I m A g E m

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O velho do espelho

"Por acaso, surpreendo-me no espelho:
quem é esse que me olha e é
tão mais velho do que eu?
Porém, seu rosto...é cada vez menos estranho...
Meu Deus,Meu Deus...Parece meu velho pai -
que já morreu"! (Mario Quintana)

P E S Q U I S A

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

QUANDO PRÉVIAS SÃO ANTIDEMOCRÁTICAS E ILEGÍTIMAS

O Partido dos Trabalhadores trouxe importantes contribuições para a cultura política brasileira, desenvolvendo mecanismos de democracia interna inexistentes nos partidos tradicionais, onde a relação entre as direções partidárias e os filiados dava-se de modo vertical. No PT, as relações sempre foram mais horizontais.   Mesmo, hoje, apesar do peso brutal da institucionalização e da fragilidade das instâncias de base, o PT mantém internamente uma vida regida pelo companheirismo e pelo debate político fraterno. Nesse sentido, permanece “um Partido de novo tipo”.


Por outro lado, não é uma agremiação dogmática: aprende com os erros. É o caso da utilização das Prévias para escolha de candidatos da legenda. De início, consideradas uma prova de democracia interna e respeito à vontade da militância.  Foi assim até 17 de março de 2002, dia em que Olívio Dutra perdeu o direito à reeleição para o governo do Rio Grande do Sul, numa disputa sem precedentes na história política do Brasil. Desde que a emenda constitucional que permite a reeleição foi aprovada, nenhum governante havia sido impedido de defender o seu governo.
 A vitória de Tarso Genro nas Prévias fez com que renunciasse à Prefeitura de Porto Alegre, após haver declarado na campanha eleitoral - de forma peremptória - que cumpriria o mandato. Tratou-se de uma “vitória de Pirro” pelo alto preço cobrado e por acarretar prejuízos irreparáveis, em nível municipal e estadual.   Tarso, em entrevista posterior, admitiu que se arrepende de ter sustado o direito de Olívio buscar a reeleição. Ao indivíduo, ficou o arrependimento político-moral. Ao coletivo, o amargo aprendizado de que o instrumento das Prévias não deve afrontar o direito de um prócer eleito prestar contas à sociedade e ser, por ela, avaliado.



                                                                  Ensinamentos
O predicado da reeleição está presente na consciência da população como um direito constitucional do governante. Quando, por maioria, o PT gaúcho posicionou-se contrário à possibilidade de Olívio disputar um novo quadriênio, transmitiu à opinião pública uma soberba e criou para si imensas dificuldades de pleitear a continuidade do Projeto Democrático-Popular, demanda contraditória aos olhos dos eleitores. Conceitualmente, o recurso às Prévias é democrático e legítimo se - e apenas se - o Partido almeja o Executivo de um Estado ou Município estando na oposição e tendo entre seus quadros mais de um aspirante ao cargo. Nessas circunstâncias, justifica-se.
Na hipótese de o PT estar no pleno exercício do governo, as Prévias deixam de ser um recurso democrático e legítimo para se tornar uma arena despolitizada de competição pelo poder. Pior: com uma indiferença arrogante em face dos dispositivos políticos legais para assegurar a marcha da democracia, a exemplo do instituto da reeleição já assimilado e metabolizado pelo eleitorado. Eis o que ensinou-nos a dramática e nefasta experiência, banhada em irracionalidade e vaidade, de 2002.
Pensar as Prévias sob uma ótica puramente internista, como se governadores ou prefeitos da sigla fossem meros prepostos do Partido e não representantes que devessem satisfação ao Povo, significa descontextualizá-las do solo histórico. As consequências são conhecidas, divisionismo, cicatrizes abertas, campanha eleitoral confusa e potencialmente condenada ao fracasso, independente do resultado do fratricídio. Ao erro conceitual, soma-se então o erro político com desdobramentos pelo período seguinte.

