João Jorge e Jacobina Maurer

João Jorge e Jacobina Maurer

I m A g E m

I m A g E m
O Velho do Espelho

"Por acaso, surpreendo-me no espelho:
quem é esse que me olha e é
tão mais velho do que eu?
Porém, seu rosto...é cada vez menos estranho...
Meu Deus,Meu Deus...Parece meu velho pai -
que já morreu"! (Mario Quintana)

P E S Q U I S A

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Marcelo Zelic: O eterno retorno do mesmo



Relatório Figueiredo

Jornal  Última Hora - 13/03/1998  por Marcelo Zelic
O estado brasileiro ao lidar com o indígena no Brasil teve sua evolução institucional através da criação do Serviço de Proteção ao Índio (SPI), que entre o período de 1946 a 1988 (corte temporal da Comissão Nacional da Verdade) foi em parte deste período subordinado diretamente ao Ministério da Agricultura.
A situação perdurou até que na imprensa, tornaram-se públicas denúncias que expuseram as consequências desta vinculação contraditória em interesses e fins, denunciando corrupção desenfreada,precarização do serviço e atendimento aos índios, massacres, conflitos, torturas, escravidão, chegando até a falar-se em genocídio ou etnocídio, além da tomada e exploração ilegal de suas terras.
O SPI foi então transferido para o Ministério do Interior, que em uma de suas primeiras medidas criou a Comissão de Investigação do Ministério do Interior que documentou períodos de tristes lembranças para os povos indígenas brasileiros.
Em 1967 é extinto o SPI e cria-se a FUNAI, que continuou subordinada ao Ministério do Interior, passando durante a presidência de Fernando Collor de Mello ao Ministério da Justiça, onde mantém seu vínculo institucional até hoje.
O Ministério da Agricultura, como já mostrou-nos a experiência histórica, possui interesses conflitantes com uma política pública de respeito à cultura, recuperação de áreas subtraídas, demarcação e preservação destas áreas de existência das populações indígenas do Brasil. O mesmo podemos dizer sobre os demais órgãos que a Ministra Gleisi Hoffmann propõe que sejam “consultados”.
Retornar a questão da demarcação de terras indígenas e as políticas públicas voltadas aos índios à esfera de influência do Ministério da Agricultura, em cuja gestão no SPI foram cometidos as barbaridades contidas no Relatório Figueiredo, é um enorme retrocesso civilizatório.
O estudo do conteúdo do Relatório Figueiredo possibilita à sociedade uma reflexão no sentido de se evitar o retrocesso proposto pela Ministra da Casa Civil e evoluirmos sim, inclusive como forma de reparação às violências sofridas pelos povos indígenas que vivem no Brasil, para a criação pela Presidência da República de uma Secretaria Especial dos Povos Originários, com status de Ministério e vínculo direto à presidenta Dilma, como o é, por exemplo, a Secretaria Especial de Direitos Humanos, inserindo-se assim a questão indígena também na perspetiva da justiça de transição.
Será este um caminho de reparação e não do eterno retorno do mesmo, pois aí podemos obter uma evolução real da situação dos povos indígenas brasileiros, visando uma adequação da política de desenvolvimento de nosso país, baseando-a também no respeito à pessoa e à cidadania, para não continuarmos a repetir as violações de direitos contra indígenas que começam a aparecer nos trabalhos da Comissão Nacional da Verdade.
Apesar de ser um avanço frente às situações dos vínculos institucionais anteriores, a subordinação ao Ministério da Justiça é também vulnerável e sujeita a “vacilos, chuvas e trovoadas”, tendo este órgão de estado importante atuação no começo da década de 1970, no sentido de abafar as denúncias contidas no Relatório Figueiredo e deixar impunes servidores e autoridades citadas, ação que se estendeu também no âmbito das relações exteriores, visando cuidar da imagem do país. No passado, fechou-se o SPI e houve durante muitos anos somente uma mudança de nome, mantendo-se as práticas retratadas no Relatório Figueiredoe cuja continuidade estão registradas, por exemplo, na CPI do Índio de 1977, que se debruçou sobre a situação do índio como consequência de 10 anos de gestão da FUNAI, contendo inúmeros depoimentos tomados na Câmara do Deputados, como o ao lado.
A dinâmica do eterno retorno do mesmo enraizada no Ministério da Justiça, se expressa na postura equivocada e na ausência de defesa, por parte do Ministro José Eduardo Cardoso, da plena autonomia e fortalecimento, em vez do desmonte, de um órgão como a Fundação Nacional do Índio, vinculado à sua pasta.
Em tempos de Comissão Nacional da Verdade cabe ao governo federal dar exemplo, diferenciando suas atitudes das praticas pouco democráticas de nosso passado recente, priorizando medidas que fortaleçam mecanismos de não-repetição em vez daquelas que garantam a primazia do eterno retorno do mesmo. A solução aos olhos dos direitos humanos, do direito interno e internacional, bem como do necessário processo de justiça de transição, incluída claro, a situação vivida pelos indígenas, longe de ser o desmonte, a extinção ou mudança de nome da FUNAI, consiste sim, em tornar público este passado sombrio manchado de sangue e mudar condutas, para termos um Brasil melhor, plural e democrático.
Proporcionar respeito, investindo recursos na instituição, através de um “PAC” indígena, voltado para a construção de mecanismos eficazes de mediação de conflitos, demarcação e desintrusão das terras indígenas, de mecanismos de não-repetição, tais como uma vara própria de assuntos ligados aos povos indígenas, dinamizando o tramite processual e critérios de efetiva participação indígena nos cargos de direção da FUNAI e não só em assessorias. Que bom seria se a exemplo do Ministério Público Federal e outras tantas instituições públicas, onde o conjunto de seus membros indicam os nomes para as instâncias de gestão, Brasília recebesse os representantes dos vários povos do Brasil para que num grande encontro indígena, pudessem eles indicar os nomes daqueles que desejam ser as pessoas a dirigir a FUNAI e suas vidas.
Se isso ocorresse, cenas como as narradas por Ruy Sposati, onde numa operação contra a extração de ouro ilegal em terras do povo Munduruku, um de seus membros foi assassinado por agentes da Força Nacional e tantos outros foram feridos ou aterrorizados com armas não-letais.
Em matéria publicada no jornal Brasil de Fato em 27/11/2012, Ruy Sposati registra relatos do eterno retorno do mesmo em ação em pleno século 21:
" Viu as dragas e as balsas pegando fogo, enquanto sobrevoava o rio Teles Pires. Uma bomba passa ao lado do avião, à direita. No campo de visão de V. M., não havia indígenas.
O bimotor desce – a pista de pouso não fora destruída. Havia rastros de sangue no chão, marcas de bala nos telhados e nas paredes. Espalhados pelo caminho, restos de cartuchos, munições e carcaças de bombas. Todas as casas estavam com as portas arrombadas.
E então a comunidade começa a sair e ir ao encontro de V. Estavam todos escondidos nas casas, assustados com a chegada do avião. Reúnem-se no barracão e explicam à liderança Munduruku do que tinham medo.
V. ouve, então, os relatos de uma série de pessoas baleadas, machucadas, queimadas, ainda afetadas pelo spray de pimenta. Uma mãe chorava desesperadamente: sua filha de cinco anos estava desaparecida. Achava que poderia estar morta, pois havia se perdido dela na mata. Havia uma mulher com o rosto inchado por causa de um soco que o policial lhe deu. Os professores não-índios que trabalham na comunidade também foram agredidos. Todas as embarcações foram explodidas ou fuziladas e afundadas. Os barcos de pesca foram danificados ou destruídos. As armas de caça, quebradas ou levadas.
Dinheiro e ouro foram roubados. Computadores – entre eles, os da saúde e das escolas – foram inutilizados. A escola foi alvejada por tiros e bombas nas paredes e telhado. Celulares e câmeras foram tomados, esmigalhados, jogados no rio ou tiveram seus cartões de memória apreendidos. Os motores de popa da saúde foram lançados ao rio. Fiações do telefone comunitário foram cortadas e o rádio da aldeia confiscado, impedindo qualquer contato de indígenas com outras aldeias. O carro da aldeia foi carbonizado.”
Reparar os atingidos, proceder à justiça, cível, penal e territorial, garantir direitos, bem como gerar processos educacionais nas cidades e no campo, para que a verdade que se manifesta pela memória e documentação que hoje vem a tona, possa proporcionar às gerações de brasileiros, a compreensão do sentido de palavras como respeito à diversidade e direitos iguais.
Proporcionando assim, um pensar e agir diferentes da lógica do desenvolvimento sem respeito, que leva povos originários do Brasil a viverem em beiras de estradas no Mato Grosso do Sul, situação fruto do esbulho de terras indígenas, como por exemplo a denunciada no mapa contido nos autos do Relatório Figueiredo de 1968, que registra a invasão das terras da Colônia Indígena Teresa Cristina naquele estado, documento desaparecido há mais de 40 anos.
Como aceitar o argumento da Ministra da Casa Civil de que milhões de reais serão perdidos se a FUNAI continuar a demarcação de terras no Paraná, se processo similar ao de Mato Grosso do Sul aconteceu em terras paranaenses? Mediante as evidências acima o governo Dilma, cuja Presidenta viveu no corpo as dores da tortura e a opressão destes tempos, decidirá pelo lado do eterno retorno do mesmo? Permitirá que questões eleitorais se sobreponham a questões de estado?
Em Belo Monte os excessos praticados, ou seja, desqualificar a liderança Munduruku e não negociar, negar o acesso da imprensa ao canteiro de obras, cercear o direito de acesso aos advogados, bem como revistar a comida a ser consumida, numa operação psicológica, como se os manifestantes estivessem em uma cadeia, visando a retirada dos indígenas do canteiro de obras pela força e medo, são manifestações do eterno retorno do mesmo em nosso presente.
O desenvolvimento sem respeito é um entrave para que haja “um país de todos”, por isso a necessidade da criação de uma secretaria especial específica à qual a FUNAI seja subordinada e que se dedique exclusivamente às questões indígenas, tendo igualdade institucional e autonomia para sanar e resolver os graves problemas que vivem os índios e índias em nosso país, é a evolução saudável a ser feita, que proporcionará o respeito devido aos povos indígenas, para sermos um país rico e sem pobreza, mas eliminando também a pobreza ética e moral, que é tão nocivo e prejudicial como a miséria extrema combatida pelo governo Dilma.
Relatório Figueiredo é uma documentação que ficou escondida da sociedade há tantos anos e que só pôde vir a público devido ao ambiente gerado pela existência da Comissão Nacional da Verdade, é também uma oportunidade para que a sociedade e os Três Poderes da República reflitam seriamente antes de promover mudanças como as propostas pela Ministra da da Casa Civil Gleisi Hoffmann, que evidentemente só trará o eterno retorno do mesmo.
É preciso que o governo federal mude de conduta, não reproduza e não estimule comportamentos e praticas que foram os responsáveis pelas inúmeras barbaridades contra a pessoa, a renda e a propriedade do índio, apontadas pelo procurador Jader de Figueiredo Correa em 1968 em seu relatório, com documentação probatória espalhada nos autos do processo e não resolvida.
O desmonte das prerrogativas da FUNAI contidas nas atuais propostas da Ministra da Casa Civil, na Portaria 303 da AGU e em vários projetos de leis que tramitam no Congresso Nacional, não colaboram para que mudemos comportamentos e formas de relação, ainda impregnadas de posturas e condutas resultante de um longo período de ditadura vivido em nossa sociedade e cujas praticas não foram combatidas devidamente no período democrático.
É preciso conhecer e estudar a fundo o Relatório Figueiredo, para que a sociedade evolua em seus conceitos frente à diversidade de nossa origem e o direito de plena existência dessas pessoas diferentes, em hábitos, crenças e cultura, que vivem em nosso país.
Integrar o índio, diferente do que foi pregado e perseguido pelas gestões de vários presidentes, legítimos ou não, pode ser entendido como reconhecer a existência dos povos indígenas, desenvolvendo a noção de pertencimento, de que estas pessoas diferentes são parte da nação brasileira e que como tal, respeitemos sua terras, como civilizadamente respeitamos os limites da lei e jurisdição nas relações entre municípios e estados, que seja aplicada esta civilidade também às Terras Indígenas.
Cenas como as descritas acima, retratadas em 1968, 1977 e 2012, atentam aos direitos humanos e são praticas do eterno retorno do mesmo, que têm causado muita dor a estes povos, se perpetuando em nossa sociedade. Quiçá possamos ver brotar no governo Dilma, atitudes como a do governador Miguel Arraes, que antes de ser deposto em 1964, enfrentou com atitudes as praticas do eterno retorno do mesmo, fazendo latifundiários e camponeses sentarem-se à mesa do Palácio do Governo na perspectiva de se resolver os problemas e disputas em rodas de negociação. É esta outra importante experiência esquecida de nossa história.
Em nossa sociedade há um preocupante retrocesso em direitos humanos, cujas luzes amarelas acendem em vários setores de nossa sociedade e nos alertam para os perigos da repetição a cada nova tragédia, seja pela não existência de regulamentação federal que atinja todo o país e discipline o emprego e uso de armamentos não-letais, diga-se, cada vez mais usados contra o povo brasileiro, seja no pouco caso da articulação do governo na Câmara dos Deputados que rifou a Comissão de Direitos Humanos e Minorias, permitindo que forças que atuam pelo eterno retorno do mesmo se tornassem hegemônicas, controlando este importante espaço de resistência nesta legislatura, ou ainda nas ações de grupos de extermínio, ligados às forças de segurança estaduais, que agem nas periferias de cidades como São Paulo, Goiânia e outras localidades Brasil afora, afrontando a constituição e a democracia.
A forma como lidarmos enquanto parte não-índia da sociedade brasileira, com as questões postas acima no trato com os povos indígenas, mostrará o rumo que terá os direitos humanos e o processo civilizatório que desenvolveremos no Brasil nas próximas décadas. Basta um país de consumidores ou necessitamos de um país formado por cidadãos e cidadãs?
Faz-se urgente e necessário que a sociedade se posicione e se reúna em torno da construção de um estudo sério, para escrevermos juntos o Brasil Nunca Mais Indígena, que subsidiando a Comissão Nacional da Verdade poderá apontar novos rumos na nossa relação com os índios desta terra, bem como fortalecer a cidadania e a pratica dos direitos humanos no Brasil.
* Marcelo Zelic é Vice-presidente do Grupo Tortura Nunca Mais-SP e membro da Comissão Justiça e Paz da Arquidiocese de São Paulo. Coordenador do projeto Armazém Memória.

