João Jorge e Jacobina Maurer

João Jorge e Jacobina Maurer

I m A g E m

I m A g E m
O Velho do Espelho

"Por acaso, surpreendo-me no espelho:
quem é esse que me olha e é
tão mais velho do que eu?
Porém, seu rosto...é cada vez menos estranho...
Meu Deus,Meu Deus...Parece meu velho pai -
que já morreu"! (Mario Quintana)

P E S Q U I S A

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Por um marxismo profano

"Ao convertê-lo em uma ideologia estatal, o stalinismo transformou o marxismo em uma religião. A imagem síntese dessa religião de Estado é o corpo mumificado de Lenin, placidamente repousando em seu mausoléu de Moscou. Todo ano, milhares de peregrinos visitam o santo soviético em um ritual sincrético no qual os símbolos comunistas se misturam com o gestual da Igreja ortodoxa. Como crítica social a religião de Estado tinha vitalidade igual  a esse cadáver. Servia para justificar um regime burocrático, para fortalecer as correntes que aprisionavam mulheres e homens, mas não para emancipar a humanidade. Também essa religião de Estado se encontrava morta".
Certa feita, Jean-Paul Sartre afirmou que o marxismo era a filosofia insuperável de nossa época. Ao afirmar isso registrou o caráter histórico do marxismo, o qual era o ponto de culminância e a negação do pensamento filosófico precedente. A afirmação registrava, ao mesmo tempo, a finitude dessa forma de pensamento, cuja existência encontra-se condenada ao quadro social que ele procurou explicar. Ao reconhecer sua própria finitude, o marxismo assumiu-se como um pensamento profano.
A relação do marxismo com a história filosófica e social de sua época era, uma relação contraditória. Ele nascia daquilo que queria negar. Desde o início estava claro para Marx que a critica à filosofia de sua época era uma negação de todo pensamento teológico. Na Prússia da primeira metade do século XIX, a religião era uma politica de Estado. Levantar-se contra o monopólio da Igreja na vida civil era, também, protestar contra a autocracia política. Para realizar-se a filosofia deveria romper com todo pressuposto teológico, mas isso significava negar-se a si própria. Marx lançou-se de maneira implacável nesse trabalho de liquidação e rapidamente percebeu que para emancipar a razão também era preciso emancipar a humanidade.

 

O marxismo realizou a crítica da filosofia hegeliana e da economia política ricardiana, negando-as. Sem essas formas teóricas nunca teria existido, mas não foi a seus estreitos quadros intelectuais que o marxismo se conformou. A filosofia marxista não é a dialética hegeliana, assim como sua teoria do valor não é ricardiana. Ao realizar a crítica às formas intelectuais precedentes, Karl Marx assentou as bases para a crítica radical da própria sociabilidade na qual estas se assentavam, atacou a reificação das relações sociais, as quais aparecem no capitalismo como relações entre coisas, e investiu contra o fetichismo da forma estatal, que se manifesta como expressão da vontade geral.
Apenas sob o látego da crítica o mundo não teria se vergado. Foi necessário que a teoria descobrisse o movimento dos trabalhadores para que se tornasse uma força material. Não foi um encontro casual. A teoria e a prática não foram mais as mesmas depois dessa reunião. Nas ruas de Paris, Marx tomou contato com a agitação comunista inspirada pelas ideias de Gracchus Babeuf e de Flora Tristan. Desse encontro nada casual, nasceu uma nova prática política, reinventando o internacionalismo e recriando a forma partido. Em 1848, o comunismo era só um espectro. Em 1871, uma ameaça real.

 

Nesse encontro com o movimento dos trabalhadores a crítica ao pensamento iluminista adquiriu contornos mais radicais. O romantismo espontâneo e revolucionário, presente na revolta dos tecelões da Silésia, nos cartistas ingleses e nos comunistas utópicos franceses, carregava consigo uma recusa das novas formas sociais que a mercantilização de todas as relações e a grande indústria impunham com uma violência extraordinária. A miséria crescente, a exclusão da vida política da comunidade, a animalização da existência humana na fábrica eram objetos de recusa.
Essa recusa não perdoava sequer a razão. O próprio Iluminismo era colocado sob suspeição. “As águas geladas do cálculo egoísta”, já assinalaram Marx e Engels no Manifesto comunista, profanaram tudo o que era sagrado e desmancharam no ar tudo o que era sólido e estável. Não havia motivo para uma confiança cega nos poderes da razão. Ao invés de emancipar a humanidade, libertando-a de todas as correntes, a razão iluminista servia para justificar uma nova e crescente opressão. As correntes políticas do antigo regime haviam cedido lugar aos grilhões da exploração capitalista. Que os novos senhores afirmassem agir em nome da ciência não mudava as coisas.

 

De braços dados com essa crítica romântica à razão burguesa caminhava uma moral profana. Pacientemente destilada no alambique das revoltas camponesas e das heresias religiosas, essa moral amaldiçoava a miséria e o sofrimento dos mais fracos e louvava a solidariedade comunitária. Nos grandes centros urbanos ela descobriu o imperativo da organização, dos clubes, dos sindicatos, das associações e, finalmente, do partido. Terçou armas não apenas contra os governantes e os proprietários, mas também contra seus guardiões espirituais, o clero e a instituição eclesiástica. Saiu das igrejas, perdeu seus traços místicos e adquiriu um caráter profano.
Um pensamento que sempre foi profano não pode ser transformado em uma religião laica, sob pena de perecer. Ao convertê-lo em uma ideologia estatal, o stalinismo transformou o marxismo em uma religião. A imagem síntese dessa religião de Estado é o corpo mumificado de Lenin, placidamente repousando em seu mausoléu de Moscou. Todo ano, milhares de peregrinos visitam o santo soviético em um ritual sincrético no qual os símbolos comunistas se misturam com o gestual da Igreja ortodoxa. Como crítica social a religião de Estado tinha vitalidade igual  a esse cadáver. Servia para justificar um regime burocrático, para fortalecer as correntes que aprisionavam mulheres e homens, mas não para emancipar a humanidade. Também essa religião de Estado se encontrava morta.

