I m A g E m

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O Velho do Espelho

"Por acaso, surpreendo-me no espelho:
quem é esse que me olha e é
tão mais velho do que eu?
Porém, seu rosto...é cada vez menos estranho...
Meu Deus,Meu Deus...Parece meu velho pai -
que já morreu"! (Mario Quintana)

P E S Q U I S A

terça-feira, 30 de agosto de 2016

Até quando o mundo vai se fazer de surdo à luta e aos apelos do Povo Curdo?

Uma revolução não é um jantar de gala 
 Escrito por: Meredith Tax

A palavra "revolução" significa o mesmo para o movimento de libertação curdo e para os esquerdistas norte-americanos que apoiaram o Bernie Sanders? Uma pequena história...

Durante o século XX ficava claro o que as pessoas queriam dizer quando usavam a palavra "revolução". Mao Tsé-Tung falou, melhor do que ninguém: "Não se obtêm com a mesma elegância, calma e delicadeza. Nem com a mesma suavidade, amizade, cortesia, moderação e generosidade. A revolução é uma insurreição, um ato de violência na qual uma classe invalida a outra".

 

         
Os fundadores do PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão) na Turquia consideraram esta definição em 1978 quando apresentaram uma estratégia de guerra popular que iria conduzir à formação de um Estado curdo independente. A princípio, centraram-se na "propaganda pelos fatos" e no treinamento militar na construção do que, logo, converteu-se numa força extremadamente combativa, como foi descoberto pelo ISIS na Síria.

Mas, sua visão sobre a revolução foi enormemente ampliada durante a década de 1990 quando o movimento de resistência civil chamado Serhildan surgiu nas regiões curdas da Turquia, juntamente com os esforços em construir um partido parlamentário que pudesse combinar trabalho eleitoral e o de apoio. Isto não foi fácil eis que cada vez que os curdos fundavam um partido dentro do sistema eleitora e se candidatavam a algum cargo o Estado turco declarava a ilegalidade dessa organização -isto aconteceu em 1993, 1994, 2003 e 2009 e, agora, está acontecendo com o HDP (Partido Democrático dos Povos)-, apesar de tudo (e devido a isso) obteve 13,1% de votos nas eleições nacionais parlamentares em junho de 2015.                    

A resposta de Erdogan a este sucesso eleitoral foi a convocação de novas eleições e, ao mesmo tempo, iniciar uma política militar forte sobre as cidades curdas no sudeste da Turquia onde a população civil foi submetida à bombardeios, desocupações e inúmeros crimes de guerra, ao mesmo tempo em que suas casas e suas vizinhanças eram destruídas. Tudo isso foi feito em nome do combate ao terrorismo do PKK. De fato, o PKK rechaça o terrorismo há mais de 20 anos, em seu 5º Congresso, realizado em 1995, quando juraram publicamente respeitar a Convenção de Genebra e as todas as leis de guerra, rechaçando, assim, os crimes contra a população civil mas, mantendo seu direito à autodefesa armada contra o governo turco. Neste mesmo Congresso, fundaram o exército das mulheres dando-lhe total independência para aumentar sua capacidade de autogestão e incentivar a liderança das mulheres nesta luta.

A Co-prefeita de Diyarbakir, Gültan Kişanak, declarou, em recente entrevista, sobre a forma na qual o PKK foi se transformando, dizendo que, no princípio, a perspectiva era de realizar primeiro a revolução e, depois, tomar providências em relação às mulheres mas, isso mudou na década de 1990 dada a enorme influência do movimento internacional pelos direitos das mulheres: "Neste novo ambiente as mulheres começaram a assumir funções importantes e criaram as suas próprias estruturas separadas, não só seguindo o que dizia o movimento politico de modo geral mas, também, criando políticas alternativas que o partido teve que obedecer. Estas mudanças não foram fáceis e dos direitos não foram cedidos pelos homens sem mais nem menos: as mulheres curdas tem lutado em todos os níveis e conseguimos estas mudanças apesar das barreiras que enfrentamos dentro da sociedade patriarcal e, em que pese, a resistência de alguns dos nossos companheiros homens".

