VIDAS CURTIDAS, VOZES DUBLADAS E SONHOS EXPORTADOS
Este texto é uma pequena parte de um trabalho de pesquisa realizado como Bolsista de Iniciação Científica do curso de História da Universidade Feevale, entre 2010 e 2011, com a coordenação da professora mestre Claudia Schemes. Neste capítulo abordo a questão da percepção do golpe civil-militar de 1º de abril de 1964, em Novo Hamburgo, a partir das edições do jornal NH.
Este texto é uma pequena parte de um trabalho de pesquisa realizado como Bolsista de Iniciação Científica do curso de História da Universidade Feevale, entre 2010 e 2011, com a coordenação da professora mestre Claudia Schemes. Neste capítulo abordo a questão da percepção do golpe civil-militar de 1º de abril de 1964, em Novo Hamburgo, a partir das edições do jornal NH.
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Deslocamento de tropas de Minas Gerais, no dia 1º de abril de 1964, desencadeou o Golpe Civil Militar de 1964 |
O golpe civil militar - No dia 4
de abril de
1964, três dias
após o Golpe Civil Militar, o
jornal NH divulga, em uma edição reduzida
notícias sobre o ocorrido: “Novo
Hamburgo não parou”, diz a manchete
de capa, seguida
de um texto:
“Novo Hamburgo
deu mais um exemplo à Nação
ao não tomar
conhecimento do movimento de
anarquia que se procurou estabelecer no País, com a queda
do presidente João Goulart”. Além disso, informava que os trabalhadores e consequentemente, as indústrias continuaram suas atividades na
cidade e nenhum
movimento de anarquia foi registrado. O Grupo Sinos se manifesta
dizendo que são atitudes como essa que fazem Novo Hamburgo progredir.
Ao lado da manchete de capa está a foto do presidente João Goulart. A legenda da imagem começa com a seguinte escrita: “O presidente que cai”. Um texto breve narra a história política do presidente e aparenta algum espanto ao afirmar: “Poucos acreditavam que o presidente que articulara seu esquema com os sindicatos e militares menos graduados caísse tão facilmente do poder”. E conclui dizendo que o ocorrido demonstrava a desorientação e fraqueza do governo Goulart cabendo ao Congresso a escolha de um novo presidente até as eleições marcadas para 1965. Outras manchetes dizem “Trabalhadores estão conscientes que só o trabalho trará progresso e bem-estar social”, “Fé no futuro governo”, “Prefeito: Ficamos emocionados com a solução da crise nacional” e “Alano: Estamos desolados com o desenrolar dos acontecimentos”.
De acordo com essas notícias, mesmo a queda de um presidente e o risco de uma guerra civil no país não deveriam preocupar Novo Hamburgo. Nenhuma crise seria capaz de afetar a economia crescente, ainda mais que os trabalhadores não aderiram a movimentos de protesto e continuavam trabalhando dentro das fábricas.
Ao lado da manchete de capa está a foto do presidente João Goulart. A legenda da imagem começa com a seguinte escrita: “O presidente que cai”. Um texto breve narra a história política do presidente e aparenta algum espanto ao afirmar: “Poucos acreditavam que o presidente que articulara seu esquema com os sindicatos e militares menos graduados caísse tão facilmente do poder”. E conclui dizendo que o ocorrido demonstrava a desorientação e fraqueza do governo Goulart cabendo ao Congresso a escolha de um novo presidente até as eleições marcadas para 1965. Outras manchetes dizem “Trabalhadores estão conscientes que só o trabalho trará progresso e bem-estar social”, “Fé no futuro governo”, “Prefeito: Ficamos emocionados com a solução da crise nacional” e “Alano: Estamos desolados com o desenrolar dos acontecimentos”.
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Na Greve Geral de 1983 o jornal NH repetiu a notícia de 1964 só que desta vez como uma previsão |
De acordo com essas notícias, mesmo a queda de um presidente e o risco de uma guerra civil no país não deveriam preocupar Novo Hamburgo. Nenhuma crise seria capaz de afetar a economia crescente, ainda mais que os trabalhadores não aderiram a movimentos de protesto e continuavam trabalhando dentro das fábricas.
A declaração do prefeito da
cidade, Níveo Friedrich, mostra a posição da administração aliviada e
comemorando que tudo tenha ocorrido de forma pacífica. A declaração
do vereador e
presidente da Câmara de
Vereadores do município, Jaime
Alano, do PTB de Jango, é uma
tentativa de mostrar a imparcialidade do
jornal. Na primeira página da
edição de 4 de abril de 1964, é publicado um artigo de Vinícius Bossle intitulado
“Trabalho e Ordem”, fazendo
um balanço dos primeiros dias
da ‘ guerra civil’, como
ele define a
situação reforçando novamente a qualidade
do povo hamburguense: patriotas exemplares que continuavam trabalhando. Comparando essa situação ao
dizeres da bandeira nacional: Ordem
e Progresso, Bossle diz: “Se todos trabalhassem
honestamente, como faz o
povo do Vale do Rio dos Sinos, que por isto mesmo é apontando como uma região
de alto poder aquisitivo, certamente o Brasil não estaria em crise”.
