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O Velho do Espelho

"Por acaso, surpreendo-me no espelho:
quem é esse que me olha e é
tão mais velho do que eu?
Porém, seu rosto...é cada vez menos estranho...
Meu Deus,Meu Deus...Parece meu velho pai -
que já morreu"! (Mario Quintana)

P E S Q U I S A

segunda-feira, 8 de junho de 2015

Colônia do Sacramento



Fabrício Pereira Prado
Universidade Federal do Rio Grande do Sul – Brasil



A Colônia do Sacramento, no atual Uruguai, na primeira metade do século XVIII, constituiu uma cidade de pródigo comércio na região platina. Inseridos tanto nas rotas comerciais e sociais portuguesas quanto nas castelhanas, os habitantes de Sacramento materializavam uma fronteira múltipla, onde coexistiam espanhóis, portugueses e diferentes grupos indígenas. O presente estudo analisa os vínculos sociais e comerciais existentes entre os habitantes de Sacramento e os de Buenos Aires. No interior do espaço platino as redes sociais estabelecidas através do rio da Prata, ligando Sacramento e Buenos Aires, eram vias de acúmulo de prestígio, poder e riqueza em uma sociedade de antigo regime.

Durante o século XVIII a colônia portuguesa na América sofreu importantes transformações. A cidade do Rio de Janeiro consolidava sua importância como um dos principais entrepostos do Atlântico sul, servindo de conexão para diversas rotas terrestres e marítimas entre África, Europa e América. Para o Rio de Janeiro confluíam também as rotas que traziam metais preciosos, ouro das Minas e prata proveniente do comércio no rio da Prata. As rotas do comércio legal – e principalmente as do comércio ilegal – com o Prata ocuparam importante papel na expansão das rotas comerciais e nos negócios da elite comercial fluminense.


A fundação da Colônia do Sacramento, no rio da Prata, desde o Rio de Janeiro, e sua manutenção por quase cem anos (1680 a 1777), foi a materialização do processo de expansão territorial e comercial do Estado lusitano e das elites mercantis luso-brasileiras rumo ao Prata. Sacramento devia viabilizar e restabelecer os vínculos com o Prata rompidos após o fim da União Ibérica em 1640. A Colônia, estabelecida na margem norte do rio da Prata, em frente a Buenos Aires, significou o abandono dos limites estipulados pelo tratado de Tordesilhas. No século XVIII, Sacramento ocupou papel destacado enquanto porta de entrada de produtos introduzidos por comerciantes luso-brasileiros e estrangeiros no Prata, bem como fonte de couros e principalmente da prata escoada pela "porta dos fundos" das minas de Potosí, situadas no Alto Peru (Boxer, 2000, p. 265). Sacramento era uma fonte de metal, produto fundamental em uma economia que sofria com a escassez crônica de moeda.
Com o progressivo acúmulo de importância pela cidade do Rio de Janeiro (que seria tranformada em capital da administração portuguesa na América), o comércio com o Prata foi também sendo protagonizado principalmente pelos comerciantes fluminenses. A região platina possuía importantes atrativos, não apenas pela prata, mas pelos mercados de Buenos Aires, do Paraguai e do Alto Peru, regiões marginalizadas no abastecimento oficial hispânico. A região platina representava potenciais consumidores de escravos, açúcar, cachaça, entre inúmeras outras mercadorias que estavam na pauta dos importantes negociantes cariocas.
Com a fundação de Sacramento, e principalmente pelo seu desenvolvimento no século XVIII, começou a materialização de um espaço fronteiriço na Banda Oriental (margem norte do rio da Prata, aproximadamente o território do atual Uruguai). Foi a reprodução das velhas fronteiras ibéricas numa região onde, além de portugueses e castelhanos, havia índios e jesuítas para habitar concomitantemente o espaço.
Na primeira metade dos 1700 a Colônia do Sacramento conheceu significativo crescimento populacional, e uma estrutura urbana militarizada foi construída. Em meados do século XVIII, a fortaleza militarizada já era o centro de uma vasta região polarizada pela cidade-porto na qual mercadores, camponeses, escravos e índios construíam a fronteira sul do império português na América. A cidade atraía pessoas pela segurança, pelo mercado, pela presença da autoridade, da Igreja, pelas festas, além de outros motivos mais conjunturais. Tal impressão se confirma quando inserimos Sacramento em seu contexto regional platino.