Os curdos em Rojava (Curdistão sírio) seguem a mesma filosofia política do movimento na Turquia. Por tanto, apesar de Rojava ser uma novidade que declarou autonomia em 2012, o movimento lá presente está embasado em quarenta anos de experiência política acumulada nos quais, nos últimos vinte, se deu especial destaque ao desenvolvimento da democracia local, à organização comunitária e à liderança das mulheres. Comecei a estudar o movimento das mulheres curdas durante a batalha em Kobane e, rapidamente, fiquei convencida de que sua história é tão importante que tinha a obrigação de fazer isto, de escrever em inglês o mais rápido que podia, apesar de que não poderia ir até lá e estava limitada pela minha falta de conhecimento em outros idiomas. Na medida em que trabalhava em "Um caminho imprevisto: a luta das mulheres contra o Estado Isâmico"(1), era constantemente chocada pela natureza radical desta revolução e pela forma em que questiona as estruturas mais básicas da esquerda, não só no que se refere às mulheres mas, sobre a relação entre a luta armada, o movimento de massas, a atuação de partidos no parlamento e o próprio Estado em si mesmo.

As revoluções marxistas-leninistas do século XX estão embasadas na premissa de que o Estado era um instrumento de dominação da classe burguesa que poderia ser tomado e convertido aos interesses da classe operária sob a "ditadura do proletariado". Em seu 5º Congresso em 1995, o PKK descreveu como foi desenvolvido isso na URSS: "Ideologicamente, produziu-se um declínio em direção ao dogmatismo, ao materialismo vulgar a ao chauvinismo pan-russo; politicamente, foi a criação do centralismo extremo, uma suspensão da luta de classes democrática e a emergência dos interesses do Estado a um nível de fator determinante; socialmente, reduziu-se a vida livre e democrática da sociedade e de seus indivíduos; economicamente, o setor estatal foi dominante e foi um fracasso a tentativa de superar uma sociedade de consumo que era mantida no estrangeiro; militarmente, o crescimento do exército e da adquisição de armas obteve prioridade sobre outros setores. Este desvio ficou cada vez mais claro durante a década de 1960, levando o sistema soviético a uma condição de estancamento absoluto".

Em 1989, Abullah Öcalan foi capturado, preso e acusado de assassinato, extorsão, separatismo e traição; sua sentença de morte foi transformada em prisão perpétua devido as regulações implementadas pela União Européia. Começou a estudar a escrever de dentro da prisão e, assim, deu inicio aos questionamentos sobre o papel do Estado. Em sua Declaração do Confederalismo Democrático em 2005, bem como em seus escritos sobre as mulheres, expôs uma teoria que rompe completamente com o manual leninista. Atualmente o movimento de libertação curdo afirma a ideia de que os Estados são intrinsecamente hierárquicos, com bases étnicas e sexistas e que ao invés de tomar o aparelho estatal um movimento de libertação deve estar envolvido com o Estado apenas até o ponto em insistir que este deve ser democrático e permitir a autonomia; pra além disso, o movimento deve concentrar suas forças no desenvolvimento de economias democráticas e da autonomia local embasado em princípios anticapitalistas, feministas e ecológicos. Esta estratégia, que está sendo colocada em prática em Rojava, ainda não foi capaz de chegar a sua plenitude devido à guerra e ao embargo que assolam a região.

Rojava está cercada por forças hostis em todas as suas fronteiras: lutando contra o ISIS, Jabhat al-Nusra (agora usando um novo nome) e outros grupos islamistas na Turquia; sendo bombardeada pelo exercito turco e, recentemente, por Assad; também, está sendo bloqueada pelos aliados da Turquia, o PDK na região autônoma do Curdistão iraquiano que faz fronteira com a Síria. Juntos, o PDK e a Turquia impuseram um brutal cerco econômico sobre Rojava, negando-lhes alimentos, materiais de construção, material de uso médico e até mesmo remédios, fazendo com que se torne muito difícil que as pessoas possam entrar ou sair da região. Na medida em que a ONU envia ajuda estes recursos são acumulados nas fronteiras, Rojava não está conseguindo, sequer, alimentar as centenas de milhares de refugiados que buscam asilo naquela região, a última onda vem de Manbij e Aleppo (cidades que tiveram grandes embates no último mês). A OTAN não colocou pressão suficiente na Turquia para insistir que seja levantado o cerco à região e os EUA não usaram de sua influência com o PDK (Partido Democrático Curdo).

