser assim ou voltar a ser assim, basta despí-la da poluição visual...
No encerramento do Encontro o presidente da Nicarágua, Daniel Ortega homenageou vários lutadores dos partidos de esquerda da América Latina, empolgou-se e fez um longo e chato discurso. Inspirou-se em Fidel ou em Hugo Chavez cujos discursos duravam horas. Ao citar, com pesar, a morte de Tirofijo, comandante histórico das Farc alimentou a sanha dos caçadores de guerrilheiros infiltrados na imprensa.
Eu, pessoalmente, apreciava mais o Daniel Ortega, comandante da Frente Sandinista nos anos 80. Aquele Ortega, mais carismático e conciso, não perderia para o sono a atenção de um plenário tão qualificado.
Agradecimento a todos integrantes da delegação e à Clarissa Pont, filha do Raul, de cuja matéria jornalística para a Agência Carta Maior emprestei algumas informações.
PS
- Na iminência da vitória eleitoral de José Mujica da Frente Ampla para
a presidência do Uruguai volto a postar o artigo abaixo sobre o Foro de
São Paulo realizado em junho de 2008.
Gilnei Andrade
em outubro de 2009