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

28. MeMóRiA SiNDiCaL (IV)

Vidas Curtidas, Vozes Dubladas e Sonhos Exportados 
                                                  

A memória do setor coureiro-calçadista: 
 os trabalhadores do setor nos anos 1970 e 1980 



PRIMAVERA SINDICAL

 Juntos busquemos um alento
 para nossa aflição, 
vamos parar um momento
 para prestar atenção,
 vamos olhar nossos pés,
 que além de instrumento
 da nossa locomoção,
 registram nosso sentimento 
 e mostram nossa situação. 

 Do serviço para casa, 
de casa para o sacrifício
 são nossos pés os indutores 
 desse ‘ativo circulante’
 que engrandece e garante
 a mordomia “dos homens”
 e a riqueza da Nação. 

Na nudez do chão da fábrica 
 e na rapidez da esteira de produção, 
 o barulho, a poeira e o cheiro da cola 
 ensinam ao pobre obreiro 
que junto com cada par de sapato 
 que segue para o estrangeiro
 também segue suor e cansaço 
 de um trabalhador brasileiro, 
 também vão pedaços de sonho 
 de um operário sapateiro. 

 Assim se revela o segredo 
 dessas engolidoras de gente 
 do Rio Grande de São Pedro,
 o trabalhador serve de alimento 
 para a fábrica de onde tira o sustento... 
Assim é a vida dos sapateiros e sapateiras 
do Vale do Rio do Sinos, 
que são brancos, são negros, são crianças, 
são adultos, são meninas, são meninos... 

Tudo se inovou na capital nacional 
nenhuma fábrica pioneira resistiu 
 aos ventos da crise neoliberal, 
 Novo Hamburgo avançou mesmo assim 
 tornou-se uma cidade, 
um lar para todos, para ti e para mim. 

 

Os jovens ciclistas de Sapiranga 
 as mulheres – marlises e jacobinas –
 e os homens - jorge, leopoldo e joão - 
 todos dias se jogam do Ferrabras, 
 almas e asas multicoloridas 
 para os braços da exploração. 
A força da união muda a vida 
e mostra a cada trabalhador que
só ensina quem continua aprendendo,
 que se revolucionarmos de fato, 
 nosso receio vira coragem,
 nosso planejamento, atitude
 e nossa vontade vira ato. 
Chega de tanta espera, 
Vamos reavivar 
a chama do sindicato 

 Para que nosso time seja ‘fera’, 
Seja Nelson Sá, Orestes, Osvaldo, 
 Breno, Charuto, Bahia, Vera,
Barão, Almerinda, Nestor Machado,
 Fabrasil, Fábio, Nolasco
 Dori, Mauro Pacheco, João Matias, 
Américo, Guido, Alcides, Beto
Guido, Luiz Monteiro, Osní
Irovan, Lena e Milton Rosa...  


       

Link para apresentação do trabalho
http://www.feevale.br/site/files/documentos/pdf/46980.pdf

 A história acontecida 
 ao longo de nossas vidas 
 está muito mais presente
na memórias do povo
 que nas páginas do eneagá, 
peço nessa despedida final,
 a nós que somos o passado presente 
 no vitorioso futuro que virá, 
lembremos 1917, 33, 68 e 86, 
as vidas curtidas, vozes dubladas
 e sonhos exportados são rosas 
anunciando a primavera sindical. 
  
Gilnei Andrade - dez. 2010

domingo, 6 de novembro de 2016

O surpreendente Curdistão libertário

                                                Os curdos não têm amigos, exceto as montanhas -                                                                      provérbio curdo