Na contracapa
dessa mesma edição, de 04 de abril de 1964, a coluna
chamada “Gente Importante
– notícias que poderiam
ser manchetes” deixa clara a
posição dos diretores do
jornal em relação ao Golpe.
“Finalmente o ambiente de tensão que dominava o país foi superado às 13 horas desta quarta-feira,
quando o último foco de resistência, que se insurgiu contra o movimento de Minas
e São Paulo (e de todo
o país), anunciou sua rendição. O Brasil já
pode trabalhar livremente”.
No dia 10 de abril de 1964 o Jornal NH traz como manchete de
capa a seguinte
afirmação “Nenhuma prisão em
Novo Hamburgo”, fazendo referência ao
fato de que, em centenas de
cidades do Brasil, estavam ocorrendo prisões de líderes comunistas,
esquerdistas ou agitadores. Novamente o principal jornal da cidade expressa um desejo, um sentimento que busca disseminar pela cidade.
É fato notório que houve, em Novo Hamburgo,
interrogatórios e prisões nesse período. Alguns dos detidos eram pessoas
públicas cujas agruras foram testemunhadas por diversas pessoas. Sem consultar
nenhuma fonte de pesquisa e apenas buscando o registro da memória de pessoas que viveram aquele tempo podemos citar algumas pessoas que padeceram naqueles dias como: o ex-deputado
trabalhista Seno Ludwig, os senhores Julio Bossle, o Bolota, Osvaldo Mossman,
o professor Luis Osório de Albuquerque e os sindicalistas Antonio Bernardino, o
Rancherinho, Nelson de Sá e Guido
Endress.
Entre os casos mais conhecidos,
que pleiteia até hoje uma justa indenização reparatória, encontra-se Tiago
Lélis, um dos cadetes da base aérea de Canoas que sublevados haviam impedido o
bombardeio do Palácio Piratini durante a Legalidade, em 1961, que foi preso e punido junto com vários oficiais e cadetes após o
Golpe Civil Militar de 64. O próprio Nelson Eugenio Ritzel, que foi vereador e
depois prefeito além de oficial da Brigada Militar, relatava que sofreu pressões e intimidações.
Enfim, quase uma dezena de nomes sem necessidade de consulta a nenhuma fonte
documental que não seja a própria memória dos mais idosos e dos integrantes movimento sindical.
Em
1964 o presidente do sindicato dos comerciários de Novo Hamburgo, Guido Endress,
foi detido para interrogatório. Endress
era assumidamente um comunista e ao concluir seu mandato na entidade, em 1966,
decidiu não concorrer mais porque não havia garantias as liberdades individuais
(SAUL, 1988). O sindicato dos comerciários ficou acéfalo e uma junta
governativa da qual fazia parte Paulo Schüller, que depois seria vice-prefeito
da cidade, foi nomeada para dirigir a entidade.
Numa das entrevistas realizadas para
esse trabalho de pesquisa o vereador Carlos Gilberto Koch, o Betinho, que foi presidente do
sindicato dos sapateiros de Novo Hamburgo relata a história de uma chapa de
oposição que disputou e perdeu, por pequena margem de votos, a eleição para a direção do
sindicato dos sapateiros, em 1968. Essa chapa liderada pelo trabalhador Antonio
Bernardino de Souza, o Rancherinho, foi derrotada pela chapa de Orlando Müller
que assumiu a presidência do sindicato nesse ano e permaneceu até 1986. Poucos
dias após a eleição alguns integrantes da chapa derrotada foram detidos para
investigação. Dois deles, o Rancherinho e Nelson Gautério de Sá foram levados
para o DOPS onde permaneceram presos algum tempo. Afirmam que no momento da
prisão os policiais valeram-se para identificá-los de fotos do cadastro de
associados do próprio sindicato. No
depoimento do vereador Betinho ele narra outros episódios envolvendo
Rancherinho e suas diversas passagens pelas prisões do DOPS.
Devemos registrar ainda um militar respeitado e condecorado de nossa cidade da família Schirmer, morador de Hamburgo Velho e autoridade
militar na época, que em várias entrevistas demonstrava orgulho de ter efetuado várias
prisões em 1964 e posteriormente. Se a autoridade afirma que prendeu a história não pode registrar que não houve prisões.
De volta ao NH, na página
10 dessa edição de 10 de abril de 1964, foi
publicada a opinião
de diversos hamburguenses e todos
se disseram a favor dos militares. Uns declararam que
já era tempo de
ocorrer uma reação contra o
governo Goulart, outros disseram que eram a favor porque o terrorismo precisava
ser combatido e outros agradeceram a revolução sem perdas de vida, a ação dos
militares e diziam aguardar ansiosos pela chegada de um novo presidente. Nessas
entrevistas realizadas pelo jornal, uma semana depois do golpe, qual a
possibilidade de alguém manifestar-se contrário aos militares. E se tivesse
havido manifestação contrária qual a possibilidade do jornal publicá-la nos idos de 1964?
Gilnei Andrade
Acadêmico de História
1º de abril de 2014