A instalação de Sacramento na margem setentrional do rio da Prata, em frente a Buenos Aires, constituiu-se no primeiro núcleo urbano e de povoamento efetivo por parte de um império europeu na costa da Banda Oriental. Tal fato provocou mudanças profundas em Buenos Aires. Desde o princípio do século XVII até 1640, as relações entre os portugueses e castelhanos de Buenos Aires haviam sido bastante profícuas. A existência de Sacramento, a partir de 1680, fez com que os antigos laços comerciais e sociais entre lusos e portenhos fossem reativados, repercutindo no desenvolvimento de fortes intercâmbios entre agentes sociais de ambas as margens do Prata. Moutoukias (1988) observou que, em fins do século XVII, o progressivo desenvolvimento comercial e o aumento da importância econômica e política de Buenos Aires em âmbito regional coincidiram com o desenvolvimento das relações com a Colônia do Sacramento. Tal constatação modificou a imagem construída pelas historiografias nacionais acerca das disputas coloniais no rio da Prata, nas quais o conflito e a competição eram as tônicas das narrativas.
A presença permanente dos luso-brasileiros no estuário platino resultou no que Fernando Jumar (2000) definiu como o "complexo portuário do Rio da Prata". Tal idéia dá conta da realidade de mútuos contatos e relações comerciais e sociais entre súditos portugueses ou hispânicos, apesar dos impedimentos legais. Esses vínculos existentes entre os portos de Buenos Aires e Sacramento (mais tarde inclui-se Montevidéu) eram bastante profundos, e constituíram uma característica da região. Os portos ocupavam papéis definidos e complementares. Pelo seu caráter de limite político ainda indefinido, a região platina era uma zona com especificidades próprias, onde as possibilidades do "trato ilícito" eram rotineiras na vida de todos os habitantes (Jumar, 2000).
Foi a partir de 1716, com a segunda fundação da Colônia do Sacramento, que o complexo portuário consolidou-se e assumiu seu pleno funcionamento (Jumar, 2000, f. 86). Ao longo do período, diferentes conjunturas definiram os papéis e a atuação das elites de Buenos Aires, Colônia e Montevidéu. A presença inglesa também era um fator importante no ritmo das relações entre Buenos Aires e Sacramento. Jumar (2000) salienta a evolução das relações entre os portos do complexo portuário, chamando a atenção para os momentos de acirramento bélico, como foi o caso da "tentativa de asfixia" da Colônia do Sacramento por parte da elite portenha, em 1735. Tratava-se da exteriorização dos interesses em conflito, da tentativa de alcance de um "ponto de equilíbrio" dentro das atividades de cada cidade no complexo portuário.
Sacramento era responsável pelos contatos diretos com o mercado atlântico e pela introdução de mercadorias européias e brasileiras a baixos preços. Além disso, o porto de Sacramento era melhor para abrigar embarcações maiores, possuía diversas ilhas que facilitavam os descarregamentos de mercadorias e era o principal porto para reparos de barcos no rio da Prata na primeira metade do século XVIII. Entretanto, os luso-brasileiros, a partir de 1735-37, viram-se privados da exploração dos recursos da campanha pela ação bélica do patriciado portenho. Evocando cláusulas diplomáticas do segundo tratado de Utrecht, a elite de Buenos Aires buscou controlar os recursos pecuários da campanha oriental, nomeadamente, buscou evitar que os habitantes de Sacramento explorassem o gado (vacum e cavalar), ou se internalizassem na campanha. Entretanto, o predomínio da elite portenha sobre as redes comerciais com regiões interioranas a tornava dependente do comércio direto com a Colônia. Enfim, é dentro desse cenário regional que a Colônia do Sacramento esteve inserida ao longo de quase um século. A vida social, econômica e política do núcleo populacional luso-americano estava articulada em função do comércio, marítimo e terrestre, no espaço platino.
Uma característica fundamental para o entendimento da própria formação desse complexo portuário, bem como do processo histórico dos atuais territórios do Uruguai, Argentina e Brasil (o estado do Rio Grande do Sul especialmente), é de que se tratava de uma região de fronteira múltipla. Castelhanos e portugueses conviviam com distintos grupos autóctones, bem como com os missionários jesuítas, que constituíam outro foco de interesses. Assim, a região platina da primeira metade do século XVIII era ao mesmo tempo um limite, uma separação. Mas era também o ponto de contato, interação e trocas recíprocas entre portugueses, espanhóis, jesuítas, índios tape, minuano, charrua, entre outros. Enfim tratava-se de um espaço fronteiriço aberto, uma região que nesse momento incorporava-se ao mundo ocidental inserida em sociedades de antigo regime, como era o caso dos impérios ibéricos da primeira metade do século XVIII.
No presente trabalho, buscamos analisar as formas e os métodos de articulação das elites locais através das empresas comerciais platinas enquanto vias de acesso à riqueza, poder e prestígio. O comércio surge como um fator central, elemento dinamizador da região e que envolvia uma gama variada de agentes sociais. Através da trajetória pessoal de alguns homens de negócios e de autoridades podem-se perceber as intrincadas redes sociais que cruzavam o rio da Prata entre Buenos Aires e Sacramento, estendendo tentáculos rumo aos centros de poder hispânicos e lusitanos. Autoridades e comerciantes confundiam-se em um mercado em que a política e as relações pessoais eram fatores primordiais a serem levados em consideração. O comércio congregava desde as figuras mais proeminentes da sociedade até personagens anônimos, como peões e marinheiros. Todos praticavam o comércio na região, em maior ou menor escala. Inseridos como peões nas grandes operações de contrabando, ou mesmo realizando pequenas transações, a chamada "arraia-miúda" era protagonista de diversas formas de comércio. 

Documento na íntegra em:         
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-71832003000100004

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