Combatentes das YPG, as Brigadas de Proteção do Povo curdas
Combatentes das YPG, as Brigadas de Proteção do Povo, que lutam por um Curdistão autônomo e federativo
Arejado, partido marxista flerta com ideias pacifistas, feministas e neoanárquicas, defende-se do fundamentalismo islâmico e abre avenida de esperança no Oriente Médio  
                                                                                        Por Rafael Taylor | Tradução Leonardo Griz Carvalheira
Excluídos das negociações e traídos pelo Tratado de Lausanne de 1923, depois de terem um estado próprio prometido pelos aliados da Primeira Guerra Mundial durante a dissolução do Império Otomano, os curdos são a maior etnia sem estado do mundo. Mas hoje, apesar de um Irã inflexível, sobram cada vez mais obstáculos para uma nação independente curda no norte do Iraque. Turquia e Israel já sinalizaram apoio enquanto Síria e Iraque têm as mãos atadas pelo rápido avanço do Estado Islâmico (antigo ISIS).
Com a bandeira curda tremulando do alto de todos os prédios oficiais e a Peshmerga mantendo os islâmicos afastados com a extremamente atrasada assistência militar dos EUA, o Curdistão do Sul (Iraque) se junta aos camaradas do Curdistão Ocidental (Síria) como a segunda região autônoma de fato do novo Curdistão. Já começaram a exportar seu próprio petróleo e retomaram a petrolífera Kirkuk, têm um próprio parlamento secularizado e eleito e uma sociedade pluralista, pediram reconhecimento da ONU, e não há nada que o governo do Iraque possa fazer – ou os EUA façam sem o apoio de Israel – para detê-los.
A luta curda, no entanto, é qualquer coisa exceto estritamente nacionalista. Nas montanhas acima de Erbil, no antigo coração do Curdistão, passando pelas fronteiras da Turquia, Irã, Iraque e Síria, nasce uma revolução social.
Mapa atual da Síria e Iraque. Regiões amarelas no norte da Síria são controladas por curdos sírios, regiões esverdeadas no nordeste do Iraque são controladas por curdos iraquianos (fonte: Wikimedia Commons)
Mapa atual da Síria e Iraque. Regiões amarelas no norte da Síria são controladas por curdos sírios, regiões esverdeadas no nordeste do Iraque são controladas por curdos iraquianos (fonte: Wikimedias)
A Teoria do Confederalismo Democrático
Na virada do século, enquanto o sempre radical estadunidense Murray Bookchin desistia de tentar revitalizar o movimento anarquista contemporâneo sob a sua filosofia da ecologia social, o fundador e líder do PKK, Abdullah Öcalan, foi preso no Quênia por autoridades turcas e condenado à morte por traição. Nos anos seguintes, o velho anarquista ganhou no militante endurecido um improvável devoto, cuja organização paramilitar – o PKK – é amplamente listada como uma organização terrorista por causa da guerra violenta de libertação travada contra a Turquia.
Nos seus anos de confinamento solitário, dirigindo o PKK por detrás das grades enquanto sua pena era alterada para prisão perpétua, Öcalan adotou uma forma de socialismo libertário tão desconhecida que pouquíssimos anarquistas tinham sequer ouvido falar: o municipalismo libertário de Bookchin. Depois Öcalan modificou, especificou e rebatizou a visão de Bookchin como “confederalismo democrático”, e como consequência a União das Comunidades do Kurdistão (Koma Civakên Kurdistan ou KCK), o experimento territorial do PKK de uma sociedade democrática livre e direta, foi mantida em segredo para a grande maioria dos anarquistas, e ainda mais para o público geral.
Apesar da conversão de Öcalan ter sido um ponto crucial, um renascimento mais amplo do esquerdismo libertário e da literatura independente estava descendo as montanhas e passando de mão em mão entre os praças após o colapso da União Soviética nos anos 1990. “[Eles] analisaram livros e artigos de filósofos, feministas, (neo)anarquistas, comunistas libertários, comunalistas e ecologistas sociais. Foi assim que escritores como Murray Bookchin [e outros] chegaram aos seus focos”, nos conta o ativista curdo Ercan Ayboga.
Öcalan embarcou, nos seus escritos da prisão, num minucioso re-exame e autocrítica da terrível violência, dogmatismo, culto à personalidade e autoritarismo que ele havia promovido: “Ficou claro que nossa teoria, programa e práxis da década de 1970 produziu nada além de um separatismo fútil e violência e, ainda pior, que o nacionalismo, a que deveríamos nos opor, infestou a todos nós. Mesmo nos opondo em princípio e retórica, aceitamos, no entanto, [o nacionalismo] como inevitável.” Antes líder inquestionável, Öcalan agora argumenta que “o dogmatismo é nutrido por verdades abstratas que se tornam formas habituais de pensar. Quando você põe essas verdades generalistas em palavras, você se sente como um alto sacerdote a serviço do seu deus. Esse foi o erro que cometi.”
Öcalan, um ateu, estava finalmente escrevendo como um livre pensador. Ele mencionou estar buscando uma “alternativa ao capitalismo” e uma “reposição ao modelo do (…) ‘socialismo realmente existente’”, quando cruzou com Bookchin. Sua teoria do confederalismo democrático se desenvolveu a partir de uma combinação da inspiração de intelectuais comunalistas, “movimentos como os Zapatistas”, e outros fatores históricos da luta no Curdistão do Norte (Turquia). Öcalan proclamou-se como discípulo de Bookchin, e depois de uma tentativa falha de correspondência, por e-mail, com o velho teórico que para o seu azar estava muito doente para tal troca em seu leito de morte, em 2004, o PKK o celebrou como “um dos maiores cientistas sociais do século XX” na época de sua morte dois anos mais tarde.
A prática do Confederalismo Democrático
O próprio PKK aparentemente seguiu seu líder, não só adotando a visão específica de eco-anarquismo de Bookchin, mas internalizando ativamente a nova filosofia na sua estratégia e tática. O movimento abandonou a guerra sangrenta pela revolução stalinista/maoísta e as táticas de terror que carregava, e começou a usar amplamente uma estratégia não-violenta visando uma maior autonomia regional.
Depois de décadas de traições fratricidas, cessar-fogos fracassados, prisões arbitrárias e recorrentes hostilidades, em 25 de abril deste ano o PKK anunciou uma retirada imediata de suas forças na Turquia e seu reposicionamento no norte do Iraque, acabando efetivamente com o conflito de três décadas com o estado turco. Simultaneamente o governo turco realizou um processo de reforma constitucional e legal para consagrar direitos humanos e culturais à minoria curda dentro de suas fronteiras. Isso veio como o componente final da longa negociação entre Öcalan e o primeiro ministro turco Erdoğan como parte do processo de paz iniciado em 2012. Não houve violência do PKK por um ano e estão sendo feitos pedidos para retirá-los das listas de terroristas do mundo.
Resta ao PKK, no entanto, uma história sombria – práticas autoritárias que pegam mal para esta nova retórica libertária. Levantar verbas através do comércio de heroína, extorsão, recrutamento coercitivo e saques generalizados era constantemente reivindicado ou atribuído a suas sucursais. Se for verdade, nenhuma desculpa para este oportunismo pode ser feita, apesar da óbvia ironia do próprio estado genocida turco fundamentar-se em boa parte do lucrativo monopólio da exportação legal de opiáceos “medicinais” estatais para o ocidente e tornou possível pela conscrição e taxação desta atividade um orçamento contra o terrorismo e um exagerado exército (A Turquia tem o segundo maior exército da OTAN depois dos EUA).
Como é a hipocrisia costumeira da guerra contra o terror, quando movimentos de libertação nacional imitam a brutalidade do estado, invariavelmente os não representados são taxados de terroristas. O próprio Öcalan descreve esse vergonhoso período como de “gangues internas da nossa organização e banditismo aberto, [que] arranjaram operações aleatórias e desnecessárias, mandando jovens, em massa, para a morte.”