 

O marxismo deve ser inimigo das igrejas, dos profetas, dos papas, dos sacerdotes e coroinhas, dos textos sagrados, da adoração dos mortos, dos cultos aos santos. Mas só pode ser esse inimigo se combater de modo ainda mais decidido as  igrejas que se constroem em seu nome, os autoproclamados profetas armados e os desarmados, os infalíveis papas partidários, os mesquinhos sacerdotes de paróquias, a patética adoração aos mortos e o culto aos santos conhecidos e desconhecidos. A religião de uma pequena seita não é melhor do que uma religião de Estado. Só é menos relevante. Para continuar a ser a filosofia insuperável de nossa época, enquanto nossa época existir, o marxismo deve voltar a ser profano.

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Ações Afirmativas, Discriminação Positiva e Cidadania Plena

 As ações afirmativas podem ter sua origem no Estado, algumas vezes determinadas constitucional e/ou legalmente, outras vezes estabelecidas através de políticas públicas pontuais. Existem ainda ações afirmativas que são desenvolvidas fora do Estado por instituições da sociedade civil com autonomia suficiente para decidir a respeito de seus procedimentos internos, tais como partidos políticos, sindicatos, centrais sindicais, escolas, igrejas, etc. As ações afirmativas, neste sentido podem ser temporárias ou não, dependendo das normas que as criaram.

 
É importante notar que as ações afirmativas não se confundem com a discriminação positiva. As primeiras são ações de incentivo e suporte para os grupos de pessoas a que se destinam, tais como a criação de cursinhos pré-vestibulares para afro-descendentes e pessoas oriundas de escolas públicas, ou a criação de horários de reuniões (em partidos políticos, sindicatos, etc.) que permitam a participação de mulheres com filhos. A discriminação positiva introduz na norma o tratamento desigual dos formalmente iguais, citando-se como exemplo a reserva de vagas de cargos públicos para deficientes físicos determinada pela Constituição Brasileira de 1988, ou ainda a reserva de uma determinada quantidade de vagas nas universidades públicas para alunos afro-descendentes ou da rede pública. Alguns doutrinadores do Direito consideram que tais medidas nada mais são do que a implementação da igualdade material.
  



 Quanto a sua origem, as ações afirmativas nasceram na década de 1960, nos Estados Unidos da América, com o Presidente Kennedy, como forma de promover a igualdade entre os negros e brancos norte-americanos.

Peço desculpas aos que pensam de forma diversa, mas entendo que devem ser adotadas as duas medidas sempre que haja distorções graves na oportunização de chances para que determinados grupos alcancem um mínimo de realização pessoal e/ou profissional.



Observando as desigualdades extremas pelo lado dos inferiorizados, não se concebe que devam se conformar com sua situação. É desconhecer a natureza humana querer que alguém viva satisfeito sentindo-se desprezado injustamente.

Observando as desigualdades extremas pelo lado dos felizardos, é difícil conceber-se alguém tão frio que possa usufruir de benesses dentro dentro de uma redoma de vidro ou numa torre de marfim, indiferente às agruras dos seus vizinhos, parentes, amigos e concidadãos...



Se as idéias de Liberdade, Igualdade e Fraternidade ainda não se tornaram espontâneas no espírito de muitos (inclusive aqueles que compõem as elites) não resta outra opção a não ser viabilizar - por meio das ações afirmativas e da discriminação positiva - a possível oportunidade aos desvalidos.

O que não pode deixar de acontecer é pessoas viverem sem a cidadania plena.


                                         * Luiz Guilherme Marques, Juiz de Direito da 2ª Vara Cível de Juiz de Fora (MG).

FONTE: Wikipedia

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Rubens Alves

 
Rubens Alves -

"Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui para frente do que já vivi até agora. Sinto-me como aquele menino que ganhou uma bacia de jabuticabas. As primeiras, ele chupou displicente, mas percebendo que faltavam poucas, rói o caroço. 
 
Já não tenho tempo para lidar com mediocridades. Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflados. Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram, cobiçando seus lugares, talentos e sorte. 

Já não tenho tempo para projetos megalomaníacos.
Já não tenho tempo para conversas intermináveis para discutir assuntos inúteis sobre vidas alheias que nem fazem parte da minha. Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas que, apesar da idade cronológica, são imaturas. 

Detesto fazer acareação de desafetos que brigaram pelo majestoso cargo de secretário geral do coral ou semelhante bobagem, seja ela qual for. Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência, minha alma tem pressa... 

Sem muitas jabuticabas na bacia, quero viver ao lado de gente humana, muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com triunfos, não se considera eleita antes da hora, não foge de sua mortalidade, defende a dignidade dos marginalizados, e deseja tão somente andar ao lado de deus. 

Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade, desfrutar desse amor absolutamente sem fraudes, nunca será perda de tempo. 
O essencial faz a vida valer a pena. Basta o essencial!"

Ariano Suassuna e Rubens Alves 

Fonte:

https://www.facebook.com/rubemalvesoficial/photos/a.187139434749494.42478.187120831418021/429873227142779/?type=1&fref=nf

domingo, 11 de maio de 2014

Walter Neves: O pai de Luzia

Arqueólogo e antropólogo da USP conta como formulou uma  teoria sobre a chegada do homem às Américas


© LEO RAMOS
Ele é o pai de Luzia, um crânio humano de 11 mil anos, o   mais antigo até agora encontrado nas Américas, que pertenceu a um extinto povo de caçadores-coletores da região de Lagoa Santa, nos arredores de Belo Horizonte. O arqueólogo e antropólogo Walter Neves, coordenador do Laboratório de Estudos Evolutivos Humanos do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (USP), não foi o responsável por ter resgatado esse antigo esqueleto de um sítio pré-histórico, mas foi graças a seus estudos que Luzia, assim batizada por ele, tornou-se o símbolo de sua polêmica teoria de povoamento das Américas: o modelo dos dois componentes biológicos.