          
                                                     Situação em Novo Hamburgo
Novo Hamburgo ganhou dinamicidade com a eleição de Tarcísio Zimmermann para prefeito em 2008. O Projeto Democrático-Popular vencia o conservadorismo hegemônico e encetava um movimento de desenvolvimento econômico com participação social e inclusão dos segmentos empobrecidos através da expansão dos serviços e equipamentos públicos, como jamais acontecera. O PT fez bem.
Com Luís Lauermann, o Projeto teve continuação em termos programáticos, em todas (vale enfatizar, todas) as áreas de atuação da Prefeitura, embora a conjuntura político-econômica do País tenha se alterado e a do RS, idem. Afora a crise nacional, convivemos agora com o inoperante governo do peemedebista Sartori, que sucateia a Segurança Pública, retirando de circulação brigadianos, e, por igual, sucateia a Saúde, devendo só ao município a quantia de R$ 18 milhões até o momento. Os ataques à imagem do PT orquestrados pela mídia, com apoio de setores do Judiciário e do Ministério Público, criminalizam a esquerda e desconstroem o legado dos governos Lula e Dilma, pondo em foco o tema da corrupção. No Congresso, a substituição da temática social pela corrupção confere à direita neoliberal munição para colocar em xeque  conquistas despertadas ainda na Era Vargas e sedimentadas na Era PT. Nesse cipoal de manipulações, desenha-se a eleição de 2016.
Por equívocos tático-eleitorais, perdemos um combativo deputado federal na região, que muita falta faz na defesa dos interesses de NH em Brasília. Mas, não como compensação, elegemos um deputado estadual, o qual em depoimento na TV NH afirmou que não pleitearia um lugar nas próximas eleições municipais. Nada mais correto. Acabou de ser ungido nas urnas para um compromisso parlamentar entre 2014-2018. Noutras palavras, a esquerda enfraqueceu-se no Vale dos Sinos, sem que se possa argumentar os motivos de membros da DS terem dispersado seu entusiasmo.
                                                                          Cuidado com o andor
Se o Partido consentir na realização de Prévias, o que diremos aos cidadãos que elegeram Tarcísio para a Assembleia Legislativa? E aos que depositaram esperanças e votos em Lauermann? E aos beneficiários das políticas municipais revolucionárias, que vão da pauta educacional infantil à formatação recreativa do novo Parcão, passando pelo anexo construído no Hospital Municipal e pela ampliação da Guarda Municipal? Diremos que, com o atual mandatário, a escola administrativa ancorada no desenvolvimento econômico com participação social e inclusão dos segmentos excluídos nos progressos civilizatórios esvaiu-se? Mas isso não é verdade! Que pretendemos revigorar nosso Projeto com um redivivo “salvador da pátria”?  Mas esse messianismo desconsidera o trabalho de centenas de militantes na Administração! Que nosso programa político foi desvirtuado? Mas ele jamais foi abandonado pelo atual governo!   



O clima político no PT hamburguense é de gravíssima intensidade. E de horrenda irresponsabilidade. Escrevo para pedir comoderação racional, prudência ideológica e inteligência política aos que ignoram a governabilidade do PT em NH, em nome de uma alternativa extemporânea sem razoabilidade. Não ao surto! Não ao delírio!  
Devemos, todos e todas, cerrar fileiras em torno da candidatura à reeleição - de direito, reafirme-se - do prefeito Lauermann. A proposta de Prévias, havendo um correligionário com titularidade no exercício do mandato, acarreta uma desnecessária instabilidade e exaure nossas energias em uma luta de costas para os grandes desafios postos pela conjuntura nacional, despolitizando a política.
 Não sendo democrática ou legítima, a ideia de Prévias contra um governo petista inspira um movimento golpista. Será lido dessa maneira pela história, em desabono dos mentores, quaisquer que sejam as motivações subjetivas e suas contribuições pretéritas em prol de uma sociedade mais justa, solidária e socialista. Que nenhum combatente, amanhã, defronte o espelho, veja-se compelido a recitar os versos do poeta:
                                                   “Perdi-me dentro de mim
                                                  Porque eu era labirinto.
                                                  Agora quando me sinto,
                                                                                           É com saudade de mim”                                      

                                                                                                            Saudações

                                                   Luiz Marques

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