Abdullah Öcalan, o dirigente comunista que ajuddou a que ajudou a reposicionar a luta curda pela autonomia após viver, na prisão, um notável giro ideológico
Abdullah Öcalan, o dirigente comunista que ajudou a reposicionar a luta curda pela autonomia após viver, na prisão, um notável giro ideológico
Correntes anarquistas na luta
Como mais um sinal de que está abandonando os caminhos marxistas-leninistas, porém, o PKK recentemente começou a fazer propostas explícitas ao anarquismo internacionalista, inclusive oferecendo uma oficina no Congresso Internacional de Anarquismo (International Anarchism Gathering) em St. Imier, Suiça, em 2012, que levou a confusão, desânimo e debate on-line, mas que passou despercebido para a imprensa anarquista mais ampla.
Janet Biehl, viúva de Bookchin, é uma das poucas a estudar a União das Comunidades do Curdistão (KCK) em campo, e escreveu extensivamente sobre suas experiências no site New Compass, inclusive compartilhando entrevistas com radicais curdos, envolvidos nas operações diárias das assembleias democráticas e das estruturas federais, assim como traduzindo e publicando o primeiro estudo anarquista que virou livro sobre o assunto: Democratic Autonomy in North Kurdistan: The Council Movement, Gender Liberation, and Ecology (2013) [Autonomia Democrática no Curdistão do Norte: o Movimento dos Conselhos, Libertação de Gênero e Ecologia, tradução livre].
A outra única voz anarquista que fala inglês é o Fórum Anarquista do Curdistão (Kurdistan Anarchist Forum – KAF), um grupo pacifista de curdos iraquianos morando na Europa que diz não “ter nenhuma relação com outros grupos de esquerdistas”. Enquanto apóia um Curdistão federado, o KAF declara que “só vai apoiar o PKK quando eles desistirem completamente da luta armada e se engajarem em organizar movimentos de massa de base popular com o objetivo de suprir demandas sociais do povo, denunciarem e desmantelarem modos centralizados e hierarquizados de luta e substituí-los por grupos locais autônomos federados, encerrarem todas as relações, acordos e negociações com os estados do Oriente Médio e do Ocidente, denunciarem políticas de poder carismático e converterem-se ao anti-estatismo e anti-autoritarismo – só então seremos felizes em cooperar totalmente com eles.”
Seguindo Bookchin ao pé da letra
Este dia (exceto o pacifismo) pode não estar tão longe. O PKK/KCK parecem estar seguindo Bookchin ao pé da letra, quase totalmente, inclusive com a contraditória participação no aparato estatal via eleições, assim como previsto nos seus livros. Como escrevem Joost Jongerden e Ahmed Akkaya, “o trabalho de Bookchin diferencia duas ideias de política, a helênica e a romana”, que são [respectivamente] a democracia direta e a representativa. Bookchin enxerga sua forma de neo-anarquismo como um renascimento da antiga revolução ateniense. O “modelo de Atenas existe como uma corrente que encontra expressões na Comuna de Paris de 1871, nos conselhos (sovietes) da primavera da Revolução Russa de 1917 e na Revolução Espanhola em 1936.”
O comunalismo de Bookchin contém uma abordagem em cinco passos:
  1. Entender pela lei as municipalidades existentes com o objetivo de tornar local o poder de decisão.
  2. Democratizar essas municipalidades através de assembleias de base.
  3. Unir as municipalidades “em redes regionais e confederações mais amplas (…) trabalhando para substituir gradualmente Estados-nações por confederações municipais”, enquanto assegura que “níveis ‘maiores’ da confederação têm essencialmente funções de coordenação e administração.”
  4. “Unir movimentos sociais progressistas” para fortalecer a sociedade civil e estabelecer “um ponto focal comum para todas as iniciativas cidadãs e movimentos”: as assembleias. Esta cooperação “não é [examinada minuciosamente] porque esperamos ver sempre um consenso harmonioso, mas – ao contrário – por que acreditamos em desacordo e deliberação. A sociedade se desenvolve pelo debate e pelo conflito”. Além disso, as assembleias são seculares, “[lutando] contra influencias religiosas na política e no governo”, e uma “arena para a luta de classes”.
  5. Para alcançar sua visão de uma “sociedade sem classes, baseadas no controle político coletivo sobre os meios de produção socialmente importantes”, se fazem necessárias a “municipalização da economia” e a “alocação confederada de recursos para garantir um equilíbrio entre as regiões”. Em termos leigos, isso equivale a uma combinação de autogestão dos trabalhadores e planejamento participativo para atender às necessidades sociais: a economia anarquista clássica. Como coloca Eirik Eiglad, antigo editor de Bookchin e analista da KCK:
“É particularmente importante a necessidade de combinar os conhecimentos dos movimentos progressistas feministas e ecológicos com os novos movimentos urbanos e as iniciativas cidadãs, assim como sindicatos e cooperativas e coletivos locais (…) Acreditamos que as ideias comunalistas de uma democracia baseada em assembleias irão contribuir para tornar esta mudança progressiva de ideias possível em bases mais permanentes e com mais consequências políticas diretas. Ainda que o comunalismo não é só um meio tático para unir estes movimentos radicais. Nosso chamado por uma democracia municipal é uma tentativa de dar razão e ética para a frente da discussão pública.”
Para Öcalan, confederalismo democrático significa uma “sociedade democrática, ecológica e com liberdade de gêneros”, ou simplesmente “democracia sem estado”. Ele contrasta explicitamente “modernidade capitalista” com “modernidade democrática”, em que os antigos “três elementos básicos: capitalismo, Estado-nação e industrialismo” são substituídos por uma “nação democrática, economia comunal e indústria ecológica”. Isto implica “três projetos: um pela república democrática, um para o confederalismo democrático e um para a autonomia democrática.”
O conceito da “república democrática” refere-se essencialmente a reconhecer a cidadania e os direitos civis há muito tempo negados aos curdos, incluindo a possibilidade de falar e ensinar livremente sua própria língua. Autonomia e confederalismo democráticos referem-se às “capacidades autônomas das pessoas, uma forma de estrutura política mais direta, menos representativa.”
Enquanto isso, Jongerden e Akkaya notam que o “modelo do municipalismo livre visa realizar um corpo administrativo participativo, de baixo para cima, de nível local para o provincial.” O “conceito de cidadãos livres (ozgur yarttas) [é] o ponto de partida”, que “inclui liberdades civis básicas, assim como liberdade de expressão e organização.” A unidade central do modelo é a assembleia de bairro ou os “conselhos”, como eles são referenciados indistintamente.
Existe participação popular nos conselhos, inclusive de pessoas não-curdas, e enquanto as assembleias de bairro são fortes em várias províncias, “em Diyarbakir, a maior cidade do Curdistão turco, há assembleias em quase todo lugar.” Nos outros lugares, “nas províncias de Hakkari e Sirnak (…) há duas autoridades paralelas [a KCK e o estado], dos quais a estrutura democrática confederada é mais poderosa na prática.” A KCK na Turquia “é organizada nos níveis de vila (köy), bairro urbano (mahalle), distrito (ilçe), cidade (kent) e a região (bölge) que é chamada de ‘Curdistão do Norte’.”
O nível “mais alto” da federação no Curdistão do Norte, o DTK (Congresso da Sociedade Democrática) é uma mistura de cargos delegados dos seus pares com mandatos revogáveis, que preenchem 60%, e representantes de “mais de quinhentas organizações da sociedade civil, sindicatos e partidos políticos”, que completam os 40%, dos quais aproximadamente 6% é “reservado para representantes de minorias religiosas, acadêmicos, ou outros casos particulares”.