Formulada há mais de duas décadas, a teoria advoga que nosso continente foi colonizado por duas levas de Homo sapiens vindas da Ásia. A primeira onda migratória teria ocorrido há uns 14 mil anos e fora composta por indivíduos parecidos com Luzia, com morfologia não mongoloide, semelhante à dos atuais australianos e africanos, mas que não deixaram descendentes. A segunda leva teria entrado aqui há uns 12 mil anos e seus membros apresentavam o tipo físico característico dos asiáticos, dos quais os índios modernos derivam. Nesta entrevista, Neves, um cientista tão aguerrido como popular, que gosta de uma boa briga acadêmica, fala de Luzia e de sua carreira.
Por que escolheu biologia?                                                                                                      (...)  Estudei em escola pública e entrei na USP, em biologia, em 1976. Tínhamos um ensino médio público de excelente nível. (...) Sempre achei que o caminho para estudar evolução humana era estudar história. Numa visita à USP no colegial, conheci o Instituto de Pré-história, que não existe mais. O instituto fora fundado por Paulo Duarte e funcionava no prédio da Zoologia, onde hoje fica a Ecologia. Nessa visita, fui ao prédio da História atrás de informação sobre o curso e me disseram que, se eu fizesse história, não aprenderia nada sobre evolução humana. Descendo a rua do Matão, vi numa plaquinha escrito Instituto de Pré-história, onde conheci a arqueóloga Dorath Uchôa. Lá vi as réplicas de hominídeos fósseis e esqueletos pré-históricos escavados nos sambaquis da costa brasileira. Então disse para Dorath: “Quero fazer arqueologia e estudar esqueleto”. E ela disse: “Não faça história. Ou você faz biologia ou medicina”. Medicina não dava porque era em tempo integral. Optei por biologia. Foi um bom negócio. Em 1978 fui contratado, ainda na graduação, pelo Instituto de Pré-história como técnico.
Você estava em que ano da faculdade?
Do segundo para o terceiro, acho. Quando concluí a licenciatura em 1980, fui contratado como pesquisador e professor. Não tinha concurso. Era indicação.
Era um instituto independente?
Sim. Depois foi anexado ao Museu de Arqueologia e Etnologia, o MAE. Na época se fazia arqueologia em três lugares na USP: no Instituto de Pré-história, o mais antigo, no MAE e no setor de arqueologia do Museu Paulista, no Ipiranga. No final dos anos 1980, os três foram unidos em um só. Trabalhei no Instituto de Pré-história como pesquisador de 1980 a 1985. Em 1982 fui fazer doutorado sanduíche na Universidade Stanford. Eu era autodidata, porque não havia no Brasil especialista nessa área. No Instituto de Pré-história, o material estava lá, a biblioteca estava lá, mas não havia quem me orientasse.
Eles não trabalhavam com evolução humana?
O instituto era muito pequeno, tinha dois pesquisadores, que se achavam donos daquilo. Quando fui contratado, outra arqueóloga, a Solange Caldarelli, também foi contratada. Formamos um par muito produtivo. Trabalhamos no interior de São Paulo com grupos de caçadores-coletores, na faixa cronológica dos 3 mil aos 5 mil anos. Foi com ela que me tornei um arqueólogo. Minha transformação de biólogo para antropólogo físico foi autodidata. O crescimento do nosso grupo de pesquisa começou a expor a mediocridade do trabalho feito no Instituto de Pré-história e no Brasil. Isso levou a uma guerra entre nós e o establishment. Em 1985 fomos expulsos da universidade.
Como assim?
Expulsos. Demitidos sumariamente.
O que alegavam?
Nada. Não tínhamos estabilidade. A maior parte dos docentes era contratada a título precário e fomos chutados do Instituto de Pré-história pelo pessoal mais velho.

Qual a diferença do antropólogo físico e do arqueólogo? Você se considera o que hoje?
Me considero antropólogo e arqueólogo. Na verdade me considero uma categoria que tem nos Estados Unidos e se chama evolutionary anthopologyst, antropólogo evolutivo. Mesmo entre os antropólogos evolutivos são raros os que têm uma trajetória em antropologia física, arqueologia e antropologia sociocultural. Nesse sentido tenho uma carreira única, que os meus colegas no exterior não entendiam. Eu fazia antropologia física e antropologia biológica e tinha projetos de arqueologia. Quando fui para a Amazônia, trabalhei com antropologia ecológica. Sou uma das únicas pessoas no mundo que passou por todas as antropologias possíveis. Se por um lado não sou bom em nenhuma delas, por outro eu tenho uma compreensão do humano muito mais multifacetada do que meus colegas.

O arqueólogo faz o trabalho de campo e o antropólogo físico espera o material?
O antropólogo físico pode ir a campo, mas não vai. Espera os arqueólogos entregarem o material para ele estudar. Me rebelei contra isso no Brasil. Falei: quero ser arqueólogo também. Nos Estados Unidos, no final dos anos 1980, se definiu uma área chamada bioarqueologia, composta por antropólogos físicos que não aguentavam mais ficar na dependência dos arqueólogos. Aqui de maneira independente me rebelei contra essa situação. E a demissão do instituto em 1985 foi traumática porque tínhamos sete anos de pesquisa de campo e perdemos tudo. De uma hora para outra minha carreira foi zerada. A sorte é que àquela altura eu tinha defendido meu doutorado.
Aqui?
Aqui na Biologia, mas sobre paleogenética. Fui para Stanford por meio de uma bolsa sanduíche de seis meses do CNPq. Para me manter em Stanford e em Berkeley, eu contava com meu salário daqui, na época dava US$ 250, e o [Luigi Luca] Cavalli-Sforza, com quem trabalhei, me pagava no laboratório mais US$ 250.
Ele é um grande pesquisador, mas da genética de populações.
Me perguntam por que não fui trabalhar com um antropólogo físico, se eu era autodidata na parte osteológica. Não fui porque o que o Cavalli-Sforza faz é fascinante. Ele une várias áreas do conhecimento. Na época eu estava matriculado no mestrado na Biologia, quem me orientava aqui era o [Oswaldo] Frota-Pessoa.