Por mais que o golpe fosse dirigido pelos mesmos oficiais que estavam bombardeando as cidades curdas, os porta-vozes destas regiões asseguram que o que aconteceu foi um contra-golpe, com a intenção de que Erdogan pudesse impôr uma ditadura islamista ao invés de uma ditadura militar. Sem dúvidas é muito significativo que o único partido que Erdogan excluiu depois do golpe é a grande coalizão democrática do HDP, partido formado por curdos, hipsters, intelectuais, feministas, minorias e homossexuais. Foi uma experiência estranha estar escrevendo "Um caminho imprevisto" justamente quado estava começando ter sucesso a "revolução política" de Bernie Sanders nos EUA. Apoiei o Sanders; era muito bom ouvir um político de renome nacional usar a linguagem da esquerda, algo que tinha se convertido em um tabu entre as principais correntes dos EUA depois da caída do muro de Berlim. E foi comovedor ver uma nova geração sensível frente às ideias radicais. Mas, Bernie nunca explicou realmente o que queria dizer com uma "revolução política" e, muitos de seus seguidores, eram jovens e não haviam estudado muito sobre história, isso parecia que seria possível pensar e fazer uma revolução em uma campanha eleitoral. Sua dor quando Bernie avaliou Hillary Clinton -como sempre disse que faria se ela conseguisse a nomeação- foi compreensível, como foi a sua indignação de que o sistema de partidos fosse partidista, regido por uma carreira de afiliação à longo prazo, e bastante hostil às emergências democráticas repentinas vindas de fora.

 A história do movimento curdo poderia lhes ensinar o difícil que é fazer uma revolução, o tempo que demora tudo isso e o porque das mulheres serem a chave deste processo. Como disse Frederick Douglass: "O poder não concede nada sem uma demanda. Nunca fez e nunca o fará". A história do proletariado dos EUA mostra que quando os interesses econômicos substanciais estão em jogo, os poderes fáticos podem lutar para manter cada polegada. O tipo de mudança que precisamos nos EUA não vai acontecer em um ciclo eleitoral. Não vai acontecer somente por meio de uma política eleitoral nem somente por meio de protestos. Isto só irá acontecer por meio do tipo de organizações que os curdos vem criando. O movimento de libertação curdo desenvolve a força que foi construída em muitos anos de educação popular, de construção das suas próprias instituições, combinando trabalho eleitoral e parlamentário com a resistência não violenta e a autodefesa armada sempre e quando for necessária, destinando seus esforços em "servir ao povo", como diriam as Panteras Negras, ao mesmo tempo, em que vão construindo organizações administradas democraticamente que possam ser sustentáveis. É por isso que é tão importante apoiá-las, bem como aprender de seus exemplos. A recente tentativa de golpe de Estado na Tuquia em julho - o qual foi imediatamente denunciado pelo HDP - não parece haver mudado em nada os assuntos relativos aos curdos. 

NOTAS: (1) A Road Unforeseen: Women fight the Islamic State . 
Sobre a autora: Meredith Tax tem sido uma escritora e ativista política desde a década de 1960 havendo sido membro do Bread and Roses, uma das primeiras a integrar o PEN's Comitê de mulheres escritoras, Presidenta do Women's World e co-fundadora do Centre for Secular Space. Suas mais recentes publicações bibliográficas são: Double Bind: The Muslim Right, the Anglo-American Left, and Universal Human Rights e A Road Unforeseen: Women Fight the Islamic State (ambos ainda sem tradução ao português)

Fonte:
http://noticiasrojava.blogspot.com.br/2016/08/uma-revolucao-nao-e-um-jantar-de-gala.html?spref=fb

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