A proporção de 40% dos que são delegados por grupos diretamente democráticos, não-estatistas da sociedade civil comparado àqueles que são burocratas partidários eleitos ou não-eleitos não está clara. A situação fica ainda mais complicada com a sobreposição de indivíduos de movimentos curdos independentes e de partidos políticos curdos e com a internalização por parte dos partidos de muitos aspectos do processo diretamente democrático. De qualquer forma, o consenso informal entre as testemunhas é de que a maior parte das decisões são tomadas por democracia direta em ambas as ocasiões; que a maioria das decisões são tomadas na base; e que as decisões são executadas de baixo para cima de acordo com a estrutura federal.
Por causa das assembleias e do DTK serem coordenados pelo ilegal KCK, do qual o PKK é membro, eles são designados como “terroristas” pela Turquia e pela chamada comunidade internacional (leia-se União Europeia, EUA e outros), por associação. O DTK também seleciona os candidatos do partido pró-curdos BDP (Partido Democracia e Paz) para o Parlamento turco, que por sua vez propõe “autonomia democrática” à Turquia, num tipo de combinação de democracia representativa e direta. Alinhado com o modelo federalista, propõe o estabelecimento de aproximadamente 20 regiões autônomas que autogovernariam diretamente (no modelo anarquista e não no Suíço) “educação, saúde, cultura, agricultura, indústria, serviços sociais e segurança, questões das mulheres, dos jovens e os esportes”, com o estado continuando a conduzir “relações internacionais, finanças e defesa”.
A Revolução Social decola
No chão, enquanto isso, a revolução já começou. No Curdistão turco existe um movimento educacional independente de “acadêmicos” que puxam fóruns e seminários de discussão nos bairros. Há a Rua da Cultura, onde Abdullah Demirbas, o prefeito do município de Sur em Amed, celebra “a diversidade dos sistemas de religiões e crenças”, declarando que “começamos a restaurar uma mesquita, uma igreja católica caldeia-aramaica, uma igreja ortodoxa armena e uma sinagoga judaica”. Por outro lado, relatam Jongerden e Akkaya, “as municipalidades do DTK deram início a um ‘serviços municipais multilíngues’, produzindo um debate acalorado. Sinalizações foram erguidas em curdo e em turco, e comerciantes locais seguiram o exemplo”.
A libertação das mulheres é puxada pelas próprias mulheres através de iniciativas do Conselho de Mulheres do DTK, impondo novas regras como a “cota mínima de gênero de 40%” nas assembleias. Se um servente civil bate em sua mulher, seu salário é diretamente transferido à sobrevivente para fornecê-la segurança financeira e usá-lo como bem entender. “Em Gewer, se um homem tem uma segunda esposa, metade de seus bens vão para a primeira.”
Há as “Vilas de Paz”, comunidades novas ou transformadas de cooperativas, implementando seu próprio programa totalmente fora dos constrangimentos logísticos da guerra curdo-turca. A primeira comunidade assim foi construída na província de Hakkari, na fronteira com o Irã e o Iraque, onde “certas vilas” aderiram ao experimento. Na província de Van, uma “vila ecológica de mulheres” está sendo construída para acolher vítimas de violência doméstica, suprindo-se “com toda ou quase toda energia necessária”.
A KCK realiza reuniões bienais nas montanhas com centenas de delegados dos quatro países, atentos à constante ameaça do Estado Islâmico à autonomia do Curdistão do Sul e Ocidental. Os partidos ligados ao KCK no Irã e na Síria, PJAK (Partido por uma Vida Livre no Curdistão) e PYD (Partido da União Democrática), também promovem o confederalismo democrático. O partido da KCK no Iraque, PCDK (Partido pela Solução Democrática para o Curdistão) é relativamente insignificante, dirigido pelo centrista Partido Democrático do Curdistão e seu líder Massoud Barzani, presidente do Curdistão iraquiano, que só recentemente o descriminalizou e passou a tolerá-la.
Nas áreas montanhosas do extremo norte do Curdistão iraquiano, onde vivem a maioria das guerrilhas do PKK e do PJAK, contudo, a literatura radical e as assembleias prosperam, com a integração entre as montanhas, muitos curdos puderam continuar após décadas de expulsões e despejos. Nas últimas semanas, esses militantes desceram as montanhas do extremo norte para lutar ao lado da Peshmerga iraquiana contra o ISIS, resgatando 20 mil Yazidi e cristãos das montanhas do Sinjar e recebendo a visita de Barzani numa demonstração pública de gratidão e solidariedade, para o constrangimento da Turquia e dos EUA.
O PYD sírio seguiu, desde o início da guerra civil, os passos do Curdistão turco na transformação revolucionária da região autônoma sob seu controle. Após “ondas de prisões” sob a repressão dos baathistas, com “10 mil pessoas [levadas] em custódia, entre prefeitos, líderes de partidos locais, deputados, dirigentes e ativistas (…) o PYD curdo expulsou o regime de Baath do norte da Síria, ou do Curdistão Ocidental, [e] conselhos locais apareceram por toda parte”. Comitês de autodefesa foram improvisados para providenciar “segurança à beira do colapso do regime de Baath”, e “a primeira escola a ensinar língua curda” foi estabelecida, enquanto os conselhos interviam na distribuição equitativa de pão e gasolina.
No Curdistão turco, sírio e uma parte menos do iraquiano, as mulheres agora são livres para desvendar e para se encorajarem fortemente em participar da vida social. Antigos laços feudais estão sendo quebrados, as pessoas estão livres para seguirem qualquer ou nenhuma religião, e minorias étnicas e religiosas podem viver juntas pacificamente. Se são capazes de deter o novo califado, a autonomia do PYD no Curdistão sírio e a influência da KCK no Curdistão iraquiano pode fermentar uma explosão ainda mais profunda de cultura e valores revolucionários.
Em 30 de junho de 2012, o Comitê de Coordenação Nacional para a Mudança Democrática (NCB), a mais ampla coalizão revolucionária de esquerda na Síria, do qual o PYD é o principal grupo, também abraçou agora “o projeto de autonomia democrática e confederalismo democrático como um modelo possível para a Síria”.
Defendendo a Revolução Curda do Estado Islâmico
A Turquia ameaçou invadir territórios curdos se “bases terroristas estiverem estabelecidas na Síria”, enquanto centenas de guerrilheiros da KCK (incluindo do PKK) de todo o Curdistão cruzam a fronteira para defender Rojava (o Ocidente) dos avanços do Estado Islâmico. O PYD alega que o governo islâmico moderado da Turquia já está agindo contra eles ao facilitar a viagem de jihadistas internacionais a cruzarem as fronteiras para lutarem ao lado dos islâmicos.
No Curdistão iraquiano, Barzani, cujas guerrilhas lutaram a favor da Turquia contra o PKK na década de 1990 em troca de acesso aos mercados ocidentais, clamou por uma “frente curda unida” na Síria através da aliança com o PYD. Barzani intermediou o “Acordo de Erbil” em 2012, que deu origem ao Conselho Nacional Curdo, com o líder do PYD, Salih Muslim, confirmando que “todos os partidos são sérios e determinados a continuar trabalhando juntos”.
Mesmo sabendo que os estudos e as práticas das ideias do socialismo libertário entre as lideranças e a base são indubitavelmente um desenvolvimento positivo, resta-nos observar o quão dispostos estão em renunciar o sangrento passado autoritário. A luta curda pela autodeterminação e soberania cultural forma uma borda de prata nas escuras nuvens que pairam sobre o Estado Islâmico e as sangrentas guerras inter-fascistas entre islâmicos e baathistas e o sectarismo religioso que lhes deu origem.
Uma revolução pan-curda socialmente progressiva e secular com elementos socialistas libertários, unindo curdos iraquianos e sírios e fortalecendo as lutas turcas e iranianas, ainda pode ser um prospecto. Ao mesmo tempo, aqueles de nós que valorizam a ideia de civilização devem nossa gratidão aos curdos, que estão lutando noite e dia contra os jihadistas do fascismo islâmico nas linhas-de-frente da Síria e do Iraque, defendendo com suas vidas valores democráticos radicais.