Que também é da genética.
Da genética, mas com uma visão muito abrangente do ser humano. Se o Frota não existisse, eu não teria conseguido fazer o mestrado. Ele percebeu minha situação e foi muito generoso. Quando eu estava terminando o trabalho em Stanford, o Cavalli-Sforza descobriu que eu estava fazendo mestrado, e não doutorado. Ele olhava para mim e dizia: “Como você pode estar fazendo mestrado se já tem diversas publicações, coordena dois projetos de arqueologia e tem sete estudantes? Não tem sentido. Vou mandar uma correspondência para o Frota-Pessoa sugerindo que você faça direto o doutorado”. Hoje isso é comum. Foi o que me salvou. Defendi o doutorado em dezembro de 1984 e, meses depois, fui demitido. A Solange Caldarelli saiu tão enojada com a academia que nunca mais quis saber de carreira universitária. Eu queria voltar para a academia. Aí surgiram três possibilidades. Uma era fazer um pós-doc em Harvard; outra um pós-doc na Universidade Estadual da Pensilvânia e uma terceira coisa, inesperada. Quando eu fui demitido disse para o Frota que ia para o exterior. Sabia que a minha condição ia ser sempre conflituosa com a arqueologia brasileira. Nessa época existia o programa integrado de genética, do CNPq, importante para o desenvolvimento da genética no Brasil, e o Frota coordenava alguns cursos itinerantes. Aí o Frota disse: “Agora que a gente ia ter um especialista em evolução humana você vai embora. Eu entendo, mas eu vou te convidar para, antes de ir para o exterior, você dar um curso itinerante pelo Brasil sobre evolução humana”. Dei o curso na Universidade Federal da Bahia, na Federal do Rio Grande do Norte, no Museu Goeldi e na Universidade de Brasília. Fiquei muito bem impressionado com o Goeldi. No último dia de curso no Goeldi, o diretor quis me conhecer. Falei da minha trajetória e que estava indo para os Estados Unidos. Ele me perguntou: “Não tem nada que possa demover você dessa ideia?” Eu disse: “Olha, Guilherme”, o nome dele é Guilherme de La Penha, “a única coisa que me faria ficar no Brasil seria ter a oportunidade de criar meu próprio centro de estudos, que pudesse ser interdisciplinar e não estivesse ligado nem à antropologia, nem à arqueologia”. E ele me convidou para criar lá o que na época se chamou de núcleo de biologia e ecologia humana. Aconteceu também uma coisa no nível pessoal que me levou a optar por Belém.
Isso em 1985?
Ainda em 1985. Um pouco antes de eu dar esse curso pelo Brasil, eu me apaixonei profundamente pela primeira vez. Me apaixonei pelo Wagner, a melhor coisa que aconteceu na minha vida. Se fosse para os Estados Unidos, dificilmente conseguiria levá-lo. Em Belém, seria mais fácil arrumar um emprego para ele e continuar o relacionamento. Por isso aceitei a ida para o Goeldi. Só que tive de me afastar dos esqueletos. Na Amazônia a última coisa do mundo que se pode fazer é trabalhar com esqueletos, porque eles não se preservam.
O que você fazia?
Comecei a me dedicar à antropologia ecológica.
E o que é antropologia ecológica?
Ela estuda as adaptações de sociedades tradicionais ao ambiente. Até então, era uma linha que os americanos trabalhavam muito na Amazônia. Como a nossa antropologia aqui é eminentemente estruturalista, e tem urticária de alguma coisa que seja biológica, essa linha nunca progrediu no Brasil. Aí pensei: “Bárbaro, vou comprar outra briga. Vou formar uma primeira geração em antropologia ecológica”. Grande parte das pesquisas sobre antropologia ecológica na Amazônia era feita com indígenas. Então decidi estudar as populações caboclas tradicionais.

Vocês publicaram um livro, não?
Publicamos a primeira grande síntese sobre a adaptação cabocla na Amazônia, que saiu aqui e no exterior. Coloquei alunos que trabalharam comigo na Amazônia para fazer doutorado no exterior.
Quais conclusões você destaca dessa síntese?
Estudando essas populações amazônicas tradicionais, ficou claro que todo mundo que chega lá, as ONGs principalmente, acha que eles têm problema de nutrição. De fato, eles têm um déficit de crescimento em relação aos padrões internacionais. Mas nosso trabalho mostrou que na verdade eles não têm deficiência de ingestão de carboidratos e de proteínas. O problema é parasitose.

Como você retornou para a USP?
Em 1988, pouco depois de mudar para a Amazônia, o Wagner foi diagnosticado  com Aids, e fizemos um trato. Quando ele chegasse na fase terminal, voltaríamos para São Paulo. Vim fazer um pós-doc na antropologia. Quando o Wagner morreu, em 1992, eu não queria mais voltar para a Amazônia e prestei dois concursos.
Você fazia pós-doc em antropologia na USP?
Sim, na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. Aí prestei dois concursos. Um na Federal de Santa Catarina, na área de antropologia ecológica, mas eu queria ficar em São Paulo. Como eu já tinha feito em 1989 a primeira descoberta do que se tornou o meu modelo de ocupação das Américas, pensei: “Tenho que ir para um lugar em que possa me dedicar a isso e voltar a me concentrar em esqueletos humanos”. Aí surgiu uma vaga aqui no departamento, na área de evolução. Passei em ambos os lugares, mas optei por aqui. Sabia que poderia criar um centro de estudos evolutivos humanos que tivesse arqueologia, antropologia física, antropologia ecológica.
Como teve a ideia de criar  um modelo alternativo de colonização das Américas?
Um dia, o Guilherme de La Penha, diretor do Goeldi, me chamou e disse: “Olha, Walter, daqui a uma semana tenho de ir a um congresso em Estocolmo sobre arqueologia de salvamento. Preciso que você me substitua”. Eu disse: “Mas assim, em cima da bucha?” Então lembrei que Copenhague fica na rota de Estocolmo. Negociei com ele a permissão para passar uns cinco dias em Copenhague e conhecer a coleção Lund. Fiz a viagem e não só conheci como medi os crânios de Lagoa Santa da coleção Lund. Quando voltei, falei com um pesquisador da Argentina que passava um tempo no Goeldi, o Hector Pucciarelli, meu maior parceiro de pesquisa e o mais importante bioantropólogo da América do Sul. Propus que fizéssemos um trabalhinho com esse material. Na época estavam surgindo os trabalhos de Niède Guidon com conclusões que me pareciam loucura, como dizer que o homem estava nas Américas havia 30 mil anos. Minha ideia no trabalho sobre os crânios de Lund era mostrar que os primeiros americanos não eram diferentes dos índios atuais. Bom, imagina nossa cara quando vimos que os crânios de Lagoa Santa eram mais parecidos com os australianos e os africanos do que com os asiáticos. Entramos em pânico. Vimos que precisávamos de um modelo para explicar isso.