sábado, 5 de novembro de 2016

O silêncio dos inocentes

A cada 100 índios que morrem no Brasil, 40 são crianças

Cerca de 40% de todas as mortes entre índios brasileiros registradas desde 2007 foram de crianças com até 4 anos. O índice é quase nove vezes maior que o percentual de mortes de crianças da mesma idade (4,5%) em relação ao total de óbitos no Brasil no mesmo período.

                                                                                                                 Por João Fellet, da BBC


Um levantamento da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) obtido pela BBC Brasil por meio da Lei de Acesso à Informação revela que indicadores da qualidade do serviço de saúde prestado aos índios estão em patamar muito inferior aos do resto da população. Os dados detalham todas as mortes de índios registradas desde 2007 em cada um dos 34 Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEI), que englobam uma população de cerca de 700 mil índios. As informações de 2013 estão incompletas. 
O levantamento mostra que nos últimos sete anos 2.365 índios morreram por causas externas (acidentes ou violência), dos quais 833 foram vítimas de homicídio. Outras 228 mortes por lesões não tiveram sua intenção determinada. Não há informações sobre a autoria dos crimes. O DSEI Mato Grosso do Sul responde pelo maior número de assassinatos de índios: 137 nos últimos sete anos. Na reserva de Dourados, área indígena visitada pela BBC Brasil, moradores evitam circular à noite por medo de ataques.


Delmira Cláudio, índia guarani kaiowá, teve três filhos assassinados dentro da reserva, todos com menos de 30 anos. Líderes da comunidade atribuem a violência à inoperância policial, ao aumento de moradores não índios e à venda de álcool dentro da reserva. Os suicídios, por sua vez, foram a causa de 351 mortes de indígenas desde 2007. A região do Alto Solimões, no oeste do Amazonas, registrou mais casos, 104. Um artigo recente da pesquisadora Regina Erthal apontou como principal causa para o fenômeno, comum entre o povo ticuna, o acirramento de conflitos que têm como base “o abandono a que tal população tem sido submetida pelos órgãos responsáveis pela definição e implementação das políticas públicas”. Caso fosse um país e levando em conta os dados de 2012, o DSEI Alto Solimões teria a segunda maior taxa de suicídios por habitante do mundo, 32,1 por 100 mil, atrás apenas da Groelândia. O índice entre os índios brasileiros é de 9 suicídios por 100 mil e, no país, 4,9.




Comparações entre os padrões de morte dos índios e dos demais brasileiros em 2011, último ano em que há dados gerais disponíveis, revelam outras grandes discrepâncias. Enquanto entre os índios as mortes se concentram na infância e só 27,4% dos mortos têm mais de 60 anos, na população geral os com mais de 60 respondem por 62,8% dos óbitos. Nas últimas décadas, avanços no sistema de saúde reduziram as mortes por doenças infecciosas e parasitárias entre os brasileiros para 4,5% do total. Entre os índios, o índice é de 8,2%. 
(,,,) Para o médico Douglas Rodrigues, especialista em saúde indígena da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), a alta mortalidade entre crianças mostra que atendimento a índias gestantes e recém-nascidos ainda deixa muito a desejar. Ele diz que as mortes de índios por doenças infecciosas têm duas razões principais: a maior vulnerabilidade de alguns grupos mais isolados a essas doenças e falhas na assistência médica. “O mais grave é que essas doenças são evitáveis. Não dá para aceitar que em pleno século 21 tantos índios morram por doenças infecciosas.” O professor diz que, nas últimas décadas, houve grandes avanços nos serviços de saúde para os índios.



Ele cita os dados de mortalidade infantil entre os índios. Segundo uma apresentação da Sesai, a taxa despencou de 74,6 para mil nascidos vivos, em 2000, para 47,4, em 2004. No entanto, de 2004 a 2011, o índice diminuiu em velocidade bem menor, para 41,9. 
No Brasil, a mortalidade infantil em 2011 foi de 15,3. E diferentemente do histórico entre os índios, o índice nacional segue baixando em ritmo uniforme. “Saiu-se de uma situação de quase desassistência aos índios e foi se aumentando o número de pessoas e lugares em que há profissionais, o que teve um impacto muito grande. Mas depois de 2005 houve uma estabilização, o que é preocupante”, diz Rodrigues. “Agora é o momento de fazer um ajuste fino, de melhorar a qualidade”.


FONTE; http://www.geledes.org.br/o-silencio-dos-inocentes-a-cada-100-indios-que-morrem-no-brasil-40-sao-criancas/#gs.PAXGF6Y 

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

O modelo Rojava

Como a Síria governa os curdos



Um novo modelo de organização social está tomando forma nas áreas curdas no norte da Síria. Rojava, como ficou conhecida, compreende três cantões na seção ocidental da histórica terra natal do povo curdo, que está agora dividida entre Irã, Síria, e Turquia.No que diz respeito a igualdade social, pluralismo étnico, e anti-sectarismo, o território é uma região sem igual. Esse é especialmente o caso quando falamos dos avanços das mulheres.



A atenção pública do ocidente deu um giro de 2014 a 2015, quando as milícias territoriais, as Unidades de Proteção do Povo (YPG) e as Unidades de Proteção das Mulheres (YPJ), tiveram um papel central na expulsão do Estado Islâmico, ou ISIS, de Kobane, uma cidade no noroeste da Síria. 
Observadores destacaram duas características do grupo: primeiro seu sucesso contra o ISIS, que as forças de segurança dos EUA e das forças de oposição Síria se esforçaram para derrotar, e segundo, o protagonismo das lutadoras femininas em suas fileiras.



Desde a Segunda Guerra Mundial, guerrilhas femininas fizera parte de lutas armadas ao redor do mundo. Mesmo a maior parte dos grupos militantes alistaram mulheres pois precisavam de soldadas, não porque desejaram empoderar as mulheres, e poucos tem priorizado tanto a igualdade das mulheres como os curdos da Turquia e da Síria. A ênfase do Curdistão sírio sobre o papel de liderança das mulheres, no entanto, não se limita ao plano militar. Isso é definido pelos Curdos Sírios como uma visão societal mais ampla. Quarenta por cento dos membros da sociedade civil ou de qualquer órgão social em Curdistão sírio têm que ser de mulheres.


 Da mesma forma, todos os órgãos administrativos, projetos econômicos e organizações da sociedade civil são obrigadas a ter homens e co-presidentes do sexo feminino.Embora o Partido da União Democrática (PYD) seja dominante em Rojava e os curdos são a maioria da sua população, Rojava é o lar de uma série de outros partidos políticos e etnias. É a única sociedade em sua região, que baseia-se nos pontos fortes de toda a sua população. Como é que as mulheres conseguiram ganhar tanto poder no meio de uma guerra pela sobrevivência?

 Uma exceção regional

A história começa na Turquia em 1978, quando o Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK) foi fundado para criar um Estado independente curdo. Nos primeiros anos de sua insurgência contra o governo turco, o PKK foi dirigido principalmente por guerrilheiros do sexo masculino. Mas isso mudou na década de 1990.Quando a resistência civil curda mais ampla emergiu nas cidades turcas e os ativistas curdos começaram a pressionar para ter um partido de representação no parlamento, o Partido Trabalhista Popular (HEP).



Em ambos os empreendimentos, as mulheres serviram como líderes. Leyla Zana, uma ex-integrante do HEP, continua atuando no parlamento da Turquia. Em 1993, de acordo com a jornalista Aliza Marcus, um terço dos novos membros do PKK eram mulheres; muitas delas recrutadas por Sakine Cansiz, uma de suas fundadoras. Em 1995, o PKK formou um exército de mulheres, que agora é chamado de YJA-Estrela. A resolução que cria o exército deixou claro que iria servir como um modelo para outras organizações de mulheres “em todos os setores da economia, todas as instituições sociais, e até mesmo no campo da cultura.”