Luzia revela sua história de 11 mil anos
 O que vocês fizeram então?
Alguns autores clássicos, dos anos 1940 e 1950, como o antropólogo francês Paul Rivet, já haviam reconhecido uma similaridade entre o material de Lagoa Santa e o da Austrália. Só que o Rivet propôs uma migração direta da Austrália para a América do Sul para explicar a semelhança. Mais tarde, com o avanço dos estudos de genética indígena, principalmente com o trabalho do (Francisco) Salzano, ficou claro que todos os marcadores genéticos daqui apontavam para a Ásia. Não havia similaridade com os australianos. Pensamos então em criar um modelo que explorasse essa dualidade morfológica. Não queríamos cair em desgraça como o Rivet e começamos a estudar a ocupação da Ásia. Descobrimos que lá, no final do Pleistoceno, também havia uma dualidade morfológica. Havia os pré-mongoloides e os mongoloides. Nossas populações de Lagoa Santa eram parecidas com os pré-mongoloides. Os índios atuais são parecidos com os mongoloides. Foi daí que surgiu a ideia de que a América foi ocupada por duas levas distintas: uma com morfologia generalizada, parecida com os africanos e os australianos; e outra parecida com os asiáticos. Nosso primeiro trabalho foi publicado na revista Ciência e Cultura, em 1989. A partir de 1991 começamos a publicar no exterior.

Você então formulou esse modelo antes de examinar o crânio da Luzia.
Dez anos antes. No Brasil vários museus tinham acervos da região de Lagoa Santa. Mas, como eu era o enfant gâté da arqueologia brasileira, não me davam acesso às coleções. Por isso fui estudar a coleção Lund. Só passei a ter acesso às coleções no Brasil a partir de 1995, quando algumas das pessoas que colocavam barreiras morreram. Um dos crânios que eu tinha mais curiosidade de estudar era o da Luzia.
Já tinha esse nome?
Não. Eu é que dei. A gente conhecia como esqueleto da Lapa Vermelha IV, nome do sítio em que foi encontrado. O sítio foi escavado pela missão franco-brasileira, coordenada pela madame Annette Emperaire. O esqueleto da Luzia foi achado nas etapas de 1974 e 1975. Mas a madame Emperaire morreu inesperadamente. Com exceção de um artigo que ela publicou, não tinha mais nada escrito sobre a Lapa Vermelha.
No artigo ela falava que o crânio era antigo?
Madame Emperaire achava que havia dois esqueletos na Lapa Vermelha: um mais recente e outro mais antigo, datado de mais de 12 mil anos, antes da cultura Clovis, ao qual pertenceria o crânio da Luzia. Só que o André Prous (arqueólogo francês que participou da missão e hoje é professor da UFMG) revisou as anotações dela e percebeu que o crânio era do esqueleto mais recente, que estava cerca de um metro acima. Luzia não foi sepultada, foi depositada no chão do abrigo, numa fenda. Prous demonstrou que o crânio tinha rolado e caído num buraco de uma raiz de gameleira que tinha apodrecido. Portanto, o crânio pertencia a esses restos que estavam na faixa dos 11 mil anos de idade. Madame Emperaire morreu acreditando que tinha encontrado uma evidência pré-Clovis na América do Sul, o crânio que apelidei de Luzia.
Onde estava o crânio da Luzia quando você o examinou?
Sempre esteve no Museu Nacional do Rio de Janeiro, mas as informações não. O museu era a instituição parceira da missão francesa.
O povo de Luzia era restrito a Lagoa Santa?
Lagoa Santa é uma situação excepcional. No artigo síntese do meu trabalho, que publiquei em 2005 na revista PNAS, usamos 81 crânios da região. Para se ter uma ideia de como são raros os esqueletos com mais de 7 mil anos no nosso continente, os Estados Unidos e o Canadá, juntos, têm cinco. Temos o que chamamos de fossil power no que se refere à questão da origem do homem americano. Estudei também algum material de outras partes do Brasil, do Chile, do México e da Flórida e demonstrei que a morfologia pré-mongoloide não era uma peculiaridade de Lagoa Santa. Acredito que os não mongoloides devem ter entrado lá em cima por volta de uns 14 mil anos e os mongoloides por volta de 10 ou 12 mil anos. Na verdade, a morfologia mongoloide na Ásia é muito recente. Imagino que, entre uma e outra, não deve ter mais do que 2 ou 3 mil anos de diferença. Mas é puro chute.
Também tem o argumento de que teria havido uma só leva migratória para as Américas, já composta por uma população com tipos mongoloides e não mongoloides como Luzia.
Existe essa terceira possibilidade. Mas teria que ter havido uma taxa de deriva genética assombrosa para explicar a colonização dessa forma. Por que teria desaparecido um fenótipo e ficado apenas o outro? Das opções ao meu modelo, acho essa a mais fraca.  
                            
 Mas como você explica o desaparecimento da morfologia de Luzia?                 Na verdade, descobrimos nos últimos anos que ela não desapareceu. Quando propusemos o modelo, achávamos que uma população tinha substituído a outra. Mas em 2003 ou 2004 um colega argentino mostrou que uma tribo mexicana que viveu isolada do resto dos índios, num território hoje pertencente à Califórnia, manteve a morfologia não mongoloide até o século XVI, quando os europeus chegaram pelo mar. Estamos descobrindo também que os índios botocudos, do Brasil Central, mantiveram essa morfologia até o século XIX. Quando se estuda a etnografia dos botocudos, vê-se que eles se mantiveram como caçadores-coletores até o fim do século XIX. Estavam cercados por outros grupos indígenas, com os quais tinham relação belicosa. O cenário foi esse. Sobrou um pouquinho da morfologia não mongoloide até recentemente.
O que você acha do trabalho da arqueóloga Niède Guidon no Parque Nacional Serra da Capivara? Para ela, o homem chegou ao Piauí há 50 mil, talvez 100 mil anos.
Mas cadê as publicações? Ela publicou uma nota na Nature nos anos 1990 e estamos esperando as publicações. Eu e a Niède fomos inimigos mortais por 20 anos. Uns anos atrás, a gente fumou o cachimbo da paz. Já estive no Piauí algumas vezes e até publicamos trabalhos sobre esqueletos de lá. No parque havia as duas morfologias de crânio. É muito interessante. Tive uma boa formação em análise de indústria da pedra lascada. A Niéde abriu toda a coleção lícita para mim e o Astolfo Araújo (hoje no MAE). Saí 99,9% convencido do fato de que houve ali uma ocupação humana com mais de 30 mil anos. Mas tenho esse 0,1% de dúvida, que é muito significativo.
O que seria preciso para acabar com a dúvida?
A Niède deveria convidar os melhores especialistas internacionais em tecnologia lítica para ver o material e publicar os resultados das análises. Se ela estiver certa, teremos de jogar tudo que sabemos fora. Meu trabalho não terá servido para nada. Mas, graças a Deus, não só o meu, o de todo mundo.

      MARCOS PIVETTA e RICARDO ZORZETTO Edição 195 - Maio de 2012 

 FONTE/ Entrevista na íntegra em: http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/05/11/walter-neves-o-pai-de-luzia/

terça-feira, 1 de abril de 2014

XX - MeMóRiA SiNDiCaL

 VIDAS CURTIDAS, VOZES DUBLADAS E SONHOS EXPORTADOS

Este texto é uma pequena parte de um trabalho de pesquisa realizado como Bolsista de Iniciação Científica do curso de História da Universidade Feevale, entre 2010 e 2011, com a coordenação da professora mestre Claudia Schemes. Neste capítulo abordo a questão da percepção do golpe civil-militar de 1º de abril de 1964, em Novo Hamburgo, a partir das edições do jornal NH.

Deslocamento de tropas de Minas Gerais, no dia 1º de abril de 1964, desencadeou o Golpe Civil Militar de 1964

O golpe civil militar - No  dia  4  de  abril  de  1964,  três  dias  após  o Golpe Civil Militar, o jornal NH divulga, em uma edição reduzida  notícias sobre o  ocorrido:  Novo Hamburgo não parou”, diz a manchete  de  capa,  seguida  de  um  texto:  Novo  Hamburgo  deu mais  um exemplo  à Nação  ao  não  tomar  conhecimento  do movimento  de  anarquia  que  se procurou estabelecer no País, com a queda do presidente João Goulart”. Além disso, informava que os trabalhadores e consequentemente, as indústrias continuaram suas atividades  na  cidade  e  nenhum  movimento  de anarquia  foi registrado. O Grupo Sinos se manifesta dizendo que são atitudes como essa que fazem Novo Hamburgo progredir.   

Ao lado da manchete de capa está a  foto  do  presidente  João Goulart. A  legenda  da  imagem  começa  com  a  seguinte escrita:  “O presidente que cai”. Um  texto breve narra a história política do  presidente e aparenta algum espanto ao afirmar: “Poucos  acreditavam  que  o presidente  que  articulara  seu  esquema  com  os  sindicatos  e  militares  menos graduados  caísse  tão  facilmente  do  poder”.  E  conclui  dizendo  que  o  ocorrido demonstrava a desorientação e fraqueza do governo Goulart cabendo ao Congresso a escolha de um novo presidente até as eleições marcadas para 1965.   Outras manchetes dizem “Trabalhadores estão conscientes que só o  trabalho trará  progresso  e  bem-estar  social”,  “Fé  no  futuro  governo”,  Prefeito:  Ficamos emocionados com a solução da crise nacional” e “Alano: Estamos desolados com o desenrolar  dos  acontecimentos”. 

Na Greve Geral de 1983 o jornal NH repetiu a notícia de 1964 só que desta vez como uma previsão

 De acordo com essas notícias,  mesmo  a  queda  de um presidente e o risco de uma guerra civil no país não deveriam preocupar Novo Hamburgo. Nenhuma crise seria capaz de afetar a economia crescente, ainda mais  que os  trabalhadores  não  aderiram a movimentos  de protesto e continuavam trabalhando dentro das  fábricas. 
 A declaração do prefeito da  cidade, Níveo Friedrich, mostra a posição da administração aliviada e comemorando que tudo tenha ocorrido de forma pacífica. A  declaração  do  vereador  e  presidente  da Câmara  de  Vereadores  do município,  Jaime  Alano, do  PTB de Jango, é uma tentativa de mostrar a  imparcialidade  do  jornal.  Na primeira página da edição de 4 de abril de 1964, é publicado um artigo de Vinícius Bossle  intitulado  Trabalho e Ordem”, fazendo um  balanço dos primeiros  dias  da ‘ guerra  civil’,  como  ele  define  a  situação reforçando  novamente a qualidade do povo hamburguense: patriotas exemplares que continuavam  trabalhando. Comparando essa situação ao dizeres da bandeira nacional: Ordem  e  Progresso,  Bossle diz: “Se  todos  trabalhassem  honestamente,  como  faz  o povo do Vale do Rio dos Sinos, que por isto mesmo é apontando como uma região de alto poder aquisitivo, certamente o Brasil não estaria em crise”. 
 Na contracapa  dessa mesma edição, de 04 de abril de 1964, a  coluna  chamada  “Gente  Importante    notícias  que poderiam  ser  manchetes” deixa clara a posição dos  diretores  do  jornal  em relação ao Golpe
“Finalmente o ambiente de  tensão que dominava o país  foi superado às 13 horas desta quarta-feira, quando o último foco de resistência, que se insurgiu contra o movimento de Minas e São Paulo  (e  de  todo o país), anunciou  sua  rendição. O Brasil    pode  trabalhar  livremente”. 