A decisão foi particularmente notável pelo fato de que, na área rural do Curdistão, a subordinação do pensamento das mulheres, tal como as práticas misóginas como os chamados assassinatos de honra, reclusão imposta, e os casamentos de crianças tinham sido a norma. Para muitas mulheres curdas, deixar suas famílias para se juntar a um grupo insurgente foi uma enorme ruptura com a tradição patriarcal. Mulheres guerrilheiras foram pioneiras do movimento de libertação das mulheres como uma sociedade dentro da sociedade curda.

Alguns dos líderes de Rojava, tais como os co-presidentes do PYD: como o muçulmano Salih, foram originalmente membros sírios do PKK, e muitos dos ideais que têm sido postos em prática em Rojava foram testados na Turquia. Desde a fundação do PYD em 2003, a libertação das mulheres tem sido parte do programa do partido. Tal como na configuração da Estrela-Yekitiya, seu braço de organização para as mulheres, em 2005. Em 2012, como o presidente da Síria, Bashar al-Assad retirou suas tropas da maior parte do norte da Síria e dos cantões, Rojava tornou-se efetivamente autônoma e os membros do PYD começaram a se organizar de maneira mais vigorosa, tornando a defesa das mulheres uma parte integral de sua guerra contra o ISIS. A organização logo começou a recrutar novos membros de outros grupos étnicos da região, tratando de incluir assírios, árabes e Yezidis.

O grupo que mudou seu nome para Estrela de Kongreya no início deste ano, se descreveu como uma organização guarda-chuva para o movimento das mulheres de Rojava. Em nível local, a Estrela de Kongreya compreende um número de organizações, conhecidas como a comuna das mulheres, que operam em paralelo às comunas de sexo misto, que organizam tais assuntos como a alocação de energia e o uso do espaço público.O foco das comunas de mulheres sobre a violência doméstica, casamento forçado, e saúde das mulheres e programas econômicos, entre outras coisas; em muitos casos, podem se sobrepor aos seus parceiros organizacionais de sexo misto.




Estrela de Kongreya no nível mais alto organiza comitês em cinco áreas: educação, especialmente educação de adultos e aulas de literatura; saúde pública, incluindo clínicas especializadas para mulheres; economia, incluindo a manutenção de cooperativas; resolução de disputas em comunidades, que inclui mediação e manutenção de abrigos para vítimas de violência doméstica; e defesa de cidadãos, que é central para a plataforma do PYD e especialmente para Estrela-Kongreya. Há três forças de defesa de mulheres em Rojava, a YPJ, que luta contra inimigos externos tais como o ISIS; as forças de segurança locais; e as forças de defesa civil atreladas às comunas, que lidam com a segurança da vizinhança, incluindo casos de violência contra as mulheres.

 Autonomia e democracia 

O crescimento da influência de mulheres no Curdistão Sírio é parte central da transformação mais ampla da política curda ali e na Turquia. Ao contrário dos curdos iraquianos, os curdos sírios e turcos afastaram-se do nacionalismo. Eles buscam autonomia local ao invés de um arranjo federal. A ideia de longo prazo é a de assegurar a democracia, constituições democráticas que garantam uma autonomia local extensiva e protejam os direitos humanos.

Abdullah Ocalan
(Esta mudança foi executada em paralelo com a evolução ideológica do líder do PKK preso, Abdullah Ocalan, um ex-militante que agora é um defensor do que ele chama de Confederalismo Democrático.)

À luz da atual turbulência da região, a visão de Rojava para uma feminista, de uma sociedade diretamente democrática, pode parecer irrealista. No entanto, o fracasso das negociações para acabar a guerra civil síria mostrou a capacidade limitada da diplomacia para pôr fim a conflitos inflamados por atores não-estatais e financiados por potências externas, e em décadas recentes, tem havido alguns modelos políticos nas cercanias do Curdistão que oferecem muito mais uma promessa para o igualitarismo e paz como a que os curdos chamam de autonomia democrática. 

Até agora, os Estados Unidos têm tratado os curdos sírios como um aliado militar de curto prazo e dado a eles apoio militar, mas não apoio político ou econômico ostensivos; Washington não insistiu para eles tomarem parte nas conversações de Genebra para acabar com a guerra na Síria. Esta abordagem é um erro. Desde os anos 1990, os Estados Unidos tem se posicionado como um defensor das mulheres e minorias sexuais. Os curdos sírios estão praticando uma forma de democracia que consagra a igualdade de género e se opõe noções de soma zero de étnico e direitos nacionais. Dado os compromissos que assumiu, os Estados Unidos deveriam estar dispostos a apoiar esses fins. 


 Meredith Tax 
Comitê de Solidariedade à Resistência Popular Curda
https://resistenciacurda.wordpress.com/2016/10/28/o-modelo-rojava-meredith-tax/
            Esse artigo expressa a visão da autora e não necessariamente está de acordo com os                  Comitês de Solidariedade à Resistência Popular Curda.


 Tradução ao português: Comitê de Solidariedade à Resistência Popular Curda – RJ  (Esse artigo foi primeiramente publicado no website Foreign Affair e tem sido reproduzido com a permissão da autora.)

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Blowin' In The Wind (Soprando no vento)

Quantos ouvidos um homem deve ter pra poder ouvir as pessoas chorarem? 
E quantas mortes ainda serão necessárias para que se saiba Que pessoas demais morreram?

  
How many roads must a man walk down 
Quantas estradas deve um homem percorrer 
Before you can call him a man? 
Pra poder ser chamado de homem? 

 How many seas must a white dove sail 
Quantos oceanos deve uma pomba branca sobrevoar
 Before she sleeps in the sand?
 Pra poder dormir na areia? 

 Yes, and how many times must cannonballs fly 
Sim e quantas vezes as balas de canhão devem voar 
Before they're forever banned? 
Antes de serem banidas pra sempre?

 The answer, my friend, is blowin' in the wind 
A resposta, meu amigo, está soprando no vento
 The answer is blowin' in the wind 
A resposta está soprando no vento 

 
 Yes, and how many years can a mountain exist 
Sim e por quantos anos uma montanha pode existir
 Before it's washed to the seas (sea) 
Antes de ser lavada pelos oceanos?

 Yes, and how many years can some people exist 
Sim e quantos anos algumas pessoas devem existir
 Before they're allowed to be free?
 Antes de poderem ser livres? 
 
Yes, and how many times can a man turn his head
 Sim e quantas vezes um homem pode virar a cabeça 
And pretend that he just doesn't see?
 Fingir que não vê 

The answer, my friend, is blowin' in the wind 
A resposta, meu amigo, está soprando no vento
 The answer is blowin' in the wind 
A resposta está soprando no vento



 Yes, and how many times must a man look up 
Sim e quantas vezes um homem deve olhar pra cima 
Before he can see the sky? 
Antes de conseguir ver o céu? 

Yes, and how many ears must one man have 
Sim e quantos ouvidos um homem deve ter 
Before he can hear people cry? 
Pra poder ouvir as pessoas chorarem? 

Yes, and how many deaths will it take till he knows 
Sim e quantas mortes serão necessárias até ele saber 
That too many people have died? 
Que pessoas demais morreram? 

The answer, my friend, is blowin' in the wind 
A resposta, meu amigo, está soprando no vento
 The answer is blowin' in the wind 
A resposta está soprando no vento   (Bob Dylan)