No dia 10 de abril de 1964 o Jornal NH traz como manchete  de  capa  a  seguinte  afirmação  “Nenhuma  prisão  em  Novo Hamburgo”,  fazendo  referência ao  fato de que, em centenas de  cidades do Brasil, estavam ocorrendo prisões de líderes comunistas, esquerdistas ou agitadores. Novamente o principal jornal da cidade expressa um desejo, um sentimento que busca disseminar pela cidade. 
É fato notório que houve, em Novo Hamburgo, interrogatórios e prisões nesse período. Alguns dos detidos eram pessoas públicas cujas agruras foram testemunhadas por diversas pessoas. Sem consultar nenhuma fonte de pesquisa e apenas buscando o registro da memória de pessoas que viveram aquele tempo podemos citar algumas pessoas que padeceram naqueles dias como: o ex-deputado trabalhista Seno Ludwig, os senhores Julio Bossle, o Bolota, Osvaldo Mossman, o professor Luis Osório de Albuquerque e os sindicalistas Antonio Bernardino, o Rancherinho,  Nelson de Sá e Guido Endress.  
Entre os casos mais conhecidos, que pleiteia até hoje uma justa indenização reparatória, encontra-se Tiago Lélis, um dos cadetes da base aérea de Canoas que sublevados haviam impedido o bombardeio do Palácio Piratini durante a Legalidade, em 1961, que foi preso e punido junto com vários oficiais e cadetes após o Golpe Civil Militar de 64. O próprio Nelson Eugenio Ritzel, que foi vereador e depois prefeito além de oficial da Brigada Militar, relatava que sofreu pressões e intimidações. Enfim, quase uma dezena de nomes sem necessidade de consulta a nenhuma fonte documental que não seja a própria memória dos mais idosos e dos integrantes movimento sindical. 
Em 1964 o presidente do sindicato dos comerciários de Novo Hamburgo, Guido Endress, foi detido para interrogatório.  Endress era assumidamente um comunista e ao concluir seu mandato na entidade, em 1966, decidiu não concorrer mais porque não havia garantias as liberdades individuais (SAUL, 1988). O sindicato dos comerciários ficou acéfalo e uma junta governativa da qual fazia parte Paulo Schüller, que depois seria vice-prefeito da cidade, foi nomeada para dirigir a entidade.



Numa das entrevistas realizadas para esse trabalho de pesquisa o vereador Carlos Gilberto Koch, o Betinho, que foi presidente do sindicato dos sapateiros de Novo Hamburgo relata a história de uma chapa de oposição que disputou e perdeu, por pequena margem de votos, a eleição para a direção do sindicato dos sapateiros, em 1968. Essa chapa liderada pelo trabalhador Antonio Bernardino de Souza, o Rancherinho, foi derrotada pela chapa de Orlando Müller que assumiu a presidência do sindicato nesse ano e permaneceu até 1986. Poucos dias após a eleição alguns integrantes da chapa derrotada foram detidos para investigação. Dois deles, o Rancherinho e Nelson Gautério de Sá foram levados para o DOPS onde permaneceram presos algum tempo. Afirmam que no momento da prisão os policiais valeram-se para identificá-los de fotos do cadastro de associados do próprio sindicato.  No depoimento do vereador Betinho ele narra outros episódios envolvendo Rancherinho e suas diversas passagens pelas prisões do DOPS.
Devemos registrar ainda um militar respeitado e condecorado de nossa cidade da família Schirmer, morador de Hamburgo Velho e autoridade militar na época, que em várias entrevistas demonstrava orgulho de ter  efetuado várias prisões em 1964 e posteriormente. Se a autoridade afirma que prendeu a história não pode registrar que não houve prisões.
 De volta ao NH,  na  página  10  dessa  edição de 10 de abril de 1964,  foi  publicada  a  opinião  de  diversos hamburguenses e todos se disseram a favor dos militares. Uns declararam  que    era tempo  de  ocorrer  uma reação contra o governo Goulart, outros disseram que eram a favor porque o terrorismo precisava ser combatido e outros agradeceram a revolução sem perdas de vida, a ação dos militares e diziam aguardar ansiosos pela chegada de um novo presidente. Nessas entrevistas realizadas pelo jornal, uma semana depois do golpe, qual a possibilidade de alguém manifestar-se contrário aos militares. E se tivesse havido manifestação contrária qual a possibilidade do jornal publicá-la nos idos de 1964?


Gilnei Andrade 
Acadêmico de História
1º de abril de 2014

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Raul Pont:

Estou saindo do parlamento, não da política. Sistema eleitoral está podre.


O deputado estadual Raul Pont (PT) anunciou, em entrevista publicada segunda-feira (26/8) no Jornal do Comércio, que não pretende concorrer nas eleições do ano que vem. A decisão de Pont, atual presidente do PT do Rio Grande do Sul, não significa um abandono da política. Pelo contrário, é um gesto carregado de significados, entre eles a inconformidade com a crescente influência do poder econômico na vida política brasileira, inclusive dentro do partido que ajudou a fundar e a construir. 
Em uma conversa, na tarde desta quarta-feira, em seu gabinete na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, Raul Pont explicou ao Sul21 os seus motivos: “É uma decisão pessoal que, evidentemente, pode estar subordinada a um debate político no partido ou na minha corrente (a Democracia Socialista). Mas a minha disposição pessoal é de não concorrer. Não há uma única razão. A primeira delas tem a ver com o sistema eleitoral que nós temos. Não estou descobrindo agora que esse sistema não é bom ou que o acho antidemocrático. Eu luto e brigo contra isso há décadas. Quando fui eleito para a Câmara Federal a primeira coisa que fiz foi tentar levar adiante uma emenda constitucional que buscava estabelecer um mínimo de igualdade na representação proporcional dos estados. Não consegui apoio nem nas bancadas dos partidos de centro e de direita de São Paulo, o maior prejudicado nesse modelo. Ninguém quis discutir a proposta e o projeto acabou arquivado”
Esse era apenas um aspecto de um sistema eleitoral que passou a ser cada vez mais questionado, chegando ao ponto hoje, como se viu nas manifestações de junho, de sofrer um grave processo de deslegitimação junto à população. E isso que, naquela época, observa Raul Pont, o poder econômico não havia penetrado tanto a esfera política como hoje. Aqui, ele aponta uma razão que expressa um grande descontentamento com o estado de coisas dentro do PT: “Naquele momento, as nossas campanhas no PT ainda não estavam dominadas por essa lógica dos demais partidos e as nossas candidaturas ainda eram muito coletivas. De lá para cá, e principalmente a partir das eleições de 1998 e 2002, com a eleição de Lula quando batemos no teto da nossa representação parlamentar, nós só patinamos. Mesmo com o partido elegendo mais deputados estaduais, e construindo mais diretórios estaduais, municipais e militantes, e ganhando a presidência, a nossa bancada federal parou de crescer. E hoje está diminuindo, ainda que tenhamos eleito o presidente da República três vezes seguida. Um estudo da Consultoria Legislativa da Câmara Federal mostra que, na eleição de 2010, 370 deputados foram eleitos combinando a condição de candidaturas mais caras (entre as 513 candidaturas mais caras do país)”.
O mais grave desse cenário, diz Pont, é que ele tende a continuar e a se aprofundar, inclusive dentro do PT. O valor das contribuições empresariais para as campanhas, exemplifica, dobra ou mais que dobra a cada eleição, chegando a quase 5 bilhões de reais na última campanha. E ele faz uma ressalva: “Isso do que foi declarado. Houve muita triangulação dentro dos partidos e o que corre sem declaração é incalculável”. Assim, trabalhando só com os dados do Tribunal Superior Eleitoral, temos, na última eleição, quase 5 bilhões de reais doados por pessoas jurídicas para candidatos. “E são doações para candidatos, não para os partidos. Os candidatos são escolhidos a dedo por essas empresas, em todos os partidos, inclusive o nosso. O número de empresas dispostas a financiar candidaturas dentro do PT cresce de maneira assustadora”. Essa é uma das razões que levou Pont a decidir não concorrer em 2014. “É um protesto mínimo e uma espécie de denúncia de que esse sistema está podre e dominado pelo poder econômico, e o será cada vez mais”
Mas esse não é o único motivo. Ele explica: “Para mim, a militância parlamentar é uma militância como qualquer outra. Não faço carreira disso. A maior parte da minha vida política ocorreu fora do parlamento. Comecei a militar 50 anos atrás e não tinha a mínima ideia ou pretensão de ter algum cargo. Militava no movimento estudantil, no Sindicato dos Bancários. Em 1964, eu era bancário e comecei a estudar História na UFRGS. A minha militância começou efetivamente na resistência ao golpe militar em março de 64. De lá para cá eu não parei e na maior parte da minha militância não precisei de mandato, atuando até em condições muito mais adversas que a atual. Então, para mim o parlamento não é o único espaço de atuação. Há o partido, sindicatos, entidades sociais, o trabalho que posso fazer como professor universitário na área de ciência política. Posso contribuir também com a formação política dentro do partido”. E uma terceira razão tem um caráter mais pessoal: “Tenho 50 anos de militância. Vou completar 70 anos de idade no ano que vem. É claro que isso cansa e a minha vitalidade não é a mesma dos meus tempos de estudante e de jogador de basquete. Acho que o partido precisa se renovar e abrir espaço para novos quadros. Votei a favor do limite de mandatos no último Congresso do PT (que aprovou um limite de três mandatos). Acho que é um bom exemplo sinalizar para a juventude, para outros companheiros e companheiras que estão com mais vitalidade, mais pique, e que respondem também a uma nova conjuntura. Depois de 30, 40 anos, a vida de um partido político, principalmente num caso como o do PT que teve um crescimento muito rápido, tende a uma certa burocratização, à consolidação de funções e cargos de direção e representação parlamentar, que vai acomodando as pessoas. Temos que ter regras e práticas como o limite de mandatos ou a quota de 50% de gênero nas direções partidárias (também adotada pelo PT no seu último Congresso) para evitar que isso ocorra”
Ao explicar suas razões, Raul Pont deixa claro que sua decisão de não concorrer em 2014 não significa uma aposentadoria política. Pelo contrário, ele aponta com determinação suas novas trincheiras de luta: “Eu só não vou mais lutar aqui dentro, vou lutar lá fora, Vou continuar escrevendo sobre isso, denunciando essas práticas, ajudando a organizar as pessoas em favor de outro modelo de política. Acho uma tarefa importante que pretendo continuar cumprindo por toda a vida. Não estou saindo da política, estou saindo do parlamento, de uma representação parlamentar”. Para não deixar dúvidas sobre isso ele critica duramente a aprovação da PEC do Orçamento Impositivo, que obriga o governo a pagar todas as emendas individuais dos parlamentares ao orçamento da União, até o valor de R$ 10 milhões por deputado e senador: “Há algumas coincidências que são impressionantes. O mesmo Congresso que não consegue votar o fim da guerra fiscal, um mínimo de reforma tributária para o país, a reforma política e eleitoral, um imposto sobre as grandes fortunas, coisas que todos dizem serem justas e necessárias, no meio dessa crise toda, 376 deputados, com toda a facilidade e rapidez, aprovam uma proposta de clientelismo impositivo. As emendas parlamentares, por si só, já são uma excrescência da política, um clientelismo escancarado, a antessala da corrupção. Todo mundo que já passou por uma prefeitura sabe disso. De certa forma, é a legalização da corrupção e do clientelismo. Com exceção do PT que, para meu desgosto e contrariedade, liberou o voto, todos os demais partidos, inclusive os ditos esquerdistas do PSOL, votaram favoravelmente. Esses partidos orientaram o voto ‘sim’ nos dois turnos. Como o PT não fechou questão, ao menos os deputados que integram a Mensagem ao Partido e alguns outros votaram contra (40 deputados do PT votaram a favor).
Neste ponto, Raul critica a postura da atual direção do PT: “Eu sou parte da direção, mas sou minoria dentro do Diretório desde a fundação do partido. Como é que essa direção coordenada pelo Rui Falcão, que é o presidente do partido, sequer estabelece uma orientação para a bancada. Pode até perder. Mas se você não orienta, não diz que determinada política está errada, fica difícil. Ninguém defende que essa PEC é uma política correta e republicana. Se todos os partidos orientam o voto ‘sim’ e o nosso libera o voto, nem o nosso partido se distingue. Como é que você quer que o eleitor, olhando para isso, vá confiar nos partidos políticos. Nós estamos afundando um processo de representação democrática duramente alcançado, que não é nenhum paraíso, mas que é superior às ditaduras e a muitas democracias já completamente dominadas pelo poder econômico como é o caso dos Estados Unidos. Essa lógica é mortal para o sistema democrático e só favorece o autoritarismo e saídas fascistas”. 

Marco Weissheimer 
Publicado no Sul21 dia 28/08/13